Identificados os genes relacionados com a tendência à monogamia.

Publicado no El País. Por Daniel Mediavilla

Link: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/01/10/ciencia/1547137598_576463.html?%3Fid_externo_rsoc=TW_BR_CM

Relações estáveis apareceram de forma independente em animais de todo tipo, de peixes a roedores, usando mecanismos muito parecidos.

Ser feliz com o mesmo parceiro por toda a vida é uma das aspirações da civilização, embora o relaxamento dos costumes e uma vida cada vez mais longa tornem improvável cumprir esse sonho. Mesmo se tratando de uma raridade entre os animais, a monogamia, ainda que numa versão imperfeita, existe na natureza, e sempre há quem busque na biologia uma justificativa para seus desejos. Por isso despertam tanto interesse os estudos que indagam sobre as origens desta forma de organizar as sociedades, humanas ou animais.

Nesta semana, a revista PNAS publicou um destes trabalhos. Nele se tenta compreender a transição para a monogamia, ao longo dos últimos 450 milhões de anos, em tipos de animais muito diferentes entre si. Os cientistas, liderados por Rebecca Young, da Universidade do Texas em Austin (EUA), analisaram cinco pares de espécies muito semelhantes, em que uma era monogâmica, e a outra não. Na equipe da monogamia, foram selecionados os ratos californianos, os arganazes-do-campo, um passarinho chamado petinha-ribeirinha, a rã venenosa Ranitomeya imitator e um peixe (xenotilápia) que vive no lago Tanganica, na África central. No lado polígamo ficaram o rato-veadeiro, o Microtus pennsylvanicus (primos infiéis dos arganazes-do-campo), o pássaro ferreirinha-comum, outra rã venenosa (a Oophaga pumilio) e outro peixe ciclídeo africano.

Apesar de serem espécies muito similares, em uma delas os machos e fêmeas formavam casais pelo menos durante a temporada de acasalamento, e compartilhavam em alguma medida as tarefas de alimentar e defender as crias. Estes animais continuavam sendo considerados monogâmicos mesmo que ocorressem eventuais infidelidades. Entre os polígamos, os machos tratavam de difundir seu esperma o máximo que fosse possível, sem se preocupar se as crias sobreviveriam ou não.

Surpreendentemente, tratando-se de animais tão diferentes como peixes e ratos, a análise do cérebro dos machos revelou que a expressão diferente de uma mesma série de genes estava associada a um indivíduo polígamo ou monogâmico. Os resultados parecem indicar que a monogamia surgiu de maneira independente muitas vezes ao longo da história devido à mudança de expressão de genes que estão presentes tanto em monogâmicos como em promíscuos. Os autores encontraram 24 genes cuja influência no cérebro tem relação particularmente intensa com o comportamento monogâmico.

Young admite não saber como a função destes genes se relaciona com as inclinações monogâmicas, mas se atreve a especular. “Sabemos que alguns destes 24 genes estão relacionados com a aprendizagem e a memória, e é possível que formar um vínculo de casal ou cuidar das crias exija uma mudança nos processos cognitivos que estão por trás do comportamento social”, explica. “Por exemplo: para criar um vínculo, um indivíduo precisa ser capaz de reconhecer seu parceiro e achar gratificante estar com ele”, acrescenta.

Uma das espécies empregadas neste estudo, o arganaz-do-campo, é uma das favoritas para tentar entender esse grupo minoritário de mamíferos monogâmicos. Ao contrário do que acontece com outros animais, que fogem da fêmea depois de culminar seu desejo, algo acontece no cérebro dos arganazes que gera um vínculo eterno. Esses casais cuidam de suas crias juntos e não parecem perder a paixão, apesar das prolongadas sessões de acasalamento. Pesquisadores como Larry Young, da Universidade Emory, descobriram que o segredo desta forma de vida se encontrava nos receptores da vasopressina e oxitocina que os arganazes têm nas regiões cerebrais que regulam a recompensa. Devido a mecanismos semelhantes aos que provocam os vícios, o cérebro destes animais associa uma sensação prazerosa à presença de um parceiro em particular. Mais adiante, experimentos com outras espécies de arganazes muito similares, porém promíscuos, mostraram que, ao administrar-lhes artificialmente oxitocina e vasopressina, eles também se tornavam monogâmicos.

Young comenta que o estudo é interessante “apesar de não sabermos de que maneira os genes identificados alteram o sistema relacionado à monogamia”. “O estudo não nos diz como esses genes atuam no cérebro para favorecer a monogamia, e é isso que se deveria averiguar no futuro”, continua. No entanto, salienta a importância de saber que existe um sistema biológico comum pelo qual muitas espécies podem acabar tendo um comportamento monogâmico. “É a primeira vez que vejo algo assim no que se refere a comportamento social”, acrescenta.

Para quem procura uma resposta clara sobre se nossa própria espécie é ou não monogâmica por natureza, este estudo não a tem. “Não analisamos essa pauta de expressão genética em humanos”, aponta Rebecca Young, em parte porque não se pode pegar o cérebro de um humano para estudá-lo como se faz com o resto dos animais. Mas, mesmo que isso ocorresse, não seria encontrada uma resposta única.

Até os arganazes-do-campo, com seu intenso apego ao parceiro, não renunciam a uma aventura sexual se a ocasião se apresentar. Na verdade, calcula-se que cerca de 10% das crias não são filhas do macho que cuida delas. E nem todos os arganazes são iguais. Como observou Larry Young, entre os arganazes, como entre os humanos, há indivíduos que jamais formam casais, e outros que não conseguem viver sozinhos. O pesquisador foi capaz inclusive de criar um sistema para diferenciar os solteiros empedernidos dos que se associam à sua cara-metade. Os primeiros tinham uma versão mais longa que os segundos do gene que produz o receptor da vasopressina, e eram mais sensíveis a esse hormônio que ajuda a criar vínculos.

Embora seja fácil imaginar o potencial comercial de uma aplicação que permitisse esse tipo de análise em humanos, mesmo com ela a certeza seria esquiva. O entorno também determina as decisões sobre como organizar a vida conjugal, tanto entre animais como entre humanos. “Se houver poucas fêmeas ou se forem difíceis de encontrar, pode ser [prático do ponto de vista evolutivo] ficar com ela depois de copular, porque o macho não sabe quando poderia encontrar outra fêmea”, observa Rebecca Young. “E o mesmo ocorre com a pressão dos predadores, ou se o entorno for muito imprevisível. Nesses casos, tanto o macho como a fêmea podem se beneficiar de permanecer juntos e cooperar no cuidado de suas crias.”

A pesquisadora acredita que um dos ensinamentos dos estudos sobre a monogamia que podemos aplicar à nossa vida é saber “que também nós, os humanos, somos o produto da evolução”. Compreender como surgiram os processos biológicos que regulam nosso comportamento seria como o saber histórico para um governante. Aplicar hoje receitas concretas do passado é estúpido, mas conhecer a história pode ajudar a interpretar melhor o presente.

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