O Pensar Primata

por Daniel Luis Dalberto

           Há cerca de 4 milhões de anos a densa floresta africana, por mudanças climáticas, passou a abrir e virar savana. Nesse novo cenário, os alimentos rarearam sobre as árvores e os primatas que melhor se adaptaram ao novo ambiente tiveram evidentes vantagens evolutivas.

            Umas das mais simbólicas e significativas mudanças de alguns primatas no novo ambiente foi o andar ereto, que consumia metade da energia que seria despendida para andar em quatro patas. Sobre duas pernas foi possível enxergar grandes felinos à distância considerável, de modo a poder fugir a tempo de não virar refeição de guepardo. Essa eficácia energética possivelmente forçou instintivamente o hábito.  Nesse aspecto atuou também a teoria Darwinista, fazendo com que os melhores adaptados ao meio tivessem vantagem na luta pela sobrevivência e, por consequência, gerassem  descendentes melhores adaptados.

            E assim, na África oriental, região da atual Etiópia, surgiu uma espécie que passou a andar ereta e a contemplar horizontes: o Australopithecus afarensis, espécie do fóssil hominídeo mais famoso e dos mais antigos do mundo, nossa tataravó “Lucy”. Na transição dos hominídeos contemporâneos de Lucy até o homo erectus de 500 mil anos atrás, nosso cérebro triplicou de tamanho, ampliando principalmente a área frontal. Tal aumento tornou necessárias mudanças alimentares. Continuamos onívoros, mas a preferência por carne foi aumentando. Não se sabe ao certo se foi a ingestão maior de proteína que desencadeou o desenvolvimento do cérebro ou o desenvolvimento do cérebro que nos fez buscar mais proteínas.

            Fato é que o homo sapiens surgiu a cerca de 500 mil anos e o que os cientistas chamam de homo sapiens sapiens, com todas as características de um homem moderno, vagava sobre a Terra há mais de 150 mil anos. Assim, nossos ancestrais africanos de 100 mil anos atrás, asseados, barbeados e de terno, poderiam hoje tranquilamente  entrar na bolsa de valores de Nova York sem chamar atenção.

            De quatro milhões de anos de história temos apenas aproximadamente 10 mil anos do que se denomina de vida civilizada, considerando-se como tal o momento em que largamos a vida em reduzidos grupos de caçadores-coletores nômades para viver em povoamentos fixos, baseados na agricultura e pecuária, quando foi possível desenvolver a escrita, as artes, filosofia e complexidade social com hierarquia e especialização.

            Essa eternidade de vida primitiva e o breve momento de vida social complexa, apesar das profundas transformações aparentes, nos aproxima mais dos animais do que pensamos ou gostaríamos. Há muito tempo observo e leio, não necessariamente nessa ordem, que nossas decisões e  atos, tanto diante de situações simples, como escolher um vinho ou contratar o serviço de um jardineiro, como diante de situações difíceis ou  relevantes para toda a vida, como decidir enfrentar uma quimioterapia, fazer uma cirurgia de risco ou casar com alguém que será pai ou mãe de seus filhos, parecem ser decisões racionais, baseadas em avaliações conscientes ou sentimentos sublimes. No entanto, naturalmente, nossas decisões, independente da  sua natureza ou importância, tem uma forte base instintiva inconsciente, que é o que acaba, na maioria dos casos, por definir os rumos da nossa vida privada e também dos grupos humanos politicamente considerados.

            Nossas relações de amizade,  disputas por status, dinheiro e poder parecem ser questões humanas. No entanto, nada mais animal e primitivo. Pesquisas científicas que tiveram impulso maior a partir da segunda metade do século XX, nas áreas da psicologia social evolutiva, antropologia, e, em caráter especial, os recentes e enormes avanços da neurologia no entendimento do funcionamento do cérebro humano, tem comprovado que nossos comportamentos seguem os mesmos princípios em todos os primatas, em quase todos os mamíferos e é muito mas comum que imaginamos em insetos,  pássaros e outros animais.

            Avanços científicos que possibilitaram desvendar o genoma humano a partir dos anos 90 demonstram que o genoma de um chimpanzé e de um humano moderno são 98,4% idênticos. Bonobos e chimpanzés diferem em apenas 0,7% de seu DNA e os seres humanos diferem de ambos em apenas 1,6% de seu genoma. O fisiologista Jared Diamond observou que o abismo entre nós e eles é consideravelmente menor do que a diferença de 2,9% entre os vireonídeos de olho vermelho e os vireonídeos de olho branco, duas espécies de de aves passeriformes que o leigo médio diria que são aves de mesma espécie.

            É claro que os 1,6% que nos diferenciam de nossos primos irmãos tem muita relevância. É por essa porção, basicamente o córtex pré-frontal do cérebro desenvolvido – área muito pequena ou que sequer existe nos outros animais – que, por exemplo, temos capacidade de pensamento abstrato e autoconsciência, que nos permite a consciência da morte ou resolver uma equação matemática. A religiosidade, o livre arbítrio consciente e a noção do bem e do mal, dentre outras coisas – que não são muitas – são nossas diferenças substanciais em relação aos demais animais.

            A comunicação, que pela linguagem é muito mais desenvolvida em humanos, pela ampla  capacidade de estabelecimentos de relações sociais complexas, não se pode dizer que é característica apenas de humanos. É que os animais tem seus eficientes sistemas de comunicação, em especial os símios (Hominidae – gorilas, orangotangos, chimpanzés, bonobos e seres humanos).  Além disso, nossa comunicação falada não exerce o papel que acreditamos. Numa conversa é comum ser mais decisivo e prestarmos maior atenção na entonação da voz, na postura corporal e nas expressões faciais do que naquilo que foi dito.

            Complexidade social não é característica exclusiva nossa. Basta estudar abelhas, cupins e formigas. Política também não. Alianças e grupos rivais, apoios para liderança em troca de favores são comuns entre macacos.  Já a escrita, é tão do primata humano que talvez por isso seja historicamente considerada o marco definidor de nossa evolução.

            A arte, surgida como símbolo de status, conforme demonstram os registros arqueológicos do Levante no Mediterrâneo, através de pilões decorados, estatuetas de pedra, tiaras e pulseiras, não são exclusividades nossas. O macho dos pássaros-do-cara-manchão da Nová Guiné é relativamente desprovido de atrativos, de modo que constrói grandes caramanchões, semelhantes a casas, para atrair as parceiras potenciais. Decora esses pavilhões com objets d´arts coloridos. Dentre esses objets destacam-se cristas enfeitadas, leques, plumas e tiras da cauda de um vizinho espetacular, a ave-do-paraíso. Para garantir que a fêmea visitante compreenda quão belo isso o torna, o macho segura um de seus objetos decorativos no bico, enquanto saltita, afofa a plumagem e bate as asas ao ritmo de seu próprio chamado.  As mulheres ricas costumavam comportar-se exatamente com vistas ao mesmo efeito quando usavam plumas de ave-do-paraíso em seus bonés de Páscoa.

            E as danças? Existe alguma diferença ontológica entre um maracatu ou tango e a dança do pássaro de lira soberba (Menura novaehollandia) que é capaz de cantar diferentes canções e fazer coreografias próprias para cada música para impressionar sua cara-metade? Até pouco tempo pensava-se que só seres humanos conseguiam coordenar passos de dança de acordo com a música que estão ouvindo.

            Enfim, fato inarredável é que nossa experiência primitiva de milhões de anos continua a moldar amplamente a conduta do mais urbano e mais evoluído dos cidadãos. Há estudo científico que demonstra a similaridade existente entre os costumes e práticas da “nata” da humanidade, as famílias mais tradicionais e ricas do mundo com o modo de ser dos animais. Então, “quanto mais o macaco sobe, tanto mais o rabo mostra”

            Muitos processos de percepção, memória, aprendizado e julgamento ocorrem no inconsciente, de modo automático, na parte do cérebro comum a todos os animais.

            A questão é termos a percepção da existência dessa força avassaladora que atua o tempo todo e, a partir disso, com nossa inteligência ímpar, definirmos onde e quando nos é favorável darmos vazão ao primata.

            Talvez seja aconselhável ser primata para praticar exercícios físicos, pois nosso corpo foi moldado por milênios para andar, nadar, correr, lutar, subir em árvores.  Sedentarismo e obesidade são frutos da modernidade. Também, parece ser bom continuar sendo  macaco no que se refere a participar de grupos sociais, dançar, brincar, ter contato físico diário, ornamentar a aparência, enfim, procedimentos animais que nos dão a sensação de pertencermos a grupos. Esses comportamentos, que vem de nossos primórdios, parecem evitar doenças mentais, como a depressão e o stress, tão comuns à nova selva de pedra em que nos metemos.

            Por outro lado há áreas da vida em que dar vazão aos instintos de nossa antiga e duradoura vida selvagem pode levar a resultados catastróficos. Nesse ponto nunca é demais lembrar que essas forças atuam de forma muito sútil, de maneira que poucos percebem sua decisiva atuação.  Contratar alguém, escolher representantes políticos, decidir com quem casar e interagir de maneira responsável na aldeia global dentre tanta outras, parecem ser situações em que seria sábio e aconselhável perceber e minimizar as forças instintivas e usar nosso desenvolvido córtex pré-frontal.

            Essa mescla de instintos, pensamentos reativos animais e razão abstrata, que faz nosso dia a dia, é o pensar primata.

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