Breves reflexões sobre aumento populacional e desequilíbrio ambiental.

por Daniel Luis Dalberto

Os aumentos e declínios da população mundial ao longo da história são decorrências da nossa capacidade tecnológica e social de preservar a vida e de nos alimentar. Cérebro grande e comunicação capacitaram os humanos a procurarem e compartilharem informações sobre plantas comestíveis e técnicas para matar animais de seu próprio tamanho e até maiores. A linguagem e a escrita possibilitaram transmitir importantes e vitais ideias às gerações posteriores, como a fabricação e utilização de ferramentas e o uso do fogo. Com a escrita as informações puderam ser passadas de uma geração para outra sem precisar esperar que o tão lento processo de mutações aleatórias e seleção natural as codificasse na sequência de DNA.

Conforme demonstra o quadro abaixo, a população humana tem crescido constantemente, salvo alguns contratempos como a peste negra, que dizimou mais ou menos um terço da população europeia no séc. XIV ou as epidemias na China do ano 100 ao ano 500 d.C., que reduziu sua população de 60 para 25 milhões.

No entanto, indubitavelmente, nos últimos 200 anos o crescimento populacional tornou-se exponencial. Atualmente a taxa de crescimento é de 1,9 por cento ao ano. Pode parecer pouco, mas significa que a população mundial dobra a cada 40 anos. E uma coisa é dobrar uma população de 50 ou 100 milhões de pessoas. Outra bem diversa é dobrar uma população de 7 bilhões de pessoas, ainda mais considerando que cada pessoa produz mais de 1kg de lixo e necessita de 110 litros de água por dia, segundo a ONU.

Veja-se, pelo demonstrativo abaixo, que levamos 70 mil anos para aumentar em 490.000 pessoas nossa população. Mesmo mais recentemente, do ano 1.000 a.C. a 1.000 d. C., portanto num período de dois mil anos, a população aumentou 280 milhões de pessoas. Hoje, esse aumento populacional que demandou dois mil anos requer apenas dois anos, pois a cada ano a população do planeta aumenta 140 milhões de pessoas.

Segundo Stephen Hawking, se o aumento da população e do consumo de eletricidade continuarem no ritmo atual, em 2.600 as pessoas ficarão ombro a ombro e o consumo de eletricidade deixará a Terra incandescente. (Hawking, Stephen. O universo numa casca de noz. 6. ed. Editora Arx).

É assombroso constatar que a menos de 100 mil anos éramos cerca de 10 mil pessoas – a população de uma pequena cidade – vagando em pequenos bandos, grupos familiares de 20 a 30 indivíduos pela savana africana, numa área com duas vezes o tamanho da França, e hoje somos mais de 7 bilhões de pessoas, todos descendentes daquele pequeno quantitativo, espalhados por todos os cantos do planeta.

Há apenas uma geração as evidências de mudanças climáticas eram tão incertas que era sensato duvidar de suas implicações e opor-se a mudanças em larga escala nos padrões de produção e consumo. Hoje, já são notórios os efeitos da mudança climática provocada pelo homem.

O recurso mais fundamental para a sobrevivência dos seres humanos enfrenta crise de abastecimento. Estima-se que 40% da população global viva hoje sob a situação de estresse hídrico. Essas pessoas habitam regiões onde a oferta anual é inferior a 1.700 metros cúbicos de água por habitante, limite mínimo considerado seguro pela ONU.

A Terra já passou por alguns períodos de grandes extinções de seres vivos. Agora, diversos pesquisadores sugerem que a Terra está passando por uma sexta extinção em massa. No entanto é a primeira vez que acontece por interferência do homem, sem que se tenha qualquer quadro seguro das consequências que advirão.  Isso está ocorrendo por causa da perda do habitat das espécies para construções, agricultura e pecuária, pela poluição da água, do solo (agrotóxicos) e do ar (fumaças de queimadas e combustão de carros e indústrias), mudanças climáticas, entre outras.

A história humana conheceu inúmeros triunfos, bem como períodos críticos em que nossa espécie esteve próxima da extinção. Hominídeos inteligentes e fortes como os neandertais e o homo floresiensis foram extintos, ao que tudo indica simplesmente por estarem no lugar errado e na hora errada, como por exemplo em regiões muito setentrionais quando houve mudança climática que ocasionou uma nova era glacial, ou uma grande seca somada a alguma epidemia.

Nesse momento ímpar da história humana, estamos diante de um período crítico e não se vê  preocupação de mesma estatura com os assustadores problemas do desequilíbrio climático, da poluição, da redução da água potável e áreas agricultáveis no planeta. Recentemente o Globo Repórter tratou do tema da perda do habitat dos animais silvestres pelos avanços das cidades e plantações no Brasil. Tal fenômeno ocorre no mundo todo, ameaçando os últimos redutos de vida selvagem do planeta, como a floresta tropical asiática e as savanas africanas.

James Lovelock, doutor honoris causa de uma dezena de universidades ao redor do mundo, autor da “teoria de Gaia”, segundo a qual a Terra se comporta como um só organismo vivo, preconiza uma nuclearização maciça da eletricidade mundial e sugere inclusive que uma parte de nossa alimentação seja produzida artificialmente, em fábricas, para minimizar a utilização do espaço natural. Ele diz que o momento atual é de uma “retirada sustentável”, mais do que um “desenvolvimento sustentável”. Para ilustrar a situação ele costuma usa a metáfora de Napoleão às portas de Moscou em 1812: “Acreditamos ter vencido todas as batalhas, mas a verdade é que avançamos demais, temos demasiadas bocas para alimentar e o inverno se aproxima…” Esse cientista é tão respeitado quanto polêmico. No entanto é preciso sempre termos em mente que essas questões são naturalmente polêmicas porque acabam contrariando fortes interesses econômicos de multinacionais e de países influentes.

A ordem do dia tem sido a busca do aumento da produção de energia e aumento do consumo, para que haja crescimento econômico e aumento dos lucros. É quase inexistente a real preocupação com a sustentabilidade a médio e longo prazo. “Retirada sustentável” então, é quase blasfêmia.

São grandes entraves ao enfrentamento responsável desses assuntos o fato de serem conduzidos isoladamente pelos países, que buscam freneticamente “índices positivos” na sua economia. A ONU, apesar das ótimas intenções, tem obtido avanços tímidos. Também, há as influências nas decisões das nações exercidas pelas grandes corporações internacionais, que visam basicamente ao lucro e ao estímulo o aumento do consumo.

Resta saber se e como a humanidade vai enfrentar essas questões urgentes antes que seja tarde para a busca do equilíbrio ambiental do planeta e de um modo vida sustentável a todos os habitantes da Terra. Temos essa imensa responsabilidade. Nossa omissão agora poderá ser condenada pelas gerações vindouras que terão de arcar com as consequências de nossa irresponsabilidade.

Seguem alguns dados publicados pela revista Science sobre o aumento da população mundial:

  1.  Desde que descemos das árvores nas savanas da África, levamos 5 milhões de anos para chegarmos à marca de um bilhão de pessoas, no ano de 1800.
  2. Cem anos mais tarde, já éramos 1,6 bilhão. Hoje somos 6,1 bilhões. Embora incertas, as previsões para 2050 são de 9 bilhões; e de 10 bilhões, para 2100.
  3. Foram necessários 130 anos (1800 a 1930) para irmos de 1 para 2 bilhões. Em apenas 60 anos (1950 a 2010) juntaram-se a nós mais 4 bilhões. O próximo bilhão será acrescido em apenas 13 anos.
  4. Entre 1950 e 2010, a expectativa de vida ao nascer na América Latina aumentou de 51 para 73 anos; de 38 para 55 na África; de 42 para 69 na Ásia; de 65 para 75 na Europa; e de 68 para 78 na América do Norte. O ganho médio foi de 20 anos.
  5. O crescimento populacional mais rápido na história da humanidade aconteceu entre 1965 e 1970. Desde então esse aumento caiu pela metade: a taxa de fertilidade global diminuiu de 5 filhos por mulher, em 1950, para a média de 2,5 em 2010. Nos países em desenvolvimento, a queda foi de 6 para 3  (sem contar a China, por causa da política de filho único).
  6. A queda esconde grandes diferenças regionais, no entanto. Enquanto a mulher europeia ou norte-americana tem menos de dois filhos, a africana que vive nos países situados abaixo do deserto do Saara ainda dá à luz a mais de cinco.
  7. Parte expressiva do crescimento populacional dos últimos 50 anos ocorreu graças ao aumento da expectativa de vida nos países em desenvolvimento, resultado dos avanços em saúde pública e do acesso à alimentação.
  8. Virtualmente, todo o crescimento que nos espera até 2050 será por conta dos países em desenvolvimento: quanto mais pobre, mais alta a natalidade. As taxas de crescimento serão mais altas na África, mas em números absolutos é na Ásia que o total de habitantes aumentará mais.
  9. Até 2050, a população da América Latina deverá ir de 590 para 750 milhões. A da África, irá de 1 bilhão para 2,2 bilhões.
  10. Nos países em desenvolvimento, o grande número de crianças e de jovens assegura aumento rápido da população. O envelhecimento dos que vivem nos países mais ricos aponta a direção oposta. Enquanto abaixo do Saara 43% dos habitantes têm menos de 15 anos e apenas 3% já completaram 65 anos, na Europa 16% estão na primeira condição e outros 16% na segunda.
  11. Em 1950, de cada três habitantes do planeta, dois viviam nos países mais pobres. Em 2050, a proporção entre pobres e ricos será de 6 : 1
  12. Em 2050, os países desenvolvidos não contarão com trabalhadores jovens em número suficiente para cobrir os gastos da previdência com seus conterrâneos mais idosos. Já naqueles em desenvolvimento faltarão empregos para os que chegarem à idade de trabalhar. O contingente de emigrantes internacionais crescerá.
  13. Nos países mais ricos, há 4 trabalhadores para cada aposentado; em 2050, esse número cairá para 2. Nos mais pobres, há 17 jovens trabalhadores para cada aposentado; proporção que em 2050 diminuirá para 9 : 1

Tabela do aumento populacional ao longo da história da humanidade:

Ano                            População Global
100.000 a.C.               10 mil
30.000 a.C.                 500 mil
6.000 a.C.                  10 milhões
4.000 a.C.                  30 milhões
1.000 a.C.                  120 milhões
500                         200 milhões
1.095                         300 milhões
1.455                         400 milhões
1.763                         800 milhões
1.913                         1 bilhão e 600 milhões
2.007                         6 bilhões e 500 milhões
2.013                         7 bilhões e 200 milhões

Fonte: Aydon, Cyril. A história do homem: uma introdução a 150 mil anos de história humana. Record. 2011.

 

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