Amazônia, o Brasil sem maquiagem

O Brasil possui dimensões continentais e realidades muito diversas. Nosso país, em cinco séculos, teve breves períodos de democracia e respeito às instituições. A tônica sempre foi ditaduras e golpes de estado. As elites governam para si, de costas para o povo, que em regra, historicamente, fica bovinamente alheio aos seus próprios destinos. A corrupção e a burocracia aqui aportaram com a chegada dos primeiros europeus e permanecem arraigadas no dia a dia do país, em todas as esferas (quem tiver interesse pelo tema, recomendo o livro A Coroa, a Cruz e a Espada, de Eduardo Bueno). A partir da chegada dos portugueses em 1500, as populações indígenas, que habitavam todo o país, de norte a sul, de leste a oeste, foram sucessivamente dizimadas por doenças e genocídios.

Amazônia

Essas realidades são perceptíveis e sabidas pela maioria dos  brasileiros. No entanto elas nos parecem sempre distantes no tempo e no espaço. Ou pertencem ao passado ou não são próximas. Quase sempre vem à tona em livros de história e em escândalos periódicos revelados por reportagens.

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No início do ano de 2014, numa das viradas que a vida costuma dar, fui morar e trabalhar na Amazônia, fronteira com a Bolívia, região que conhecia apenas por notícias e livros de história ou antropologia. Logo percebi um outro e desconhecido o Brasil, sem maquiagem, de realidades expostas e superlativo. A beleza natural e os monumentos culturais das centenas de etnias indígenas remetem a algum lugar de um passado que eu pensava desaparecido. Em contraste frontal e sem anteparos, a ganância e o egoísmo, que não conhecem limites morais ou legais, dão o tom do “desenvolvimento”. Somado a isso, vem o Estado, nas três esferas de governo, que frequentemente falha por ausência, ao não cumprir o papel que lhe toca e falha também quando aparece, constantemente envolvido em corrupção. É o Brasil ampliado no que tem de pior e de melhor, com as  entranhas à mostra.

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Em abril de 2014, num evento da Câmara Indígena do MPF, conheci a Thais Santi. Sua fala logo me chamou atenção, tanto pela dramaticidade dos fatos narrados como por eu estar vivendo situações muito parecidas. Na semana passada li sua entrevista Belo Monte: A Anatomia de um Etnocídio. Do início ao fim da leitura fiquei impressionado. Eu não conseguiria expressar tão bem minhas perplexidades, angústias e meu encantamento com o mundo amazônico com a mesma sensibilidade, profundidade e precisão. Não me contive e mesmo sendo alta madrugada escrevi para parabenizá-la. Dois dias após pude fazê-lo pessoalmente. Thais tem carisma e transmite serenidade. Logo você percebe que está diante de um pessoa sábia, sensível e com firmeza de princípios e atitudes. Sou grato a ela não apenas pela maravilhosa entrevista mas pela  atitude de vida, que nos dá esperança de um mundo melhor.

A entrevista, cujo link segue abaixo, é uma verdadeira aula de realidade amazônica e brasileira. Demonstra como as coisas funcionam no Norte do país, o modo como esse imenso patrimônio humano e ambiental do planeta estão sendo negligenciados e degradados. Essa entrevista é essencial para quem quer melhor compreender o Brasil e deseja mudanças no estado de coisas e no rumo sombrio que se apresenta. Em tempos em que grandes corporações cada vez mais detém poder capaz de fazer valer seus interesses, fazendo nações se curvarem, e em tempo de operação lava-jato, a entrevista nos remete à reflexão sobre as relações entre o público e o privado, sobre os limites que o poder político, mesmo devidamente legitimado nas urnas, deveria respeitar ou ser conduzido a fazê-lo pelos demais poderes e instituições. Nos faz pensar sobre o direito que a civilização hegemônica tem de impor seus valores àqueles que tem outras culturas e outros modos de viver, de ver a vida e o mundo.

A entrevista não é só sobre a Belo Monte, onde o impacto é acelerado e concentrado. A situação narrada espelha o que aconteceu nas usinas do Madeira (Jirau e Santo Antônio) e também sobre o que se avizinha nas usinas do Tapajós. Na verdade, as belos montes estão acontecendo de modo difuso e em câmera lenta por todo norte do país, sem que a nação reflita sobre a quem e para que serve esse modelo de desenvolvimento e sobre o legado que deixaremos às gerações futuras.

Leiam! É indispensável para quem tem preocupação com o seu país, com o próximo e com o futuro.

Link para a entrevista, clique aqui.

 Uma terra sempre furtada
pelos que vêm de longe e não sabem
possuí-la
terra cada vez menor
onde o céu se esvazia de caça e o rio é memória
de peixes espavoridos pela dinamiteterra molhada de sangue
e de cinza estercada de lágrimas
e lues
em que o seringueiro o castanheiro o garimpeiro o bugreiro colonial e moderno
celebram festins de extermínio

DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. Pranto geral dos índios. Carlos Drummond de Andrade. Poesia e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1988. p. 281.

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