A Pena de Morte

Por Paulo Sant´Ana (Zero Hora de 15/02/2015)

Andei pensando em escrever uma coluna sobre a pena de morte, queria aconselhar que ela fosse adotada. Como sabem, depois de muitos anos sendo contra a pena de morte, resolvi que ela é necessária.
Mas pensei e não escrevi aquela coluna. Afinal, já existe e corre solta no Brasil a pena de morte.
A pena de morte é aplicada aos milhares nas penitenciárias brasileiras, aqui no nosso Presídio Central e em todas as cadeias.
Funcionam nos presídios os conselhos de pena de morte constituídos pelos presos, que decidem que ela deve ser aplicada e a seguir a executam.
Essa pena de morte difusa que aplicam nos presídios é muito mais cruel do que se fosse institucionalizada, oficializada.
Porque ela é aplicada com punhaladas sobre o sentenciado. Três ou quatro presos seguram o condenado numa cela e um outro vai apunhalando-o até a morte, às vezes até esperam que sobrevenha a morte, deixam o condenado estremunhando num canto da cela e saem dali com seu dever cumprido.
Por sinal, qualquer pessoa que hoje é enviada a um presídio tem um destino certo: ou matará pela pena de morte ou será executada por ela, não tem outra saída.
Os julgamentos são sumários, às vezes presenciados coletivamente e outras vezes reservados.
Num ponto, a pena de morte aplicada nos presídios brasileiros é mais piedosa do que a aplicada nos Estados Unidos, por exemplo.
Na nossa pena de morte, não existe o corredor da morte, onde por anos os condenados ficam esperando aflitamente a execução.
Aqui, não. Julga-se o condenado num dia, condena-se-o e no mesmo dia é executado: não fica assim o condenado penando por anos sua execução, é tudo sumário, ninguém sofre por esperar.
No Brasil, um número infinitamente maior de pessoas é punido com a pena de morte do que nos lugares em que ela é oficializada. Mil vezes mais, há execuções todos os dias. E as execuções são mais cruentas.
Nos países em que é adotada a pena de morte, o condenado sofre apenas uma descarga elétrica ou é dependurado numa corda.
Aqui, não. São punhaladas doloridas, impiedosas e demoradas.
Nesse ponto, somos mais implacáveis.

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