A hipótese da savana. Ou como você pode sentir-se em casa.

Daniel Luis Dalberto.

Como escreveu um cientista, a evolução é uma coisa assombrosa, capaz de transformar um protoprimata minúsculo, de olhos esbugalhados, agarrado às árvores e esmagador de insetos, na Paola Oliveira (esta é por minha conta, na frase do cientista foi citada a Julia Roberts).

Se regredirmos 350 mil gerações humanas e pré-humanas acharemos nossa mãe comum com a dos chimpanzés, em cima de uma árvore, peluda e com jeito de macaco. Em 2013 a revista Nature publicou artigo de Cristopher Beard, do Museu de História Natural Carnegie, de Pittsburgh, sobre a descoberta, às margens do Rio Amarelo na China, de um minúsculo fóssil, muito bem preservado, de 55 milhões de anos. O fóssil, estudado exaustivamente por dez anos num dos laboratórios de imagem mais modernos do mundo, “literalmente pôs de pé o mamífero”, disse o paleoantropólogo Paul Tafforeau. Para tal feito, foram analisadas, com tecnologia de ponta, mais de mil características de 157 mamíferos, contando com a colaboração de diversos museus, de modo que não há controvérsia sobre o lugar que ocupa o protoprimata na árvore evolutiva: o Archicebus achilles é o ancestral dos társios (os lêmures do desenho Madagascar) e dos antropóides (macacos, símios e você).

Nos tempos dos nossos ancestrais em fase mais adiantada, “macaco começando a descer das árvores e andar ereto”, na Tanzânia, descobriu-se um registro primitivo pelo qual se conclui que dois adultos e uma criança caminhavam sobre cinza vulcânica amolecida por uma chuva recente. A seguir, suas pegadas foram cozidas pelo sol e, aos poucos, foram cobertas por camadas de terra. As pegadas, definitivamente humanas, tem pelo menos 3,6 milhões de anos.

Essas dezenas de milhões de anos na Ásia e mais alguns milhões de anos na África moldaram nossas emoções e solidificaram instintos presentes e atuantes. Importante sempre levar em conta os milhões de anos passados e o modo de vida pouco mutável nesse longo período, para constatar que muito rapidamente mudamos radicalmente a maneira de viver, em especial por termos nos tornado sedentários, vivermos em grupos numerosos, abrigados em casas e por termos considerável controle sobre a natureza, a fome e a sede. Grandes revoluções para quem “ontem” tinha a dificílima e árdua tarefa diária de procurar abrigo e comida, sempre cuidando para não virar alimento de algum animal mais forte, situação que nos levou diversas vezes à beira da extinção.

Em termos biológicos, o pensamento abstrato e a consciência surgiram recentemente. E, de modo algum, substituíram os sentimentos primitivos. Como exemplo disso, basta analisar a seguinte situação: No mundo atual, em que a maior parte da população vive em ambientes urbanos, são irrisórios, quase inexistentes, mortes ou graves problemas decorrentes de picadas de cobra ou de aranha. Já, acidentes letais com eletricidade são muito mais comuns. No entanto, as pessoas costumam se assustar ao se depararem de surpresa com cobras e aranhas, mesmo que seja com simples imagens desses animais. Já, ao se depararem com um fio elétrico desencapado ou ante uma imagem de um fio elétrico desencapado pelo chão, o “enfrentamento” costuma ser racional, sem sobressaltos. A conclusão disso é que o instinto de sobrevivência primitivo continua a agir, mesmo que para certas situações da vida moderna, quase não tenha mais utilidade.

Fato é que vivendo o último e longo período evolutivo, de centenas de milhares de anos na África, nos atuais Quênia, Tanzânia e Etiópia, em cenários de floresta e savana, procurando refúgio para não virar presa e ao mesmo tempo buscando visão panorâmica, de preferência avistando um curso d´água e bandos de caça, moldamos nosso gosto, senso estético e sensações em relação ao meio ambiente, que permanecem muito nítidas nos dias atuais.

Um biólogo da Universidade de Washington, Gordon Orians, desenvolveu uma teoria chamada “hipótese da savana”, que sustenta que certos sinais do habitat, que eram uma questão de vida e morte, sobrevivem até hoje como a base genética de nossa sensibilidade estética.

Nossa preferência se dava pela borda da savana – abrigados em árvores mas com visão da planície – de preferência, repleta de antílopes. Por isso, possivelmente nosso maior predador tenha sido o leopardo, que vive exatamente nesse ambiente de árvores à borda da savana.

A hipótese da savana diz que o melhor panorama possível inclui a promessa de alimento para o jantar: água correndo e mamíferos pastando bucolicamente. Também, flores em primeiro plano, não só por sua beleza, mas por sua promessa de frutos e mel.

Conforme expõe Richard Connif, em “História Natural dos Ricos, “qualquer um que já tenha contemplado o magnífico centro de mesa de um baile de caridade, ou das páginas de Town and Country, sabe que preferimos flores grandes e assimétricas, traços que se correlacionam com um teor maior de néctar. As flores e os rebanhos no pasto são um bom remédio, literalmente. Nos acalmam com a promessa de prosperidade futura”.

Roger Ulrich, pesquisador da Universidade do Texas A&M, mostrou que as pessoas que assistem a um vídeo tranquilizador sobre a natureza, depois de uma experiência estressante, exibem tensão muscular e batimentos cardíacos acentuadamente menores, passados apenas em cinco a sete minutos. Ele monitorou pacientes submetidos a uma cirurgia de vesícula, constatando que aqueles colocados em quartos com vista para as árvores precisaram de muito menos analgésicos do que os pacientes cujos quartos davam para uma parede de tijolos.

Conforme explica Richard Conniff, pesquisas e experimentos realizados por biólogos indicam que as pessoas de diferentes culturas reagem positivamente aos mesmos componentes da paisagem: pradarias, grupos dispersos de árvores frondosas, mudanças na elevação do terreno, trilhas sinuosas e clareiras bem iluminadas, de preferência parcialmente obscurecidas pela folhagem em primeiro plano. Essa é uma paisagem que convida à exploração, prometendo recursos e refúgio ao mesmo tempo. As mudanças de elevação – a visão das montanhas distantes, por exemplo – proporcionam um marco que ajuda o observador a se orientar no panorama, exatamente como os afloramentos rochosos que pontilham as vastas extensões do vale do Serengeti.

É interessante observar que os que podem escolher suas moradias, os mais ricos, desde os tempos de Herodes e dos castelos medievais, mantém o mesmo estilo. Gostam de construir suas casas no padrão “visão panorâmica e refúgio”: no alto de um morro; de frente para o mar; num penhasco diante de uma baía, apartamentos de cobertura com vista para o Central Park; para o Parcão em Porto Alegre ou mansões suspensas nos Jardins em São Paulo. Ou seja, visão sem ser visto, de preferência em locais arborizados mas abertos.

Quanto mais cara a casa, maior a probabilidade que inclua traços arquitetônicos que combinem a visão panorâmica e o refúgio, teoria elaborada pelo geográfo britânico Jay Appleton: sacadas, balaustradas, janelões, deques, cúpulas, torres, varandas, terraços com pérgulas cobertas de vinhas, treliças e mirantes. Richard Conniff estudou esses aspectos nas mansões dos milionários ingleses e constatou que as tendências de savanificação da aristocracia britânica remontam pelo menos ao tempo dos normandos.

O filho de Guilherme, o Conquistador, Henrique I, que reinou de 1100 a 1135, introduziu leões, leopardos e outros animais exóticos em seu parque murado de caça em Woodstock, na área que é hoje o palácio de Blenheim. Os novos projetos paisagísticos do magnífico local, incluem paisagem sublime de rusticidade cultivada, toda feita de campos de relva e bordas florestais sinuosas, com ovelhas pastando em seus vastos gramados, faias ornamentais, com ramagem baixa e farta esparramando-se como um eterno refúgio, para que nenhum Churchill seja incomodado pelos ônibus de turistas que passam pelo local. Estar nesses lugares, diz Conniff, “é como estar numa floresta à beira de uma clareira”

Assim, quando você for construir, comprar ou decorar sua casa, não esqueça da teoria da savana para potencializar seu conforto e tranquilidade, com a sensação gostosa de estar de fato sentido-se em casa.

One Comment on “A hipótese da savana. Ou como você pode sentir-se em casa.

  1. TAMBEM ACHO A PAOLA OLIVEIRA ,MAIS BONITA,QUE A JULIA ROBERTS
    Agora ,quanto a criação prefiro ficar com a hipotese da savana,ateh aparecer outra
    melhor! porque em criacionismo de deuses são mitos!

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