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Brasil, conhece-te a ti mesmo! Antes que seja tarde.

Por Daniel Luis Dalberto

A Amazônia, ainda sob o aspecto estritamente físico, conhecemo-la aos fragmentos. Mais de um século de perseverantes pesquisas e uma inestimável literatura, de numerosas monografias, mostram-no-la sob incontáveis aspectos parcelados. (…) A inteligência humana não suportaria, de improviso, o peso daquela realidade portentosa. Euclides da Cunha.

A maioria dos brasileiros não conhece a Amazônia. Vê e interpreta o país a partir de sua realidade, sua classe social e o meio onde vive. Os ensinos escolares ainda mantém visões muito distantes da grandiosidade e complexidade dos problemas do mundo amazônico. Isso, quando não perpetua velhos conceitos preconceituosos e estereotipados.

A importância da Amazônia extrapola os limites do país. Nas últimas duas décadas os cientistas tem constatado que o equilíbrio do clima e do regime de chuvas do planeta depende da preservação da maior floresta do mundo. As árvores desempenham importante papel na redução da poluição, com a absorção de CO2 da atmosfera e liberação de oxigênio. O problema da falta de água doce vai se agravando e se tornando um dos maiores desafios do século XXI (ver postagem neste blog “Breves reflexões sobre aumento populacional e desequilíbrio ambiental”), enquanto isso, um quinto da reserva de água potável do planeta está na Amazônia.

De biodiversidade riquíssima – uma em cada dez espécies conhecidas no mundo vive na Amazônia – os cientistas atestam que apenas 0,5% das espécies da flora amazônica foram detalhadamente estudadas em seu potencial medicinal. Enquanto isso, ano a ano, a exuberante floresta vai encolhendo, ocasionando o desaparecimento de espécies ainda nem conhecidas e pondo em risco muitas outras, como a onça-pintada, a ariranha, o peixe-boi, o sauim de coleira, a jaguatirica, o tamanduá-bandeira e tantas outras de uma longa lista.

A presença humana na Amazônia é muito antiga. A floresta intacta, como imaginam alguns, não existe há muito tempo. Quando os europeus aqui chegaram não só já havia indígenas em todo território amazônico – e no Brasil todo, é claro – como civilizações já tinham se sucedido na ocupação desse imenso território. Há vários achados arqueológicos que indicam a existência de aldeamentos estruturados e organizados, com populações de 3 a 5 mil pessoas, caso da região de Iranduba, no entroncamento dos rios Negro e Solimões, com 16 hectares de resquícios arquelógicos. São muitos os geoglifos que vem surgindo conforme a floresta vem sendo devastada.

Em Taima-Taima, sítio venezuelano, os indícios da presença humana tem quinze mil anos. O Sítio de Pedra Pintada, em Monte Alegre, no Pará, indica a presença de humanos nos cerrados e nas florestas amazônicas há 11.300 anos. Há quatro mil anos a mandioca foi domesticada na Amazônia ocidental, onde hoje é o estado de Rondônia. O milho, domesticado onde hoje é o México há 7 mil anos, foi levado diretamente às terras baixas da Amazônia em correntes migratórias indígenas, há pelo menos 3 mil anos. Os índios amazônicos cultivavam também o guaraná, cará, abóbora, batata-doce, amendoim, taoiba, cabaça. Diante desses fatos chega a ser pueril a concepção corriqueira de muitos que se mudaram para a Amazônia nas últimas décadas e dizem ser bravos pioneiros das terras amazônicas, como é comum ouvir-se no Norte do Brasil.

Nas últimas três décadas e especialmente nos últimos anos a expansão da fronteira agrícola e pecuária e os grandes projetos de hidrelétricas e mineração têm avançado sobre esse grandioso e rico bioma com a mesma irresponsabilidade, falta de reflexão, estudos, planejamento e desrespeito às leis que vimos desde 1.500. As populações tradicionais envolvidas, profunda e irreparavelmente afetadas, ou são invisíveis ou são tratadas como coisas ou algo menor em confronto com os interesses econômicos em jogo. Culturas milenares são ameaçadas estritamente sob a lógica do progresso econômico, não necessariamente revertido em benefício da sociedade brasileira, haja vista a extrema desigualdade social do país. Assim, o patrimônio de todos dá lugar ao desenvolvimento econômico de alguns (vide post “Amazônia, o Brasil sem maquiagem” neste blog).

É certo que a Internet e as redes sociais, ainda que timidamente, têm mudado um pouco esse quadro, dando aos brasileiros maior consciência de seu país. As mudanças climáticas, que têm alterado e ameaçado a qualidade de vida em todo o país, com a crise hídrica, secas e tempestades, deram aos brasileiros uma noção mais aproximada de que estamos todos conectados e que o que acontece na Amazônia pode ter consequências em São Paulo ou outros lugares do país.

A civilização europeia ocidental certamente tem muito a ensinar e oferecer aos índios. São inegáveis os benefícios trazidos pelas ciências, tecnologia e medicina. No entanto, os índios, em sua diversidade, visões e modos de vida próprios, também tem muito a legar justamente sobre o que está em crise em nossa sociedade, que é o excesso de individualismo e falta de senso coletivo. Também, sobre sua cultura e profundo conhecimento das plantas e animais da floresta, bem como sobre integrar-se ao meio ambiente sem destruí-lo. Afinal, o cientificismo e a razão iluminista nos trouxeram progressos materiais inegáveis e elevaram a humanidade a um novo patamar em curto espaço de tempo, mas nos tem afastado do senso de solidariedade e da espiritualidade.

A entrevista abaixo desmistifica visões coloniais e preconceitos ainda muito comuns em relação aos índios. É curioso o fato de as pessoas verem um índio usando telefone celular ou vendo televisão e dizerem: “Ora, mas esse não é mais índio. Usa celular!” No entanto, ninguém faz esse mesmo raciocínio quando veem, por exemplo, um japonês ou um italiano fazendo essas mesmas coisas, sendo que seus antepassados recentes também não usavam aparelho celular ou viam televisão. Não há comentários semelhantes dizendo: “ora, mas esse não é mais italiano ou japonês!” O fato é que as culturas, todas, são naturalmente dinâmicas e estão sempre incorporando novas práticas, sem, com isso e por isso, perderem suas identidades.

Sônia Guajajara: O reconhecimento e respeito pelos povos indígenas vão além da garantia por cidadania

Juliana Pinto | IPAM

Sônia Guajajara, coordenadora executiva da APIB. Foto: Sara Gaia

Os povos indígenas do Brasil são muitos. Eles compõem 305 etnias, falam 274 línguas e totalizam aproximadamente 897 mil indivíduos, segundo o IBGE (2010). Infelizmente em pleno século 21 eles ainda sofrem desrespeitos e violações muitas vezes relacionados com a imagem Brasil-colônia. Sônia Guajajara, coordenadora executiva da APIB e liderança indígena nacional, lembra que os tempos mudaram e consequentemente a importância do papel dos povos indígenas nos espaços de debate e tomada de decisão. Aceitar e respeitar estas 305 etnias como cidadãos brasileiros é fundamental, pois, além de assegurar seus direitos, que igualmente implica na demarcação dos territórios indígenas, resulta também na garantia da preservação e proteção do meio ambiente.

Clima e Floresta: Qual é o papel do indígena na sociedade brasileira?

Sônia Guajajara: Acredito que primeiro é contribuir para o Brasil permanecer rico em biodiversidade, em culturas e tradições. Hoje temos no país 305 populações indígenas diferentes e essa informação é desconhecida pela sociedade brasileira. O brasileiro trata os povos indígenas como um povo único: os índios. Mas não somos um povo só. Cada população indígena é diferente, assim como os nossos idiomas, costumes e tradições. A outra coisa é o próprio papel que nós indígenas exercemos na preservação do ambiente.

CF: Existem diferenças na maneira da preservação do meio ambiente entre as comunidades indígenas?

SG: A preservação entre as populações indígenas é muito semelhante, porque possuímos um conhecimento e uma relação milenar com o meio ambiente. Temos um jeito natural de preservar. É uma coisa própria do modo de vida dos povos indígenas. Independente da etnia, quando comparamos as terras indígenas com as demais terras públicas, percebe-se claramente que as terras indígenas são mais preservadas. A questão cultural, linguística e as tradições mudam, mas a questão da preservação é sempre a mesma em todos os povos, que é cuidar, preservar e ter o ambiente saudável para a sua continuidade física e cultural.

CF: O que é preciso ser feito para que o indígena ganhe espaço e respeito na sociedade brasileira, além do dia Nacional do Índio, o 19 de abril?

SG: O Brasil, apesar de ser esse país rico e alegre, é ainda um país muito preconceituoso. Nos últimos anos isso parece estar se mostrando cada vez mais forte não só contra os indígenas, mas também contra os negros e nas orientações sexuais. Todo esse preconceito dificulta muito para a sociedade abrir os olhos e perceber a presença indígena no cotidiano brasileiro. A maioria vê o índio como aquele do passado, na aldeia, nu, sempre pintado, com penas na cabeça. Apesar de estes detalhes serem importantes para a nossa identidade se manter viva, as mudanças aconteceram com o tempo e com a globalização. Não tem como nos mantermos isolados das informações. Precisamos estar inseridos na sociedade, participando de tudo e principalmente nos espaços de decisão. Já conseguimos avançar muito, estamos nos mostrando, participando, discutindo e trazendo a nossa voz. Acredito que um passo positivo para o nosso reconhecimento é na educação. As escolas deveriam desmistificar a figura indígena com as crianças e os jovens. Mostrar para eles que não somos mais aquelas populações da época da colonização em 1500, que permanecia na mata, apenas caçando e pescando. Atualmente continuamos lutando pelo nosso direito territorial, pela nossa sobrevivência física e cultural, como uma forma de manter a nossa identidade e nosso modo de vida. Estamos cada vez mais inseridos em todos os espaços, mas ainda falta muito. É nosso direito e dever usufruir como cidadão do que está disponível, como ensinos superiores, ferramentas tecnológicas, políticas públicas, etc. Porém, nunca esquecendo quem somos e de onde viemos, e para isso temos que partir da garantia dos nossos territórios.

CF: Por que os territórios indígenas são importantes para todos?

SG: Os territórios indígenas é um tema que ganhou muita visibilidade nos últimos cinco anos. Aumentou muito o interesse pelas nossas terras para a questão do desenvolvimento econômico e para o crescimento do país. O Brasil já não dispõe mais de tantas terras públicas e áreas livres. Ultimamente toda terra está se transformando em propriedade privada. Os espaços que os grandes produtores e os donos do agronegócio estão interessados são as terras indígenas. Temos uma legislação que protege e garante o direito territorial aos povos e comunidades tradicionais, porém estão tentando exatamente flexibilizar essa legislação para facilitar a entrada nas nossas terras. Veja por exemplo a PEC 215. Entretanto, além de não terem nos consultado para esta alteração na legislação, eles se esqueceram de toda a importância social, econômica e ambiental que as terras indígenas exercem no país. Para nós é muito natural dizer, que as terras indígenas são importantes não só para os índios, mas para todo mundo. Nossos territórios são importantes para o equilíbrio climático, na contenção do aquecimento global, na garantia de ambiente saudável, na provisão das chuvas para o sudeste e outras regiões brasileiras.

CF: Dentro dos territórios indígenas já é possível sentir os impactos das mudanças climáticas?

SG: Temos uma relação e percepção direta no que ainda está preservado e já foi destruído pelas mudanças climáticas. As partes que ainda possuem florestas exercem diversas funções, que vão desde garantir nosso sustento ao protegerem o solo, como também levam vento e chuva para as outras regiões. Uma das causas mais graves que provocam as mudanças no clima é o desmatamento. Essa destruição do meio ambiente diminui a água e consequentemente as chuvas. São poucos os que conseguem perceber a relação da natureza com a falta d’água e do meio ambiente com as catástrofes ambientais. Somos mais vulneráveis aos efeitos climáticos. Muita coisa já acontece dentro das terras indígenas. Como a incerteza dos ciclos da chuva e as estações desreguladas. Isso atrapalha as plantações e em consequência a nossa sobrevivência, pois vivemos da terra. Altera também os nossos costumes tradicionais. Algumas atividades culturais eram realizadas em determinado período por conta de um alimento ou dentro da água. Isso hoje já não ocorre com a mesma periodicidade, às vezes porque a plantação não vingou ou porque o rio secou. As mudanças climáticas não é um problema somente para as populações indígenas, é uma preocupação mundial. Os benefícios do meio ambiente quando chegam para um, chegam para todos, não só para os indígenas. Se for beneficiar ou prejudicar, beneficiará e prejudicará todos. Então eu acredito que precisamos ainda trabalhar muito na sensibilização da sociedade como um todo para que apoiem o processo de demarcação das terras indígenas, porque quando temos uma terra demarcada e protegida, estamos preservando um bem que é para todo mundo.

CF: O que as ONGs tem feito para ajudar na inserção dos povos indígenas nestes debates?

SG: Temos muitos parceiros cooperando na defesa dos direitos, na preservação do modo de vida e da cultura. Muitas ONGs ajudam e incentivam os indígenas a participarem em várias esferas. Porém, também existem as organizações que ainda preferem que os indígenas permaneçam na floresta, sem modificar a forma que vivem, sem conhecer, sem participar muito “aqui fora”. Eu acredito que precisamos ter a oportunidade de vir, participar, conhecer, e o mais importante voltar às nossas comunidades para repassar o conteúdo e as informações adquiridas aos nossos parentes. Temos conseguido nos envolver muito com a ajuda dos nossos parceiros nas esferas nacionais e internacionais, repassando a nossa mensagem.

CF: Como é essa relação com o IPAM?

SG: Eu me relaciono com o IPAM há mais ou menos cinco anos. Atualmente minha articulação é com a APIB e antigamente era pela COIAB. O IPAM já tem um longo histórico de trabalhos com a COIAB e agora com a APIB. Para as causas indígenas esta organização é extremamente importante. Conseguimos o seu apoio tanto para nos capacitarmos nas questões sobre as mudanças climáticas nos territórios indígenas e para posteriormente levarmos a nossa voz nos eventos internacionais como a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (COP). Esse incentivo de debater nos eventos internacionais e dar visibilidade aos povos indígenas é fundamental para conseguirmos alcançar e manter os nossos direitos. Hoje mesmo uma pessoa me disse “Ah, você estava em Paris no ano passado”, como se isso fosse algo impossível um indígena sair do Brasil para participar de algo em outro país, enquanto pra gente é uma coisa natural, espontânea. Eu acho que é isso que as ONGs contribuem, como é a relação com o IPAM, ajudar na nossa luta, viabilizar a nossa presença nos espaços de debate e de tomada de decisão e o mais importante, nos ajudar a passar a imagem do indígena como um cidadão brasileiro digno de direitos e respeito.

agrotoxico

O “alarmante” uso de agrotóxicos no Brasil atinge 70% dos alimentos.

Marina Rossi

Imagine tomar um galão de cinco litros de veneno a cada ano. É o que os brasileiros consomem de agrotóxico anualmente, segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA). “Os dados sobre o consumo dessas substâncias no Brasil são alarmantes”, disse Karen Friedrich, da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Desde 2008, o Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking mundial de consumo de agrotóxicos. Enquanto nos últimos dez anos o mercado mundial desse setor cresceu 93%, no Brasil, esse crescimento foi de 190%, de acordo com dados divulgados pela Anvisa. Segundo o Dossiê Abrasco – um alerta sobre o impacto dos agrotóxicos na saúde, publicado nesta terça-feira no Rio de Janeiro, 70% dos alimentos in natura consumidos no país estão contaminados por agrotóxicos. Desses, segundo a Anvisa, 28% contêm substâncias não autorizadas. “Isso sem contar os alimentos processados, que são feitos a partir de grãos geneticamente modificados e cheios dessas substâncias químicas”, diz Friederich. De acordo com ela, mais da metade dos agrotóxicos usados no Brasil hoje são banidos em países da União Europeia e nos Estados Unidos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), entre os países em desenvolvimento, os agrotóxicos causam, anualmente, 70.000 intoxicações agudas e crônicas.
O uso dessas substâncias está altamente associado à incidência de doenças como o câncer e outras genéticas. Por causa da gravidade do problema, na semana passada, o Ministério Público Federal enviou um documento à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recomendando que seja concluída com urgência a reavaliação toxicológica de uma substância chamada glifosato e que a agência determine o banimento desse herbicida no mercado nacional. Essa mesma substância acaba de ser associada ao surgimento de câncer, segundo um estudo publicado em março deste ano pela Organização Mundial da Saúde (OMS) juntamente com o Inca e a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC). Ao mesmo tempo, o glifosato foi o ingrediente mais vendido em 2013 segundo os dados mais recentes do Ibama.
Em resposta ao pedido do Ministério Público, a Anvisa diz que em 2008 já havia determinado a reavaliação do uso do glifosato e outras substâncias, impulsionada pelas pesquisas que as associam à incidência de doenças na população. Em nota, a Agência diz que naquele ano firmou um contrato com a Fiocruz para elaborar as notas técnicas para cada um dos ingredientes – 14, no total. A partir dessas notas, foi estabelecida uma ordem de análise dos ingredientes “de acordo com os indícios de toxicidade apontados pela Fiocruz e conforme a capacidade técnica da Agência”.
Enquanto isso, essas substâncias são vendidas e usadas livremente no Brasil. O 24D, por exemplo, é um dos ingredientes do chamado ‘agente laranja’, que foi pulverizado pelos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã, e que deixou sequelas em uma geração de crianças que, ainda hoje, nascem deformadas, sem braços e pernas. Essa substância tem seu uso permitido no Brasil e está sendo reavaliada pela Anvisa desde 2006. Ou seja, faz quase dez anos que ela está em análise inconclusa.
O que a Justiça pede é que os ingredientes que estejam sendo revistos tenham o seu uso e comércio suspensos até que os estudos sejam concluídos. Mas, embora comprovadamente perigosos, existe uma barreira forte que protege a suspensão do uso dessas substâncias no Brasil. “O apelo econômico no Brasil é muito grande”, diz Friedrich. “Há uma pressão muito forte da bancada ruralista e da indústria do agrotóxico também”. Fontes no Ministério Público disseram ao EL PAÍS que, ainda que a Justiça determine a suspensão desses ingredientes, eles só saem de circulação depois que os fabricantes esgotam os estoques.
O consumo de alimentos orgânicos, que não levam nenhum tipo de agrotóxico em seu cultivo, é uma alternativa para se proteger dos agrotóxicos. Porém, ela ainda é pouco acessível à maioria da população. Em média 30% mais caros, esses alimentos não estão disponíveis em todos os lugares. O produtor Rodrigo Valdetaro Bittencourt explica que o maior obstáculo para o cultivo desses alimentos livres de agrotóxicos é encontrar mão de obra. “Não é preciso nenhum maquinário ou acessórios caros, mas é preciso ter gente para mexer na terra”, diz. Ele cultiva verduras e legumes em seu sítio em Juquitiba, na Grande São Paulo, com o irmão e a mãe. Segundo ele, vale a pena gastar um pouco mais para comprar esses alimentos, principalmente pelos ganhos em saúde. “O que você gasta a mais com os orgânicos, você vai economizar na farmácia em remédios”, diz. Para ele, porém, a popularização desses alimentos e a acessibilidade ainda levarão uns 20 anos de briga para se equiparar aos produtos produzidos hoje com agrotóxico.
Bittencourt vende seus alimentos ao lado de outras três barracas no Largo da Batata, zona oeste da cidade, às quartas-feiras. Para participar desse tipo de feira, é preciso se inscrever junto à Prefeitura e apresentar todas as documentações necessárias que comprovem a origem do produto. Segundo Bittencourt, há uma fiscalização, que esporadicamente aparece nas feiras para se certificar que os produtos de fato são orgânicos.
No mês passado, o prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT) sancionou uma lei que obriga o uso de produtos orgânicos ou de base agroecológica nas merendas das escolas municipais. A nova norma, porém, não tem prazo para ser implementada e nem determina o percentual que esses alimentos devem obedecer.
Segundo um levantamento da Anvisa, o pimentão é a hortaliça mais contaminada por agrotóxicos (segundo a Agência, 92% pimentões estudados estavam contaminados), seguido do morango (63%), pepino (57%), alface (54%), cenoura (49%), abacaxi (32%), beterraba (32%) e mamão (30%). Há diversos estudos que apontam que alguma substâncias estão presentes, inclusive, no leite materno.
No ano passado, a pesquisadora norte-americana Stephanie Seneff, do MIT, apresentou um estudo anunciando mais um dado alarmante: “Até 2025, uma a cada duas crianças nascerá autista”, disse ela, que fez uma correlação entre o Roundup, o herbicida da Monsanto feito a base do glifosato, e o estímulo do surgimento de casos de autismo. O glifosato, além de ser usado como herbicida no Brasil, também é uma das substâncias oficialmente usadas pelo governo norte-americano no Plano Colômbia, que há 15 anos destina-se a combater as plantações de coca e maconha na Colômbia.
Em nota, a Anvisa afirmou que aguarda a publicação oficial do estudo realizado pela OMS, Inca e IARC para “determinar a ordem prioritária de análise dos agrotóxicos que demandarem a reavaliação”.

Os alimentos mais contaminados pelos agrotóxicos
Em 2010, o mercado brasileiro de agrotóxicos movimentou 7,3 bilhões de dólares e representou 19% do mercado global. Soja, milho, algodão e cana-de-açúcar representam 80% do total de vendas nesse setor.
Segundo a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), essa é a lista da agricultura que mais consome agrotóxicos:
Soja (40%)
Milho (15%)
Cana-de-açúcar e algodão (10% cada)
Cítricos (7%)
Café, trigo e arroz (3 cada%)
Feijão (2%)
Batata (1%)
Tomate (1%)
Maçã (0,5%)
Banana (0,2%)
As demais culturas consumiram 3,3% do total de 852,8 milhões de litros de agrotóxicos pulverizados nas lavouras brasileiras em 2011.

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Cocaína.

A heroína faz de você um zumbi. A maconha relaxa e deixa seus olhos injetados de sangue. A cocaína é outra história, é a droga performática. Com ela você pode fazer qualquer coisa. Antes que ela faça seu coração explodir, antes que seu cérebro vire mingau, antes que seu pau amoleça para sempre, antes que o estômago se torne uma chaga purulenta, antes de tudo isso você trabalhará mais, se divertirá mais, trepará mais. A cocaína é a resposta exaustiva à necessidade mais imperativa da época atual: a falta de limites. Com a cocaína você viverá mais intensamente. Se comunicará mais, primeiro mandamento da vida moderna. Quanto mais você se comunica mais é feliz, quanto mais se comunica mais goza a vida, quanto mais se comunica mais comercia sentimentos, mais vende, vende mais qualquer coisa. Mais. Sempre mais.

No entanto, nosso corpo não funciona com os “mais”. A certa altura a excitação vai se aplacar e o físico voltará a um estado de tranquilidade. E é aí que intervém a cocaína. É um trabalho de precisão, porque deve se infiltrar entre as células, no ponto exato que as divide – a fissura sináptica -, e bloquear um mecanismo fundamental.

É como quando você joga tênis e acaba de meter no seu adversário uma bola irrebatível rente à linha: nesse momento o tempo se congela e tudo é perfeito, a paz e a força convivem em você em total equilíbrio. É uma sensação de bem-estar desencadeada por uma gota microscópica de uma substância, o neurotransmissor, pingada bem na fissura sináptica. A célula se excitou e contagiou aquela ao lado, e assim por diante, até envolver milhões delas num formigamento quase instantâneo. É a vida que acende.

Agora você volta para a linha de fundo, e assim também faz seu adversário, estão prontos para disputar outro ponto, a sensação de antes é uma reverberação distante. O neurotransmissor foi reabsorvido, os impulsos entre uma célula e a outra foram bloqueados. É aqui que aparece a cocaína. Ela inibe a reabsorção dos neurotransmissores, e suas células estão sempre acesas, como se fosse Natal o ano inteiro, com as luzinhas cintilando 365 dias sem parar.

Dopamina e noradrenalina: assim se chamam os neurotransmissores que a cocaína ama loucamente e que não gostaria nunca de perder. A primeira é a que te permite ser o centro da festa, porque agora tudo é mais fácil. É mais fácil falar, é mais fácil paquerar, é mais fácil ser simpático, é mais fácil sentir-se querido. A segunda, a noradrenalina, tem uma ação mais sub-reptícia. Em torno de você tudo se amplificou. Cai um copo? Você ouve antes dos outros. Uma janela que bate? Você percebe primeiro. Te chamam? Você vira antes de terem pronunciado por completo seu nome. É assim que funciona a noradrenalina. Aumenta seu estado de vigilância e de alerta, o ambiente a seu redor se enche de perigos e de ameaças, se torna hostil, você sempre espera sofrer um dano ou um ataque. As respostas de medo-alarme são aceleradas, as reações imediatas, sem filtro. É a paranoia, sua porta escancarada.

A cocaína é a gasolina dos corpos. É a vida elevado ao cubo. Antes de te consumir, de te destruir. A vida a mais com que você parece ter se presenteado, você pagará com juros de agiota. Mais tarde, quem sabe. Porém mais tarde não conta nada. Tudo é aqui e agora.

Saviano, Roberto. Zero zero zero. 1ª ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2014 – pág.43-44.

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Mulher, homem.

Luis Fernando Veríssimo.

O feto começa feminino, depois é que são acrescentados os atributos, digamos assim, masculinos. Por isso os homens tem mamilos, e não sabem o que fazer com eles. Quer dizer: a história biológica do ser humano é exatamente inversa à do seu principal mito de criação, em que a mulher sai de dentro do homem. O mito é não apenas um desmentido do fato, e do feto, como uma apropriação masculina de um feito feminino. Ao pôr o primeiro homem para dormir, retirar sua costela e produzir a primeira mulher, Deus fez uma paródia de parto. E com anestesia, um detalhe que não deve escapar às mulheres, depois condenadas por Ele a padecer de todas as dores da procriação enquanto o homem, responsável por tudo, só é condenado a folhear Caras antigas na sala de espera.

Todos os mitos, desde os inaugurais, como toda a cultura humana, têm sido masculinos, num contraponto ressentido com a história biológica, verdadeira, feminina da espécie. Freud, que sendo homem, era suspeito, inventou que a mulher tem inveja do pênis. O homem é que não aguenta a ideia de não estar aparelhado, como a mulher, para se integrar aos grandes dramas reincidentes da natureza, ovulando de acordo com as fases lunares, gestando, parindo e amamentando filhos, e identificando-se com os ciclos de fertilidade da Terra, sentindo as variações de clima e de idade com mais intensidade do que os homens, e ainda encontrando tempo para ir ao cabeleireiro, almoçar com as amigas e dirigir empresas. Enquanto ele fica de lado, como um penetra, esperando em vão que a vida o chame para as suas graves verdades, e obrigado a inventar uma história de fantasia paralela à história biológica.

A civilização se explica como uma angústia de potência do homem. O que Freud quis dizer era que a mulher invejava o poder falocrata, ou justamente o que o homem inventou para compensar o fato de não ser mulher. Outro mito usurpador.

Em tempo: esta manifestação não é encomendada e não, não pretendo mudar de sexo. É que sempre fui simpatizante.

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Gengis Khan.

Daniel Luis Dalberto

Não há prazer maior que vencer seus inimigos e persegui-los. Tirar suas riquezas e ver seus entes queridos irromper em lágrimas. Montar seus cavalos e ultrajar as suas mulheres e filhas”. Gengis Khan.

O verdadeiro nome de Gengis Khan era Temudjin. Nasceu perto do lago Baikal, na Ásia Central, por volta de 1160.

A ascensão ao poder de Temudjin começou quando recebeu sob seu comando um exército de cerca de 20 mil homens, subvencionado por tribos vizinhas com o propósito de resolver uma disputa entre clãs rivais. Por volta de 1206, quando estava com cerca de 40 a 50 anos de idade, ele superou todos os possíveis rivais e foi aclamado como Chingiz Khan (monarca universal).

Os mongóis eram os cavaleiros mais exímios que o mundo já conhecera. A partir do momento que aprendiam a andar, passavam a vida sobre uma sela. Eram ferozmente competitivos e mantinham prontidão para o combate com provas e jogos que eram disputados continuamente.

Durante os 3 mil anos em que esses nômades dominaram a estepe seu caráter belicoso e rapidez de deslocamento infundiram terror do Danúbio ao Yangtze. Equipavam-se com arcos poderosos e foram os inventores do estribo, que lhes dava uma capacidade fenomenal de disparar flechas com precisão cavalgando em alta velocidade. Para atacar cidades muradas, usavam escadas, catapultas pesadas, bestas gigantes, cortinas de fumaça e óleo quente. Sua mais importante arma era a surpresa, dada por mobilidade enorme. A tática blitkrieg que deu enormes vantagens ao exército alemão na segunda guerra tem enorme semelhança com os deslocamentos dos exércitos de Gengis Khan.

Gengis Khan criou a máquina de guerra mais poderosa que o mundo já vira. Unindo coragem, crueldade e um toque de genialidade, conquistou o maior território dominado por um governante até então. Seus métodos continuaram a ser estudados nas academias militares setecentos anos após sua morte. Dois fenomenais comandantes de exércitos da Segunda Guerra Mundial – o general americano George S. Patton e o marechal de campo alemão Erwin Rommel – eram admiradores confessos e estudiosos de suas táticas.

Os exércitos de Gengis Khan ao chegarem numa cidade, exigiam sua rendição. Se seus cidadãos obedecessem, eram levados como escravos e a cidade era arrasada por completo. Se tentassem se defender, a população toda era passada no fio da espada e a cidade era igualmente arrasada por completo. Às vezes a população de uma cidade era trucidada apenas para infundir medo na cidade seguinte.

Quando os mongóis atacaram a terra luxuriosa e civilizada do Iraque, destruíram brutalmente as obras de irrigação que haviam levado anos para serem aperfeiçoadas, e deram início ao processo de desertificação de que o país sofre até hoje. Massacres e carnificinas eram sua marca registrada. Quando avançavam em direção aos muros de uma cidade bem protegida, compeliam seus prisioneiros a irem à frente e formarem um escudo humano. Quando tomaram a cidade de Bagdá, assassinaram todas as pessoas que encontraram e queimaram toda a literatura. Dizem que por dias o rio Tigre correu vermelho de sangue. Fingiram terem deixado a cidade e duas semanas após retornaram para matar todos os sobreviventes.

Outra característica da violência dos mongóis era a prática sistemática de estupros. Documentos escritos durante ou após o reinado de Gengis Khan relatam um número enorme de estupros, que deixou até hoje nos povos submetidos traços asiáticos. Um estudo realizado em 2002 concluiu que 8% da população da região anteriormente ocupada pelo Império Mongol podem ser descendentes de Gengis Khan. Um outro estudo de 2007 afirma que 34,8% dos atuais mongóis são descendentes de Gengis Khan.

Em 1226, quando tinha cerca de 70 anos de idade, Gengis fez planos para subjugar toda a China, onde seus generais vinham enfrentando problemas. A caminho do país, no verão de 1227, ele sofreu uma queda enquanto caçava e teve uma hemorragia no estômago. Deu ordens precisas antes de morrer para concretização da campanha e divisão do império. Seu filhos Ogodei e seu neto Kublai Khan seguiram nas conquistas e carnificinas. Após sua morte, o exército acompanhou seu corpo em um cortejo longo e silencioso, de volta à capital nas estepes. Todos os que foram encontrados pelo caminho foram mortos, para assegurar que a notícia de sua morte não precedesse a chegada de seu corpo.

Estima-se que sob o comando de Gengis Khan foram mortas quatro milhões de pessoas. Número assustador considerando-se que a população mundial da época era de 300 milhões de pessoas. Proporcionalmente com a população mundial atual, corresponderia hoje à matança de 90 milhões de pessoas.

Fontes: Uma breve história do mundo. Geoffrey Blainey.

A história do homem. Cyril Aydon.

Wikipédia, a enciclopédia livre.

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Paisagens do Guaporé e do Mamoré II

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A sabedoria dos cachorros do Brasil.

 David Coimbra. Publicado no Jornal Zero Hora, de 06 de março de 2015.

Pobre tem de ser bom. Os cachorros brasileiros nos ensinam isso. Li uma vez, na National Geographic, que o bicho mais inteligente do mundo é o vira-lata brasileiro. Não me surpreendeu. O vira-lata brasileiro tem de enfrentar contingências diárias para sobreviver. Tem de se adaptar, e se adapta.

Aqui não existe vira-lata. Eu, ao menos, nunca vi um cachorro numa rua do nordeste americano que não estivesse acompanhando do dono. No inverno, os cachorros andam de meias, porque o sal que é espalhado nas calçadas para diluir a neve pode lhes queimar as patinhas. São cachorros mimados, esses cachorros americanos.

Os brasileiros, não. Cachorros brasileiros vivem a vagabundear sozinhos pela rua e dependem da simpatia do transeunte para não levar um pontapé e da do dono do açougue para ganhar um osso. Essa necessidade de comover os humanos fez com que os cachorros brasileiros desenvolvessem eficazes métodos de despertar compaixão. Eles abanam o rabo e fazem uma cara de tristeza que transforma em patê os mais empedernidos corações. É a evolução da espécie. Darwin Explica.

Há cientistas que suspeitam que os filhotes de mamíferos, inclusive o dos humanos, são bonitinhos para cumprir essa função evolutiva. Sendo fofinhos, eles enternecem eventuais adultos predadores.

Tudo pela preservação.

Socialmente, o homem segue essa mesma lógica da natureza: quando em desgraça ou em desvantagem, o homem é humilde, simpático, risonho, parece boa gente. As pessoas se admiram: veja esse povo sofrido, que, ainda assim, canta e mantém o sorriso no rosto. Ora, ele canta e mantém o sorriso no rosto porque precisa. Porque tem de despertar a boa vontade alheia, da qual depende. Tornado poderoso, aí sim, aí é que ele mostrará quem na verdade é.

Mas alguns grandes homens, ungidos pelo poder, alguns poucos demonstram que são verdadeiramente grandes, demonstrando humildade. Um dos mais inspirados foi nada menos do que o dono do mundo: Marco Aurélio, imperador romano no segundo século depois de Cristo.

Esse Marco Aurélio era homem de letras e filosofia, mas também de guerra. Durante os combates contra os povos germânicos, nas geladas fronteiras do império, ele se recolhia à sua tenda e se punha a registrar ideias sobre a existência. São pensamentos de comovente delicadeza. Li Marco Aurélio ainda guri, quando fiz a coleção Os Pensadores, da Abril Cultural, e ainda leio, em certos momentos da vida.

Marco Aurélio foi o filósofo da aceitação. “Acontecer-me isso não é uma desgraça”, dia, “mas suportá-lo corajosamente é uma felicidade”.

Marco Aurélio era o que hoje talvez se chamasse de holístico.

Acreditava no que designava como “a natureza do todo” e proclamava para o universo: “Tudo o que harmoniza contigo, harmoniza comigo. Nada que para ti esteja em tempo é muito cedo ou muito tarde para mim”.

Para ele, a morte não era “a angústia de quem vive”, que era para Vinicius. Ao contrário, Marco Aurélio ensinava: “Assim como a mutação e a dissolução dos corpos abrem caminhos para outros corpos condenados a morrer, assim almas que deixam o corpo depois da existência terrena transmutam-se e difundem-se na inteligência seminal do universo e abrem caminhos para novas almas. Tu, que existe como parte, desaparecerás naquilo que te produziu. Vive esse pequeno espaço de tempo em conformidade com a natureza e encerra contente a tua jornada, como a azeitona que cai da árvore quando madura, abençoando a natureza que a produziu e agradecendo à árvore onde cresceu”.

Nesse tempo, em que o Brasil assiste ao espetáculo da dissolução moral dos poderosos, é saudável saber que nem todo o poder do mundo é capaz de tornar mau quem aprendeu a ser bom.

Você sabia?

Vira-latas

- Todos os cães, independentemente da raça, são descendentes dos lobos selvagens e primos das raposas.

- Os vira-latas são muito inteligentes. Como a maioria foi obrigada a conviver com muitos tipos de pessoas, nos mais diversos ambientes, eles desenvolveram uma enorme capacidade de entender e interpretar cada gesto do homem.

- Os vira-latas são cães 100% brasileiros. São ótimos cães de guarda, observadores e atentos.

- O cão vira-lata resiste a um número maior de doenças e condições adversas que um cão de raça.

- A maior genialidade sensorial de um vira-lata é seu olfato. Se, por exemplo, nós humanos sentimos o cheiro de feijoada, os vira-latas são capazes de reconhecer separadamente o aroma do feijão, da linguiça, do louro e da cebola. Essa habilidade o permite detectar a presença de um alimento dentro do saco de lixo.

Marco Aurélio

- César Marco Aurélio Antonino Augusto (em latim Caesar Marcus Aurelius Antoninus Augustus), conhecido como Marco Aurélio (26 de abril de 121-17 de março de 180), foi imperador romano desde 161 até sua morte. Nascido Marco Ânio Catílio Severo tomou o nome de Marco Ânio Vero pelo casamento. Ao ser designado imperador, mudou o nome para Marco Aurélio Antonino, acrescentando-lhe os títulos de imperador, césar e augusto. Aurelius significa “dourado”, e a referência a Antoninus deve-se ao fato de ter sido adotado pelo imperador Antonino Pio.

- Seu reinado foi marcado por guerras na parte oriental do Império Romano contra os partas, e na fronteira norte, contra os germanos. Foi o último dos cinco bons imperadores, e é lembrado como um governante bem-sucedido e culto; dedicou-se à filosofia, especialmente à corrente filosófica do estoicismo, e escreveu uma obra que até hoje é lida, Meditações.

- Sua estátua equestre (hoje, num museu do Capitólio) de bronze (antes dourada), erigida no palácio de Latrão quando ele ainda era vivo. Restaurada por Michelangelo e transferida para a praça do Capitólio, tornou-se o protótipo de todas as estátuas equestres do Renascimento. Uma cópia da estátua de bronze está na Piazza del Campidoglio, em Roma. Uma imagem dessa estátua figura na moeda de 50 cêntimos de Euro italiana, desenhada por Roberto Mauri.

MPU

Um Ministério Público independente.

 Membros do Congresso Nacional reagiram ao pedido de investigação policial formalizado no Supremo Tribunal Federal pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, a fim de apurar o eventual envolvimento deles no esquema da Operação Lava-Jato. Ataques ao Ministério Público e ao próprio procurador-geral têm sido noticiados de forma recorrente, numa aparente indicação de que se pretende retaliar a instituição em decorrência da prática dos seus deveres constitucionais.

O descontentamento dos congressistas com o episódio é algo natural e plenamente justificado. Afinal, ninguém gosta de ser alvo de investigação. O que não se pode ter como razoável, no entanto, é que essa insatisfação extrapole para o campo da ameaça ou retaliação ao Ministério Público. Eventuais iniciativas dessa natureza deixam a impressão de que se está insatisfeito com a independência do órgão e que se pretende adotar mecanismos para sua intimidação, o que soa preocupante, pois, com um Ministério Público enfraquecido, despido de autonomia, quem perde é a sociedade, que fica desprovida de uma importante ferramenta de tutela dos seus direitos, sobretudo no combate à corrupção.

A reação virulenta de alguns parlamentares com ameaças ao Ministério Público e ao procurador-geral da República sugere que pretendem utilizar seus cargos e as prerrogativas a eles inerentes, não para atender ao interesse público, mas em prol de objetivos pessoais, numa demonstração de que buscam se furtar à aplicação da lei, como se estivessem acima dela. O Código Penal, a propósito, prevê o crime de prevaricação, que se configura quando o servidor público pratica ato de ofício para atender sentimento ou interesse pessoal.

Cabe registrar que os pedidos de investigação, assim como toda a atuação do Ministério Público, estão pautados pelo princípio da obrigatoriedade, o que significa dizer que, uma vez recolhidos indícios contra quem quer que seja, devem ser adotadas as medidas para a respectiva apuração e responsabilização penal.

Ou seja, o Ministério Público Federal, com a iniciativa do chefe institucional, nada mais fez senão cumprir seu dever constitucional. Inadmissível, portanto, esse carteiraço com viés intimidatório e tendente a atentar contra a instituição, que age por dever de ofício diante das suspeitas de crimes praticados por alguns integrantes do Congresso.

A propósito, a história recente revelou que a população não tolera atos com vocação para infirmar a capacidade de atuação do Ministério Púbico. Foi assim com a rejeição da PEC 37, que retirava a capacidade de investigação do órgão.

Torçamos para que essas eventuais manifestações não passem de mero desabafo e que não haja qualquer movimento para fragilizar o Ministério Público, porque quem assim agir estará prestando um desserviço ao povo brasileiro.

Carlos Aguiar é procurador regional da República

DEMOCRACIA

Se votar fizesse alguma diferença, eles não nos deixariam fazê-lo. Mark Twain.

Democracia deveria ser algo mais do que dois lobos e um cordeiro votando no cardápio do jantar. Autor incerto.

As leis são teias de aranha pelas quais as moscas grandes passam e as pequenas ficam presas. Honoré de Balzac.

A democracia é uma forma de governo que prevê a livre discussão, mas que só é atingida se as pessoas pararem de falar. Clement Atllee.

O grande problema de nosso sistema democrático é que permite fazer coisas nada democráticas democraticamente. José Saramago.

O melhor argumento contra a democracia é uma conversa de cinco minutos com um eleitor médio. Winston Churchill.

Democracia é um sistema que faz com que nunca tenhamos um governo melhor do que merecemos. Bernard Shaw.

A hipótese da savana. Ou como você pode sentir-se em casa.

Daniel Luis Dalberto.

Como escreveu um cientista, a evolução é uma coisa assombrosa, capaz de transformar um protoprimata minúsculo, de olhos esbugalhados, agarrado às árvores e esmagador de insetos, na Paola Oliveira (esta é por minha conta, na frase do cientista foi citada a Julia Roberts).

Se regredirmos 350 mil gerações humanas e pré-humanas acharemos nossa mãe comum com a dos chimpanzés, em cima de uma árvore, peluda e com jeito de macaco. Em 2013 a revista Nature publicou artigo de Cristopher Beard, do Museu de História Natural Carnegie, de Pittsburgh, sobre a descoberta, às margens do Rio Amarelo na China, de um minúsculo fóssil, muito bem preservado, de 55 milhões de anos. O fóssil, estudado exaustivamente por dez anos num dos laboratórios de imagem mais modernos do mundo, “literalmente pôs de pé o mamífero”, disse o paleoantropólogo Paul Tafforeau. Para tal feito, foram analisadas, com tecnologia de ponta, mais de mil características de 157 mamíferos, contando com a colaboração de diversos museus, de modo que não há controvérsia sobre o lugar que ocupa o protoprimata na árvore evolutiva: o Archicebus achilles é o ancestral dos társios (os lêmures do desenho Madagascar) e dos antropóides (macacos, símios e você).

Nos tempos dos nossos ancestrais em fase mais adiantada, “macaco começando a descer das árvores e andar ereto”, na Tanzânia, descobriu-se um registro primitivo pelo qual se conclui que dois adultos e uma criança caminhavam sobre cinza vulcânica amolecida por uma chuva recente. A seguir, suas pegadas foram cozidas pelo sol e, aos poucos, foram cobertas por camadas de terra. As pegadas, definitivamente humanas, tem pelo menos 3,6 milhões de anos.

Essas dezenas de milhões de anos na Ásia e mais alguns milhões de anos na África moldaram nossas emoções e solidificaram instintos presentes e atuantes. Importante sempre levar em conta os milhões de anos passados e o modo de vida pouco mutável nesse longo período, para constatar que muito rapidamente mudamos radicalmente a maneira de viver, em especial por termos nos tornado sedentários, vivermos em grupos numerosos, abrigados em casas e por termos considerável controle sobre a natureza, a fome e a sede. Grandes revoluções para quem “ontem” tinha a dificílima e árdua tarefa diária de procurar abrigo e comida, sempre cuidando para não virar alimento de algum animal mais forte, situação que nos levou diversas vezes à beira da extinção.

Em termos biológicos, o pensamento abstrato e a consciência surgiram recentemente. E, de modo algum, substituíram os sentimentos primitivos. Como exemplo disso, basta analisar a seguinte situação: No mundo atual, em que a maior parte da população vive em ambientes urbanos, são irrisórios, quase inexistentes, mortes ou graves problemas decorrentes de picadas de cobra ou de aranha. Já, acidentes letais com eletricidade são muito mais comuns. No entanto, as pessoas costumam se assustar ao se depararem de surpresa com cobras e aranhas, mesmo que seja com simples imagens desses animais. Já, ao se depararem com um fio elétrico desencapado ou ante uma imagem de um fio elétrico desencapado pelo chão, o “enfrentamento” costuma ser racional, sem sobressaltos. A conclusão disso é que o instinto de sobrevivência primitivo continua a agir, mesmo que para certas situações da vida moderna, quase não tenha mais utilidade.

Fato é que vivendo o último e longo período evolutivo, de centenas de milhares de anos na África, nos atuais Quênia, Tanzânia e Etiópia, em cenários de floresta e savana, procurando refúgio para não virar presa e ao mesmo tempo buscando visão panorâmica, de preferência avistando um curso d´água e bandos de caça, moldamos nosso gosto, senso estético e sensações em relação ao meio ambiente, que permanecem muito nítidas nos dias atuais.

Um biólogo da Universidade de Washington, Gordon Orians, desenvolveu uma teoria chamada “hipótese da savana”, que sustenta que certos sinais do habitat, que eram uma questão de vida e morte, sobrevivem até hoje como a base genética de nossa sensibilidade estética.

Nossa preferência se dava pela borda da savana – abrigados em árvores mas com visão da planície – de preferência, repleta de antílopes. Por isso, possivelmente nosso maior predador tenha sido o leopardo, que vive exatamente nesse ambiente de árvores à borda da savana.

A hipótese da savana diz que o melhor panorama possível inclui a promessa de alimento para o jantar: água correndo e mamíferos pastando bucolicamente. Também, flores em primeiro plano, não só por sua beleza, mas por sua promessa de frutos e mel.

Conforme expõe Richard Connif, em “História Natural dos Ricos, “qualquer um que já tenha contemplado o magnífico centro de mesa de um baile de caridade, ou das páginas de Town and Country, sabe que preferimos flores grandes e assimétricas, traços que se correlacionam com um teor maior de néctar. As flores e os rebanhos no pasto são um bom remédio, literalmente. Nos acalmam com a promessa de prosperidade futura”.

Roger Ulrich, pesquisador da Universidade do Texas A&M, mostrou que as pessoas que assistem a um vídeo tranquilizador sobre a natureza, depois de uma experiência estressante, exibem tensão muscular e batimentos cardíacos acentuadamente menores, passados apenas em cinco a sete minutos. Ele monitorou pacientes submetidos a uma cirurgia de vesícula, constatando que aqueles colocados em quartos com vista para as árvores precisaram de muito menos analgésicos do que os pacientes cujos quartos davam para uma parede de tijolos.

Conforme explica Richard Conniff, pesquisas e experimentos realizados por biólogos indicam que as pessoas de diferentes culturas reagem positivamente aos mesmos componentes da paisagem: pradarias, grupos dispersos de árvores frondosas, mudanças na elevação do terreno, trilhas sinuosas e clareiras bem iluminadas, de preferência parcialmente obscurecidas pela folhagem em primeiro plano. Essa é uma paisagem que convida à exploração, prometendo recursos e refúgio ao mesmo tempo. As mudanças de elevação – a visão das montanhas distantes, por exemplo – proporcionam um marco que ajuda o observador a se orientar no panorama, exatamente como os afloramentos rochosos que pontilham as vastas extensões do vale do Serengeti.

É interessante observar que os que podem escolher suas moradias, os mais ricos, desde os tempos de Herodes e dos castelos medievais, mantém o mesmo estilo. Gostam de construir suas casas no padrão “visão panorâmica e refúgio”: no alto de um morro; de frente para o mar; num penhasco diante de uma baía, apartamentos de cobertura com vista para o Central Park; para o Parcão em Porto Alegre ou mansões suspensas nos Jardins em São Paulo. Ou seja, visão sem ser visto, de preferência em locais arborizados mas abertos.

Quanto mais cara a casa, maior a probabilidade que inclua traços arquitetônicos que combinem a visão panorâmica e o refúgio, teoria elaborada pelo geográfo britânico Jay Appleton: sacadas, balaustradas, janelões, deques, cúpulas, torres, varandas, terraços com pérgulas cobertas de vinhas, treliças e mirantes. Richard Conniff estudou esses aspectos nas mansões dos milionários ingleses e constatou que as tendências de savanificação da aristocracia britânica remontam pelo menos ao tempo dos normandos.

O filho de Guilherme, o Conquistador, Henrique I, que reinou de 1100 a 1135, introduziu leões, leopardos e outros animais exóticos em seu parque murado de caça em Woodstock, na área que é hoje o palácio de Blenheim. Os novos projetos paisagísticos do magnífico local, incluem paisagem sublime de rusticidade cultivada, toda feita de campos de relva e bordas florestais sinuosas, com ovelhas pastando em seus vastos gramados, faias ornamentais, com ramagem baixa e farta esparramando-se como um eterno refúgio, para que nenhum Churchill seja incomodado pelos ônibus de turistas que passam pelo local. Estar nesses lugares, diz Conniff, “é como estar numa floresta à beira de uma clareira”

Assim, quando você for construir, comprar ou decorar sua casa, não esqueça da teoria da savana para potencializar seu conforto e tranquilidade, com a sensação gostosa de estar de fato sentido-se em casa.