saci

Por onde anda o Saci?

Por: Daniel Luis Dalberto

Faz tempo que percebo, meio sem querer, que aquele mundo misterioso, cheio de magia, imaginação, espíritos encantados e temor de seres misteriosos que habitavam a nossa infância desapareceu e deu lugar a outro mundo, mais lógico, objetivo e material. Nada mais ouvi sobre as travessuras do saci, nem alguma mãe dizendo para o menino comportar-se se não a Cuca vem pegar, tampouco conversei com alguma criança que demonstrasse temor da mula-sem-cabeça ou da boitatá. A mãe d´água e o boto rosa parece terem perdido completamente o poder de sedução. O curupira nada mais aprontou a caçador algum. Os lugares escuros das florestas que abrigavam seres perigosos ou o próprio lobo mau não existem mais e deram lugar aos previsíveis Jason e Freddy Krueger.

Por outro lado, também meio sem querer, tenho percebido que o hulk, o capitão américa, o homem-aranha e outro heróis gringos, fazem cada vez mais sucesso entre a criançada. E o halloween então? Tenho a sensação que virou data nacional. Logo será feriado nesse dia. Doce ou travessura??? Que conversa é essa!!!

A gota d´água da minha percepção que algo de fato muito mudou desde a minha infância foi o vídeo que recebi nesta semana, do que era para ser a festa de São João da escolinha do meu sobrinho: tratava-se de uma verdadeira festa country! Todas as crianças trajadas de cowboys, dançando músicas americanas. Nada de quadrilhas ou “cai cai balão”. O vídeo facilmente poderia ser tido como de alguma escola do Texas, sem nada deixar a dever.

Telefonei à minha cunhada para tentar entender o fenômeno. Ela disse que também ficou contrariada com a novidade e foi à escola conversar sobre o fato. Diga-se de passagem, uma escola tradicional. A coordenadora disse-lhe que essa é a tendência, que a escola teve de ceder e atender aos pedidos. Disse, ainda, que aos poucos muitas escolas estão trocando as festas de São João por festas country; que mesmo as que ainda mantém, estão sendo forçadas à mudança pelas circunstâncias, pois conforme as crianças vão crescendo, não querem mais vestir-se de caipira, as meninas não querem usar vestido e sim calça jeans, camisa xadrez e chapéu. É nossa tendência de achar que bom é o que vem de fora e o que é nosso é atrasado.

Aqui abro breves parênteses: estamos perdendo nossas referências e nossa identidade também no futebol. Éramos únicos no mundo pelo nosso futebol criativo, ousado, alegre e de improvisação. Hoje, nos tornamos burocráticos e previsíveis, tal qual os europeus. E não é por acaso. A maioria dos jogadores da seleção surgiram para o futebol já na Europa, para onde foram ainda adolescentes, como ocorre hoje de sul a norte no país. Lá na Europa, formam seu estilo futebolístico de acordo com aquela escola. E assim, estamos em crise de identidade também no futebol. Ao invés de invejar e procurar copiar alemães na produtividade das indústrias ou na eficiência do governo, estamos fazendo isso no futebol! Bem, voltemos ao tema principal.

Na conversa que citei antes, minha cunhada contou que seu filho, no ano passado, quanto tinha apenas dois anos, retornou da escolinha (era outra escola) assustado e com medo, porque na festa halloween havia vampiros, bruxas e morcegos. Teve o caso de uma menina que ficou com febre, de tanto medo que passou nessa “festa”. Olhando para o passado, lembro que os seres que nos atemorizavam eram de fantasia, era preciso usar a imaginação para visualizá-los. Havia estímulo à criatividade, cada um imaginava esses monstros do seu jeito, mas eles não se materializam fisicamente e assim não causavam choques de susto e pavor.

Longe de mim fazer patrulha ideológica, censura ou coisa parecida. Viva a liberdade de escolha do que se gosta! Também, sei que as culturas são sempre mutantes e incorporam novos elementos, inclusive estrangeiros. Não pretendo fazer o discurso “antigamente é que era bom”. Mas o que trago à reflexão é que parece haver via única nessa estrada. Ou alguém soube caso de o saci ter aparecido nos States? E a constante mutação, é natural que apenas faça sumir os personagens do nosso folclore e coloque outros, estrangeiros, em seu lugar? É certo que o Brasil mudou e não é mais um país rural. Mas então que onda cowboy é essa? Então se vier do States podemos ser rurais? As manifestações culturais mudarem, incorporando novos elementos é uma coisa, mas o que vejo parece ser coisa diferente: trata-se da perda de nossos referenciais culturais imateriais, frutos da miscigenação indígena, negra e europeia, e da incorporação “empacotada” da cultura americana.

O patrimônio cultural de um povo é o que o diferencia e o torna único. Recebemos das gerações passadas imenso e rico legado que nos identifica enquanto nação. O patrimônio cultural imaterial, que compreende, dentre outras coisas, as lendas, as danças, tradições e festas populares exerce enorme importância no nosso modo de viver, na nossa representação de mundo e posição diferenciada no mundo globalizado, que, quanto mais plural, mais possibilidades, em todas as áreas, oportunizará à humanidade. A UNESCO vem se esforçando para criar e consolidar instrumentos e mecanismos para o reconhecimento de defesa desse patrimônio e desde 2003 adotou a Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Imaterial.

Nossa Constituição, como acontece em outras áreas, é das melhores do mundo na proteção e no incentivo ao patrimônio cultural. Vejam que maravilha no plano normativo:

Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.

§ 1º O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional.

 2º A lei disporá sobre a fixação de datas comemorativas de alta significação para os diferentes segmentos étnicos nacionais.

 3º A lei estabelecerá o Plano Nacional de Cultura, de duração plurianual, visando ao desenvolvimento cultural do País e à integração das ações do poder público que conduzem à: (Incluído pela Emenda Constitucional nº 48, de 2005)

I defesa e valorização do patrimônio cultural brasileiro; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 48, de 2005)

II produção, promoção e difusão de bens culturais; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 48, de 2005)

III formação de pessoal qualificado para a gestão da cultura em suas múltiplas dimensões; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 48, de 2005)

IV democratização do acesso aos bens de cultura; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 48, de 2005)

V valorização da diversidade étnica e regional. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 48, de 2005)

Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem:

I – as formas de expressão;

II – os modos de criar, fazer e viver;

III – as criações científicas, artísticas e tecnológicas;

IV – as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais;

V – os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.

§ 1º O Poder Público, com a colaboração da comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio cultural brasileiro, por meio de inventários, registros, vigilância, tombamento e desapropriação, e de outras formas de acautelamento e preservação.

§ 2º Cabem à administração pública, na forma da lei, a gestão da documentação governamental e as providências para franquear sua consulta a quantos dela necessitem.

§ 3º A lei estabelecerá incentivos para a produção e o conhecimento de bens e valores culturais.

§ 4º Os danos e ameaças ao patrimônio cultural serão punidos, na forma da lei.

§ 5º Ficam tombados todos os documentos e os sítios detentores de reminiscências históricas dos antigos quilombos.

(…)

A educação, que segundo a Constituição Federal pode ser prestada pela iniciativa privada, desde que cumpra as normas gerais e seja avaliada pelo Poder Público, deveria incentivar a cultura nacional e fomentar uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, como está no preâmbulo da própria Constituição. Não consigo conceber uma escola brasileira, pública ou privada, disseminando a cultura estrangeira. Essa função já é feita naturalmente no dia a dia pela música, por Hollywood, pelos filmes da Disney, etc. Seria louvável que alguém “nadasse contra corrente” e que esse papel fosse das escolas e dos pais, preocupados na formação integral dos seus filhos, enquanto cidadãos do mundo, mas orgulhosos de sua própria cultura.

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Paisagens do Guaporé, do Mamoré e do Pakaas.

Drummond_e_Quintana

Poemas de Mário Quintana, o poeta das coisas simples.

Amizade

Quando o silêncio a dois não se torna incômodo.

Amor

Quando o silêncio a dois se torna cômodo.

Fantasma

Pobre-diabo marginal entre dois mundos. Não usa sapatos.

Morte

Nada de maior; simples passagem de um estado para o outro – assim como quem se muda do estado do Rio Grande do Sul para o estado de Santa Catarina…

Frases que Matam

- Mas como você está bem conservado!

Exame de Consciência

Se eu amo meu semelhante? Sim. Mas onde encontrar o meu semelhante?

Da Preguiça

A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda.

Da Alma

Uma alma sem mistério nem seria alma… Da mesma forma que um Deus compreensível não seria Deus.

Câmara aprova aumento de isenção tributária a igrejas.

Folha de S.Paulo
SOFIA FERNANDES
VALDO CRUZ
DE BRASÍLIA
06/06/2015 – 02h00

Enquanto a equipe econômica da presidente Dilma Rousseff pedia aval do Congresso ao pacote fiscal, uma isenção tributária a igrejas foi incluída na surdina em uma MP (medida provisória) aprovada no fim de maio.

O benefício pode garantir a anulação de autuações fiscais a igrejas que extrapolam R$ 300 milhões. Segundo a Folha apurou, foi incorporado por intermédio do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que é evangélico.

O artigo foi incluído na MP 668, que tratava originalmente do aumento de impostos sobre produtos importados. Para vigorar, precisa ainda passar pela sanção de Dilma.

Esse “jabuti” –nome dado a temas estranhos inseridos em MPs– aumenta a isenção fiscal de profissionais da fé, ao livrar da cobrança de impostos as chamadas “comissões” que líderes religiosos ganham por arrebanhar fieis ou recolher mais dízimos.

A medida beneficia sobretudo as evangélicas neopentecostais, vertente em que o pagamento de comissões a pastores é mais comum.

A Constituição garante imunidade tributária a templos. Já os profissionais que neles trabalham e que recebem salário, como pastores, pagam contribuição previdenciária e Imposto de Renda sobre a remuneração.

Mas não há tributação sobre ajudas de custo –moradia, transporte e formação educacional, entre outros itens, desde que esse dinheiro seja para subsistência do profissional.

Muitos dos casos de sonegação religiosa são de pastores que recebem, por exemplo, um salário mínimo e, por fora, “comissões”, a título de “ajuda de custo”, que chegam à casa dos R$ 100 mil. Valores sempre vinculados ao desempenho do profissional em angariar fieis.

As “comissões”, no entender da fiscalização, não configuram ajuda para subsistência; por isso, religiosos passaram a ser atuados.

O jabuti colocado na MP amplia o conceito de ajuda de custo ao dizer que as condições descritas na lei atual são “exemplificativas” e não “taxativas”. Ou seja, o dinheiro não precisa ser exclusivamente para subsistência e pode ser vinculado ao desempenho do pastor.

O texto também deixa claro que valores pagos aos religiosos como “ajuda de custo”, ainda que em “montantes diferenciados”, não constituem remuneração.

Cunha, que era da Igreja Sara Nossa Terra e hoje pertence à Assembleia de Deus, afirmou que o artigo não cria uma regra nova. “Apenas esclarece a regra antiga, porque do jeito que estava, dava desculpa para lavrar auto de infração contra as igrejas.”

Segundo a Folha apurou, uma das principais beneficiárias da medida seria a Igreja Internacional da Graça de Deus, do missionário R.R. Soares, multada em cerca de R$ 60 milhões em 2014.

Membros da bancada evangélica dizem que não há modificação na lei, que já prevê imunidades, e que o artigo foi acordado com o governo, com o conhecimento de Dilma.

Os pastores Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, e Robson Rodovalho, da Sara Nossa Terra, participaram da articulação com o vice-presidente Michel Temer (PMDB) sobre a inclusão do artigo.

A Receita Federal não quis se manifestar.

OUTRO LADO

As igrejas e seus aliados no Congresso Nacional afirmam que a emenda aprovada, que pode garantir a anulação de autuações fiscais a igrejas, não traz nenhum benefício novo, apenas regulariza e deixa mais clara a legislação hoje vigente sobre o tema, evitando autuações da Receita Federal, hoje na ordem dos milhões.

Presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que acolheu o pedido das igrejas para incluir a emenda em votação de uma medida provisória do ajuste fiscal, diz que “não se cria uma regra nova, apenas esclarece regra antiga porque, do jeito que estava se fazendo, estava dando desculpa para lavrar auto de infração contra as igrejas”.

O presidente da Igreja Sara Nossa Terra, bispo Robson Rodovalho, vai na mesma linha de Cunha.

“Foi uma iniciativa muito importante porque trouxe à luz uma zona cinzenta que havia na tributação”, afirmou o bispo.

“As igrejas têm assegurada sua imunidade tributária pela Constituição, mas faltava uma regulamentação, o que agora foi suprido com a medida”, acrescentou.

Procurada, a Igreja Internacional da Graça de Deus não se manifestou até a conclusão desta edição.

Folha não conseguiu localizar o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, para comentar o assunto nesta sexta-feira (5).

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Brasil, conhece-te a ti mesmo! Antes que seja tarde.

Por Daniel Luis Dalberto

A Amazônia, ainda sob o aspecto estritamente físico, conhecemo-la aos fragmentos. Mais de um século de perseverantes pesquisas e uma inestimável literatura, de numerosas monografias, mostram-no-la sob incontáveis aspectos parcelados. (…) A inteligência humana não suportaria, de improviso, o peso daquela realidade portentosa. Euclides da Cunha.

A maioria dos brasileiros não conhece a Amazônia. Vê e interpreta o país a partir de sua realidade, sua classe social e o meio onde vive. Os ensinos escolares ainda mantém visões muito distantes da grandiosidade e complexidade dos problemas do mundo amazônico. Isso, quando não perpetua velhos conceitos preconceituosos e estereotipados.

A importância da Amazônia extrapola os limites do país. Nas últimas duas décadas os cientistas tem constatado que o equilíbrio do clima e do regime de chuvas do planeta depende da preservação da maior floresta do mundo. As árvores desempenham importante papel na redução da poluição, com a absorção de CO2 da atmosfera e liberação de oxigênio. O problema da falta de água doce vai se agravando e se tornando um dos maiores desafios do século XXI (ver postagem neste blog “Breves reflexões sobre aumento populacional e desequilíbrio ambiental”), enquanto isso, um quinto da reserva de água potável do planeta está na Amazônia.

De biodiversidade riquíssima – uma em cada dez espécies conhecidas no mundo vive na Amazônia – os cientistas atestam que apenas 0,5% das espécies da flora amazônica foram detalhadamente estudadas em seu potencial medicinal. Enquanto isso, ano a ano, a exuberante floresta vai encolhendo, ocasionando o desaparecimento de espécies ainda nem conhecidas e pondo em risco muitas outras, como a onça-pintada, a ariranha, o peixe-boi, o sauim de coleira, a jaguatirica, o tamanduá-bandeira e tantas outras de uma longa lista.

A presença humana na Amazônia é muito antiga. A floresta intacta, como imaginam alguns, não existe há muito tempo. Quando os europeus aqui chegaram não só já havia indígenas em todo território amazônico – e no Brasil todo, é claro – como civilizações já tinham se sucedido na ocupação desse imenso território. Há vários achados arqueológicos que indicam a existência de aldeamentos estruturados e organizados, com populações de 3 a 5 mil pessoas, caso da região de Iranduba, no entroncamento dos rios Negro e Solimões, com 16 hectares de resquícios arquelógicos. São muitos os geoglifos que vem surgindo conforme a floresta vem sendo devastada.

Em Taima-Taima, sítio venezuelano, os indícios da presença humana tem quinze mil anos. O Sítio de Pedra Pintada, em Monte Alegre, no Pará, indica a presença de humanos nos cerrados e nas florestas amazônicas há 11.300 anos. Há quatro mil anos a mandioca foi domesticada na Amazônia ocidental, onde hoje é o estado de Rondônia. O milho, domesticado onde hoje é o México há 7 mil anos, foi levado diretamente às terras baixas da Amazônia em correntes migratórias indígenas, há pelo menos 3 mil anos. Os índios amazônicos cultivavam também o guaraná, cará, abóbora, batata-doce, amendoim, taoiba, cabaça. Diante desses fatos chega a ser pueril a concepção corriqueira de muitos que se mudaram para a Amazônia nas últimas décadas e dizem ser bravos pioneiros das terras amazônicas, como é comum ouvir-se no Norte do Brasil.

Nas últimas três décadas e especialmente nos últimos anos a expansão da fronteira agrícola e pecuária e os grandes projetos de hidrelétricas e mineração têm avançado sobre esse grandioso e rico bioma com a mesma irresponsabilidade, falta de reflexão, estudos, planejamento e desrespeito às leis que vimos desde 1.500. As populações tradicionais envolvidas, profunda e irreparavelmente afetadas, ou são invisíveis ou são tratadas como coisas ou algo menor em confronto com os interesses econômicos em jogo. Culturas milenares são ameaçadas estritamente sob a lógica do progresso econômico, não necessariamente revertido em benefício da sociedade brasileira, haja vista a extrema desigualdade social do país. Assim, o patrimônio de todos dá lugar ao desenvolvimento econômico de alguns (vide post “Amazônia, o Brasil sem maquiagem” neste blog).

É certo que a Internet e as redes sociais, ainda que timidamente, têm mudado um pouco esse quadro, dando aos brasileiros maior consciência de seu país. As mudanças climáticas, que têm alterado e ameaçado a qualidade de vida em todo o país, com a crise hídrica, secas e tempestades, deram aos brasileiros uma noção mais aproximada de que estamos todos conectados e que o que acontece na Amazônia pode ter consequências em São Paulo ou outros lugares do país.

A civilização europeia ocidental certamente tem muito a ensinar e oferecer aos índios. São inegáveis os benefícios trazidos pelas ciências, tecnologia e medicina. No entanto, os índios, em sua diversidade, visões e modos de vida próprios, também tem muito a legar justamente sobre o que está em crise em nossa sociedade, que é o excesso de individualismo e falta de senso coletivo. Também, sobre sua cultura e profundo conhecimento das plantas e animais da floresta, bem como sobre integrar-se ao meio ambiente sem destruí-lo. Afinal, o cientificismo e a razão iluminista nos trouxeram progressos materiais inegáveis e elevaram a humanidade a um novo patamar em curto espaço de tempo, mas nos tem afastado do senso de solidariedade e da espiritualidade.

A entrevista abaixo desmistifica visões coloniais e preconceitos ainda muito comuns em relação aos índios. É curioso o fato de as pessoas verem um índio usando telefone celular ou vendo televisão e dizerem: “Ora, mas esse não é mais índio. Usa celular!” No entanto, ninguém faz esse mesmo raciocínio quando veem, por exemplo, um japonês ou um italiano fazendo essas mesmas coisas, sendo que seus antepassados recentes também não usavam aparelho celular ou viam televisão. Não há comentários semelhantes dizendo: “ora, mas esse não é mais italiano ou japonês!” O fato é que as culturas, todas, são naturalmente dinâmicas e estão sempre incorporando novas práticas, sem, com isso e por isso, perderem suas identidades.

Sônia Guajajara: O reconhecimento e respeito pelos povos indígenas vão além da garantia por cidadania

Juliana Pinto | IPAM

Sônia Guajajara, coordenadora executiva da APIB. Foto: Sara Gaia

Os povos indígenas do Brasil são muitos. Eles compõem 305 etnias, falam 274 línguas e totalizam aproximadamente 897 mil indivíduos, segundo o IBGE (2010). Infelizmente em pleno século 21 eles ainda sofrem desrespeitos e violações muitas vezes relacionados com a imagem Brasil-colônia. Sônia Guajajara, coordenadora executiva da APIB e liderança indígena nacional, lembra que os tempos mudaram e consequentemente a importância do papel dos povos indígenas nos espaços de debate e tomada de decisão. Aceitar e respeitar estas 305 etnias como cidadãos brasileiros é fundamental, pois, além de assegurar seus direitos, que igualmente implica na demarcação dos territórios indígenas, resulta também na garantia da preservação e proteção do meio ambiente.

Clima e Floresta: Qual é o papel do indígena na sociedade brasileira?

Sônia Guajajara: Acredito que primeiro é contribuir para o Brasil permanecer rico em biodiversidade, em culturas e tradições. Hoje temos no país 305 populações indígenas diferentes e essa informação é desconhecida pela sociedade brasileira. O brasileiro trata os povos indígenas como um povo único: os índios. Mas não somos um povo só. Cada população indígena é diferente, assim como os nossos idiomas, costumes e tradições. A outra coisa é o próprio papel que nós indígenas exercemos na preservação do ambiente.

CF: Existem diferenças na maneira da preservação do meio ambiente entre as comunidades indígenas?

SG: A preservação entre as populações indígenas é muito semelhante, porque possuímos um conhecimento e uma relação milenar com o meio ambiente. Temos um jeito natural de preservar. É uma coisa própria do modo de vida dos povos indígenas. Independente da etnia, quando comparamos as terras indígenas com as demais terras públicas, percebe-se claramente que as terras indígenas são mais preservadas. A questão cultural, linguística e as tradições mudam, mas a questão da preservação é sempre a mesma em todos os povos, que é cuidar, preservar e ter o ambiente saudável para a sua continuidade física e cultural.

CF: O que é preciso ser feito para que o indígena ganhe espaço e respeito na sociedade brasileira, além do dia Nacional do Índio, o 19 de abril?

SG: O Brasil, apesar de ser esse país rico e alegre, é ainda um país muito preconceituoso. Nos últimos anos isso parece estar se mostrando cada vez mais forte não só contra os indígenas, mas também contra os negros e nas orientações sexuais. Todo esse preconceito dificulta muito para a sociedade abrir os olhos e perceber a presença indígena no cotidiano brasileiro. A maioria vê o índio como aquele do passado, na aldeia, nu, sempre pintado, com penas na cabeça. Apesar de estes detalhes serem importantes para a nossa identidade se manter viva, as mudanças aconteceram com o tempo e com a globalização. Não tem como nos mantermos isolados das informações. Precisamos estar inseridos na sociedade, participando de tudo e principalmente nos espaços de decisão. Já conseguimos avançar muito, estamos nos mostrando, participando, discutindo e trazendo a nossa voz. Acredito que um passo positivo para o nosso reconhecimento é na educação. As escolas deveriam desmistificar a figura indígena com as crianças e os jovens. Mostrar para eles que não somos mais aquelas populações da época da colonização em 1500, que permanecia na mata, apenas caçando e pescando. Atualmente continuamos lutando pelo nosso direito territorial, pela nossa sobrevivência física e cultural, como uma forma de manter a nossa identidade e nosso modo de vida. Estamos cada vez mais inseridos em todos os espaços, mas ainda falta muito. É nosso direito e dever usufruir como cidadão do que está disponível, como ensinos superiores, ferramentas tecnológicas, políticas públicas, etc. Porém, nunca esquecendo quem somos e de onde viemos, e para isso temos que partir da garantia dos nossos territórios.

CF: Por que os territórios indígenas são importantes para todos?

SG: Os territórios indígenas é um tema que ganhou muita visibilidade nos últimos cinco anos. Aumentou muito o interesse pelas nossas terras para a questão do desenvolvimento econômico e para o crescimento do país. O Brasil já não dispõe mais de tantas terras públicas e áreas livres. Ultimamente toda terra está se transformando em propriedade privada. Os espaços que os grandes produtores e os donos do agronegócio estão interessados são as terras indígenas. Temos uma legislação que protege e garante o direito territorial aos povos e comunidades tradicionais, porém estão tentando exatamente flexibilizar essa legislação para facilitar a entrada nas nossas terras. Veja por exemplo a PEC 215. Entretanto, além de não terem nos consultado para esta alteração na legislação, eles se esqueceram de toda a importância social, econômica e ambiental que as terras indígenas exercem no país. Para nós é muito natural dizer, que as terras indígenas são importantes não só para os índios, mas para todo mundo. Nossos territórios são importantes para o equilíbrio climático, na contenção do aquecimento global, na garantia de ambiente saudável, na provisão das chuvas para o sudeste e outras regiões brasileiras.

CF: Dentro dos territórios indígenas já é possível sentir os impactos das mudanças climáticas?

SG: Temos uma relação e percepção direta no que ainda está preservado e já foi destruído pelas mudanças climáticas. As partes que ainda possuem florestas exercem diversas funções, que vão desde garantir nosso sustento ao protegerem o solo, como também levam vento e chuva para as outras regiões. Uma das causas mais graves que provocam as mudanças no clima é o desmatamento. Essa destruição do meio ambiente diminui a água e consequentemente as chuvas. São poucos os que conseguem perceber a relação da natureza com a falta d’água e do meio ambiente com as catástrofes ambientais. Somos mais vulneráveis aos efeitos climáticos. Muita coisa já acontece dentro das terras indígenas. Como a incerteza dos ciclos da chuva e as estações desreguladas. Isso atrapalha as plantações e em consequência a nossa sobrevivência, pois vivemos da terra. Altera também os nossos costumes tradicionais. Algumas atividades culturais eram realizadas em determinado período por conta de um alimento ou dentro da água. Isso hoje já não ocorre com a mesma periodicidade, às vezes porque a plantação não vingou ou porque o rio secou. As mudanças climáticas não é um problema somente para as populações indígenas, é uma preocupação mundial. Os benefícios do meio ambiente quando chegam para um, chegam para todos, não só para os indígenas. Se for beneficiar ou prejudicar, beneficiará e prejudicará todos. Então eu acredito que precisamos ainda trabalhar muito na sensibilização da sociedade como um todo para que apoiem o processo de demarcação das terras indígenas, porque quando temos uma terra demarcada e protegida, estamos preservando um bem que é para todo mundo.

CF: O que as ONGs tem feito para ajudar na inserção dos povos indígenas nestes debates?

SG: Temos muitos parceiros cooperando na defesa dos direitos, na preservação do modo de vida e da cultura. Muitas ONGs ajudam e incentivam os indígenas a participarem em várias esferas. Porém, também existem as organizações que ainda preferem que os indígenas permaneçam na floresta, sem modificar a forma que vivem, sem conhecer, sem participar muito “aqui fora”. Eu acredito que precisamos ter a oportunidade de vir, participar, conhecer, e o mais importante voltar às nossas comunidades para repassar o conteúdo e as informações adquiridas aos nossos parentes. Temos conseguido nos envolver muito com a ajuda dos nossos parceiros nas esferas nacionais e internacionais, repassando a nossa mensagem.

CF: Como é essa relação com o IPAM?

SG: Eu me relaciono com o IPAM há mais ou menos cinco anos. Atualmente minha articulação é com a APIB e antigamente era pela COIAB. O IPAM já tem um longo histórico de trabalhos com a COIAB e agora com a APIB. Para as causas indígenas esta organização é extremamente importante. Conseguimos o seu apoio tanto para nos capacitarmos nas questões sobre as mudanças climáticas nos territórios indígenas e para posteriormente levarmos a nossa voz nos eventos internacionais como a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (COP). Esse incentivo de debater nos eventos internacionais e dar visibilidade aos povos indígenas é fundamental para conseguirmos alcançar e manter os nossos direitos. Hoje mesmo uma pessoa me disse “Ah, você estava em Paris no ano passado”, como se isso fosse algo impossível um indígena sair do Brasil para participar de algo em outro país, enquanto pra gente é uma coisa natural, espontânea. Eu acho que é isso que as ONGs contribuem, como é a relação com o IPAM, ajudar na nossa luta, viabilizar a nossa presença nos espaços de debate e de tomada de decisão e o mais importante, nos ajudar a passar a imagem do indígena como um cidadão brasileiro digno de direitos e respeito.

agrotoxico

O “alarmante” uso de agrotóxicos no Brasil atinge 70% dos alimentos.

Marina Rossi

Imagine tomar um galão de cinco litros de veneno a cada ano. É o que os brasileiros consomem de agrotóxico anualmente, segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA). “Os dados sobre o consumo dessas substâncias no Brasil são alarmantes”, disse Karen Friedrich, da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Desde 2008, o Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking mundial de consumo de agrotóxicos. Enquanto nos últimos dez anos o mercado mundial desse setor cresceu 93%, no Brasil, esse crescimento foi de 190%, de acordo com dados divulgados pela Anvisa. Segundo o Dossiê Abrasco – um alerta sobre o impacto dos agrotóxicos na saúde, publicado nesta terça-feira no Rio de Janeiro, 70% dos alimentos in natura consumidos no país estão contaminados por agrotóxicos. Desses, segundo a Anvisa, 28% contêm substâncias não autorizadas. “Isso sem contar os alimentos processados, que são feitos a partir de grãos geneticamente modificados e cheios dessas substâncias químicas”, diz Friederich. De acordo com ela, mais da metade dos agrotóxicos usados no Brasil hoje são banidos em países da União Europeia e nos Estados Unidos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), entre os países em desenvolvimento, os agrotóxicos causam, anualmente, 70.000 intoxicações agudas e crônicas.
O uso dessas substâncias está altamente associado à incidência de doenças como o câncer e outras genéticas. Por causa da gravidade do problema, na semana passada, o Ministério Público Federal enviou um documento à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recomendando que seja concluída com urgência a reavaliação toxicológica de uma substância chamada glifosato e que a agência determine o banimento desse herbicida no mercado nacional. Essa mesma substância acaba de ser associada ao surgimento de câncer, segundo um estudo publicado em março deste ano pela Organização Mundial da Saúde (OMS) juntamente com o Inca e a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC). Ao mesmo tempo, o glifosato foi o ingrediente mais vendido em 2013 segundo os dados mais recentes do Ibama.
Em resposta ao pedido do Ministério Público, a Anvisa diz que em 2008 já havia determinado a reavaliação do uso do glifosato e outras substâncias, impulsionada pelas pesquisas que as associam à incidência de doenças na população. Em nota, a Agência diz que naquele ano firmou um contrato com a Fiocruz para elaborar as notas técnicas para cada um dos ingredientes – 14, no total. A partir dessas notas, foi estabelecida uma ordem de análise dos ingredientes “de acordo com os indícios de toxicidade apontados pela Fiocruz e conforme a capacidade técnica da Agência”.
Enquanto isso, essas substâncias são vendidas e usadas livremente no Brasil. O 24D, por exemplo, é um dos ingredientes do chamado ‘agente laranja’, que foi pulverizado pelos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã, e que deixou sequelas em uma geração de crianças que, ainda hoje, nascem deformadas, sem braços e pernas. Essa substância tem seu uso permitido no Brasil e está sendo reavaliada pela Anvisa desde 2006. Ou seja, faz quase dez anos que ela está em análise inconclusa.
O que a Justiça pede é que os ingredientes que estejam sendo revistos tenham o seu uso e comércio suspensos até que os estudos sejam concluídos. Mas, embora comprovadamente perigosos, existe uma barreira forte que protege a suspensão do uso dessas substâncias no Brasil. “O apelo econômico no Brasil é muito grande”, diz Friedrich. “Há uma pressão muito forte da bancada ruralista e da indústria do agrotóxico também”. Fontes no Ministério Público disseram ao EL PAÍS que, ainda que a Justiça determine a suspensão desses ingredientes, eles só saem de circulação depois que os fabricantes esgotam os estoques.
O consumo de alimentos orgânicos, que não levam nenhum tipo de agrotóxico em seu cultivo, é uma alternativa para se proteger dos agrotóxicos. Porém, ela ainda é pouco acessível à maioria da população. Em média 30% mais caros, esses alimentos não estão disponíveis em todos os lugares. O produtor Rodrigo Valdetaro Bittencourt explica que o maior obstáculo para o cultivo desses alimentos livres de agrotóxicos é encontrar mão de obra. “Não é preciso nenhum maquinário ou acessórios caros, mas é preciso ter gente para mexer na terra”, diz. Ele cultiva verduras e legumes em seu sítio em Juquitiba, na Grande São Paulo, com o irmão e a mãe. Segundo ele, vale a pena gastar um pouco mais para comprar esses alimentos, principalmente pelos ganhos em saúde. “O que você gasta a mais com os orgânicos, você vai economizar na farmácia em remédios”, diz. Para ele, porém, a popularização desses alimentos e a acessibilidade ainda levarão uns 20 anos de briga para se equiparar aos produtos produzidos hoje com agrotóxico.
Bittencourt vende seus alimentos ao lado de outras três barracas no Largo da Batata, zona oeste da cidade, às quartas-feiras. Para participar desse tipo de feira, é preciso se inscrever junto à Prefeitura e apresentar todas as documentações necessárias que comprovem a origem do produto. Segundo Bittencourt, há uma fiscalização, que esporadicamente aparece nas feiras para se certificar que os produtos de fato são orgânicos.
No mês passado, o prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT) sancionou uma lei que obriga o uso de produtos orgânicos ou de base agroecológica nas merendas das escolas municipais. A nova norma, porém, não tem prazo para ser implementada e nem determina o percentual que esses alimentos devem obedecer.
Segundo um levantamento da Anvisa, o pimentão é a hortaliça mais contaminada por agrotóxicos (segundo a Agência, 92% pimentões estudados estavam contaminados), seguido do morango (63%), pepino (57%), alface (54%), cenoura (49%), abacaxi (32%), beterraba (32%) e mamão (30%). Há diversos estudos que apontam que alguma substâncias estão presentes, inclusive, no leite materno.
No ano passado, a pesquisadora norte-americana Stephanie Seneff, do MIT, apresentou um estudo anunciando mais um dado alarmante: “Até 2025, uma a cada duas crianças nascerá autista”, disse ela, que fez uma correlação entre o Roundup, o herbicida da Monsanto feito a base do glifosato, e o estímulo do surgimento de casos de autismo. O glifosato, além de ser usado como herbicida no Brasil, também é uma das substâncias oficialmente usadas pelo governo norte-americano no Plano Colômbia, que há 15 anos destina-se a combater as plantações de coca e maconha na Colômbia.
Em nota, a Anvisa afirmou que aguarda a publicação oficial do estudo realizado pela OMS, Inca e IARC para “determinar a ordem prioritária de análise dos agrotóxicos que demandarem a reavaliação”.

Os alimentos mais contaminados pelos agrotóxicos
Em 2010, o mercado brasileiro de agrotóxicos movimentou 7,3 bilhões de dólares e representou 19% do mercado global. Soja, milho, algodão e cana-de-açúcar representam 80% do total de vendas nesse setor.
Segundo a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), essa é a lista da agricultura que mais consome agrotóxicos:
Soja (40%)
Milho (15%)
Cana-de-açúcar e algodão (10% cada)
Cítricos (7%)
Café, trigo e arroz (3 cada%)
Feijão (2%)
Batata (1%)
Tomate (1%)
Maçã (0,5%)
Banana (0,2%)
As demais culturas consumiram 3,3% do total de 852,8 milhões de litros de agrotóxicos pulverizados nas lavouras brasileiras em 2011.

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Cocaína.

A heroína faz de você um zumbi. A maconha relaxa e deixa seus olhos injetados de sangue. A cocaína é outra história, é a droga performática. Com ela você pode fazer qualquer coisa. Antes que ela faça seu coração explodir, antes que seu cérebro vire mingau, antes que seu pau amoleça para sempre, antes que o estômago se torne uma chaga purulenta, antes de tudo isso você trabalhará mais, se divertirá mais, trepará mais. A cocaína é a resposta exaustiva à necessidade mais imperativa da época atual: a falta de limites. Com a cocaína você viverá mais intensamente. Se comunicará mais, primeiro mandamento da vida moderna. Quanto mais você se comunica mais é feliz, quanto mais se comunica mais goza a vida, quanto mais se comunica mais comercia sentimentos, mais vende, vende mais qualquer coisa. Mais. Sempre mais.

No entanto, nosso corpo não funciona com os “mais”. A certa altura a excitação vai se aplacar e o físico voltará a um estado de tranquilidade. E é aí que intervém a cocaína. É um trabalho de precisão, porque deve se infiltrar entre as células, no ponto exato que as divide – a fissura sináptica -, e bloquear um mecanismo fundamental.

É como quando você joga tênis e acaba de meter no seu adversário uma bola irrebatível rente à linha: nesse momento o tempo se congela e tudo é perfeito, a paz e a força convivem em você em total equilíbrio. É uma sensação de bem-estar desencadeada por uma gota microscópica de uma substância, o neurotransmissor, pingada bem na fissura sináptica. A célula se excitou e contagiou aquela ao lado, e assim por diante, até envolver milhões delas num formigamento quase instantâneo. É a vida que acende.

Agora você volta para a linha de fundo, e assim também faz seu adversário, estão prontos para disputar outro ponto, a sensação de antes é uma reverberação distante. O neurotransmissor foi reabsorvido, os impulsos entre uma célula e a outra foram bloqueados. É aqui que aparece a cocaína. Ela inibe a reabsorção dos neurotransmissores, e suas células estão sempre acesas, como se fosse Natal o ano inteiro, com as luzinhas cintilando 365 dias sem parar.

Dopamina e noradrenalina: assim se chamam os neurotransmissores que a cocaína ama loucamente e que não gostaria nunca de perder. A primeira é a que te permite ser o centro da festa, porque agora tudo é mais fácil. É mais fácil falar, é mais fácil paquerar, é mais fácil ser simpático, é mais fácil sentir-se querido. A segunda, a noradrenalina, tem uma ação mais sub-reptícia. Em torno de você tudo se amplificou. Cai um copo? Você ouve antes dos outros. Uma janela que bate? Você percebe primeiro. Te chamam? Você vira antes de terem pronunciado por completo seu nome. É assim que funciona a noradrenalina. Aumenta seu estado de vigilância e de alerta, o ambiente a seu redor se enche de perigos e de ameaças, se torna hostil, você sempre espera sofrer um dano ou um ataque. As respostas de medo-alarme são aceleradas, as reações imediatas, sem filtro. É a paranoia, sua porta escancarada.

A cocaína é a gasolina dos corpos. É a vida elevado ao cubo. Antes de te consumir, de te destruir. A vida a mais com que você parece ter se presenteado, você pagará com juros de agiota. Mais tarde, quem sabe. Porém mais tarde não conta nada. Tudo é aqui e agora.

Saviano, Roberto. Zero zero zero. 1ª ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2014 – pág.43-44.

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Mulher, homem.

Luis Fernando Veríssimo.

O feto começa feminino, depois é que são acrescentados os atributos, digamos assim, masculinos. Por isso os homens tem mamilos, e não sabem o que fazer com eles. Quer dizer: a história biológica do ser humano é exatamente inversa à do seu principal mito de criação, em que a mulher sai de dentro do homem. O mito é não apenas um desmentido do fato, e do feto, como uma apropriação masculina de um feito feminino. Ao pôr o primeiro homem para dormir, retirar sua costela e produzir a primeira mulher, Deus fez uma paródia de parto. E com anestesia, um detalhe que não deve escapar às mulheres, depois condenadas por Ele a padecer de todas as dores da procriação enquanto o homem, responsável por tudo, só é condenado a folhear Caras antigas na sala de espera.

Todos os mitos, desde os inaugurais, como toda a cultura humana, têm sido masculinos, num contraponto ressentido com a história biológica, verdadeira, feminina da espécie. Freud, que sendo homem, era suspeito, inventou que a mulher tem inveja do pênis. O homem é que não aguenta a ideia de não estar aparelhado, como a mulher, para se integrar aos grandes dramas reincidentes da natureza, ovulando de acordo com as fases lunares, gestando, parindo e amamentando filhos, e identificando-se com os ciclos de fertilidade da Terra, sentindo as variações de clima e de idade com mais intensidade do que os homens, e ainda encontrando tempo para ir ao cabeleireiro, almoçar com as amigas e dirigir empresas. Enquanto ele fica de lado, como um penetra, esperando em vão que a vida o chame para as suas graves verdades, e obrigado a inventar uma história de fantasia paralela à história biológica.

A civilização se explica como uma angústia de potência do homem. O que Freud quis dizer era que a mulher invejava o poder falocrata, ou justamente o que o homem inventou para compensar o fato de não ser mulher. Outro mito usurpador.

Em tempo: esta manifestação não é encomendada e não, não pretendo mudar de sexo. É que sempre fui simpatizante.

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Gengis Khan.

Daniel Luis Dalberto

Não há prazer maior que vencer seus inimigos e persegui-los. Tirar suas riquezas e ver seus entes queridos irromper em lágrimas. Montar seus cavalos e ultrajar as suas mulheres e filhas”. Gengis Khan.

O verdadeiro nome de Gengis Khan era Temudjin. Nasceu perto do lago Baikal, na Ásia Central, por volta de 1160.

A ascensão ao poder de Temudjin começou quando recebeu sob seu comando um exército de cerca de 20 mil homens, subvencionado por tribos vizinhas com o propósito de resolver uma disputa entre clãs rivais. Por volta de 1206, quando estava com cerca de 40 a 50 anos de idade, ele superou todos os possíveis rivais e foi aclamado como Chingiz Khan (monarca universal).

Os mongóis eram os cavaleiros mais exímios que o mundo já conhecera. A partir do momento que aprendiam a andar, passavam a vida sobre uma sela. Eram ferozmente competitivos e mantinham prontidão para o combate com provas e jogos que eram disputados continuamente.

Durante os 3 mil anos em que esses nômades dominaram a estepe seu caráter belicoso e rapidez de deslocamento infundiram terror do Danúbio ao Yangtze. Equipavam-se com arcos poderosos e foram os inventores do estribo, que lhes dava uma capacidade fenomenal de disparar flechas com precisão cavalgando em alta velocidade. Para atacar cidades muradas, usavam escadas, catapultas pesadas, bestas gigantes, cortinas de fumaça e óleo quente. Sua mais importante arma era a surpresa, dada por mobilidade enorme. A tática blitkrieg que deu enormes vantagens ao exército alemão na segunda guerra tem enorme semelhança com os deslocamentos dos exércitos de Gengis Khan.

Gengis Khan criou a máquina de guerra mais poderosa que o mundo já vira. Unindo coragem, crueldade e um toque de genialidade, conquistou o maior território dominado por um governante até então. Seus métodos continuaram a ser estudados nas academias militares setecentos anos após sua morte. Dois fenomenais comandantes de exércitos da Segunda Guerra Mundial – o general americano George S. Patton e o marechal de campo alemão Erwin Rommel – eram admiradores confessos e estudiosos de suas táticas.

Os exércitos de Gengis Khan ao chegarem numa cidade, exigiam sua rendição. Se seus cidadãos obedecessem, eram levados como escravos e a cidade era arrasada por completo. Se tentassem se defender, a população toda era passada no fio da espada e a cidade era igualmente arrasada por completo. Às vezes a população de uma cidade era trucidada apenas para infundir medo na cidade seguinte.

Quando os mongóis atacaram a terra luxuriosa e civilizada do Iraque, destruíram brutalmente as obras de irrigação que haviam levado anos para serem aperfeiçoadas, e deram início ao processo de desertificação de que o país sofre até hoje. Massacres e carnificinas eram sua marca registrada. Quando avançavam em direção aos muros de uma cidade bem protegida, compeliam seus prisioneiros a irem à frente e formarem um escudo humano. Quando tomaram a cidade de Bagdá, assassinaram todas as pessoas que encontraram e queimaram toda a literatura. Dizem que por dias o rio Tigre correu vermelho de sangue. Fingiram terem deixado a cidade e duas semanas após retornaram para matar todos os sobreviventes.

Outra característica da violência dos mongóis era a prática sistemática de estupros. Documentos escritos durante ou após o reinado de Gengis Khan relatam um número enorme de estupros, que deixou até hoje nos povos submetidos traços asiáticos. Um estudo realizado em 2002 concluiu que 8% da população da região anteriormente ocupada pelo Império Mongol podem ser descendentes de Gengis Khan. Um outro estudo de 2007 afirma que 34,8% dos atuais mongóis são descendentes de Gengis Khan.

Em 1226, quando tinha cerca de 70 anos de idade, Gengis fez planos para subjugar toda a China, onde seus generais vinham enfrentando problemas. A caminho do país, no verão de 1227, ele sofreu uma queda enquanto caçava e teve uma hemorragia no estômago. Deu ordens precisas antes de morrer para concretização da campanha e divisão do império. Seu filhos Ogodei e seu neto Kublai Khan seguiram nas conquistas e carnificinas. Após sua morte, o exército acompanhou seu corpo em um cortejo longo e silencioso, de volta à capital nas estepes. Todos os que foram encontrados pelo caminho foram mortos, para assegurar que a notícia de sua morte não precedesse a chegada de seu corpo.

Estima-se que sob o comando de Gengis Khan foram mortas quatro milhões de pessoas. Número assustador considerando-se que a população mundial da época era de 300 milhões de pessoas. Proporcionalmente com a população mundial atual, corresponderia hoje à matança de 90 milhões de pessoas.

Fontes: Uma breve história do mundo. Geoffrey Blainey.

A história do homem. Cyril Aydon.

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Paisagens do Guaporé e do Mamoré II