DEMOCRACIA

Se votar fizesse alguma diferença, eles não nos deixariam fazê-lo. Mark Twain.

Democracia deveria ser algo mais do que dois lobos e um cordeiro votando no cardápio do jantar. Autor incerto.

As leis são teias de aranha pelas quais as moscas grandes passam e as pequenas ficam presas. Honoré de Balzac.

A democracia é uma forma de governo que prevê a livre discussão, mas que só é atingida se as pessoas pararem de falar. Clement Atllee.

O grande problema de nosso sistema democrático é que permite fazer coisas nada democráticas democraticamente. José Saramago.

O melhor argumento contra a democracia é uma conversa de cinco minutos com um eleitor médio. Winston Churchill.

Democracia é um sistema que faz com que nunca tenhamos um governo melhor do que merecemos. Bernard Shaw.

A hipótese da savana. Ou como você pode sentir-se em casa.

Daniel Luis Dalberto.

Como escreveu um cientista, a evolução é uma coisa assombrosa, capaz de transformar um protoprimata minúsculo, de olhos esbugalhados, agarrado às árvores e esmagador de insetos, na Paola Oliveira (esta é por minha conta, na frase do cientista foi citada a Julia Roberts).

Se regredirmos 350 mil gerações humanas e pré-humanas acharemos nossa mãe comum com a dos chimpanzés, em cima de uma árvore, peluda e com jeito de macaco. Em 2013 a revista Nature publicou artigo de Cristopher Beard, do Museu de História Natural Carnegie, de Pittsburgh, sobre a descoberta, às margens do Rio Amarelo na China, de um minúsculo fóssil, muito bem preservado, de 55 milhões de anos. O fóssil, estudado exaustivamente por dez anos num dos laboratórios de imagem mais modernos do mundo, “literalmente pôs de pé o mamífero”, disse o paleoantropólogo Paul Tafforeau. Para tal feito, foram analisadas, com tecnologia de ponta, mais de mil características de 157 mamíferos, contando com a colaboração de diversos museus, de modo que não há controvérsia sobre o lugar que ocupa o protoprimata na árvore evolutiva: o Archicebus achilles é o ancestral dos társios (os lêmures do desenho Madagascar) e dos antropóides (macacos, símios e você).

Nos tempos dos nossos ancestrais em fase mais adiantada, “macaco começando a descer das árvores e andar ereto”, na Tanzânia, descobriu-se um registro primitivo pelo qual se conclui que dois adultos e uma criança caminhavam sobre cinza vulcânica amolecida por uma chuva recente. A seguir, suas pegadas foram cozidas pelo sol e, aos poucos, foram cobertas por camadas de terra. As pegadas, definitivamente humanas, tem pelo menos 3,6 milhões de anos.

Essas dezenas de milhões de anos na Ásia e mais alguns milhões de anos na África moldaram nossas emoções e solidificaram instintos presentes e atuantes. Importante sempre levar em conta os milhões de anos passados e o modo de vida pouco mutável nesse longo período, para constatar que muito rapidamente mudamos radicalmente a maneira de viver, em especial por termos nos tornado sedentários, vivermos em grupos numerosos, abrigados em casas e por termos considerável controle sobre a natureza, a fome e a sede. Grandes revoluções para quem “ontem” tinha a dificílima e árdua tarefa diária de procurar abrigo e comida, sempre cuidando para não virar alimento de algum animal mais forte, situação que nos levou diversas vezes à beira da extinção.

Em termos biológicos, o pensamento abstrato e a consciência surgiram recentemente. E, de modo algum, substituíram os sentimentos primitivos. Como exemplo disso, basta analisar a seguinte situação: No mundo atual, em que a maior parte da população vive em ambientes urbanos, são irrisórios, quase inexistentes, mortes ou graves problemas decorrentes de picadas de cobra ou de aranha. Já, acidentes letais com eletricidade são muito mais comuns. No entanto, as pessoas costumam se assustar ao se depararem de surpresa com cobras e aranhas, mesmo que seja com simples imagens desses animais. Já, ao se depararem com um fio elétrico desencapado ou ante uma imagem de um fio elétrico desencapado pelo chão, o “enfrentamento” costuma ser racional, sem sobressaltos. A conclusão disso é que o instinto de sobrevivência primitivo continua a agir, mesmo que para certas situações da vida moderna, quase não tenha mais utilidade.

Fato é que vivendo o último e longo período evolutivo, de centenas de milhares de anos na África, nos atuais Quênia, Tanzânia e Etiópia, em cenários de floresta e savana, procurando refúgio para não virar presa e ao mesmo tempo buscando visão panorâmica, de preferência avistando um curso d´água e bandos de caça, moldamos nosso gosto, senso estético e sensações em relação ao meio ambiente, que permanecem muito nítidas nos dias atuais.

Um biólogo da Universidade de Washington, Gordon Orians, desenvolveu uma teoria chamada “hipótese da savana”, que sustenta que certos sinais do habitat, que eram uma questão de vida e morte, sobrevivem até hoje como a base genética de nossa sensibilidade estética.

Nossa preferência se dava pela borda da savana – abrigados em árvores mas com visão da planície – de preferência, repleta de antílopes. Por isso, possivelmente nosso maior predador tenha sido o leopardo, que vive exatamente nesse ambiente de árvores à borda da savana.

A hipótese da savana diz que o melhor panorama possível inclui a promessa de alimento para o jantar: água correndo e mamíferos pastando bucolicamente. Também, flores em primeiro plano, não só por sua beleza, mas por sua promessa de frutos e mel.

Conforme expõe Richard Connif, em “História Natural dos Ricos, “qualquer um que já tenha contemplado o magnífico centro de mesa de um baile de caridade, ou das páginas de Town and Country, sabe que preferimos flores grandes e assimétricas, traços que se correlacionam com um teor maior de néctar. As flores e os rebanhos no pasto são um bom remédio, literalmente. Nos acalmam com a promessa de prosperidade futura”.

Roger Ulrich, pesquisador da Universidade do Texas A&M, mostrou que as pessoas que assistem a um vídeo tranquilizador sobre a natureza, depois de uma experiência estressante, exibem tensão muscular e batimentos cardíacos acentuadamente menores, passados apenas em cinco a sete minutos. Ele monitorou pacientes submetidos a uma cirurgia de vesícula, constatando que aqueles colocados em quartos com vista para as árvores precisaram de muito menos analgésicos do que os pacientes cujos quartos davam para uma parede de tijolos.

Conforme explica Richard Conniff, pesquisas e experimentos realizados por biólogos indicam que as pessoas de diferentes culturas reagem positivamente aos mesmos componentes da paisagem: pradarias, grupos dispersos de árvores frondosas, mudanças na elevação do terreno, trilhas sinuosas e clareiras bem iluminadas, de preferência parcialmente obscurecidas pela folhagem em primeiro plano. Essa é uma paisagem que convida à exploração, prometendo recursos e refúgio ao mesmo tempo. As mudanças de elevação – a visão das montanhas distantes, por exemplo – proporcionam um marco que ajuda o observador a se orientar no panorama, exatamente como os afloramentos rochosos que pontilham as vastas extensões do vale do Serengeti.

É interessante observar que os que podem escolher suas moradias, os mais ricos, desde os tempos de Herodes e dos castelos medievais, mantém o mesmo estilo. Gostam de construir suas casas no padrão “visão panorâmica e refúgio”: no alto de um morro; de frente para o mar; num penhasco diante de uma baía, apartamentos de cobertura com vista para o Central Park; para o Parcão em Porto Alegre ou mansões suspensas nos Jardins em São Paulo. Ou seja, visão sem ser visto, de preferência em locais arborizados mas abertos.

Quanto mais cara a casa, maior a probabilidade que inclua traços arquitetônicos que combinem a visão panorâmica e o refúgio, teoria elaborada pelo geográfo britânico Jay Appleton: sacadas, balaustradas, janelões, deques, cúpulas, torres, varandas, terraços com pérgulas cobertas de vinhas, treliças e mirantes. Richard Conniff estudou esses aspectos nas mansões dos milionários ingleses e constatou que as tendências de savanificação da aristocracia britânica remontam pelo menos ao tempo dos normandos.

O filho de Guilherme, o Conquistador, Henrique I, que reinou de 1100 a 1135, introduziu leões, leopardos e outros animais exóticos em seu parque murado de caça em Woodstock, na área que é hoje o palácio de Blenheim. Os novos projetos paisagísticos do magnífico local, incluem paisagem sublime de rusticidade cultivada, toda feita de campos de relva e bordas florestais sinuosas, com ovelhas pastando em seus vastos gramados, faias ornamentais, com ramagem baixa e farta esparramando-se como um eterno refúgio, para que nenhum Churchill seja incomodado pelos ônibus de turistas que passam pelo local. Estar nesses lugares, diz Conniff, “é como estar numa floresta à beira de uma clareira”

Assim, quando você for construir, comprar ou decorar sua casa, não esqueça da teoria da savana para potencializar seu conforto e tranquilidade, com a sensação gostosa de estar de fato sentido-se em casa.

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A Pena de Morte

Por Paulo Sant´Ana (Zero Hora de 15/02/2015)

Andei pensando em escrever uma coluna sobre a pena de morte, queria aconselhar que ela fosse adotada. Como sabem, depois de muitos anos sendo contra a pena de morte, resolvi que ela é necessária.
Mas pensei e não escrevi aquela coluna. Afinal, já existe e corre solta no Brasil a pena de morte.
A pena de morte é aplicada aos milhares nas penitenciárias brasileiras, aqui no nosso Presídio Central e em todas as cadeias.
Funcionam nos presídios os conselhos de pena de morte constituídos pelos presos, que decidem que ela deve ser aplicada e a seguir a executam.
Essa pena de morte difusa que aplicam nos presídios é muito mais cruel do que se fosse institucionalizada, oficializada.
Porque ela é aplicada com punhaladas sobre o sentenciado. Três ou quatro presos seguram o condenado numa cela e um outro vai apunhalando-o até a morte, às vezes até esperam que sobrevenha a morte, deixam o condenado estremunhando num canto da cela e saem dali com seu dever cumprido.
Por sinal, qualquer pessoa que hoje é enviada a um presídio tem um destino certo: ou matará pela pena de morte ou será executada por ela, não tem outra saída.
Os julgamentos são sumários, às vezes presenciados coletivamente e outras vezes reservados.
Num ponto, a pena de morte aplicada nos presídios brasileiros é mais piedosa do que a aplicada nos Estados Unidos, por exemplo.
Na nossa pena de morte, não existe o corredor da morte, onde por anos os condenados ficam esperando aflitamente a execução.
Aqui, não. Julga-se o condenado num dia, condena-se-o e no mesmo dia é executado: não fica assim o condenado penando por anos sua execução, é tudo sumário, ninguém sofre por esperar.
No Brasil, um número infinitamente maior de pessoas é punido com a pena de morte do que nos lugares em que ela é oficializada. Mil vezes mais, há execuções todos os dias. E as execuções são mais cruentas.
Nos países em que é adotada a pena de morte, o condenado sofre apenas uma descarga elétrica ou é dependurado numa corda.
Aqui, não. São punhaladas doloridas, impiedosas e demoradas.
Nesse ponto, somos mais implacáveis.

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Crise atual, tributação e justiça fiscal no Brasil.

Daniel Luis Dalberto

O Brasil acordou em 2015, pós-eleição, em plena crise: Inflação alta, população endividada, baixo crescimento econômico e resultados preocupantes nas contas públicas, os piores em 20 anos. O governo, pelo novo ministro da fazenda apresentou uma série de medidas de austeridade, apelidadas de “pacote de maldades”. Nessas medidas está o aumento de impostos, que vem com o claro recado que há despesas demais e dinheiro de menos nas contas do governo.

No momento em que a sociedade é chamada uma vez mais a contribuir com aumento de impostos, convém fazermos uma análise sobre o modelo de tributação no Brasil, sobre as opções políticas feitas pela sociedade através de seus eleitos, ainda mais porque sabemos que há muito, quase tudo a se fazer nesse país: escolas de qualidade, rede hospitalar, ferrovias, estradas, segurança pública, enfim, infinitas demandas e escassos recursos. Assim, é preciso pensar em quem pode ou quem deve pagar a conta do progresso e do necessário avanço nos direitos sociais.

Essa reflexão tem de ser feita sobre o sistema tributário todo. Vou tratar apenas de um importante tributo, o imposto de renda. No entanto, a raiz do problema aqui é a mesma do sistema todo, de modo que o raciocínio é válido para todos os demais tributos e para o sistema como um todo. Vejamos a tabela do imposto de renda:

Tabela Progressiva para o cálculo mensal do Imposto sobre a Renda da Pessoa Física a partir do exercício de 2015, ano-calendário de 2014.

 

Base de Cálculo (R$)

Alíquota (%)

Até 1.787,77

-

De 1.787,78 até 2.679,29

7,5

De 2.679,30 até 3.572,43

15

De 3.572,44 até 4.463,81

22,5

Acima de 4.463,81

27,5

Nem seria preciso fundamentar muito sobre a extrema injustiça materializada na tabela. Ela “grita”. Observe:

Um trabalhador que recebe brutos R$ 4.500,00 ao mês, paga 27,5% de imposto de renda. E paga mais 11% de contribuição ao INSS. Assim, deixa em tributos 38,5% do que ganha, já retido na fonte. E terá de sustentar sua família com menos de três mil reais. Com esse valor, terá também de pagar todos os demais tributos diretos (IPVA, IPTU e outros) e tributos indiretos (IPI, Cofins, ICMS, etc). E como sabemos, é comum que seja forçado a pagar para ter serviços de qualidade mínima, para os quais pagou muito imposto e que o Estado deveria lhe proporcionar, como saúde, educação, segurança, pedágio, etc e etc.

Mas como dito acima, o país é pobre, há muito por fazer, e todos precisam suar e cortar na própria carne para o bem comum, não é? É o que parece à primeira vista na tabela acima, pois tributa no imposto de renda até quem recebe brutos R$ 1.800,00 ao mês.

Assim, se o governo tributa com tanta voracidade cidadãos pobres ou remediados, é de se esperar que o leão morda com mais força os mais abastados. Afinal, como diz nossa Constituição no art. 145 “sempre que possível, os impostos terão caráter pessoal e serão graduados segundo a capacidade econômica do contribuinte”. E no art. 153, I, diz que “o imposto de renda será informado pelo princípio da progressividade”. Tudo de acordo com o que já dizia Aristóteles, 400 anos de Jesus Cristo nascer: “devemos tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida de sua desigualdade.”

Ocorre que a precariedade geral dos serviços públicos e a pífia infraestrutura da nação destoam sobremaneira da quantidade de riqueza existente no Brasil, afinal somos a oitava economia do mundo. Segundo a consultoria Wealthinsight, o Brasil possui 194 mil pessoas com patrimônio acima de um milhão de dólares; São Paulo tem a maior frota de helicópteros do mundo e o Brasil tem a segunda maior frota de jatos executivos do mundo, atrás apenas do USA. No Brasil temos dificuldade até em saber quais os números confiáveis da distribuição de renda, escondidos atrás do manto de um questionável sigilo fiscal. No entanto, há estudos confiáveis que apontam que 0,9% da população detém 68,49% da riqueza nacional.

Como dito acima, o sistema todo precisa ser repensado, inclusive para que a tributação recaia de maneira mais significativa sobre o patrimônio, como funciona em países desenvolvidos como os USA. No entanto, é inconcebível sob o mais básico senso de justiça que, como bem demonstra a tabela acima, quem receba 20, 40, 100, 500 mil reais por mês, contribua com a mesma alíquota do cidadão que recebe R$ 4.500,00.
E a injustiça fiscal não para aí. É ainda muito pior. Desde 1996 os dividendos, lucros das empresas, valores que é comum sejam muito elevados, são isentos de imposto de renda. Ou seja, o proprietário, o acionista majoritário de grandes empreendimentos, não paga imposto de renda sobre os rendimentos provenientes do resultado de suas empresas. E quem defende essa regra diz que a pessoa jurídica já recolheu imposto de renda, logo seria bitributação cobrar imposto de renda do empresário. Com todo respeito, o raciocínio é tacanho. Ou a pessoa jurídica tem independência em relação ao sócio, para todos os efeitos, ou não tem. Também, por dever de coerência, esse raciocínio deveria então valer também para as pessoas físicas dos empregados, que também não deveriam pagar imposto de renda sobre seus salários, afinal a empresa já pagou. E a coisa não para por aí.

A lei permite que apresentadores de TV, atores, treinadores e jogadores de futebol sejam considerados empresas para efeitos tributários na sua prestação de serviços e assim sejam tributados à alíquota de 15% de imposto de renda. É o famoso jeitinho brasileiro em forma de lei: criou-se uma figura esdrúxula para beneficiar abastados, “empresas” de uma pessoa só, que prestam serviço personalíssimo e exclusivo a um único cliente, tv globo, band, flamengo, corinthians e congêneres.
Assim, equiparamos na tributação do imposto de renda quem recebe 3 mil reais e o jogador de futebol ou o apresentador de TV que recebem 500 mil reais por mês. Isentamos quem eventualmente recebe três milhões de reais de dividendos ao ano e tributamos quem recebe dois mil reais por mês. E como fica o respeito à norma constitucional que determina que o imposto de renda seja aplicado segundo a capacidade econômica do contribuinte? E o art. 150 da Constituição que diz que é vedado instituir tratamento desigual entre contribuintes que se encontrem em situação equivalente? Letras mortas. Enquanto isso, para os rendimentos mais expressivos, países desenvolvidos como a Suécia, faz a alíquota do IR chegar a 58,2%, a Alemanha a 51,2%, o Canadá a 43%, o Japão e o Chile a 45,5%. Nos USA, a alíquota máxima de 35% só alcança os que recebem acima de U$ 379,150.00 ao ano. Já aqui, a alíquota máxima de 27,5% é alcançada com rendimentos de 20 mil dólares ao ano.

O Brasil, se quiser de fato avançar, melhorar o vexatório índice de desenvolvimento humano e reduzir uma das piores desigualdades sociais do planeta, precisa fazer reflexões, autocríticas, e ter coragem de fazer mudanças profundas. Não há nada de errado na existência de milionários e pessoas remuneradas à ordem de centenas de milhares de reais ao mês. Pelo contrário, normalmente são pessoas competentes, dedicadas, indutores de desenvolvimento da nação. A questão que se impõe é de outra ordem. Estamos todos navegando no mesmo barco, que está em péssimas condições e ameaçando afundar. O problema é de todos e solução precisa da contribuição de todos também, segundo sua capacidade. Se essas questões não forem vistas e tratadas dessa forma por racionalidade, os fatos hão de se impor na marra, aliás, tem se imposto, pois o asfalto está muito próximo do morro.

Paisagens do Guaporé e do Mamoré

TERRA

Estudo climático coloca a humanidade em “zona de perigo”

As mudanças no clima e o alto número de animais e plantas em extinção estão empurrado a Terra a uma “zona de perigo” para a humanidade. Esta é a conclusão de um estudo científico feito por 18 especialistas internacionais, grupo liderado por Will Steffen da Australian National University, que acaba de ser publicado no renomado jornal Science.

De acordo com o Daily Mail, os pesquisadores pretendiam ampliar um relatório semelhante desenvolvido em 2009 sobre “fronteiras planetárias” para o uso seguro de seres humanos.

A investigação mostra gráficos que comparam a “grande aceleração” da atividade humana desde o início da revolução industrial (em 1750) até 2010 com as consequentes alterações na Terra – nos níveis de gases de efeito estufa, da acidificação do oceano, do desmatamento e da degradação da biodiversidade, por exemplo.

“Fica difícil estimar a escala e a velocidade dessas mudanças. Em uma única vida, a humanidade se tornou uma força geológica em escala planetária. Eu não acho que nós quebramos o planeta, mas estamos criando um mundo muito mais difícil. Quatro limites foram cruzados, colocando a humanidade em uma zona de perigo”, explicou Steffen à publicação.

Os limites ultrapassados citados por ele foram em mudanças climáticas, perda de espécies, uso da terra e poluição por fertilizantes. Entre 9 limites avaliados, uso de água limpa, acidificação do oceano e esgotamento do ozônio foram considerados dentro dos limites seguros. Outras, como níveis de poluição de carbono, ainda estão sendo analisadas.

Raras Fotografias Históricas

Polar she-bear with cubs. The polar she-bear  with two kids on snow-covered coast.

Estudo aponta diminuição de 52% dos animais vertebrados desde 1970

O Relatório Planeta Vivo, da WWF, mostrou que as populações mundiais de peixes, pássaros, mamíferos, anfíbios e répteis caíram pela metade entre 1970 e 2010.

“Este dano não é inevitável, mas uma consequência da maneira que escolhemos para viver”, disse, em um comunicado, Ken Norris, diretor de ciência da Sociedade Zoológica de Londres. A declaração foi feita por conta do resultado apresentado pelo Relatório Planeta Vivo, do Fundo Mundial para a Natureza (WWF, na sigla em inglês), na última segunda-feira.

A pesquisa, publicada pela entidade a cada dois anos, mostrou que as populações mundiais de peixes, pássaros, mamíferos, anfíbios e répteis diminuíram 52% entre 1970 e 2010, situação muito mais grave do que a antecipada.

O relatório mostrou que as exigências da humanidade são 50% maiores do que o meio ambiente pode suportar. Assim, o desmatamento, o desperdício de água e as emissões de CO² estão acontecendo mais rapidamente do que a terra pode se recuperar.

Apesar de todos os problemas, o contexto ainda tem condições de se inverter, garantem ambientalistas.

“É essencial aproveitarmos a oportunidade – enquanto podemos – para desenvolver a sustentabilidade e criar um futuro no qual as pessoas possam viver e prosperar em harmonia com a natureza”, afirmou o diretor-geral internacional da WWF, Marco Lambertini.

O “Índice Planeta Vivo”, da WWF, se baseia em tendências nas 10.380 populações de 3.038 espécies de peixes, pássaros, mamíferos, anfíbios e répteis. A pior diminuição aconteceu entre os peixes de água doce, que diminuíram em 76% ao longo de quatro décadas até 2010. Já os animais marinhos e terrestres sofreram uma queda de 39%. Os maiores declínios aconteceram nas regiões tropicais, especialmente na América Latina.

Fonte, clique aqui.

Aumento Populacional x Desiquilíbrio Ambiental

Breves reflexões sobre aumento populacional e desequilíbrio ambiental.

por Daniel Luis Dalberto

Os aumentos e declínios da população mundial ao longo da história são decorrências da nossa capacidade tecnológica e social de preservar a vida e de nos alimentar. Cérebro grande e comunicação capacitaram os humanos a procurarem e compartilharem informações sobre plantas comestíveis e técnicas para matar animais de seu próprio tamanho e até maiores. A linguagem e a escrita possibilitaram transmitir importantes e vitais ideias às gerações posteriores, como a fabricação e utilização de ferramentas e o uso do fogo. Com a escrita as informações puderam ser passadas de uma geração para outra sem precisar esperar que o tão lento processo de mutações aleatórias e seleção natural as codificasse na sequência de DNA.

Conforme demonstra o quadro abaixo, a população humana tem crescido constantemente, salvo alguns contratempos como a peste negra, que dizimou mais ou menos um terço da população europeia no séc. XIV ou as epidemias na China do ano 100 ao ano 500 d.C., que reduziu sua população de 60 para 25 milhões.

No entanto, indubitavelmente, nos últimos 200 anos o crescimento populacional tornou-se exponencial. Atualmente a taxa de crescimento é de 1,9 por cento ao ano. Pode parecer pouco, mas significa que a população mundial dobra a cada 40 anos. E uma coisa é dobrar uma população de 50 ou 100 milhões de pessoas. Outra bem diversa é dobrar uma população de 7 bilhões de pessoas, ainda mais considerando que cada pessoa produz mais de 1kg de lixo e necessita de 110 litros de água por dia, segundo a ONU.

Veja-se, pelo demonstrativo abaixo, que levamos 70 mil anos para aumentar em 490.000 pessoas nossa população. Mesmo mais recentemente, do ano 1.000 a.C. a 1.000 d. C., portanto num período de dois mil anos, a população aumentou 280 milhões de pessoas. Hoje, esse aumento populacional que demandou dois mil anos requer apenas dois anos, pois a cada ano a população do planeta aumenta 140 milhões de pessoas.

Segundo Stephen Hawking, se o aumento da população e do consumo de eletricidade continuarem no ritmo atual, em 2.600 as pessoas ficarão ombro a ombro e o consumo de eletricidade deixará a Terra incandescente. (Hawking, Stephen. O universo numa casca de noz. 6. ed. Editora Arx).

É assombroso constatar que a menos de 100 mil anos éramos cerca de 10 mil pessoas – a população de uma pequena cidade – vagando em pequenos bandos, grupos familiares de 20 a 30 indivíduos pela savana africana, numa área com duas vezes o tamanho da França, e hoje somos mais de 7 bilhões de pessoas, todos descendentes daquele pequeno quantitativo, espalhados por todos os cantos do planeta.

Há apenas uma geração as evidências de mudanças climáticas eram tão incertas que era sensato duvidar de suas implicações e opor-se a mudanças em larga escala nos padrões de produção e consumo. Hoje, já são notórios os efeitos da mudança climática provocada pelo homem.

O recurso mais fundamental para a sobrevivência dos seres humanos enfrenta crise de abastecimento. Estima-se que 40% da população global viva hoje sob a situação de estresse hídrico. Essas pessoas habitam regiões onde a oferta anual é inferior a 1.700 metros cúbicos de água por habitante, limite mínimo considerado seguro pela ONU.

A Terra já passou por alguns períodos de grandes extinções de seres vivos. Agora, diversos pesquisadores sugerem que a Terra está passando por uma sexta extinção em massa. No entanto é a primeira vez que acontece por interferência do homem, sem que se tenha qualquer quadro seguro das consequências que advirão.  Isso está ocorrendo por causa da perda do habitat das espécies para construções, agricultura e pecuária, pela poluição da água, do solo (agrotóxicos) e do ar (fumaças de queimadas e combustão de carros e indústrias), mudanças climáticas, entre outras.

A história humana conheceu inúmeros triunfos, bem como períodos críticos em que nossa espécie esteve próxima da extinção. Hominídeos inteligentes e fortes como os neandertais e o homo floresiensis foram extintos, ao que tudo indica simplesmente por estarem no lugar errado e na hora errada, como por exemplo em regiões muito setentrionais quando houve mudança climática que ocasionou uma nova era glacial, ou uma grande seca somada a alguma epidemia.

Nesse momento ímpar da história humana, estamos diante de um período crítico e não se vê  preocupação de mesma estatura com os assustadores problemas do desequilíbrio climático, da poluição, da redução da água potável e áreas agricultáveis no planeta. Recentemente o Globo Repórter tratou do tema da perda do habitat dos animais silvestres pelos avanços das cidades e plantações no Brasil. Tal fenômeno ocorre no mundo todo, ameaçando os últimos redutos de vida selvagem do planeta, como a floresta tropical asiática e as savanas africanas.

James Lovelock, doutor honoris causa de uma dezena de universidades ao redor do mundo, autor da “teoria de Gaia”, segundo a qual a Terra se comporta como um só organismo vivo, preconiza uma nuclearização maciça da eletricidade mundial e sugere inclusive que uma parte de nossa alimentação seja produzida artificialmente, em fábricas, para minimizar a utilização do espaço natural. Ele diz que o momento atual é de uma “retirada sustentável”, mais do que um “desenvolvimento sustentável”. Para ilustrar a situação ele costuma usa a metáfora de Napoleão às portas de Moscou em 1812: “Acreditamos ter vencido todas as batalhas, mas a verdade é que avançamos demais, temos demasiadas bocas para alimentar e o inverno se aproxima…” Esse cientista é tão respeitado quanto polêmico. No entanto é preciso sempre termos em mente que essas questões são naturalmente polêmicas porque acabam contrariando fortes interesses econômicos de multinacionais e de países influentes.

A ordem do dia tem sido a busca do aumento da produção de energia e aumento do consumo, para que haja crescimento econômico e aumento dos lucros. É quase inexistente a real preocupação com a sustentabilidade a médio e longo prazo. “Retirada sustentável” então, é quase blasfêmia.

São grandes entraves ao enfrentamento responsável desses assuntos o fato de serem conduzidos isoladamente pelos países, que buscam freneticamente “índices positivos” na sua economia. A ONU, apesar das ótimas intenções, tem obtido avanços tímidos. Também, há as influências nas decisões das nações exercidas pelas grandes corporações internacionais, que visam basicamente ao lucro e ao estímulo o aumento do consumo.

Resta saber se e como a humanidade vai enfrentar essas questões urgentes antes que seja tarde para a busca do equilíbrio ambiental do planeta e de um modo vida sustentável a todos os habitantes da Terra. Temos essa imensa responsabilidade. Nossa omissão agora poderá ser condenada pelas gerações vindouras que terão de arcar com as consequências de nossa irresponsabilidade.

Seguem alguns dados publicados pela revista Science sobre o aumento da população mundial:

  1.  Desde que descemos das árvores nas savanas da África, levamos 5 milhões de anos para chegarmos à marca de um bilhão de pessoas, no ano de 1800.
  2. Cem anos mais tarde, já éramos 1,6 bilhão. Hoje somos 6,1 bilhões. Embora incertas, as previsões para 2050 são de 9 bilhões; e de 10 bilhões, para 2100.
  3. Foram necessários 130 anos (1800 a 1930) para irmos de 1 para 2 bilhões. Em apenas 60 anos (1950 a 2010) juntaram-se a nós mais 4 bilhões. O próximo bilhão será acrescido em apenas 13 anos.
  4. Entre 1950 e 2010, a expectativa de vida ao nascer na América Latina aumentou de 51 para 73 anos; de 38 para 55 na África; de 42 para 69 na Ásia; de 65 para 75 na Europa; e de 68 para 78 na América do Norte. O ganho médio foi de 20 anos.
  5. O crescimento populacional mais rápido na história da humanidade aconteceu entre 1965 e 1970. Desde então esse aumento caiu pela metade: a taxa de fertilidade global diminuiu de 5 filhos por mulher, em 1950, para a média de 2,5 em 2010. Nos países em desenvolvimento, a queda foi de 6 para 3  (sem contar a China, por causa da política de filho único).
  6. A queda esconde grandes diferenças regionais, no entanto. Enquanto a mulher europeia ou norte-americana tem menos de dois filhos, a africana que vive nos países situados abaixo do deserto do Saara ainda dá à luz a mais de cinco.
  7. Parte expressiva do crescimento populacional dos últimos 50 anos ocorreu graças ao aumento da expectativa de vida nos países em desenvolvimento, resultado dos avanços em saúde pública e do acesso à alimentação.
  8. Virtualmente, todo o crescimento que nos espera até 2050 será por conta dos países em desenvolvimento: quanto mais pobre, mais alta a natalidade. As taxas de crescimento serão mais altas na África, mas em números absolutos é na Ásia que o total de habitantes aumentará mais.
  9. Até 2050, a população da América Latina deverá ir de 590 para 750 milhões. A da África, irá de 1 bilhão para 2,2 bilhões.
  10. Nos países em desenvolvimento, o grande número de crianças e de jovens assegura aumento rápido da população. O envelhecimento dos que vivem nos países mais ricos aponta a direção oposta. Enquanto abaixo do Saara 43% dos habitantes têm menos de 15 anos e apenas 3% já completaram 65 anos, na Europa 16% estão na primeira condição e outros 16% na segunda.
  11. Em 1950, de cada três habitantes do planeta, dois viviam nos países mais pobres. Em 2050, a proporção entre pobres e ricos será de 6 : 1
  12. Em 2050, os países desenvolvidos não contarão com trabalhadores jovens em número suficiente para cobrir os gastos da previdência com seus conterrâneos mais idosos. Já naqueles em desenvolvimento faltarão empregos para os que chegarem à idade de trabalhar. O contingente de emigrantes internacionais crescerá.
  13. Nos países mais ricos, há 4 trabalhadores para cada aposentado; em 2050, esse número cairá para 2. Nos mais pobres, há 17 jovens trabalhadores para cada aposentado; proporção que em 2050 diminuirá para 9 : 1

Tabela do aumento populacional ao longo da história da humanidade:

Ano                            População Global
100.000 a.C.               10 mil
30.000 a.C.                 500 mil
6.000 a.C.                  10 milhões
4.000 a.C.                  30 milhões
1.000 a.C.                  120 milhões
500                         200 milhões
1.095                         300 milhões
1.455                         400 milhões
1.763                         800 milhões
1.913                         1 bilhão e 600 milhões
2.007                         6 bilhões e 500 milhões
2.013                         7 bilhões e 200 milhões

Fonte: Aydon, Cyril. A história do homem: uma introdução a 150 mil anos de história humana. Record. 2011.

 

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