images

Dentro da mente de um cão.

Renata Maranhão (publicado na revista Avianca de dezembro/15

Com o passar dos anos, cachorros de rua desafiam Darwin quando aplicam inteligência e “andam para trás” na evolução, retornando a um estado selvagem e menos domesticado, para garantir a sobrevivência. Um estudo feito pelo biólogo russo Andrei Poyarkov durante três décadas revela que não é o cachorro de rua mais forte ou dominante que sobrevive, mas, sim, o mais inteligente.

Moscou tem população estimada de 35 mil cachorros de rua. A vida urbana os impulsionou à evolução, levando a um aumento de inteligência e até a capacidade de saber navegar no metrô. Poyarkov revela que a forte pressão evolutiva dos invernos rígidos da capital russa levou os cachorros a diferentes tipos de comportamento:

- Cães selvagens – noturnos, que evitam contato com os humanos;

- Cães de guarda – seguem o pessoal da segurança como líderes da sua matilha;

- Catadores – literalmente , “vira-latas” e caçadores;

- Mendigos – segundo o estudioso, são os mais impressionantes e inteligentes.

Os cães desse último grupo raramente são atingidos por carros, pois aprendem a atravessar ruas e esperam pela luz verde, mesmo quando não há pedestres, o que significa que aprenderam a reconhecer o desenho do sinal luminoso. No estudo, Poyarkov concluiu que a matilha dos “mendigos” traça perfis psicológicos dos humanos para determinar qual técnica funciona melhor em cada indivíduo. Eles exploram os animais menores e mais “bonitinhos”, já que esses tem mais sucesso pedindo comida às pessoas. Ou vão disfarçadamente por trás de alguém que está comendo algo e latem, o que pode assustar e levar a pessoa a derrubar algo.

Os “mendigos” são conhecidos na capital russa como “os cães do metrô”. Recebem restos de comida dos viajantes diários que usam o sistema de transporte público e até aprenderam a navegar nos trens. Em média, 500 deles vivem nas estações e aproximadamente 20 criaram habilidades, como saber o tempo em que precisam ficar no vagão entre uma estação e outra e reconhecer os nomes das estações anunciados nos autofalantes.

Outros estudos já registraram a rapidez com que os cães se adaptam a sinais sociais humanos e integram novos comportamentos em seu repertório. Isso requer inteligência. Por isso, os cachorros tem uma surpreendente gama de papéis importantes na sociedade humana. Cães do salvamento, cães de pesca, cães-guia para deficientes, cães farejadores de drogas, cães de polícia, entre outros. Não é à toa que o animal é conhecido como o melhor amigo do homem.

churrascos-grosby%20TL

O macaco cozinheiro, o encontro do pensamento científico com o pensamento selvagem e o futuro da vida no planeta.

Por Daniel Luis Dalberto

No texto inaugural deste blog (http://www.pensarprimata.com.br/pensar-primata/titulo-da-materia/) mencionei que em certo momento da nossa evolução a densa floresta africana onde viviam nossos ancestrais, por adaptação a um clima mais árido, passou a virar savana. Então tivemos de descer das árvores para conseguir comida e passamos a andar eretos, o que nos deu eficiência energética e liberou as mãos para outras atividades, como fazer e usar ferramentas. Na matéria referida escrevi:

E assim, na África oriental, região da atual Etiópia, surgiu uma espécie que passou a andar ereta e a contemplar horizontes: o Australopithecus afarensis, espécie do fóssil hominídeo mais famoso e dos mais antigos do mundo, nossa tataravó “Lucy”. Na transição dos hominídeos contemporâneos de Lucy até o homo erectus de 500 mil anos atrás, nosso cérebro triplicou de tamanho, ampliando principalmente a área frontal. Tal aumento tornou necessárias mudanças alimentares. Continuamos onívoros, mas a preferência por carne foi aumentando. Não se sabe ao certo se foi a ingestão maior de proteína que desencadeou o desenvolvimento do cérebro ou o desenvolvimento do cérebro que nos fez buscar mais proteínas.

O significativo crescimento cerebral foi o aspecto decisivo na evolução humana. O Australopithecus afarensis possuía o volume do cérebro de 400 cc (mesmo tamanho de um chimpanzé). O crânio do homem moderno tem volume de 1400cc, tendo ampliado muito a área frontal ou o cérebro racional (neocórtex), responsável pelo pensamento abstrato e autoconsciência. Nessa longa transição saímos do estado “paradisíaco”, unitário, em que a nossa espécie e a natureza eram indissociáveis, para um estágio em que elementos do inconsciente foram formando estruturas de consciência ao redor do ego e assim acentuando a discriminação entre o eu e o não-eu, nos termos de C. G. Jung. Então, o primata humano alcançou a capacidade cognitiva de reconhecer-se como separado da natureza.

Apesar do cérebro humano ser o maior do reino animal em termos relativos (o do elefante pesa mais de 5 kg) e de normalmente haver correlação entre tamanho do cérebro, tamanho do corpo e inteligência, tal equação deve ser vista com precaução. É preciso analisar a fisiologia e as características da cada cérebro. O de uma capivara, por exemplo, tem 76 gramas e 1,6 bilhão de neurônios. Já o do macaco-prego é um pouco menor, com cerca de 50 gramas, mas tem 3,7 bilhões de neurônios, mais que o dobro da capivara, o que pode explicar sua maior habilidade cognitiva.

É preciso considerar também que um cérebro maior não é necessariamente uma vantagem evolutiva, pois requer muita energia e dieta rica em proteínas. A neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel, ao estudar profundamente o cérebro humano e de outros animais, concluiu que alta concentração de neurônios exige uma enorme ingestão de calorias. O cérebro humano possui 86 bilhões de neurônios e, mesmo correspondendo a apenas 2% do peso de uma pessoa, consome 25% da sua energia diária (cerca de 500 calorias)! Tal situação ocorre também com outros primatas, como o gorila, que tem 33 bilhões de neurônios e precisa ingerir 18 kg de folhas por dia, passando 8 horas de seu dia (80% do seu período de vigília) apenas comendo. Então, a pesquisadora concluiu que com o número de neurônios quase três vezes maior, alguma mudança deve ter acontecido para viabilizar o funcionamento do cérebro humano.

Na postagem referida no início da matéria falei que a ingestão de proteínas (basicamente carne) levou ao crescimento cerebral ou o crescimento cerebral demandou maior busca por carne. No entanto há um fator que potencializou a ingestão de proteínas e desencadeou todo o processo evolutivo, conforme estudo feito por Karina Fonseca Azevedo, bióloga e pesquisadora, ao lado de sua orientadora Suzana Herculano-Houzel. Elas incluíram na pesquisa alguns ancestrais extintos do Homo sapiens, que tiveram seu número de neurônios calculado a partir do volume da caixa craniana. Concluíram que eles também não deviam ter vida fácil. Os resultados apontaram, por exemplo, que o Homo habilis, que viveu por volta de 2 milhões de anos atrás, precisaria passar mais de oito horas por dia comendo para sustentar seus estimados 35 bilhões de neurônios. Dali em diante, porém, a conta não fechava. As simulações mostraram que, caso mantivesse a dieta de alimentos crus dos outros primatas, tanto o Homo erectus, surgido há cerca de 1,8 milhão de anos, quanto os humanos modernos, que têm 200 mil anos, precisariam passar improváveis nove horas ou mais por dia se alimentando.

Nesse ponto emergiu uma conclusão surpreendente: com esse elevado número de neurônios em atividade exigindo tamanha energia, esses primatas teriam de se ocupar o dia todo apenas com o seu sustento. Não teriam tempo, durante a luz do dia, para a engenhosa e trabalhosa atividade de elaborar e construir ferramentas sofisticadas, interferir no meio ambiente e realizar outras atividades típicas dos primatas humanos. “Passando dez horas por dia com a boca cheia, eles nem teriam como desenvolver a linguagem”, brincou Karina.

Para Suzana, o fato de conseguirmos sustentar nosso cérebro sem precisar passar o dia inteiro comendo é sinal de que alguma coisa mudou. “Demos um jeito de custar menos energia? Não foi o caso. De comer mais horas por dia? Também não. Inventamos uma maneira de fazer a comida render mais calorias. Para isso era preciso mudar a dieta”, disse.

Assim, a conclusão científica é que a evolução do nosso cérebro está intimamente ligada a mudanças no hábito alimentar primitivo. E foi através de uma mudança cultural nos hábitos alimentares primitivos que a humanidade sofreu uma de suas maiores e mais impactantes evoluções, - e ouso dizer – maior até que a escrita ou a era digital: o domínio do fogo. Nós, humanos, somos os macacos cozinheiros, as criaturas da chama”, escreveu o primatólogo britânico Richard Wrangham, da Universidade Harvard.

Cozinhar é uma forma de começar a digerir um alimento antes mesmo que ele seja levado à boca. Passamos, então, a processar a carne dura através do cozimento, economizando tempo de mastigação e quebrando o colágeno responsável por sua dureza. Moemos grãos e sementes com pedras e em seguida os cozinhamos com o calor, facilitando a mastigação e a digestão. O amido, por exemplo, presente em abundância nos vegetais, se gelatiniza e é mais facilmente absorvido quando aquecido. Por isso, defende Richard Wrangham, a quantidade de energia que absorvemos de um alimento aumenta quando cozido: uma cenoura cozida tem mais calorias do que a mesma cenoura comida crua, embora as tabelas de valor energético dos alimentos não levem isso em conta. Assim, superamos as limitações físicas, naturais, com a utilização de técnicas culturais, que nos levaram, inclusive, a mudanças em nossa anatomia.

Há ainda outro aspecto cultural e civilizatório ocasionado a partir do domínio do fogo. Com o calor e a luz das chamas passou a ser possível confraternizar, trocar experiências e informações, combinar caçadas, deslocamentos, fazer alianças, cantar, dançar e realizar muitas atividades tipicamente humanas também à noite. Com as fogueiras acesas, nossos antepassados alteraram seu ciclo circadiano e, ao iluminarem a escuridão noturna, criaram um novo tempo e espaço de convivência que teria ajudado no seu desenvolvimento cognitivo e social. É o que sugere a antropóloga Polly Wiessner, da Universidade de Utah, nos EUA, em artigo publicado no periódico científico “Proceedings of the National Academy of Sciences”.
Wrangham defende que o controle do fogo e o seu uso para cozinhar deve ter ocorrido na transição do Homo habilis para o Homo erectus, entre 1,9 e 1,8 milhão de anos atrás. Os fósseis dessas duas espécies sugerem que a anatomia humana estava se adequando à nova dieta. Os dentes, por um lado, diminuíram, o que seria um sinal de adaptação a alimentos mais moles. Se tivesse continuado a comer carne crua, argumenta Wrangham, o Homo erectus teria caninos bem maiores. Alterações na caixa torácica e na pélvis indicariam uma diminuição do intestino, em resposta à ingestão de alimentos previamente digeridos pelo calor.

Assim, de acordo com avançados estudos científicos, o domínio do fogo que propiciou o cozimento dos alimentos, foi o fator que desencadeou o crescimento do cérebro e o substancial aumento dos neurônios, o que foi decisivo em nosso processo de diferenciação dos demais animais. Ocorre que os povos indígenas desde tempos imemoriais tem essa compreensão. O papel do cozimento dos alimentos no estabelecimento das sociedades humanas foi destacado pelo antropólogo francês Claude Lévi-Strauss em O Cru e o Cozido.

No livro, ele afirmou que os mitos dos índios jê e tupi-guarani sobre a origem do fogo eram construídos em torno da dupla oposição entre cru e cozido, por um lado, e fresco e podre, do outro. “O eixo que une o cru e o cozido é característico da cultura”. O que une o fresco e o podre, da natureza, já que o cozimento realiza a transformação cultural do cru, assim como a putrefação é sua transformação natural”, escreveu Lévi-Strauss.

A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, professora emérita da Universidade de Chicago, aposentada pela USP, disse achar notável que a oposição entre cru e cozido já tivesse sido usada por vários povos para colocar a humanidade em posição exclusiva. “A mitologia dos índios das baixas terras da América do Sul, que é o material usado por Lévi-Strauss no seu livro, também coloca um peso fundamental na aquisição do fogo de cozinha pela humanidade. A importância dada a essa distinção cru/cozido não é, portanto, invenção de Lévi-Strauss, e sim dos índios.”

Manuela chamou a atenção também para diferenças do lugar que o fogo ocupa em cada uma dessas narrativas. “Entre os gregos, como entre os índios, a obtenção do fogo resulta de um roubo, não de uma invenção própria”. É recorrente entre os nossos índios os mitos do roubo do fogo.

Os mitos são “sonhos coletivos”. Trazem à tona medos, desejos e angústias e revelam nosso inconsciente coletivo, conforme teoria de Jung. Servem, ainda, para a compreensão holística do mundo que cerca aquele povo criador do mito. Assim, faz todo sentido a narrativa que diz que o fogo foi roubado. Exímios observadores da natureza que eram e são, gregos antigos e índios, sabiam que o fogo era prévio à apropriação humana, pois existia na natureza, surgia e desaparecia misteriosamente, logo, divinamente.

Os Wari, de Guajará-Mirim, narram um mito, mais ou menos assim: seu povo sofria porque uma velha má detinha o domínio do fogo e só o emprestava se caçassem pássaros e lhe dessem de presente para suas refeições. Problema que nem sempre havia pássaros, a tarefa era difícil e os Wari precisavam do fogo. Muitas vezes, ao tentarem roubar o fogo, eram capturados pela velha, que também comia os próprios Wari, na falta de pássaros. Então, dois irmãos, inteligentemente, tramaram um modo de lhe roubar o fogo. Caçavam pássaros e os jogavam à frente da velha, de modo que ela tinha de andar para pegá-los. Foram jogando os pássaros no chão em locais estratégicos, assim atraindo-a para longe de onde ela mantinha as chamas. Então, ardilosa e rapidamente correram para lá e lhe roubaram o fogo.

Interpreto o mito da seguinte forma. Ele narra o momento em que os Waris tornaram-se humanos, que na verdade é o significado do termo wari. Demonstra que o uso da inteligência, da maquinação de um plano abstrato, é o marco do domínio da natureza (a velha), que impiedosa e imprevisível, subjugava e deixava os Wari à mercê de seus humores, portanto em vida penosa, que às vezes lhes cobrava a própria vida. A partir do domínio e uso do fogo, os Waris alcançaram outro patamar evolutivo. Assim, este mito, conforme demonstrado pela ciência em relação ao marco que foi o domínio do fogo, - do mesmo modo do que ocorre com outros mitos de diversas etnias indígenas - nos dá o mesmo ensinamento trazido à luz pelas avançadas pesquisas científicas.

Na linha do pensamento de Claude Lévi-Strauss, cito outro exemplo ilustrativo sobre o fato da evolução científica não estar em oposição à sabedoria dos povos erroneamente chamados de “primitivos”. A condição animal da espécie humana se tornou incontestável para as ciências naturais desde que Darwin tornou pública, em 1858, sua teoria da evolução das espécies por seleção natural. Estudos sobre o funcionamento do cérebro dos humanos e de diversos animais descobriram que não há diferença real no funcionamento do cérebro de uma vaca, de um cachorro, de um macaco ou de um humano. A diferença profunda está no números de neurônios, que, como dito, só podem ser mantidos com alto consumo de energia, o que requer o cozimento dos alimentos

Segundo o cientista Charles Darwin, “As mentes dos animais, diferem em grau, não em tipo”. Os mamíferos, por exemplo, experimentam (em maior ou menor grau) ansiedade, pesar, melancolia, ódio, entre outros sentimentos. Existem estudos que provam a felicidade dos elefantes, quando estes, em manadas, vão ao encontro de outra manada. Estas colossais criaturas fazem um barulho ensurdecedor, abanam as enormes orelhas e dão voltas em seu torno. Este ritual, faz-nos lembrar uma reunião de família. Outro exemplo, são os cães e gatos quando, fechados numa garagem ou num quarto, choramingam de modo a que os seus donos os soltem.
Charles Darwin, afirmava que ninguém podia negar que as reações dos animais têm um lado emocional, dadas as similaridades entre o comportamento humano e animal.
Disse Santo Agostinho: “Certamente estamos na mesma categoria das bestas: toda ação da vida animal diz respeito a buscar o prazer e evitar a dor”.

Novamente remeto-me ao que escrevi no texto inaugural deste blog:

Nossas relações de amizade, disputas por status, dinheiro e poder parecem ser questões humanas. No entanto, nada mais animal e primitivo. Pesquisas científicas que tiveram impulso maior a partir da segunda metade do século XX, nas áreas da psicologia social evolutiva, antropologia, e, em caráter especial, os recentes e enormes avanços da neurologia no entendimento do funcionamento do cérebro humano, tem comprovado que nossos comportamentos seguem os mesmos princípios em todos os primatas, em quase todos os mamíferos e é muito mas comum que imaginamos em insetos, pássaros e outros animais.

Avanços científicos que possibilitaram desvendar o genoma humano a partir dos anos 90 demonstram que o genoma de um chimpanzé e de um humano moderno são 98,4% idênticos. Bonobos e chimpanzés diferem em apenas 0,7% de seu DNA e os seres humanos diferem de ambos em apenas 1,6% de seu genoma. O fisiologista Jared Diamond observou que o abismo entre nós e eles é consideravelmente menor do que a diferença de 2,9% entre os vireonídeos de olho vermelho e os vireonídeos de olho branco, duas espécies de de aves passeriformes que o leigo médio diria que são aves de mesma espécie. É claro que os 1,6% que nos diferenciam de nossos primos irmãos tem muita relevância. é por essa porção, basicamente o córtex pré-frontal do cérebro desenvolvido – área muito pequena ou que sequer existe nos outros animais – que, por exemplo, temos capacidade de pensamento abstrato e autoconsciência, que nos permite a consciência da morte ou resolver uma equação matemática. a religiosidade, o livre arbítrio consciente e a noção do bem e do mal, dentre outras coisas – que não são muitas – são nossas diferenças substanciais em relação aos demais animais.

Os índios veem com naturalidade essa animalidade humana. Ou a humanidade animal. Sempre se consideraram umbilicalmente conectados aos animais e às plantas. Os tuparis, wajurus, djeotomitxis, makuraps e waris de Rondônia tem em seus mitos e lendas antigos casamentos, relações e transformações em onças, araras, antas, cobras e muitos outros animais. Os pajés tinham o poder de transformarem-se em animais e depois voltarem ao estado humano. Faziam uma ponte constante não apenas entre o mundo espiritual e o mundo objetivo, mas entre os índios e os animais. Os makuraps, segundo seus mitos, foram divinamente criados em dupla com animais. Eram tirados de um buraco na terra, acompanhados de arara, onça, gavião, macaco, rato, etc. Um makurap e um animal por vez. E conforme haviam sido criados, formavam e mantinham suas divisões étnicas, makurap arara, makurap onça e assim por diante. Os waris narram que houve uma grande enchente, algo como o dilúvio bíblico, história, aliás, contada pela maioria dos índios sul-americanos. Então, um casal sobrevivente, com seus filhos, encontrou um lugar não inundado onde havia uma grande árvore, muita alta. Subiram nela pelos cipós e assim chegaram ao céu. Lá, havia muitos macacos, uma infinidade deles. Esses waris viveram muito tempo entre os macacos. Casaram-se e tiveram filhos inclusive. Depois de muito tempo, a água baixou e resolveram descer. Alguns waris, ao tocarem novamente o chão, viraram paca, onça, tatu, tamanduá, arara, morcego, enfim, todos os animais que existem. Outros permaneceram waris.

Interpreto esse mito da seguinte forma. A água é o estado primordial da humanidade, pois conforme a ciência demonstrou, surgimos no mar. Eis a “enchente”. Também, a inundação pelo líquido é nossa primeira experiência existencial, no útero de nossas mães. Saímos da água, fomos evoluindo e acabamos subindo nas árvores (macacos que somos). “Vivemos entre os macacos, casamos com eles”. Depois, descemos e viramos waris (humanos). As formas primárias e simples de vida, as mesmas para todos, foram evoluindo para formas mais complexas. E assim surgiram todos os animais, anta, onça, paca, arara. Foi desse jeito que a partir de nossa forma primária e única com as demais formas de vida, surgimos “do mesmo buraco e juntos com eles” e transformamo-nos neles e eles em nós”. Eis a teoria da evolução das espécies segundo os indígenas. Substancialmente a mesma história contada pela ciência.

Nossa civilização ocidental hegemônica tem passado por assombroso desenvolvimento científico e impensáveis transformações nos últimos dois séculos, baseadas no uso da razão. O conhecimento tornou-se profundo e especializado em todas as áreas. Ocorre que podemos desenvolver diferentes modos de capacidade mental, mas não todos ao mesmo tempo. Ganha-se por um lado e perde-se por outro. O progresso científico foi conquistado ao custo da perda e até do desprezo do mundo sensorial e místico. Aprofundamos conhecimentos de modo vertical, dissecando e esmiuçando o funcionamento das coisas. Mas perdemos a compreensão do todo, da interligação que há em tudo, especialmente em relação ao nosso meio e à própria natureza. Qualquer ser humano de 500 anos atrás tinha maior conhecimento das estrelas, das estações do ano, do regime de chuvas, das plantas e dos animais que a maior parte das pessoas tem hoje. O avanço da medicina, por exemplo, que contribuiu para o aumento da expectativa de vida, tornou-se altamente especializada. Cada médico conhece a fundo determinado órgão do corpo humano ou certa doença, mas é comum a incapacidade de fazer conexão com causas que podem estar em outro órgão do corpo e às vezes no modo, no entorno e nas circunstâncias de vida daquele doente.

Como demonstrado, muitos aspectos que os avanços da ciência trazem à razão já faziam parte da compreensão que os povos impropriamente chamados de primitivos sabiam através dos mitos e do conhecimento do mundo que os rodeava. Isso não significa dizer necessariamente que há igualdade entre esses modos diversos de conhecimento, até porque essa valoração é invariavelmente subjetiva.

Claude Lévi-Strauss – um dos maiores intelectuais do século XX – que afirmou, inclusive, que a mitologia indígena brasileira está no mesmo patamar da decantada e famosíssima mitologia grega, diz que o avanço da ciência, ao contrário do que se poderia imaginar, tem andado no sentido de superar o fosso, a separação real entre o conhecimento científico e o mundo sensorial, místico e mítico dos índios, que ocorreu em nossa civilização europeia ocidental com intensidade a partir dos séculos XVII e XVIII. Enfatiza que a ciência está preparada não apenas para explicar sua própria validade como também aquilo que é válido no pensamento mitológico. A mente humana, apesar das diferenças culturais, tem em todos os lugares a mesma capacidade, funciona segundo os mesmos princípios biológicos e sensoriais, raça única que somos. A nossa espécie, em comparação com todas as demais, não se destaca por ser forte, ágil ou fértil. Destacou-se e dominou o planeta pela engenhosidade comandada pelo cérebro extremamente desenvolvido.

Estamos presenciando uma época extraordinária na história de bilhões de anos do nosso planeta. Os cientistas defendem que fizemos a Terra entrar numa nova era geológica, a Antropocena. Nos últimos duzentos anos nos multiplicamos exponencialmente, ocupamos e passamos explorar todos os lugares onde é possível a vida no planeta (ver postagem neste blog http://www.pensarprimata.com.br/pensar-primata/breves-reflexoes-sobre-aumento-populacional-e-desequilibrio-ambiental). Reorganizamos a biota da Terra, levando plantas e animais de um continente ao outro. Provocamos a extinção de povos, conhecimentos e culturas indígenas com rapidez e violência assustadoras. De modo silenciosamente preocupante estamos provocando extinção em massa de milhares de espécies em poucos anos (ver postagem neste blog http://www.pensarprimata.com.br/pensar-primata/estudo-aponta-diminuicao-de-52-dos-animais-vertebrados-desde-1970). Pela exploração de combustíveis fósseis e devastação de imensas florestas, modificamos o clima, a composição da atmosfera e a química do solo e dos oceanos, estes em franco processo de acidificação . A maior parte dos rios foi desviada ou modificada. Alteramos significativamente e violentamente toda a vida no planeta em curtíssimo espaço de tempo, talvez de forma irreversível.

Assim, nos encontramos diante de uma clara encruzilhada. Isso, se já não avançamos e fizemos a escolha, mesmo sem ter consciência disso. Podemos estar nos últimos instantes em que ainda é possível agir para salvar a vida na Terra. Para isso, precisamos usar nossa esplêndida capacidade cerebral. É hora de por à prova e usar com inteligência nosso conhecimento científico e o avanço tecnológico atingido pela humanidade, bem como a sensibilidade e o conhecimento da biodiversidade dos povos indígenas e tradicionais, que pela sua natural conexão física e espiritual, mais harmônica e respeitosa com os animais e com as plantas, podem colaborar para recolocar a humanidade no rumo da sabedoria, que há de ser o seguido pela nossa espécie.

9nov2015---equipes-trabalham-na-busca-de-vitimas-dias-apos-o-rompimento-de-duas-barragens-da-mineradora-samarco-em-bento-rodrigues-distrito-de-mariana-mg-1447089782476_615x300

“Lira Itabirana”, de Carlos Drummond de Andrade. (De 1984)

I
O Rio? É doce.
A Vale? Amarga.
Ai, antes fosse
Mais leve a carga.

II
Entre estatais
E multinacionais,
Quantos ais!

III
A dívida interna.
A dívida externa
A dívida eterna.

IV
Quantas toneladas exportamos
De ferro?
Quantas lágrimas disfarçamos
Sem berro?

Tribo amazônica cria enciclopédia de medicina tradicional com 500 páginas.

Em uma das grandes tragédias da nossa era, tradições, histórias, culturas e conhecimentos indígenas estão desfalecendo em todo o mundo.  Línguas inteiras e mitologias estão desaparecendo e, em alguns casos, até mesmo grupos indígenas inteiros estão em processo de extinção.  Isto é o que chama a atenção para uma tribo na Amazônia – o povo Matsés do Brasil e do Peru –, que criou uma enciclopédia de 500 páginas para que sua medicina tradicional seja ainda mais notável.  A enciclopédia, compilada por cinco xamãs com a ajuda do grupo de conservação Acaté, detalha cada planta utilizada pelos Matsés como remédio para curar uma enorme variedade de doenças.

“A [Enciclopédia de Medicina Tradicional Matsés] marca a primeira vez que xamãs de uma tribo da Amazônia criaram uma transcrição total e completa de seu conhecimento medicinal, escrito em sua própria língua e com suas palavras”, disse Christopher Herndon, presidente e co-fundador da Acaté, em uma entrevista para o Mongabay (na íntegra abaixo).

Os Matsés imprimiram sua enciclopédia só em sua língua nativa para garantir que o conhecimento medicinal não seja roubado por empresas ou pesquisadores, como já aconteceu no passado. Em vez disso, a enciclopédia pretende ser um guia para a formação de jovens xamãs, para que eles possam obter o conhecimento dos xamãs que viveram antes deles.

“Um dos mais renomados e antigos curandeiros Matsés morreu antes de que seu conhecimento pudesse ser transmitido, então o momento era este. A Acaté e a liderança Matsés decidiram priorizar a enciclopédia antes de perder mais anciãos e seus conhecimentos ancestrais”, disse Herndon.

A Acaté também iniciou um programa para conectar os demais xamãs Matsés com jovens estudantes. Através deste programa de orientação, os indígenas esperam preservar seu modo de vida como o fizeram durante séculos.

“Com o conhecimento de plantas medicinais desaparecendo rapidamente entre a maioria dos grupos indígenas e ninguém para escrevê-los, os verdadeiros perdedores no final são tragicamente os próprios atores indígenas”, disse Herndon. “A metodologia desenvolvida pelos Matsés e pela Acaté pode ser um modelo para outras culturas indígenas protegerem seus conhecimentos ancestrais”.

UMA ENTREVISTA COM O MÉDICO CHRISTOPHER HERNDON

Mongabay: Por que a enciclopédia é importante?

Christopher Herndon: A enciclopédia marca a primeira vez que xamãs de uma tribo da Amazônia criaram uma transcrição total e completa de seu conhecimento medicinal, escrita em sua própria língua e com suas palavras.  Ao longo dos séculos, os povos da Amazônia têm repassado através da tradição oral uma riqueza acumulada de conhecimentos e técnicas de tratamento que são um produto de seus profundos laços espirituais e físicos com o mundo natural.  Os Matsés vivem em um dos ecossistemas de maior biodiversidade do planeta e têm dominado o conhecimento das propriedades curativas das suas plantas e animais.  No entanto, em um mundo em que a mudança cultural desestabiliza até mesmo as sociedades mais isoladas, este conhecimento está rapidamente desaparecendo.

É difícil pensar o quão rapidamente este conhecimento pode ser perdido após uma tribo fazer contato com o mundo exterior. Uma vez extinto, este conhecimento, juntamente com a auto-suficiência da tribo, nunca pode ser totalmente recuperado. Historicamente, o que seguiu logo da perda dos sistemas de saúde endêmicos em muitos grupos indígenas é a quase total dependência dos rudimentares e extremamente limitados serviços de saúde que estão disponíveis nestes locais remotos e de difícil acesso. Não surpreendentemente, na maioria dos países, os grupos indígenas têm as maiores taxas de mortalidade e doença.

Pela perspectiva dos Matsés, a iniciativa é importante porque a perda da cultura e o atendimento precário à saúde estão entre suas maiores preocupações. A pioneira metodologia para proteger e salvaguardar o seu próprio conhecimento pode servir como um modelo replicável para outras comunidades indígenas que enfrentam uma erosão cultural semelhante. Em termos mais amplos de conservação, sabemos que existe uma forte correlação entre os ecossistemas intactos e regiões habitadas por índios, o que torna o fortalecimento da cultura indígena uma das maneiras mais eficazes para proteger grandes áreas de floresta tropical.

Mongabay: Por que é agora o momento de se registrar esta informação?

Christopher Herndon: O conhecimento dos Matsés e a sabedoria acumulada através de gerações estava perto de desaparecer. Felizmente, restavam alguns poucos Matsés mais velhos, que ainda detinham o conhecimento ancestral, já que o contato com o mundo exterior só ocorreu na última metade do século. Os curandeiros eram adultos na época do contato inicial e já haviam dominado suas habilidades antes de que missionários e funcionários do governo lhes dissessem que elas não eram úteis. No momento em que o projeto começou, nenhum dos xamãs mais velhos tinha jovens Matsés interessados em aprender com eles.

Um dos mais renomados e antigos curandeiros Matsés morreu antes de seu conhecimento ser transmitido, então o momento era este. A Acaté e a liderança Matsés decidiram priorizar a enciclopédia antes de perder mais anciãos, com seus conhecimentos ancestrais. O projeto não tratava de salvar uma dança tradicional ou vestuário, mas da saúde deles e a das futuras gerações de Matsés. A aposta não podia ser maior.

Mongabay: Como é a enciclopédia?

Christopher Herndon: Após dois anos de intenso trabalho por parte dos Matsés, a Enciclopédia agora inclui capítulos escritos por cinco mestres curandeiros Matsés e tem mais de 500 páginas! Cada entrada é classificada pelo nome da doença, com uma explicação sobre como reconhecê-la pelos sintomas, a sua causa, quais plantas usar, como preparar o medicamento e opções terapêuticas alternativas. Uma fotografia feita pelos Matsés de cada planta acompanha cada entrada na enciclopédia.

A Enciclopédia é escrita para e desde uma visão de mundo do xamã Matsés, descrevendo como os animais da floresta estão envolvidos na história natural das plantas e conectados com as doenças. É uma verdadeira enciclopédia xamânica, totalmente escrita e editada por xamãs indígenas – a primeira, que conhecemos, de seu tipo e alcance.

Mongabay: Como você espera que esta enciclopédia possa ajudar os esforços de conservação?

Christopher Herndon: Acreditamos que empoderar os povos indígenas é a abordagem mais eficaz e duradoura para a conservação da floresta tropical. Não é por acaso que as extensões restantes intactas da floresta tropical na região neotropical estão sobrepostas às áreas habitadas por indígenas. Os povos tribais compreendem e valorizam a floresta porque são dependentes dela. Esta relação vai além de uma dependência utilitária; há uma ligação espiritual com a floresta, um senso de interconectividade que é difícil de se compreender por meio da mentalidade ocidental compartimentalizada – por mais que seja, no entanto, real.

Muitas das graves ameaças ambientais em áreas indígenas remotas de que você ouve falar no noticiário – petróleo, madeira, mineração e afins – são indústrias externas que oportunisticamente se aproveitam da enfraquecida coesão social interna dos povos indígenas de contato recente, de seus recursos limitados e da crescente dependência do mundo exterior. O tema unificador das três áreas programáticas da Acaté – economia sustentável, medicina tradicional, e agroecologia – é a autossuficiência. A Acaté não predetermina estas três prioridades de conservação; elas foram definidas em discussão com os anciãos Matsés que sabem que a melhor maneira de proteger sua cultura e terras é através de uma posição de força e independência.

Do ponto de vista de conservação global, os Matsés protegem mais de 3 milhões de acres [1,2 milhões de hectares] de floresta tropical só no Peru. Esta área inclui algumas das florestas mais intactas, biodiversas e ricas em carbono no país. As comunidades Matsés no lado brasileiro dos rios Javari e Yaquerana marcam as fronteiras ocidentais da reserva indígena do Vale do Javari, uma região quase do tamanho da Áustria, que contém o maior número de tribos ‘sem contato’, em isolamento voluntário, no mundo. Ao sul das margens do território Matsés, nas cabeceiras do rio Yaquerana, encontra-se La Sierra del Divisor, uma região de beleza natural impressionante, biodiversidade, e também grupos tribais isolados. Por estas razões, embora os Matsés somente cheguem a somar pouco mais de 3 mil pessoas no total, eles estão estrategicamente posicionados para proteger uma vasta área de floresta tropical e uma série de tribos isoladas. Empoderá-los é uma preservação de alto rendimento.

Mongabay: Você mencionou que a enciclopédia é apenas a primeira fase de uma iniciativa mais ampla da Acaté. Quais são os outros componentes necessários para manter os sistemas tradicionais de saúde deles?

Christopher Herndon: Completar a enciclopédia é um primeiro passo histórico e crítico para mitigar as ameaças existenciais para a sabedoria de cura e autossuficiência dos Matsés. No entanto, a enciclopédia sozinha não é suficiente para manter a autossuficiência, já que seus sistemas de saúde baseiam-se na experiência que só pode ser transmitida através de longos aprendizados. Infelizmente, devido a influências externas, quando começamos nosso projeto, nenhum dos xamãs tinha aprendizes. Ao mesmo tempo, a maioria dos povos ainda usa e depende do conhecimento de plantas medicinais dos curandeiros, muitos dos quais têm mais de 60 anos.

Na Fase II, o Programa de Aprendizes, cada xamã – muitos dos quais são autores de capítulos da Enciclopédia – será acompanhado na selva por Matsés mais jovens para conhecer as plantas e ajudar no tratamento de pacientes. O programa de aprendizado foi iniciado em 2014 na aldeia de Estirón sob a supervisão do xamã Luis Dunu Chiaid. Devido ao sucesso do projeto piloto em Estirón, os Matsés concordaram em unanimidade, em sua última reunião, que este programa deveria ser expandido para o maior número possível de aldeias, dando prioridade às que não têm mais curandeiros tradicionais.

O objetivo final da iniciativa é a Fase III – a integração e melhoria dos serviços de saúde do ‘ocidentais’ feita com práticas tradicionais. Wilmer, um promotor de saúde em uma pequena clínica em Estirón e um dos aprendizes do programa-piloto, serve de exemplo para outros Matsés que trabalham com saúde. Ele entende que o futuro da saúde do seu povo depende da criação de sistemas de saúde duais e vibrantes que permitam à comunidade aproveitar o melhor de ambos os mundos da medicina.

Além disso, foi decidido que o nosso trabalho agro-florestal deve ser expandido para incluir a integração com plantas medicinais. Este trabalho será baseado no bosque de cura criado por um dos principais xamãs curandeiros Matsés em Nuevo San Juan, agora mantido por seu filho, Antonio Jimenez. Para um estrangeiro, este bosque parece uma trecho comum de selva no caminho para as fazendas deles, a uns 10 ou 15 minutos de caminhada fora da comunidade. Na presença de um xamã conhecedor que indique quais são as plantas medicinais, você percebe na mesma hora que está cercado por uma constelação de plantas medicinais cultivadas pelos curandeiros Matsés para o tratamento de uma variada gama de doenças. Muitas vinhas e fungos da floresta não crescem em jardins expostos ao sol e requerem o ecossistema da floresta para a sua propagação. Colocar o bosque de plantas medicinais a 10 ou 15 minutos de distância da comunidade é um exemplo característico da eficiência do Matsés. Se você tem uma criança doente, não quer ter que viajar quatro horas para encontrar o remédio.

Mongabay: A enciclopédia foi escrita apenas na língua dos Matsés como proteção contra a bioprospecção e o roubo do conhecimento indígena. O medo da biopirataria é uma preocupação real para os Matsés?

Christopher Herndon: Infelizmente, a história está cheia de exemplos de roubo dos povos indígenas. Para os Matsés em particular a preocupação é muito real. As secreções da pele da rã Kambo (Phyllomedusa bicolor) são utilizadas pelos Matsés em seus rituais de caça. As secreções, ricas em uma variedade de peptídeos [pequenas proteínas] bioativos, são administradas diretamente no organismo em cortes frescos ou queimaduras. Quase imediatamente, as toxinas induzem intensas e autonômicas respostas cardiovasculares que levam a um estado alterado de consciência e acuidade sensorial muito maior.

Embora a rã Kambo esteja presente ao longo do norte da Amazônia, apenas os Matsés e um número reduzido de tribos vizinhas Panoan são conhecidos por usar suas secreções poderosas.  Depois de se conhecer o uso das secreções pelo Matsés, pesquisas de laboratório sobre as secreções da rã Kambo revelaram um complexo coquetel de peptídeos com potentes propriedades vasoativas, narcóticas e antimicrobianas.  Várias empresas farmacêuticas e universidades registraram patentes dos peptídeos sem reconhecimento ou benefício aos povos indígenas.  Um destes peptídeos com atividade antifúngica foi até mesmo transgenicamente inserido em batatas.

O medo da biopirataria é, infelizmente, uma porta que se abre para ambos os lados. Muitos grupos ambientalistas e cientistas têm realizado projetos na Amazônia documentando o conhecimento indígena da fauna local, como nome de aves, mas mantiveram-se à margem em relação às plantas medicinais, por medo de serem acusados de facilitar a biopirataria. No entanto, com o rápido desaparecimento dos conhecimentos sobre as plantas medicinais entre a maioria dos grupos indígenas e não sem ninguém para registrá-lo, tragicamente os verdadeiros perdedores ao final são os índios, os verdadeiros geradores desse conhecimento. A metodologia desenvolvida pelo Matsés e a Acaté deve ser um modelo para outras culturas indígenas conservarem seus conhecimentos ancestrais.

Mongabay: Qual é a metodologia da Acaté e como ela protege esse conhecimento?

Christopher Herndon: A Acaté e os Matsés desenvolveram uma metodologia inovadora para evitar a extinção de seu conhecimento ancestral sobre as plantas medicinais e ao mesmo tempo proteger as informações contra o roubo por grupos externos. A enciclopédia está escrita somente em Matsé. É por e para os Matsés e não haverá traduções para outras línguas. Não foram incluídos nomes científicos nem fotografias de flores ou alguma outra característica que possa facilitar a identificação das plantas por um estrangeiro.

Cada capítulo da Enciclopédia de Medicina Tradicional foi escrito por um veterano xamã renomado escolhido pela comunidade. Para cada xamã veterano foi designado um Matsés mais jovem, que durante meses registrou em forma escrita o conhecimento xamã e fotografou cada planta. Os textos e as imagens foram compilados e escritos no computador de Wilmer Rodríguez López, um Matsés que é especialista na transcrição escrita de sua língua.

Na reunião, a Enciclopédia compilada – um rascunho de mais de 500 páginas – foi revisada e editada coletivamente pelos xamãs das tribos por vários dias. Toda a enciclopédia está sendo formatada e impressa pelos Matsés sob a sua direção exclusiva, e nunca será publicada ou divulgada fora de suas comunidades.

Esperamos que o incontroverso sucesso desta metodologia iniciada pela Acaté e por nossos parceiros índios abra a porta para esforços semelhantes em toda a Amazônia e além. Já estamos vendo os esforços de outras organizações para replicar a metodologia.

Mongabay: Obviamente, o foco é preservar a cultura e o conhecimento Matsés, mas o seu conhecimento médico poderia teoricamente ajudar as futuras gerações ao redor do mundo. Existem condições específicas para que os xamãs Matsés e a população possam compartilhar seus conhecimentos sobre as plantas medicinais na Amazônia? Ou a confiança está destruída?

Christopher Herndon: A Acaté não pode falar pelos Matsés. Posso dizer que trabalhando com xamãs índios na Amazônia, eu tenho notado que eles são muito abertos a compartilhar o seu conhecimento, quando nos aproximamos com respeito. Eles também têm uma grande curiosidade intelectual sobre outros métodos de cura, incluindo o nosso.

Alguns dos medicamentos desenvolvidos pela humanidade, como a quinina e aspirina, foram desenvolvidos através do conhecimento de curandeiros tradicionais.  Devido ao clima político e temores internacionais de biopirataria, mesmo para as empresas farmacêuticas que promovem a distribuição equitativa dos lucros, é um desafio participar de tais iniciativas.  A complexidade do conhecimento indígena de plantas medicinais é tal que não é possível avaliar plenamente a fitoquímica dentro do prazo em que o conhecimento está prestes a ser perdido.  A Enciclopédia, apesar de não ser desenhada para esse fim, mantém as opções abertas no futuro para os Matsés; um futuro que, em contraste com a maioria de seus precedentes históricos, será um de sua própria determinação.

Não devemos perder de vista que, até a criação da enciclopédia, o sistema tradicional de saúde Matsés estava prestes a desaparecer devido às influências do mundo exterior. Os Matsés vivem em áreas remotas onde a prestação de serviços de saúde é um desafio e limitada. As farmácias em muitas comunidades Matsés, particularmente as de mais longe, rio acima, são desprovidas dos medicamentos mais básicos, como remédios para tratar a malária, que veio de fora das comunidades. Os Matsés precisam pagar de seu bolso pelo medicamento que vem de fora, cujo preço é inalcançável para a maioria dos anciãos da comunidade que não têm nenhuma fonte de renda. O simples microscópio necessário para analisar o sangue e diagnosticar a malária estava quebrado em quase todas as comunidades que visitei. Em comparação, vivemos em um mundo que é abundante em cuidados de saúde. Se houver necessidade de dialogar, na minha opinião, isso deve começar com a resposta de como podemos apoiar os Matsés no presente, em vez de como eles podem nos ajudar no futuro.

Mongabay: Muita gente vê a medicina e a preservação da floresta como questões separadas. Como a saúde está ligada ao meio-ambiente?

Christopher Herndon: A saúde de um povo, sua cultura e meios-ambientes são indissociáveis. Não podemos pensar sobre as condições deprimentes de saúde e a situação socioeconômica no Haiti sem considerar o contexto de que 98% deste país que ocupa a metade de uma ilha foi devastado e, assim, o seu potencial futuro também foi destruído. A fronteira entre o Haiti e a República Dominicana pode ser claramente vista a partir de imagens de satélite como uma transição abrupta do marrom ao verde, como o resultado de diferentes formas de uso dos recursos naturais. Da mesma forma, as imagens da Etiópia que existem na consciência moderna baseiam se no fato de, que há apenas 100 anos, a Etiópia era um país com uma significativa cobertura florestal.

O futuro dos Matsés e a sua cultura estão eternamente ligados ao futuro de suas florestas. Ao proteger as florestas e reforçar sua cultura, a saúde deles é protegida contra um futuro carregado de diabetes, desnutrição, depressão e alcoolismo – a segunda onda de doenças ‘importadas’ que normalmente acontece em comunidades indígenas após algumas gerações depois do contato com o mundo exterior. Visto desta forma, iniciativas de conservação biocultural seriam extremamente rentáveis e podem ser abordagens preventivas de saúde.

Mongabay: Como a enciclopédia pode ajudar a preservar a cultura Matsés?

Christopher Herndon: Uma mudança radical começa muitas vezes com algo tão simples e tão poderoso como uma ideia.  A ideia de que a sua cultura, as suas tradições e seu estilo de vida não são inferiores ou algo para se envergonhar, como outros talvez já lhe tenham dito.  A ideia de que a selva, que você chamar de lar, tem um valor infinitamente maior do que reservas de petróleo ou de mogno para produzir mobiliário de luxo.  A ideia de que o seu conhecimento e familiaridade com a floresta não faz o torna primitivo ou atrasado, mas o coloca à frente do movimento global de conservação.  A enciclopédia é o primeiro passo concreto para a formação de uma ponte para vencer a lacuna cada vez maior entre gerações, antes que seja tarde demais.  A iniciativa da enciclopédia restaura o respeito pela sabedoria dos mais velhos e devolve a selva como um repositório de saúde e um lugar para aprender.

Mongabay: A enciclopédia foi completada e terminada em uma reunião de líderes Matsés vindos de todo seu território e antigos xamãs das tribos. Como foi o clima naquela reunião?

Christopher Herndon: Esta reunião sem precedentes foi realizada em uma das aldeias mais remotas do território Matsés. É extremamente difícil descrever em palavras a emoção sentida por todos os participantes quando os líderes Matsés mais antigos falaram de batalhas que eles lutaram – literalmente – para defender o território Matsés e seu modo de vida. Muitos deles tiveram de conter as lágrimas enquanto um ancião após o outro convidava os jovens a aproveitar esta oportunidade para preencher a lacuna que será deixada por eles quando morrerem, assim como eles fizeram quando seus avós estavam vivos. Eu trabalho na conservação biocultural na Amazônia há 15 anos, mas esta foi uma das mais inspiradoras experiências, para se ouvir o poder da oratória deles e determinação em suas vozes. É facilmente perceptível que os Matsés são guerreiros de coração, que lutaram por um longo tempo para proteger suas terras e que eles continuarão lutando.

Texto originalmente publicado por Jeremy Hance no Mongabay
Esta entrevista foi traduzida do original em inglês por Giovanny Vera e Laura Kurtzberg e revisada por Stefano Wrobleski, do InfoAmazonia.

Fonte: InfoAmazonia

Indigena Vovo Salomão

Partida do vovô Salomão Tio´mi, ancião do Povo Oro Win.

Venho manifestar meus sentimentos de pesares ao povo Oro Win na ocasião da partida do ancião Salomão, Tio´Mi, em 17 de outubro, aos 96 anos de idade, na aldeia São Luiz, no alto rio Pacaas Novos.
Estava carpindo quando sentiu uma forte dor no peito. Chamou o filho Em´rem. Mas em 10 minutos, o infarto o levou a óbito. “Vovô”, como era chamado, é o ascendente de cerca de 90% do seu povo. É o avô do vereador Nhampa (Roberto), dos professores Olívia, Salomão e Jeremias, dos Agentes de Saúde André e Elizeu.
Vovô era trabalhador, tinha a voz mansa e sempre sorria. Era o grande depositário da língua e da cultura Oro Win.
O povo Oro Win foi vítima de massacres perpetrados na década de 50 e no início da década de 60. Em 1994, o seringalista Manoel Lucindo foi condenado pelo genocídio perpetrado em 1963 na cabeceira do rio Pacaas Novos.
Falta investigar o massacre do igarapé Tiradentes (“Teteripé”), afluente do rio Cautário, que teve requintes de crueldade. Salomão contava que quando chegou perto da aldeia, ouviu tiros e se escondeu. Não-indígenas estavam torturando e matando homens, mulheres e crianças. Ele assistiu impotente à morte de seus irmãos e de sua esposa grávida. A mesma estava escondida no mato com seus filhos. Achando que o Salomão tinha sido morto, disse aos seus filhos que não queria mais viver e se entregou. Salomão viu um homem abrir a barriga da esposa com terçado e retirar a criança. A mesma foi jogada para cima e aparada com a ponta do terçado. Quando os brancos saíram da aldeia, Salomão conseguiu flechar um deles. Depois, com a ajuda do Hoto´, cavou uma vala bem grande para sepultar os mortos.
Meses após o massacre da cabeceira do rio Pacaas Novos, o seringalista Manoel Lucindo juntou o povo Oro Win na sede do seringal São Luiz onde passaram a conviver com os seringueiros. O povo foi dizimado de novo, não pelas armas, mas pela gripe e o sarampo. Os sobreviventes trabalharam a seringa e a poaia num regime de escravidão.
Na década de 70, a FUNAI levou os Oro Win para a Terra Indígena Rio Negro Ocaia onde moram várias etnias do povo Oro Wari (inimigos tradicionais!).
Em 1991, os Oro Win voltaram para sua terra que faz parte da Terra Indígena Uru Eu Wau Wau.
Daí em diante, o Povo Oro Win escreveu uma nova página de sua história. O povo voltou a crescer, formou novas aldeias e fortaleceu sua identidade. Vovô Salomão desempenhou um papel muito importante no ensino da língua, dos mitos, das tradições, dos cantos e danças. Nos últimos anos, ele trabalhou com o linguista Joshua que registrou mitos, cantos e uma festa inédita.
A história dá muitas voltas. Quem podia imaginar há 51 anos atrás que o neto de Salomão Oro Win sentaria na Casa de Leis do Município de Guajará-Mirim ao lado de Sérgio Bouez, neto do seringalista Manoel Lucindo ?

Gilles de Catheu- Pastoral indigenista da Diocese de Guajará-Mirim
Guajará-Mirim, 22/10/2015

DSC04911

Paisagens do Atacama.

webacc

Angela Merkel

Outro dia eu li uma excelente reportagem da New Yorker sobre a chanceler alemã Angela Merkel, onde o jornalista buscava entender as razões para o seu sucesso – chega a ser chamada de “mutti” (mãe) pelos alemães – num país que tomou aversão por cultos à personalidade.


E desde a sua juventude até o atual período como comandante da nação, uma característica é sempre presente: a monotonia. Sim, Angela Merkel é uma mulher comum, uma pessoa “sem graça”, no entanto é justamente isso que faz seu sucesso, porque as pessoas podem saber o que esperar dela e a enxergam como uma delas.

Em 1991, o fotógrafo Herlinde Koelbl começou uma série de fotografias chamada “Traços do Poder” onde retratava políticos alemães e observava como mudavam ao longo de uma década. O fotógrafo conta que homens como o ex-chanceler Gerhard Schröder ou o ex-ministro das relações exteriores Joschka Fischer pareciam cada vez mais tomados pela vaidade, enquanto Merkel, com seus modos desajeitados, não passava nenhuma idéia de vaidade, mas de um poder crescente que vinha de dentro.

A vaidade é subjetiva enquanto a ausência desta é objetiva, daí que Merkel é tão eficiente enquanto outros políticos parecem se perder nas liturgias e rapapés do poder.

Essa normalidade é vista em vários outros países – ainda que exista a vaidade, que é de cada pessoa – como no caso de deputados suecos que moram numa espécie de república tal qual a de estudantes e lavam e passam a própria roupa.

Certa vez, vi uma reportagem de um jornal britânico analisando uma foto do primeiro-ministro David Cameron lavando a louça na cozinha. A reportagem não se espantava com o fato do primeiro-ministro lavar a própria louça, já que Tony Blair fazia o mesmo e Margaret Thatcher cozinhava para o marido, mas observava uma tábua de cortar carne com a expressão “calma, querida” num canto.

A própria Angela Merkel mora no mesmo apartamento de sempre com o marido e a única mudança que houve em relação ao seu tempo fora do poder é a presença de um guarda na porta do prédio. Eles compram entradas para assistir ópera com o próprio cartão de crédito e entram no teatro junto com todos, sem nenhum esquema especial.

Daí partimos para o Brasil, onde um simples governador de estado possui jatinhos, helicópteros, ajudantes de ordem e comitivas com batedores de moto que param o trânsito para que ele passe. Pessoas que vivem em palácios, como se ainda fosse alguma corte real. Empregadas, arrumadeiras, garçons, equipes de cozinheiros, serviço de quarto, motoristas, inúmeros seguranças, esquemas especiais para entrar ou sair de algum lugar.

Essa é a diferença: a normalidade do poder, a noção de que um servidor público é apenas um servidor público, seja um escriturário ou o presidente/primeiro-ministro da nação. Eles continuam sendo homens e mulheres, maridos e esposas, pagadores de impostos, trabalhadores e cidadãos.
Cidadania é isso.   

por Marcus Vinicius Motta

650x375_carl-hart-salvador_1557544

“Brasil vive apartheid e culpam as drogas”, diz Carl Hart.

Franco Adailton

Primeiro neurocientista negro a se tornar professor titular da universidade de Columbia, em Nova York (EUA), autor do livro Um Preço Muito Alto: a jornada de um neurocientista que desafia nossa visão sobre as drogas, o pesquisador norte-americano Carl Hart, 48, deixa, nesta quinta-feira, 3, Salvador, após cumprir três dias de uma agenda de compromissos com a Iniciativa Negra por Uma Nova Política Sobre Drogas (INNPD) e o governo  estadual, por meio das secretarias da Justiça e Direitos Humanos e da Segurança Pública. Nessa entrevista exclusiva ao A TARDE, na segunda passagem pela capital baiana, Hart fala  sobre o trabalho que vem desenvolvendo em relação à política mundial antidrogas (na visão dele “uma política enganadora”).

Quais são suas principais ideias sobre a política de drogas  no mundo?

É uma pergunta ampla. Escrevi um livro inteiro sobre isso. As políticas de drogas são diferentes a depender de onde se está. No Brasil, o principal problema é que as pessoas estão sendo induzidas ao erro, enganadas, em relação às drogas na sociedade. Dizem à população que as drogas são um problema em si, quando as questões estão ligadas à própria estrutura social, discriminação racial, pobreza, falta de educação, falta de inclusão em certos grupos. O que há, essencialmente, é um apartheid. E culpam as drogas, por meio de campanhas contra o crack, como se o crack fosse o problema. O crack apareceu no Brasil por volta de 2005, a pobreza está desde sempre, assim como a violência e o crime. Atribuir essas questões à existência das drogas e dos traficantes é desonesto. Sugiro às pessoas, principalmente aquelas que estão sendo colocadas nas cadeias ou mortas pela polícia, que se levantem e digam: “Essa política antidrogas é besteira!”.

A respeito da defesa do sr. da legalização ou descriminalização das drogas nos EUA, o mesmo pode ser aplicado no Brasil?

Claro. Seja legalização ou descriminalização, o que quer que funcione na sociedade seria bom. Devemos perguntar quais questões queremos resolver: se estamos preocupados com traficantes, teremos que pensar sobre a legalização, pois tem a ver com o comércio. Por outro lado, traficantes não terão êxito se houver inclusão social. Até descobrimos como sermos mais inclusivos, sempre teremos problemas com o tráfico. Onde houver drogas e pessoas terá tráfico. Mas, enquanto pessoas não forem incluídas, haverá economia clandestina.

O sr. crê que o uso de drogas passa por um problema de saúde em vez de polícia?

Depende muito. Para a maioria das pessoas que usa drogas não se trata de um problema de saúde, embora possa se tornar. Pense, por exemplo, no uso do automóvel. Muita gente dirige de forma imprudente e acaba tendo problemas, se envolve em acidentes, o que acaba se tornando um problema de saúde. Mas a maioria da população usa o automóvel de maneira segura e tal uso não se configura um problema de saúde pública.

Quais diferenças o sr. percebe na política antidrogas nos EUA e Brasil?

Recentemente, escrevi um artigo mostrando como a política antidrogas dos EUA foi exportada para o Brasil. É uma política criada para subjugar a população negra. Como resultado, lá, um a cada três homens negros estão sujeitos a passar algum tempo na cadeia. É uma estatística terrível. O que contribuiu para isso foi uma política de combate ao tráfico, sobretudo de cocaína e crack, criada em 1986. Agora, estamos revendo essa política, uma vez que percebemos que está errada e inapropriada. O que está sendo feito no Brasil, nos dias de hoje, é basicamente a mesma coisa que adotamos nos anos 1980. Portanto, podemos esperar os mesmos resultados: pessoas negras, particularmente homens, enchem as prisões. Isso quando não são mortas pela polícia.

O sr. foi criado em uma comunidade pobre de Miami. Há alguma similaridade com nossas favelas?

Sim, financeiramente pobre, mas culturalmente rica, em amor, em pessoas brilhantes. Não tínhamos muitos recursos financeiros, mas tínhamos outros. Não é muito diferente das comunidades onde os negros daqui são criados. Eu fui criado como um pobre, não preciso ver como é aqui para saber. Vi a pobreza o tempo todo na minha vida. A favelas daqui, em termos de arquitetura, são as piores que já vi. Já estive em inúmeros lugares, nas favelas da África do Sul, mas as estruturas das casas no Brasil são realmente ruins. Nos Estados Unidos, as pessoas são pobres, porém seus lares não são tão desiguais. Há uma pobreza séria ocorrendo aqui.

Esse talvez seria um dos motivos pelos quais as pessoas enveredam pelo tráfico?

As pessoas sempre perseguem as necessidades básicas, não importa em qual sistema vivam. Elas precisam comer, morar, precisam do mínimo de respeito. Quando não se tem isso, elas vão buscar em outro lugar. De repente, vem alguém que oferece um ‘trabalho’ no tráfico ou qualquer outra atividade, e essa pessoa simplesmente pega.

Temos um dilema na Bahia: a maioria dos policiais é negra e educada para combater uma população predominantemente negra. Qual a percepção do sr. sobre essa realidade?

Essa pergunta tem uns componentes notáveis. A primeira coisa é que toda pessoa, de qualquer raça, tende a ser morta por um semelhante dela. Por todo o mundo, não é incomum. Quando falamos de negros, achamos que seria incomum, mas não é. Segundo, quando pensamos na polícia, é uma organização que simplesmente faz o que a estrutura de poder quer que ela faça. E a estrutura de poder, nesse caso, é branca. Não é como se a polícia daqui se comportasse de forma anormal. Eles sabem a quem obedecem. É simples. Por isso que estou tentando enfatizar que é um problema não haver lideranças negras aqui. Por que, se houvesse, realmente poderia se traçar um panorama sobre quais são os problemas da violência, de fato. Não é uma garantia de que teríamos um entendimento por completo, até por que nos Estados Unidos temos lideranças negras em inúmeros locais, mas eles são igualmente ignorantes. Eles não entendem o que está acontecendo, enquanto outros são conscientes. Dessa maneira, o fato de haver lideranças negras não é garantia de que tenham uma leitura do contexto. Mas, certamente, essa presença aumenta as possibilidades de compreensão desse quadro.

Para sustentar a proibição, políticos no Brasil defendem que o sistema público de saúde não suportaria uma possível legalização…
Provavelmente, é algo estúpido e errado. Eu realmente não ouço políticos, não são pessoas que devem ser ouvidas nesse assunto, mas pessoas que têm publicações nessa área, que têm evidências, informação. Políticos, geralmente, são idiotas e, nem penso neles.

Muitos pela  proibição do drogas dizem que a maconha leva ao uso de outras substâncias. Quanto há de verdade nisso?

Em 1937, a ciência acreditava nisso. Mas não estamos mais em 1937. As evidências, hoje, são claras e dizer isso é de uma estupidez imensa. Eu fico surpreso que a população permita que esse tipo de pessoa a represente.

E quanto ao álcool?

O alcance é mais amplo e não é nada inesperado que mais pessoas tenham mais problemas em decorrência do consumo do álcool. Volto à comparação com dirigir veículos: a maioria das pessoas que bebe o faz de maneira segura. Quando consumido em doses moderadas, chega a ser associado a benefícios positivos à saúde. Obviamente, se as pessoas bebem demais, em excesso, elas terão problemas, assim como qualquer outra coisa consumida imprudentemente. Uma das consequências do uso abusivo, por exemplo, é a inclinação que as pessoas têm a praticar sexo sem proteção. Fora isso, está tudo bem. Em qualquer sociedade ou qualquer comportamento, potencialmente haverá problemas de todos os tipos. É algo inerente ao ser humano. Se formos pensar que tudo é nocivo, que podemos controlar tudo, a gente não vai nem comer. Não temos como evitar tudo que faz mal, caso contrário, a gente não vive.

Salvador é a cidade com a maior população negra fora da África. Ainda assim, nunca tivemos um prefeito negro. Como o sr. vê isso?

É algo vergonhoso. Percebo que há muito poucos negros em posições de liderança. Por conta disso, penso que os negros daqui deveriam protestar. Deveriam ser educados para dizer: ‘Isso é inaceitável!” Até que as pessoas tenham consciência disso tudo vai continuar na mesma. Enquanto houver essa falta de inclusão, toda a conta vai ser creditada às drogas. Há um apartheid silencioso acontecendo aqui.

O sr. acredita que o Brasil, assim como ocorreu com Obama nos Estados Unidos, um dia terá um presidente negro?

Eu não sei se esse deva ser o objetivo primordial do Brasil, por agora. Não faço ideia. Até porque, se você me perguntasse se eu imaginaria que um dia haveria um presidente negro nos Estados Unidos, eu diria não. No final, estaria errado. Não sou muito bom nessas especulações. Penso que a população brasileira deveria se focar mais na igualdade, na inclusão dos cidadãos no mainstream (posição de destaque). Assegurar que deve haver mais negros com educação, moradia, empregos, na classe média. Penso que esse deva ser o foco.

Durante a estada do sr. no Brasil houve algum tipo de preconceito como um homem negro, sobretudo rastafári?

Não, porque eu não sou o típico negro comum, uma vez que ando pelas ruas e as pessoas meio que me reconhecem. Nós deveríamos andar pelas ruas e perguntar aos nativos daqui como eles se sentem. A visão deles é mais importante que a minha, porque eles vivem aqui todos os dias.

Então, o que realmente aconteceu no Hotel Tivoli, em São Paulo, na semana passada?

Nada. Absolutamente nada. Me disseram que um segurança vinha em minha direção para me barrar, mas eu não vi. Pessoalmente, eu não vi nada. As pessoas começaram a me pedir desculpas, sem motivo. Algum repórter falou com outra pessoa e vimos no que deu. No final, eu fiz um vídeo para explicar que não aconteceu nada. A notícia se espalhou como um vírus. Sabemos que há um ressentimento quanto à discriminação racial aqui. Eu acho que as pessoas se envergonharam por algo assim supostamente ter ocorrido comigo, por eu ser um estrangeiro. Por isso, tentaram resolver rapidamente. Mas esse fato não é o que deveria ser discutido, mas, sim, o racismo diário que acontece na sociedade. Fico feliz que esse assunto esteja resolvido quanto a mim.

4229c1736bcbcc561ab7a4bd1c29abdd

As capitanias hereditárias permanecem no Brasil do século XXI.

Por Daniel Luis Dalberto

Os cartórios, designação genérica para tabelionatos, registros civis, registro de imóveis, e outros registros, até a Constituição de 1988 eram dados aos “amigos do rei”, não eram acessíveis aos mortais. Eram passados de pai para filho. Verdadeiros privilégios de alguns poucos, “dinossauros” de eras em que a sociedade era dividida em castas.

A Constituição de 1988 estabeleceu em seu artigo 236 que esses serviços são exercidos por delegação do Poder Público e que o ingresso na atividade notarial e de registro deve se dar por concurso público. O legislador constituinte, apesar da profunda mudança, disse apenas o óbvio, pois estabeleceu, ainda que tardiamente, norma básica de trato da coisa pública.

Pois pasmem! Hoje, quase trinta anos após, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça, 4.576 cartórios do país ainda não foram submetidos a concurso público! Estão nas mãos de apadrinhados por alguém influente. E os Tribunais pelo país afora, sabe-se lá o porquê, passados quase trinta anos ainda não fizeram cumprir a Constituição e não organizaram concursos para esses cobiçados filões.

Agora, na quarta-feira, 26 de agosto, seguindo o velho regime das capitanias hereditárias no Brasil, a Câmara dos Deputados aprovou, por 333 votos a favor, em primeiro turno, a PEC 471, que efetiva no cargo, sem concurso, os titulares de cartórios que os herdaram por ligações familiares e razões nada republicanas.

Convido o leitor a fazer uma rápida pesquisa no seguinte endereço eletrônico:

www.cnj.jus.br/Transparência/Poder Judiciário/Justiça Aberta/Serviços Públicos/Consultar Produtividades e Localização de Serventias Extrajudiciais. Ou, clique aqui: http://www.cnj.jus.br/corregedoria/justica_aberta/?

Então, selecione seu estado, município e o cartório da sua esquina ou aquele que você quiser pesquisar. Veja o faturamento de cada cartório. Talvez isso dê lógica a tudo que pareceu absurdo nesta postagem.

Como dizia Nelson Rodrigues, “o dinheiro compra até amor verdadeiro”. E como disse o Papa Francisco, “o dinheiro tem que servir, não governar”.

Deforestation in Mato Grosso

Alertas de desmatamento da Amazônia sobem 68% em um ano.

Na foto, área desmatada no Mato Grosso para expansão do agronegócio. Estado foi o “campeão” em alertas de desmatamento e degradação. (© Paulo Pereira/Greenpeace)

Por Redação do Greenpeace Brasil – 

Segundo dados do INPE, os alertas de corte raso identificados pelo DETER de agosto de 2014 a julho de 2015 chegaram a 3.260 Km2, área 107% maior que a registrada no ano anterior.

Seguindo a publicação dos dados do SAD do IMAZON, divulgados na última quinta feira, o Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (INPE) liberou hoje os dados de seu Sistema de Detecção do Desmatamento na Amazônia Legal em Tempo Real – DETER e os números não são nada animadores: o corte raso (3260 Km2) e a degradação florestal (1708,5 Km2), somados aos alertas não confirmados, totalizam uma destruição de 5.121,92 Km2. Estes são os maiores índices dos últimos seis anos, invertendo a tendência de queda que vinha sendo apontada pelo sistema.

“Sabemos que os sistemas de alertas não representam o total de desmatamento e nem são eficazes para pegar pequenos desmatamentos com menos de 25 hectares e é exatamente isso que preocupa, pois com este aumento de alertas podemos esperar também um crescimento na taxa anual medida pelo Prodes*”, afirma Rômulo Batista, da Campanha da Amazônia do Greenpeace.

Os alertas de desmatamento e degradação acumulados de agosto de 2014 à julho de 2015 superaram em 69% os índices registrados no período anterior, de agosto de 2013 a julho de 2014.

Mais uma vez o estado do Mato Grosso liderou este triste ranking, somando 1.815 Km2, o equivalente a 35% de todos os alertas, seguido de perto pelo Pará que somou 1.535 Km2, com 29,8% do total, e Rondônia com 769 Km2, responsável por 15% dos alertas no período.

Enquanto o desmatamento corre solto na floresta, sem que o governo dê a devida importância para o fato, diversas regiões do país enfrentam uma grave crise hídrica, como os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, que vivem com a iminência de racionamento de água para os próximos meses.

O desmatamento não afeta apenas quem vive na floresta, pelo contrário, seus efeitos já estão sendo sentidos pelo Brasil afora. Ao desmatar as florestas interferimos em um equilíbrio delicado e o planeta todo paga a conta.

“Infelizmente o futuro que se anuncia não é nada bom. Em seus últimos encontros internacionais, com o presidente dos Estados Unidos e a chanceler da Alemanha, o governo brasileiro não apresentou nenhuma ambição, limitando-se apenas a acabar com desmatamento ilegal até 2030”, observa Batista.

Para acabar de vez com a destruição florestal o Brasil precisa fazer o dever de casa, assumindo um compromisso com o Desmatamento Zero e com o futuro. Faça parte do movimento pelo fim do desmatamento no Brasil AGORA, assine pelo Desmatamento Zero.

*Prodes – Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal – é o sistema de monitoramento oficial, medido pelo INPE. Como utiliza outro tipo de satélite, que detecta desmatamentos menores de até 6,25 hectares, o índice é usado para indicar a taxa oficial de desmatamento do Brasil. (Greenpeace Brasil/ #Envolverde)

* Publicado originalmente no site Greenpeace Brasil.