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A face mais perversa e covarde de um governo: o abandono dos últimos índios isolados à sua própria sorte.

Daniel Luis Dalberto

A civilização que sacrifica povos e culturas antiquíssimas é uma farsa amoral.

Carlos Drummond de Andrade.

A colonização do Brasil se deu a ferro, fogo e pólvora. Literalmente. O avanço dos povos europeus a partir de 1500 significou tragédia e morte para centenas de povos indígenas que aqui estavam há milênios. Estima-se que havia uma população de 10 a 20 milhões de índios em 1500. Hoje, o censo do IBGE diz que são cerca de 800 mil índios, sendo que quase a metade vive em cidades. A intrusão estrangeira desfez o equilíbrio que os índios tinham com o meio físico, desorganizou suas sociedades, dissolveu valores e extinguiu sabedorias e culturas. Estima-se que em 1500 cerca de 1.300 diferentes línguas eram faladas no território em que hoje está o Brasil. Atualmente são apenas 150 ou 160 línguas, sendo que apenas 38% dos índios falam a línguas de seus ancestrais. Há em média apenas 250 falantes por línguas, sendo que várias delas contam com menos de 10 falantes. Ou seja, marcham a passos largos para o desaparecimento.

A maior parte dos indígenas vive hoje na Amazônia, última fronteira da expansão, cada vez mais pressionada pelos grandes projetos dos governos (Santo Antônio, Jirau, Belo Monte, Teles Pires, Belo Sun, etc), pelo agronegócio e pela cobiça de madeireiros e garimpeiros ilegais. Ao tempo que persistem as violações dos direitos dos índios – apenas recentemente reconhecidos – assistimos ao ocaso das últimas civilizações ameríndias, o que, além da tragédia em si mesma, nos empobrece pela eliminação de diversidade, pelo fechamento de portas que poderiam nos indicar caminhos possíveis ante evidentes colapsos morais, sociais e ambientais que acometem nossa civilização e ameaçam nosso futuro.

Os índios isolados.

Transcrevo a seguir interessante e elucidativa matéria sobre índios isolados de Rondônia, gentilmente escrita a meu pedido por Fabrício Amorim, Coordenador de Proteção e Localização de Índios Isolados e Recém Contatados da Funai, que também cedeu as quatro imagens abaixo postadas, sendo as duas primeiras tapiris do “Índio do Buraco” (link do wikipedia sobre esse índio colado abaixo) e as duas últimas imagens são de tapiris “rabos de jacu” dos índios isolados da terra indígena Massako.

POVOS INDÍGENAS ISOLADOS E DE RECENTE CONTATO EM RONDÔNIA

No estado de Rondônia há, atualmente, diversos registros de presença de grupos indígenas isolados. Desses, quatro grupos têm sua presença confirmada pela Funai, morando em Terras Indígenas localizadas na região sul e centro-oeste de Rondônia. Povos ou grupos indígenas isolados são aqueles índios que optaram por não estabelecer contatos com a sociedade nacional. De uma forma geral, os povos indígenas isolados já passaram por experiências traumáticas, tais como massacres violentos e transmissão de doenças, por isso optaram em algum momento de sua história por não estabelecer contato, são grupos indígenas acossados, que atacam, rechaçam e fogem a qualquer tentativa de invasão dos seus territórios.

Destas populações, a Funai conhece seus vestígios, seu território, sem, para isso, promover ações de contato. Atualmente, a política do Estado brasileiro para proteção desses povos é pautada pela “política do não-contato”, isto é, a Funai não realiza contato com esses grupos, fazendo a proteção de seus territórios, garantindo que possam viver em paz, segundo suas decisões, costumes e tradições.

Há uma série de referências de índios isolados em Rondônia, sendo que a Funai confirma, atualmente, a existência de 04 grupos: os Yrapararikwara, cuja etnia e língua são ainda desconhecidas; os Jurure’í, que pertencem ao mesmo coletivo Amondawa e Uru-Eu-Wau-Wau (de língua Tupi-Kawahiva), ambos na Terra Indígena Uru Eu Wau Wau; os índios isolados que moram na Terra Indígena Massaco; e um povo indígena que hoje só tem um representante, conhecido popularmente como “índio do buraco”, que habita a Terra Indígena Tanaru. A população dos Yrapararikwara e dos índios da Massaco é grande, e a Funai tem observado que vem aumentando cada vez mais, pois seus territórios estão demarcados e protegidos, com a posse plena garantida. O índio do buraco é proveniente de um povo que foi todo dizimado no passado, por meio de sucessivos massacres perpetrados por fazendeiros e madeireiros da região. Hoje, ele vive sozinho e recusa o contato. A Funai respeita sua decisão e protege a terra onde mora. O povo Jurure’í, hoje refugiado no extremo nordeste da TI Uru-Eu-Wau-Wau, região da Serra da Onça, não é diferente do “índio do buraco”, sobreviveu a diferentes e sucessivos esbulhos de seus espaços tradicionais e à morte da maioria de seus membros.

A política de proteção aos povos indígenas isolados do Brasil é reconhecida internacionalmente, sendo considerada a mais avançada no mundo. O estado de Rondônia é símbolo histórico desse reconhecimento internacional, pois foi lá que a Funai desenvolveu uma metodologia eficaz de proteção desses grupos, através de importantes sertanistas e indigenistas da Funai que desenvolveram seu trabalho na região. Essa metodologia contribui, atualmente, para que outros países desenvolvam suas políticas públicas, garantindo o respeito aos direitos dos povos indígenas isolados.

Além dos povos isolados, há em Rondônia também dois povos considerados de “recente contato”, contatados pela Funai em 1995. São os Akuntsú e os Kanoê, que moram na Terra Indígena Rio Omerê. Povos indígenas de recente contato são povos que conhecem pouco o mundo dos brancos, vulneráveis sob o ponto de vista epidemiológico e sócio-cultural, por isso precisam de um acompanhamento específico da Funai. Os Akuntsú falam uma língua da família Tupari e os Kanoê uma língua de um tronco linguístico isolado. Eles foram contatados pela Funai num momento difícil, de destruição do seu território, sobretudo pelo desmatamento ilegal para criação de pasto. Antes do contato, eles foram vítimas também de sucessivos massacres – tal como o índio do buraco e outros – um dos motivos de hoje serem uma população tão pequena. Atualmente, os Akuntsú totalizam 05 pessoas e os Kanoê são apenas 03 indivíduos. Apesar disso, para a política de proteção do Estado brasileiro, não importa seu contingente popuacional, são povos indígenas sujeitos dos mesmos direitos.

A proteção dos povos indígenas isolados e de recente contato é realizada pela Funai por meio de unidades decentralizadas denominadas de Frentes de Proteção Etnoambiental (FPE’s). Em Rondônia, há duas FPEs: a FPE Guaporé e a FPE Uru Eu Wau Wau. Ambas contam com apoio técnico e administrativo da Coordenação Regional de Jí-Paraná, também uma unidade descentralizada da Funai. Essas FPEs fazem expedições de localização e monitoramento para conhecer melhor os processos territoriais e sócio-culturais dos grupos isolados. Também fazem trabalhos de vigilância ambiental e de conscientização das vilas e cidades que existem perto dessas terras indígenas.

Hoje, lamentavelmente, restam poucos povos indígenas isolados no Brasil. Estima-se cerca de cem grupos de trinta etnias, em sua maioria pequenos, com poucos indivíduos. Pelo cenário acima delineado, estão extremamente ameaçados, principalmente pela perda de suas terras por invasores e por doenças. São comuns os registros de genocídios praticados contra esses povos isolados, inclusive em período recente, pós-constituição de 88, o que pode ser constatado, como exemplos, nos dois links abaixo:

https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%8Dndio_do_Buraco

https://pib.socioambiental.org/pt/povo/kanoe/342

Atualmente, a situação agravou-se ainda mais pelo descaso e mesmo violação do próprio governo aos povos indígenas, especialmente pelo desmonte e uso político da já combalida e desestruturada Funai. Para ilustrar tal situação, veja-se as matérias recentemente publicadas na imprensa:

http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/ministro-da-justica-demite-presidente-da-funai-por-nao-nomear-indicacoes-do-psc/

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/03/1865209-ministro-da-justica-critica-indios-e-diz-que-terra-nao-enche-barriga.shtml

http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,serraglio-extingue-347-cargos-da-funai,70001712837

A face mais perversa e covarde das políticas governamentais relativas aos índios veio à tona nos últimos dias. Os índios isolados são extremamente vulneráveis a violências dos que cobiçam suas terras, riquezas minerais e florestais. Vivem em áreas isoladas, sendo que eventuais genocídios contra eles praticados dificilmente podem ser descobertos. Tal situação impõe constante vigilância pelos servidores da Funai. No entanto o governo cortou até os já poucos cargos que a Funai mantém na importantíssima função das frentes de proteção etnoambientais:

http://m.folha.uol.com.br/poder/2017/04/1877379-crise-na-funai-fecha-5-bases-de-protecao-a-indios-isolados.shtml

Não faz o menor sentido o governo, a pretexto da crise financeira, cortar esses cargos essenciais, visto que são poucos servidores, o que não dá qualquer impacto financeiro relevante. Também, trata-se de servidores públicos que precisam ter muito preparo técnico, sensibilidade, experiência específica, conhecimento de área e coragem para atuar nesses locais, de modo que não se pode exonerá-los e amanhã facilmente contratar outros em seus lugares.

A situação preocupante pode ser constatada pelas matérias a seguir. O jornal Hoje da rede Globo apresentou reportagem sobre ameaças a índios isolados Kawahiva em Colniza MT:

https://youtu.be/sZggMhr-P5I

https://youtu.be/YWB0DRVgK24

Na semana passada, ocorreu uma tragédia na mesma região, com bárbaros assassinatos de pessoas pela disputa de terras, conforme se vê pela notícia abaixo:

http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,vitimas-de-massacre-no-mato-grosso-sao-assassinadas-com-golpes-de-facao,70001748090

Assim, denota-se claramente a extrema gravidade da situação da política indigenista no Brasil, que viola frontalmente o art. 231 da Constituição da República e diversos tratados internacionais assinados pelo Brasil, em especial a Convenção 169 da OIT. É assustador e vergonhoso vermos o descaso e as ameaças a que estão sujeitos os últimos grupos étnicos isolados e de recente contato do planeta, praticados por quem tem o dever jurídico de protegê-los.

Amazônia ou Parque dos Dinossauros?

Grileiros sentem “um ambiente bem mais positivo” em Brasília e avançam para novas conquistas.

Aqui não existe assalto. Todo mundo anda armado”, explica, orgulhoso, um taxista da cidade de Novo Progresso, no sudoeste do Pará. As armas podem não estar à vista, mas todos parecem porta-las. Em Novo Progresso, as aparências não enganam.

Sob uma fachada de prosperidade, alguns dos donos dos principais estabelecimentos comerciais do município estão em liberdade condicional. Foram presos por desmatamento, grilagem e formação de quadrilha na Operação Castanheira, em 2014, promovida pelo Ministério Público Federal, Polícia Federal e Ibama. A operação foi batizada “em homenagem” a Ezequiel Castanha, dono da ampla rede “Supermercados Castanha” e que, como se soube com as investigações, lucrava mesmo era com a grilagem e a venda de terras públicas.

Em novembro de 2016, a pauta do momento em Novo Progresso era a renovada confiança na redução da Floresta Nacional (Flona) Jamanxim.

Floresta Nacional (Flona) é uma modalidade de área protegida de uso sustentável prevista no Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (Snuc). O território coberto pela Flona Jamanxim alcança mais de 1,3 milhão de hectares, uma área maior que o Líbano. Localizada ao longo da rodovia BR-163, nos arredores de Novo Progresso, foi criada em 2006 no pacote que incluía outras sete unidades de conservação (UCs), somando 6,4 milhões de hectares de florestas protegidas. A criação da Flona aconteceu no eixo do Plano BR-163 Sustentável, anunciado em 2004 para mitigar os impactos do asfaltamento da rodovia.

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Um dos supermercados da rede de Ezequiel Castanha em Novo Progresso. O nome inspirou a Operação Castanheira, que prendeu Ezequiel e outros grileiros e desmatadores.

Foto: Mauricio Torres

Às vésperas do último Natal, as Medidas Provisórias 756 e 758 mutilaram 57% da dimensão original da Flona Jamanxim e tiraram um naco de 861 hectares do vizinho Parque Nacional do Jamanxim.

O retrocesso na proteção da região veio após anos de pressão de quem nunca aceitou ser privado da grilagem e da venda de terras (públicas) que se valorizaram muito e rapidamente com o asfaltamento da BR-163.

Desde o início, os protestos dos ruralistas iam do fechamento da rodovia a ameaças de derrubar a floresta toda caso não houvesse a redução da unidade de conservação: “Não quero, mas vamos derrubar essas árvores todinhas.”, disse, em 2006, Agamenon da Silva Menezes, presidente do Sindicato de Produtores Rurais de Novo Progresso. Repetia-se à exaustão o discurso de que a reserva ambiental “engessou a região e proibiu que os moradores continuassem a produzir”. Os dados mostram que as ameaças não se limitaram apenas a palavras.

Grilagem e Violência

Os pretensos “donos” de terras localizadas no interior da Flona Jamanxim têm perfil no mínimo questionável. Segundo dados do ICMBio, 67% das detenções de terras instalaram-se depois da criação da UC, e 60% desses ocupantes não residiam ali. Estudos do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) afirmam que a área média dessas pretensões é de 1.843 hectares, escala muito acima das ocupações médias dos colonos da região.

Cândido Neto da Cunha, perito federal agrário do Incra no oeste do Pará, mostra que, na média, essas ocupações são ilegais, pois, além de configurarem invasão de UC, “a legislação não permite a regularização de ocupações tão recentes e de dimensões tão grandes”. Segundo o perito, “mesmo com a área não destinada à Flona, continuam a configurar tentativas de apropriação ilegal de terras públicas, ou mesmo, grilagens”.

Como grilagem é uma atividade que não se conjuga sozinha, a Flona Jamanxim passou a disputar as primeiras colocações na lista de UCs mais desmatadas da Amazônia, além de ser palco de outros crimes violentos.

Em 2009, o ICMBio fez um estudo para reavaliar os limites da Flona. A conclusão da pesquisa refutou a possibilidade de redução da unidade e alertou que isso “levaria a um recuo de estratégia governamental de conservação que traria consequências ambientais imprevisíveis não só para a própria área da Flona, mas também para várias outras UCs da Amazônia” que também sofriam invasões e pressões decorrentes de interesses políticos.

A porção da Flona Jamanxim mais cobiçada pelos invasores era, precisamente, a mais próxima à BR-163– não por acaso, a área que se valorizava mais rapidamente e também a mais estratégica para conter o desmatamento.

“Mata Plantada”

Durante nossa passagem por Novo Progresso, em novembro passado, encontramos Agamenon da Silva Menezes, porta-voz dos latifundiários instalados nas terras públicas da região. Animado, ele acabara de retornar de Brasília e, apesar da longa viagem de ônibus, deu entrevista garantindo que a UC é uma ilegalidade. “Resolveram fazer, mandaram a caneta para cima e fizeram [a Flona], sem cumprir nenhuma norma”. Sorridente, assegurou que tudo seria resolvido em breve, já que, em Brasília, havia agora “um ambiente bem mais positivo”.

“O termo desmatar já é provocativo. Na verdade, é alteração da floresta.”

“O Brasil é pobre porque não desmata”, explica Agamenon ao defender a redução da UC. Quando indagado sobre a possibilidade da medida provocar aumento nos índices de desmatamento, ele foi rápido em apontar: “O termo desmatar já é provocativo. Na verdade, é alteração da floresta. Você não vai deixar a área no chão. Ela vai ser usada com lavoura, com pasto, com alguma coisa. Ela não é desmatada, apenas se altera de uma mata nativa para uma mata plantada”.

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Agamemnon da Silva Menezes, presidente do Sindicato de Produtores Rurais de Novo Progresso.

Foto: Thaís Borges

Porém, nem todos em Novo Progresso concordam com Agamenon. Lincoln Brasil Queiroz – um dos poucos fazendeiros que têm títulos da sua terra, decorrente da compra que seu pai fez junto ao Incra há décadas, tem outra visão. Para ele, a redução da Flona seria uma lição prática de que “o crime vale a pena, pois beneficia quem continua desmatando e ocupando ilicitamente”.

Com as mesmas preocupações, a procuradoria da República em Itaituba (PA) abriu, em novembro, uma ação civil pública, pedindo a interrupção do processo de redução da UC. A ação pretendia impedir “a anistia das grilagens de terras através da desafetação de áreas protegidas”. O MPF demandava ainda que a Justiça Federal ordenasse “o reforço imediato de políticas públicas para intensificação de fiscalizações e responsabilizações da cadeia produtiva da pecuária – especialmente porque as áreas invadidas são destinadas a criação extensiva de gado”.

O presidente Michel Temer assinou as medidas provisórias 756 e 758 que retiraram status de área protegida de partes da Flona e do Parque Nacional do Jamanxim.

O MPF estava certo. Entrevistas com intermediadores de negociações de gado na região de Novo Progresso revelaram que, anualmente, são produzidas ilegalmente cerca de 20 mil cabeças de gado dentro da Flona (onde a pecuária é proibida). Esse gado é comercializado sem qualquer embaraço usando esquemas de “lavagem de boi”, revelados na recente Operação Carne Fria, do Ibama, que embargou frigoríficos da empresa JBS por comprar carne produzida em áreas desmatadas ilegalmente.

Em 19 de dezembro, antes da ação do MPF ser avaliada, o presidente Michel Temer assinou as medidas provisórias 756 e 758 que retiraram status de área protegida de partes da Flona e do Parque Nacional do Jamanxim.

A medida garantiu a alegria nas comemorações de fim de ano do grupo de Agamenon, que anunciava, a partir da redução, “que o Oeste do Estado possa ter um maior desenvolvimento econômico com a implantação de grandes investimentos tanto do setor privado quanto do setor público”.

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Tronco derrubado por desmatadores na Floresta Nacional do Jamanxim em Novo Progresso, Pará.

Foto: Vinícius Mendonça/Ibama

Parques de Papel

Garantindo que a pavimentação da rodovia BR 163 não repetiria os desastres do passado, há 13 anos, o governo Lula anunciou que a licença da obra seria complementada pelo “Plano BR-163 Sustentável”. Entre providências em diversas áreas, o plano previa a criação de UCs como medida de preservação florestal.

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Unidades de conservação criadas ao longo da BR-163.

Elaboração: Mauricio Torres

“O Plano simplesmente não foi implementado”, explicou Brent Millikan, que, à época, era assessor técnico da (extinta) Secretaria de Coordenação da Amazônia, do Ministério do Meio Ambiente, “e foi substituído, em fevereiro de 2007, pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)”.

Os cenários mais pessimistas imaginados há uma década sobre a destruição florestal no eixo da BR 163 são hoje realidade.

Para Millikan, isso refletiu decisões que apostaram na manutenção no poder “a partir de alianças com grupos políticos e econômicos tradicionais, cujos interesses resultariam em práticas sistemáticas de saque do patrimônio público (dinheiro público, recursos naturais) que eram absolutamente incompatíveis com os objetivos do Plano BR-163 Sustentável”.

A amputação do Parque Nacional do Jamanxim corrobora a análise de Millikan: o Parque foi reduzido com o “objetivo é permitir a passagem da ferrovia Ferrogrão, que segue o eixo da BR 163 e encontra-se em processo de licenciamento”, segundo nota do próprio governo federal.

Os cenários mais pessimistas imaginados há uma década sobre a destruição florestal no eixo da BR 163 são hoje realidade.

Segundo Juan Doblas, que monitora o desmatamento na região pelo Laboratório de Geoprocessamento do Instituto Socioambiental, “dez anos depois do licenciamento das obras, o desmatamento acumulado atingiu as piores projeções. A perda de floresta às margens da rodovia está tão fora de controle que entre 2004 e 2013 (exceto 2005), enquanto o desmatamento caía em toda a Amazônia, aumentava na região”.

A situação, para Doblas, “seria muito pior sem a decretação das UCs, ainda que não tenham sido implementadas de fato”. Essa aparente contradição, segundo Doblas, novamente pode ser entendida pela conexão direta entre desmatamento e grilagem: “Mesmo que apenas no papel, as UCs fizeram com que o desmatamento como função de especulação imobiliária perdesse seu sentido e caísse bruscamente”. O ato de transformar terras públicas formalmente em UCs retirou-as do mercado da grilagem, pois “tornava inviável que tais áreas saíssem do patrimônio público para serem tituladas em nome de grileiros”, completa.

Como as terras indígenas, as unidades de conservação têm um relevante efeito de deter o desmatamento.

Fonte: ISA/Prodes

Desmontando o que sobrou

Foi Dilma Rousseff, na sua primeira gestão presidencial, que criou o precedente de alterar limites de áreas protegidas por meio de medidas provisórias. Em sua febre por construir barragens na Amazônia, reduziu UCs que seriam inundadas com a pretensa hidrelétrica de São Luiz do Tapajós, garantindo que as reservas não fossem obstáculo ao licenciamento da mega obra.

Paulo Carneiro, diretor de Criação e Manejo de Unidades de Conservação do ICMBio, admitiu que a redução da Flona Jamanxim é prejudicial, mas, segundo ele, ante a escalada de conflitos envolvendo a área, a saída encontrada pelo ministério foi flexibilizar a UC.

“A categoria APA abre brechas para a ocupação ilegal e não segura o desmatamento.”

Na prática, retirou-se pouco mais da metade – 743 mil hectares – da área da Flona Jamanxim. Desse total, 438 mil ha foram anexados ao vizinho Parque Nacional do Rio Novo, aumentando o rigor da categoria de proteção ambiental. Entretanto, outros 305 mil hectares (o equivalente a 117 ilhas de Fernando de Noronha) foram realocados na permissiva categoria de Área de Proteção Ambiental. A APA Jamanxim é uma modalidade de UC muito menos restritiva e que permite a quem invadiu e desmatou no interior da Flona manter a posse da terra. Ou seja.

Para Juan Doblas a mudança de Flona para APA é um eufemismo para a redução da área protegida: “Essa APA, na fronteira da expansão do agronegócio, reforça a corrida especulativa e a disputa da terra, agora, ‘grilável’, pois a categoria APA abre brechas para a ocupação ilegal e não segura o desmatamento.”

O Ministério do Meio Ambiente e o ICMBio não responderam às perguntas sobre a redução da Flona enviadas por The Intercept Brasil.

Um servidor do ICMBio que trabalha na região e pediu para não ser identificado defende o oposto. A partir da experiência de quem vivencia o problema presencialmente, ele diz: “A redução mostra que se uma UC for invadida e desmatada, deixará de ser uma área protegida e o criminoso ficará com a terra. Quero ver se alguém virá de Brasília para conter novas invasões agora”.

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Ponte Do Rio Jamanxim , em Novo Progresso, Pará.

Foto: Guto.1992

Mais baixas previstas no front

Apesar de toda concessão à grilagem e ao crime ambiental, a bancada ruralista considerou a alteração da Flona Jamanxim demasiado “modesta”, posição que abre um quadro de possibilidades assustador.

Vale lembrar que o atual ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, é acusado de grilagem de terras.

Como é de praxe com qualquer assunto, as Medidas Provisórias que alteraram as UCs serão analisadas e votadas por uma comissão mista de deputados e senadores, possivelmente ainda no mês de março. A comissão já indicou sete emendas ao texto original, todas abrandando ainda mais a proteção e ainda dilapidando outras UCs.

Vale lembrar que o atual ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, é acusado de grilagem de terras dentro do Parque Serra Ricardo Franco, unidade de conservação localizada no Mato Grosso. Assim, não é de se estranhar a solidária posição a demais grileiros da Flona Jamanxim e de outras partes do país.

Mais áreas protegidas estão na mira dos ruralistas. Em janeiro, o governo federal anunciou a intenção de efetivar brutal redução em UCs no estado do Amazonas. Planeja-se a dilapidação da Reserva Biológica do Manicoré, do Parque Nacional do Acari, das Florestas Nacionais do Aripuanã e de Urupadi e a extinção da Área de Proteção Ambiental dos Campos de Manicoré, resultando na retirada de status de proteção de cerca de 1 milhão de hectares. Em carta aberta, ONGs já pediram ao governo que aborte a proposta.

Para Adriana Ramos, coordenadora de Política e Direito do Instituto Socioambiental, “a estratégia do setor rural, representada pela Frente Parlamentar da Agropecuária, é fragilizar e neutralizar o alcance da legislação ambiental e dos direitos territoriais dos povos e comunidades tradicionais. Então, essas iniciativas estão no mesmo contexto de ataque aos direitos socioambientais por parte dos representantes do agronegócio”.

Já para o líder rural de Novo Progresso, Agamenon da Silva Menez, “a sociedade sempre progride e a mudança é inevitável e benéfica”. Ele pergunta “Vocês sentem falta de dinossauros?”

A resposta aparece nos artigos anteriores desta série e em seguidas pesquisas científicas sobre o papel da floresta amazônica para o equilíbrio climático do planeta. A cobiça ruralista, com seu discurso marketeiro e suas práticas socioambientais e trabalhistas jurássicas, antagoniza a ciência do clima, o respeito à legislação e aos povos tradicionais e consolida o agronegócio como o verdadeiro “parque dos dinossauros” do século XXI. Agamenon está em casa.

Esta matéria é da série exclusiva “Tapajós sob Ataque”, escrita pela jornalista Sue Branford e pelo cientista social Mauricio Torres, que percorrem a bacia Tapajós. A série é produzida em colaboração com Mongabay, portal independente de jornalismo ambiental. Leia a versão em inglês. Acompanhe outras reportagens no The Intercept Brasil ao longo das próximas semanas.

Foto no topo: Um dos supermercados da rede de Ezequiel Castanha em Novo Progresso. O nome inspirou a Operação Castanheira, que prendeu Ezequiel e outros grileiros e desmatadores.

Seu dedo apertou o gatilho: o sonho acabou

Alcidesio Júnior

Hoje [quinta-feira, dia 30] foi executada com três tiros, pela Polícia Militar, um na cabeça, um na nuca e outro nas costas, uma menina de 13 anos. Dentro da escola, em aula. Não é a primeira e não será a última. Morreu com black na cabeça, camisa e bermuda do uniforme da prefeitura do Rio de Janeiro, e um tênis rosa. Sem mochila ou celular, pois estava indo beber água. Jogava volei, ganhou por isso uma bolsa para ir para um colégio particular como aluna atleta, como diversos outros alunos do colégio conseguiram.

Fruto de um trabalho maravilhoso dos professores de Educação Física, a menina começou a ter sonhos. O colégio foi o melhor da CRE, venceu jogos e campeonatos contra colégios particulares, trouxe 9 medalhas das 10 modalidades que participou no ano passado. Foi o destaque. Ela era da equipe. Mas, morreu.

Com ela morreram seus sonhos e a esperança de diversas outras crianças, que experimentaram hoje o ódio e o desejo de vingança pela covardia sofrida. Todo trabalho de 6 anos do colégio na comunidade, todo o trabalho de 3 anos da equipe de Educação Física e Direção, toda credibilidade que tinham, morreram ali.

Eu sairia as 16:20, estava com a turma de 6 Ano. Ouvi três tiros de pistola. Coloquei todos sentados e em silêncio em local seguro. Ouvi mais rajadas de fuzil. Gritos. Controlando a turma, boatos vinham, diziam: menina baleada. Disse à turma que iria averiguar e eles esperassem. Concordaram.

Um funcionário, pai de aluna, que veio três vezes à turma pra ver a filha e pedir que não saísse dali, estava no corredor. Perguntei a ele o que realmente havia acontecido, ele pegou no meu braço e disse: quer ver o que aconteceu? Olhe ali embaixo. Vi o corpo e a poça de sangue. Morta.

Voltei à turma. Confirmei o boato. Vi ainda na quadra o professor de E.F. com os outros alunos abrigados e abaixados. Na primeira pausa do tiroteio, que não acabou durante toda a tarde e noite, os alunos foram liberados para casa. Mas a troca de tiros, não parou. Alunos, pais, familiares, curiosos, vizinhos e bandidos queriam ver o corpo, entrar na escola. Uma multidão que nunca vi ali, e sempre se renovava.

Uma multidão. Muita dor, revolta, desespero, ajuda… gás de pimenta, coquetel molotov, tiros, fogos, gritos…muitos gritos. Muita gente desesperada, muita gente desmaiando. O inferno. Fogo na rua, barricadas, ônibus e carros queimados. Tiros. Execução sumária. Revolta. Justa revolta. E nós, professores e funcionários, ali. Muito ódio. Justo ódio. E ela, morta.

Esta política de “combate às drogas” mata. Morre policial, morre traficante, morre inocente. Lucrando com ela, uma minoria de Políticos e “Empresários” da “boa sociedade”, que fornecem armas e drogas para os dois lados. Vendem a ideia de que vivemos em uma “guerra”, para atuarem livremente.

Encontram eco nos discursos conservadores que dizem que “bandido bom é bandido morto”, que “favelado é criminoso”, que “direitos humanos só servem pra proteger bandidos”, que a “polícia deve ser justiceira contra bandidos”. Se você defende isso, parabéns!, seu desejo foi realizado: seu dedo ajudou a puxar o gatilho do fuzil que matou Maria. Ela virará estatística: mais uma preta, pobre e favelada que morreu. Junto com ela o humano deste ser. Nesta lógica do olho por olho, ficamos todos cegos.

O ódio classista, o ódio contra a favela, o ódio contra o pobre, voltará. A favela dará o retorno. A indiferença, o descaso, o descompromisso com ela, terá volta. Não terá controle. Não há paz sem justiça social. Não há sossego possível, com esta omissão estrutural e esta política de extermínio. Ou mudamos tudo, ou nada mudará.

A família gritava: “a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro matou minha irmã “; “a favelada que estuda, tá aqui morta, enquanto isso, aquela criminosa foi solta pra cuidar do filho dela”; “queria ver se fosse na Zona Sul, se isso aconteceria, se as pessoas seriam tratadas assim”. O que dizer? Justo. Muito justo e lúcido.

Muitas coisas me doeram hoje: a menina que morreu; a dor de cada membro da família que chegava – cada grito de desespero era uma nova morte; o desespero e perplexidade dos alunos vendo o corpo, deitados no chão, e não sabendo o que fazer; a insensibilidade dos policiais militares que, nem ao lado do corpo da criança, pararam de rir, zombar e atiçar a dor da população; o despreparo e, ao mesmo tempo, o amor e empatia dos professores e funcionários para lidar e ajudar na situação; a impotência diante desta estrutura asfixiante e imobilizante.

Mas nada se comparou a dor sentida ao ler a mensagem que recebi do professor que mudou o colégio com sua nova forma de organizar a Educação Física, dando esperança a dezenas de alunos-atletas, que até então eram apenas “péssimos alunos” ou “projeto de marginais”:

“Obrigado, Júnior. Mas a minha pergunta é: do que adiantou eu ajudar ela a sonhar?”

Maria Eduarda Alves da Conceição (Foto: Reprodução)Maria Eduarda Alves da Conceição (Foto: Reprodução)

Alcidesio Júnior é professor da Escola Municipal Daniel Pizza, em Acari, Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro

Barriga de índio, barriga de ministro.

Por José de Souza Martins. Valor Econômico.

Como algumas vezes acontece, em casos assim, o novo ministro da Justiça inaugurou-se dizendo o que a prudência não recomendava e a política não propunha numa função como a sua. Fez, sobre os índios, afirmações de autoridade que não cabiam e que indicam deplorável sobreposição do senso comum ao bom senso que se espera de quem exerce funções de poder.

Link de acesso à matéria completa:

http://www.valor.com.br/cultura/4911912/barriga-de-indio-barriga-de-ministro

 

 

 

Após chilique da filha em restaurante, pai grava relato e viraliza.

Um dos maiores pesadelos de quem tem crianças é ir a um restaurante e o pequeno simplesmente abrir o berreiro e não parar mais. Por mais pacientes que os pais possam ser, nem sempre esta compreensão existe entre os demais clientes do restaurante. Já os pais ficam na dúvida: o que fazer? Como agir? Colocar de castigo ou ir embora? Ignorar ou brigar?
O pai Clint Edwards passou por essa situação recentemente. Ele e a esposa estavam em um restaurante, quando a mãe da pequena a impediu de ficar jogando comida. “Então ela gritou e gritou, e chutou e chutou. Como eu era o único que já havia terminado a refeição, tive o prazer de arrastá-la para fora do restaurante”, contou Clint. Por ver os olhares de reprovação dos demais, ele resolveu gravar um desabafo. “Bem, não. Eu não posso controlá-la. Não o tempo todo. Ainda não. Ela tem 2 anos e levará anos para ensiná-la a como agir de forma apropriada em público, e a única maneira que ensinarei é saindo de casa com ela e mostrando o que é certo e errado. É dizer ‘não’ um milhão de vezes, deixar ela ter um ataque, e dizer ‘não’ de novo”, começa.

“Mas antes de ficar com raiva e julgar, entenda que o que você está testemunhando não são maus pais. Em vez disso, são pais trabalhando duro para consertar a situação. Você está olhando para o que é preciso para transformar uma criança em uma pessoa”, continuou.

O escritor continua o desabafo: “Essas lições levam paciência, trabalho duro e experiências reais do mundo. Sinto muito por quem estava no bar e se irritou com o ataque da minha filha, mas vocês são parte desse exercício.

A identificação de vários pais foi imediata. Em 10 dias, a publicação teve mais de 387 mil reações e 163 mil comentários.

I’m stuck in the van with my toddler. We went out to dinner as a family, and she had a meltdown because mom wouldn’t let her throw chicken strips. So she screamed, and screamed, and kicked and kicked, and since I was the only one finished with my meal, I had the pleasure of dragging her out of Red Robin.

I carried her past the bar and everyone stared at me, most of them childless, I assumed. No one with children would give me that straight faced, lip twisted, look that seems

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Reforma da Previdência – O futuro do Brasil sendo definido agora.

O governo enviou ao Congresso Nacional o projeto de reforma da Previdência. Antes, aprovou a PEC dos gastos, que limitam as despesas públicas por 20 anos, em clara preparação do terreno para a reforma da previdência. Esse tema é do interesse de todos os brasileiros. Trata, além das aposentadorias em si, do tamanho que o Estado deve ter na sua rede de proteção aos cidadãos, fim último do Estado, e de distribuição de renda, num dos países de maior desigualdade social do planeta. A Nota Técnica da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, órgão do Ministério Público Federal, cujo link para acesso  está abaixo, faz análise pertinente e muito lúcida sobre os principais pontos.

Daniel Luis Dalberto

Documento traz análise das principais alterações propostas pela medida e alerta sobre violações a direitos fundamentais

PFDC envia ao Congresso nota técnica sobre impactos sociais da PEC da Previdência

Fonte: PFDC

A Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC), do Ministério Público Federal, encaminhou nesta quarta-feira, 15 de março, ao Congresso Nacional nota técnica acerca da reforma da Previdência e da Assistência Social, que tramita por meio da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 287/2016.

O documento traz uma análise detalhada das nove principais alterações sugeridas pela PEC da Previdência: aumento da idade mínima para aposentadoria, equiparação entre homens e mulheres, redução no valor do benefício, tratamento dado a trabalhadores rurais, restrição na concessão de pensões, fixação de tempo para aposentadoria especial, inacumulabilidade de benefícios e alterações nos benefícios concedidos a idosos e a pessoas com deficiência.

O texto destaca violações constitucionais presentes nessas medidas e a possibilidade de questionamentos judiciais em razão do nítido retrocesso legislativo que a PEC 287 representa.

De acordo com a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, o aumento da idade mínima para a aposentadoria – 65 anos de idade e 25 anos de contribuição – viola o princípio da proteção aos idosos, previsto no art. 230 da Constituição. Isso porque a PEC utiliza como referência para o cálculo de idade países cuja expectativa de vida é bastante superior à brasileira. “Dados da Organização Mundial da Saúde apontam que a expectativa de vida média dos países que delimitaram em 65 anos o corte para a aposentadoria é de 81,2 anos, enquanto a expectativa de vida no Brasil é de 75 anos. Ou seja, indivíduos desses países deverão viver 6,2 anos a mais do que um cidadão brasileiro”, esclarece o documento.

A nota técnica também aponta que o cálculo de idade apresentado pela PEC desconsidera ainda as diferentes realidades regionais e de renda no Brasil, tornando a idade mínima de 65 anos muito severa nos locais mais pobres e afrontando o objetivo constitucional de erradicar a pobreza e reduzir as desigualdades sociais e regionais – conforme previsto na Constituição Federal em seu art. 3º. “Dados do IBGE de 2015 apontam que a esperança de vida ao nascer em Santa Catarina, por exemplo, é de 78,7 anos, mas a do Maranhão é de 70,3 anos. Em termos regionais, a diferença de esperança de vida ao nascer é de 5,5 anos entre a Região Sul (77,5 anos) e a Região Norte (72 anos)”.

No que se refere à equiparação entre homens e mulheres no acesso ao benefício, a nota técnica ressalta que esse tratamento jurídico desconsidera a diferente situação da mulher no mercado de trabalho e nas atividades domésticas: “a mulher ainda ocupa posições menos qualificadas e recebe remuneração inferior em relação aos homens, isso quando exerce trabalho remunerado, pois ainda é frequente a dependência econômica em relação ao marido, ao companheiro ou ao pai”.

Redução no valor das aposentadorias – Para o órgão do Ministério Público Federal, a redução no cálculo do valor das aposentadorias proposta pela PEC constitui medida exageradamente severa, pois atinge inclusive as aposentadorias de baixo valor. “No Brasil, segundo a Secretaria de Previdência do Ministério da Fazenda, o valor médio real dos benefícios pagos pela Previdência Social, entre 2009 e 2016, em valores atualizados, é de R$ 1.283,93, o que equivale a 1,46 salários mínimos, ou seja, o valor médio dos benefícios é de menos de um salário mínimo e meio”. Os dados revelam que as aposentadorias pagas são baixas e não suportam uma redução percentual de valor tal como proposta pela PEC: “a aposentadoria pelo valor integral ocorreria apenas com 49 anos de contribuição, ou seja, alguém que tivesse iniciado as contribuições aos 16 anos e viesse a aposentar-se aos 65, por exemplo”.

Quanto à proposta de incluir o trabalhador rural nas condições gerais de aposentadoria – ou seja, idade mínima de 65 anos e a exigência de pagamento de contribuição mensal – a Procuradoria dos Direitos do Cidadão aponta que a medida desrespeita o princípio constitucional da igualdade, pois provoca um efeito especialmente pesado sobre camponeses, cujas condições de vida e trabalho costumam ser rudes.

Idosos e pessoas com deficiência – As alterações propostas para o pagamento de benefício assistencial a idosos e a pessoas com deficiência também foram foco de análise. Para a PFDC, a orientação de que a oferta do benefício passe a atender critérios de renda mensal familiar integral é incompatível com o sistema de seguridade social previsto na Constituição Federal em seu art. 194: “o benefício deixa de ser concedido com base em um critério material e realista (pessoa com deficiência ou idoso que comprovem não possuir meios de prover à própria manutenção ou de tê-la provida por sua família) para ser concedido com base num critério puramente matemático-financeiro”, diz o texto.

A nota técnica encaminhada aos parlamentares destaca ainda violações à segurança jurídica dos trabalhadores atingidos pelas regras de transição e implicações sistêmicas decorrentes da restrição à concessão de aposentadorias – com impactos, por exemplo, no direito à saúde e ao emprego.

O documento é assinado pela procuradora federal dos Direitos do Cidadão, Deborah Duprat, e pelo procurador regional da República Walter Claudius, que é relator da PFDC para o tema Previdência e Assistência Social.

Acesse aqui a íntegra do documento.

#MenosPreconceitoMaisÍndio

Imperatriz Leopoldinense 2017

Como O Cérebro Funciona Durante A Birra

Por Stheffany Nering
Vamos por partes.
O “chilique” acontece por quê?
Não dá pra vir com essa de “é a toa” ou “é sem motivo” porque a única chance de isso ser verdade é se seu filho for sociopata. É uma suspeita que alguma mãe tem, por acaso? Alguém acha que tá criando um pequeno psicopata em casa? Nem tem como fechar esse diagnóstico tão cedo, mas é o único tipo de caso em que a criança faria coisas assim premeditadamente sem motivo nenhum.
Em geral, a resposta sincera é “eu não sei” e a gente normalmente não sabe porque não estava prestando atenção nos vários sinais que a criança deu antes de explodir. Não porque a gente é ruim ou má mãe, mas porque é ocidental, brasileira, vive em 2014 e nossa cultura é de ignorar crianças pequenas e impor que elas existam de acordo com a nossa conveniência.
É como quando vem aqui uma mãe de bebê recém nascido, fala que o bebê chora muito, a gente diz pra pegar no colo, pra colocar o bebê no sling. Aí a mãe responde “mas eu fico com ele no colo o dia todo”. Não, não fica! Não fica porque essa mãe não é uma aborígene do interior da Naníbia, não cresceu na Mongólia, não é índia da reserva do Xingú! Ela é ocidental, brasileira, vive neste século e não 1000 anos atrás. E as brasileiras não pegam o bebê por muito tempo no colo, pegam mais que as alemãs com certeza, mas não pegam muito tempo porque “tem coisa importante pra fazer”. Fez sentido o exemplo?
Culturalmente a gente não presta atenção na criança. A gente cala o choro do recém nascido com chupeta e remédio. Ignora as tentativas de comunicação deles. Finge que não viu. Exige deles mais flexibilidade do que a gente mesmo é capaz. E passa por cima das necessidades deles “só dessa vez” que na verdade acaba sendo todo dia. Eles chamam e a gente diz “só um pouquinho” e esquece de ir. A gente senta pra brincar com eles, mas não tá ali de verdade. Porque tem milhões de coisas para fazer. E quando finalmente senta pra brincar se liga que nem tem tanta conexão com o filho assim, começa a mostrar como “tem que brincar” e ainda fica indignada quando a criança perde o interesse.
E aí, quando o negócio explode a gente não sabe da onde veio! E aí qual a explicação dada culturalmente? Que ele tá tentando te manipular, mandar em você, que não tem limites, que acha que pode fazer o que quiser.
Bem-vinda à contradição da maternidade ocidental!
Porque o “chilique” é o quê, na verdade? É uma desorganização neurológica temporária.
Vamos falar de cérebro!
Existem 3 partes de cérebro (ou pelo menos em termos de comportamento é assim que importa a divisão): o cérebro reptiliano, o sistema límbico e o neocortex.
Um bebê nasce com o reptiliano completamente desenvolvido. Ele é responsável pelos comportamentos involuntários que nos fazem sobreviver. É responsável por garantir que sobrevivamos. É ele que dispara o choro do recém nascido quando deixamos ele no berço, porque bebê ficar sozinho foi risco imediato à sobrevivência por muito tempo na história da humanidade. O instinto de sobrevivência atua aqui! Lutar ou correr, ou então paralisar numa situação difícil. Tudo regido por essa parte do cérebro. E aqui não há nenhum tipo de pensamento racional! Quando você, adulto, perde a cabeça é pra cá que você vem! E aqui não é possível analisar consequências, repensar escolhas, aqui não há raciocínio, só há ação. Um adendo, essa parte é quem vai reger o trabalho de parto, ato puramente fisiológico. Interessante, né?
O sistema límbico concentra emoções. Em geral se desenvolve quase totalmente até os 5 anos, com pico de desenvolvimento onde, onde, onde? No Terrible Two!!! E tem um outro pico na adolescência (qualquer semelhança, aliás, não é mera coincidência). Aqui vem uma enxurrada de emoções e sentimentos em reação ao que acontece, às experiências vividas. E, claro, da mesma forma como pra andar o bebê cai muitas vezes, aqui ele “erra a medida” muitas vezes. Ele tem muito pouca experiência de vida pra conseguir medir do jeito certo como reagir e muito pouco controle sobre essas emoções todas ainda, então a coisa sempre parece exagerada aos nossos olhos. Parece exagerada pra gente, cujo sistema límbico tá bem treinadinho já! As conexões aqui ainda estão sendo feitas e elas são reforçadas a partir das experiências diárias. Como isso acontece depende de como eles serão ensinados a lidar com essas emoções. Da mesma forma como pra aprender a andar é necessário prática. E, claro, uma criança com 1/2/3 anos de idade não tem quase nenhum controle sobre as próprias emoções, é uma enxurrada que toma ela de repente, o controle vem com o passar dos anos. E é por isso que crianças de 7 anos não fazem isso! Ou pelo menos, não do mesmo jeito que uma criança de 2 anos. Qual foi a última criança de 7 anos que você viu esperneando no chão do supermercado?
Neocortex, a maravilha que nos distingue plenamente de todas as outras espécies. O lugar onde ocorre o pensamento racional! Embora comece a se desenvolver no nascimento, a coisa aqui só anda mesmo depois dos 5 anos de idade e termina lá pelos 20. Ação e reação, capacidade de premeditação, linguagem, capacidade de se entender como alguém no mundo, de se colocar no lugar do outro, de calcular as consequências de um problema, capacidade de perceber porque algo aconteceu e mais um monte de outros raciocínios complexos e abstratos são produzidos através de ligações neurológicas no neocortex! Isso quer dizer que crianças pequenas não conseguem compreender a razão da maioria dos limites e mesmo quando conseguem, elas ainda não tem autocontrole desenvolvido pra seguir o limite. Isso depende basicamente de prática e tempo pro cérebro se desenvolver.
Sabe o que acontece no “chilique”? A irrigação de sangue é drasticamente reduzida do neocortex pro sistema límbico. Ele toma conta do organismo da pessoa, sem irrigação e oxigenação apropriada no neocortex, ele NÃO FUNCIONA direito (no caso de uma criança pequena ele já é subdesenvolvido). Com certeza todo mundo aqui já experimentou uma situação em que a gente “perde a cabeça”, esse perder a cabeça é literalmente perder o acesso ao neocortex, fazendo com que você não consiga raciocinar. É isso que acontece quando a gente se irrita, fica impaciente, quando se desespera, quando sente raiva. Não consegue raciocinar direito, porque falta sangue no neocortex!
Técnicas como respirar fundo, contar até 10, dar uma volta antes de explodir são todas formas de trazer a oxigenação pro neocortex de novo. Baixar o cortisol e subir os níveis de ocitocina. Crianças pequenas, que mamam, automaticamente pedem pra mamar quando começam a sentir o sistema límbico desregulando, porque mamar joga muita ocitocina no organismo, não podendo mamar (e a maioria absoluta de crianças de 2 anos na nossa sociedade não mama mais) elas se jogam nos braços da mãe ou do cuidador de confiança (toque físico libera ocitocina também). Por isso a criança cai, sente dor, sente medo e corre pros pais. Isso se chama inteligência emocional e não dependência emocional.
Uma das técnicas mais rápidas de trazer o sangue de volta pro neocortex é literalmente massagear a testa!
Dependendo de como reagem ao desequilíbrio emocional da criança, ela vai estabelecendo ligações e reforçando padrões neurológicos que se tornam referencial de conduta. Isso tudo é feito nos primeiros anos de vida. E é aqui que as atitudes práticas entram e que a nossa cultura, especificamente, fez uma salada.
Se, quando o desequilíbrio acontece, a reação dos adultos cuidadores é de ensinar essa criança trazendo o sangue de volta pro neocortex, ela vai conseguindo raciocinar em cima dessas emoções, categoriza-las adequadamente e por fim controla-las. Isso tudo com prática e tempo (porque não dá pra apressar o desenvolvimento do cérebro). Oportunidades pra esse aprendizado é que não faltam na vida de crianças de menos de 5 anos.
Se, porém, a reação é desconforto com o estado emocional da criança, ou de repressão a esse estado (lembrando novamente) absolutamente normal do desenvolvimento infantil, se a reação dos cuidadores faz com que a criança se sinta ameaçada, aí temos um problema. Porque se a criança se sente ameaçada o sangue é reduzido do límbico pro cérebro reptiliano, onde ela em alerta e modo de sobrevivência.
E é isso que nós culturalmente fazemos. Ignoramos o motivo pelo qual a criança tá desregulada e reagimos como se ela tivesse pleno controle sobre o sistema límbico e pior agimos como se estivesse fingindo.
Na prática: a gente ignora ou bate, briga, grita com a criança porque ela está emocionalmente desregulada, numa demonstração patética de um “chilique” adulto. Como se isso pudesse fazer ela parar de sentir o que está sentindo, em nenhum momento ajudamos a criança a se acalmar, trazer a oxigenação de volta pro neocortex pra ajudar ela a raciocinar com o pouco cérebro desenvolvido que tem. Pelo contrário, nessa hora negamos peito, abraço, voz calma, tudo o que poderia ajudar.
Como nós mesmos fomos reprimidos assim, as emoções cruas das crianças nos incomodam e reagimos de acordo com o mesmo padrão reforçado na nossa infância.
Nossos métodos de resolver são violentos e levam a criança diretamente pro cérebro reptiliano. A questão é que nesse lugar do cérebro, além de não conseguir raciocinar, você é capaz de fazer coisas que normalmente não seria. Não só agir como nunca agiria se estivesse calmo, mas literalmente ganha habilidades que só aparecem aqui. Como por exemplo correr quilometros e quilometros fugindo de um cativeiro onde um assassino queria te matar, mesmo sendo uma pessoa sedentária. Ou se jogar em cima de um cão feroz atacando seu filho e conseguir matar o cão, além de resgatar o filho. Ou ser capaz de abafar todas as suas emoções e “obedecer” mesmo sem autocontrole desenvolvido pra isso ainda.
Deu pra entender o problema?
Nós normalmente negligenciamos as necessidades das crianças pequenas e exigimos delas uma flexibilidade fora do comum, tudo pela nossa conveniência. Aí a criança vai se descontrolando, nós ignoramos os sinais. Quando ela surta, não sabemos da onde vem aquilo, entramos num estado automático de repressão de sentimentos efetuando o padrão estabelecido no nosso cérebro quando pequenos. Fazemos isso interpretando a desregulagem emocional da criança como falsa e sem motivo. Aplicamos métodos violentos que jogam a criança no cérebro reptiliano dela e aí ela consegue “ficar quieta na igreja”, “não bater no coleguinha”, “parar de chorar e te seguir no mercado”. E aí interpretamos isso como um reforço da crença de que a criança realmente estava fingindo e tentando nos manipular. E vira um círculo vicioso.
Só se muda a forma de reagir a essa fase normal das crianças com informação correta sobre desenvolvimento infantil. Com as informações erradas, a gente interpreta errado.
Com a prática, a criança vai conseguindo “se controlar e obedecer” cada vez mais rápido, da mesma forma que um bebê pequeno dorme cada vez mais rápido ao ser deixado pra chorar, o cérebro reptiliano faz de tudo pela sobrevivência. Consegue feitos realmente incríveis!
Deu pra entender porque é que funciona? Ignorar funciona! Gritar funciona! Bater na mãozinha funciona! Funciona a curtíssimo prazo e com a prática o resultado é cada vez mais imediato. O que segue reforçando a crença da criança manipuladora.
E temos várias consequências aí. A 1ª é no vínculo mãe-filho, ou cuidador-criança, que vai se enfraquecendo. A mãe acreditando cada vez menos na autenticidade do filho e o filho com cada vez mais medo da pessoa de quem ele depende e ama.
A 2ª é que vai sendo reforçado no cérebro um padrão de que quando determinadas emoções aparecem, corre-se pro cérebro reptiliano ao invés de ir pro neocortex. A regulagem e adequação de emoções fica falha. Claro que com o passar dos anos vamos ganhando mais experiência e a situações que disparam nosso sistema límbico de forma tão aguda diminuem, mas elas ainda acontecem na vida adulta. E todos nós conhecemos adultos “cabeça quente” que “não pensam antes de falar/agir”. Não tem como pensar mesmo se seu cérebro sempre vai pro lugar errado. E aí a gente é capaz de cometer atrocidades mesmo. É a mãe que espanca o filho até a morte, é o marido que bate na esposa, é o cara que sai beber e gasta o dinheiro da família porque estava triste, é o juiz que usa de todos os seus poderes para acabar com uma fiscal que ousou aplicar a lei nele. É a multidão em histeria coletiva linchando alguém, é o estupro coletivo, é o tacar fogo no índio, o amarrar o negro no poste. Uma desregulagem emocional de alguém cujo padrão é sempre correr pro cérebro primitivo, é se sentir ameaçado por coisas aparentemente insignificantes e desencadear uma reação inimaginável em resposta.
A 3ª é que só funciona pra “educar” a criança a curto prazo, a médio e longo esse tipo de abordagem aumenta a quantidade de “mal comportamento” e de eventos críticos no sistema límbico e faz com que a criança minta e se esquive, pra evitar a punição, até porque ela não confia mais nesse adulto e até agora ninguém ensinou o que efetivamente deveria ser feito, isso ela tem que descobrir sozinha. O aumento de episódios costuma ser interpretado como falta de “pulso firme” e uma crença de que “imagina se eu não colocasse de castigo?” confirmando a natureza selvagem das crianças e reafirmando as posturas punitivas.
É preciso outro modelo pra ver outros tipos de resultados.
Entender essa desregulagem emocional como um evento normal da vida de uma criança pequena, não se sentir ameaçado pela crueza dos sentimentos dela e acolhe-la e ajuda-la a lidar com aqueles sentimentos todos é uma abordagem que dá muito mais trabalho. Mas, é muito mais efetiva!
Não vai evitar que aconteça, isso é impossível. Mas, vai fortalecer o vínculo cuidador-criança, vai ensinar e dar ferramentas pra lidar com essas emoções de forma apropriada, vai estabelecer um padrão de voltar pro neocortex ao invés de se refugiar no reptiliano (padrão que ela vai levar pra vida adulta) e é muito mais efetivo em termos de diminuir o número e o tempo dos surtos no sistema límbico.
Claro, pode parecer que você não está fazendo nada quando compara com o filho da vizinha que passa o tempo todo no supermercado sem dar um pio dentro do carrinho.
Mas, aí você tem que pensar em qual seu objetivo na vida do seu filho, né? Que tipo de abuso a criança sofreu pra aprender isso? É um preço que você está disposta a pagar? Só pra ter a aprovação de outras pessoas sobre você como mãe disciplinadora?
Importa mais o quê? A relação com seu filho ou a aprovação dos outros? Quem é que vai entregar um adulto responsável pro mundo depois? Quem é que vai saber não ser dominado pelos próprios sentimentos? Situações que nos tiram do eixo, que jogam nosso emocional numa montanha-russa sempre vão ocorrer, quem vai saber lidar com elas e colocar tudo de volta sob controle sem causar danos ao redor?
Então, volta lá: Faz o que na hora do “chilique”?
Depende do motivo, ué!
O fato é que nessa idade aí a gente presta menos atenção nas necessidades básicas deles. Então, fome, sono, sede, cansaço e dor são coisas que deixam a criança (e qualquer adulto, diga-se de passagem) predisposto a surtar. Prevenção aqui vale ouro!
E depois disso tem fatores emocionais: medo, ansiedade, etc. Que precisam ser tratadas especificamente.
Tem culturas em que essa desregulagem emocional é menos aguda nas crianças. Em parte porque os adultos se desenvolveram com o padrão correto, indo pro neocortex, então eles não se sentem ameaçados pelos sentimentos da crianças. Eles sabem que é normal e passageiro, vão ensinando com calma e pelo exemplo. O completo oposto da nossa sociedade, em que exigimos das crianças um padrão de perfeição e autocontrole emocional que nem nós mesmos conseguimos atingir. E em parte porque poucas sociedade exigem tanto dos seus participantes, poucas culturas negligenciam necessidades básicas como a cultura ocidental. Comemos mal, quase todo mundo costuma estar em algum nível de desidratação, dormimos pouco, convivemos quase sempre com a dor em algum lugar, vivemos ansiosos, com medo, correndo. Isso nos deixa sempre no limite. Como resposta nossas crianças realmente reagem mais frequentemente a esse descompasso. Dá pra tentar mudar alguma coisa, mas continuamos ocidentais…por mais que gostemos de nos chamar de índias!
Sei que falei, falei, falei e de prático não disse nada!
Não dei uma dica de como agir. Mas,não dá pra dar dicas se continuarmos nos guiando pelo padrão anterior. Não funciona!
Primeiro informação sobre desenvolvimento infantil, pra entendermos o que tá acontecendo e porquê, depois pensamos em como intervir.
Ps.: Aliás, depois de tudo isso já deu de chamar a crise emocional da criança de “xilique”, né? Não é chilique, não é manha, não é drama, não é show, não é birra, não é escândalo, não é piti. É uma crise emocional no sistema límbico, um desiquilibrio neurológico passageiro, uma necessidade de ajuda pra lidar com alguma situação, é um curto circuito no cérebro. Não é voluntário! Não é premeditado! E não é fingido!
Eu sei que muitas de nós usamos essa palavra “na falta de outra”, mas pensem comigo: se uma mãe vem aqui e diz que o bebê de 5 dias tá fazendo manha, a gente imediatamente rebate dizendo que “não é manha, que é comunicação, que o bebê está precisando de algo, normalmente peito”. Por que é que com a criança de 2 anos a gente aceita a palavra “manha”? Porque no fundo a gente não acredita que a criança esteja com problema nenhum. E se a gente não acredita que há um problema, a gente não acredita que ela precisa de ajuda. Se a gente não acredita que ela precisa de ajuda, a gente não ajuda! E a gente deixa a criança sozinha tentando descobrir como faz pra sair daquele labirinto emocional e ainda pune por ela ter um problema.
Então, daqui pra frente, vamos combinar de não usar mais essas palavras tão pejorativas? Vamos usar “não está conseguindo lidar com seus sentimentos”, ou “está desregulada”, ou precisa de “ajuda pra se acalmar”, ou “está com dificuldade”, até “perdeu a cabeça” é melhor do que qualquer das palavras tradicionais. Qualquer coisa que traga à tona a situação real, que é isso não ser o normal, que a criança está precisando de ajuda, que isso vai passar.
As palavras importam.

Publicado originalmente em: https://www.maesabetudo.com.br/como-o-cerebro-funciona-durante-a-birra/

O que o velho Araweté pensa dos brancos enquanto seu mundo é destruído?

O Brasil etnocida avança na Amazônia paraense: primeiro Belo Monte, agora Belo Sun.

Eliane Brum El País
Belo Monte
Indígena Araweté, em reunião no centro de convenções de Altamira, no Pará. Lilo Clareto

Ele era um ancião. Seu povo, Araweté. Tinha o corpo vermelho de urucum. O cabelo num corte arredondado. E estava sentado ereto, as mãos abraçando o arco e as flechas à sua frente. Ficou assim por quase 12 horas. Não comeu. Não vergou. Eu o olhava, mas ele jamais estabeleceu um contato visual comigo. Diante dele, lideranças indígenas dos vários povos atingidos por Belo Monte se revezavam no microfone exigindo o cumprimento dos acordos pela Norte Energia, a empresa concessionária da hidrelétrica, e o fortalecimento da Funai. Ele, como outros, não entendia o português. Estava ali, sentado numa cadeira de plástico vermelho, no centro de convenções de Altamira, no Pará. O que ele via? Há 40 anos, ele e seu povo nem mesmo sabiam que existia algo chamado Brasil. Possivelmente isso siga não fazendo nenhum sentido, mas agora ele está ali, debaixo de luminárias, sentado numa cadeira de plástico vermelho, aguardando seu destino ser decidido em português. O que ele via?

Não sei o que ele via. Sei o que eu via. E o que vi me fez alcançar não uma dimensão dele, mas de mim. Ou de nós, “os brancos”. Sempre que escrevo sobre os meandros técnicos e jurídicos de Belo Monte, e agora também de Belo Sun, sei que perco algumas centenas de leitores por frase, por mais que simplifique o que é complexo. Porque a linguagem da justiça, assim como a da burocracia, com todas as suas siglas, é feita para produzir analfabetos mesmo em quem tem doutorado em letras. Mas o que resta para os indígenas que se esforçam para se expressar na língua daqueles que os destroem no mesmo momento em que a vida é destruída? O que resta para o velho Araweté sentado ali por quase 12 horas? Ele não tem escolha, já que é com estas palavras que sua existência é aniquilada.

As lideranças dos vários povos indígenas atingidos por Belo Monte, as que falam português, denunciavam a impossibilidade da vida depois que a hidrelétrica se impôs no Xingu. Exigiam que a Norte Energia cumprisse suas obrigações legais para restabelecer as atividades produtivas nas aldeias e para que pudessem superar a situação de insegurança alimentar. A reunião, na quarta-feira (26/1), era uma resposta ao protesto dos indígenas no Ministério Público Federal em Altamira, seguida pela ocupação do escritório do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) na cidade. Antes, eles podiam exigir o cumprimento dos acordos parando o canteiro de obras de Belo Monte, mas agora que a usina já opera o poder de pressão diminui e o que já era grave se torna ainda pior. Com a presença do novo presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Antônio Fernandes Toninho Costa, os indígenas exigiam o fortalecimento do órgão que deveria protegê-los e há anos vem sofrendo um desmonte promovido por setores e políticos ligados ao agronegócio, de olho nas ricas terras indígenas, e hoje tão intimamente entrelaçados ao governo Temer.

Belo Monte
Thais Santi, procuradora da República, entre Hugo Loss, chefe do escritório do Ibama em Altamira, à esquerda, e Antonio Costa, presidente da Funai. Lilo Clareto

A reunião era importante porque a situação é desesperadora. Há relatos de fome e de aumento de doenças em parte das aldeias. Durante a construção da hidrelétrica, o chamado Plano Emergencial deveria ter fortalecido os indígenas diante da magnitude do que estava para acontecer. Em vez disso, tornou-se um balcão onde se barganhou com a vida dos povos originários. Por cerca de dois anos a Norte Energia deu uma espécie de mesada aos povos indígenas atingidos, 30 mil reais em mercadorias para cada aldeia todo mês. Era um instrumento de cooptação e corrupção dos caciques para minar a resistência à construção de Belo Monte.

Belo Monte
Gilberto Veronese, superintendente de Assuntos Indígenas da Norte Energia S.A., empresa concessionária de Belo Monte. Lilo Clareto

Aldeias se dividiram. Indígenas deixaram de plantar roças para comer produtos industrializados. A desnutrição infantil disparou, assim como os casos de diarreia. Ao mesmo tempo, a Funai, que deveria protegê-los diante do monumental empreendimento no Xingu, rio sagrado para os povos indígenas, deixou de ter chefes de posto nas aldeias e foi convenientemente enfraquecida na região. O Plano Emergencial para conter o impacto representado pela construção da hidrelétrica, ao virar um balcão em que mesmo indígenas de recente contato negociavam diretamente com a empresa, tornou-se o maior impacto. Tanto que a procuradora da República em Altamira, Thais Santi, moveu uma ação contra o Estado e a Norte Energia por etnocídio – extermínio cultural – dos povos indígenas.

Belo Monte
Indígena atingido por Belo Monte, durante reunião em Altamira. Lilo Clareto

Hoje, a situação é considerada pelos observadores ainda mais grave. O rio foi alterado pelo barramento e a sobrevivência dos indígenas está ameaçada. Mas, em vez de haver uma responsabilização do Estado, em todas as suas instâncias, o governo do do Pará deu em 2 de fevereiro a licença de instalação de outro gigantesco projeto: a extração de ouro pela empresa canadense Belo Sun na Volta Grande do Xingu, bem ao lado de Belo Monte. A região, já extremamente impactada pela hidrelétrica, agora sofrerá um novo impacto, numa sobreposição cujas consequências não foram dimensionadas. A Funai reiterou que o estudo que trata do licenciamento ambiental é “inapto à apresentação para as comunidades indígenas”, por não atender a critérios básicos, e que não há nem sequer “dados primários” sobre as terras indígenas mais próximas do local de mineração. Seria necessário pelo menos seis anos de monitoramento da Volta Grande após Belo Monte para analisar a viabilidade ou não de um novo empreendimento na região. Mas a Funai foi ignorada. Para os povos indígenas, é uma espécie de renovação do fim do mundo.

Uma semana atrás, os indígenas denunciavam o impacto de Belo Monte. Hoje, desesperam-se porque o impacto de Belo Sun vai se sobrepor ao de Belo Monte na Volta Grande do Xingu. O pior se anuncia, e o pior acontece. Tem sido assim. Todos os mecanismos de proteção da floresta amazônica e dos povos indígenas são ignorados – ou torcidos – e o judiciário tem se mostrado conivente com o rompimento da lei, como se ela fosse apenas uma trama frouxa. Como o velho Araweté pode entender isso, ele que sequer compreende uma língua em que a palavra “Belo” pode nomear algo que destrói e mata?

Pintado de urucum, agarrado ao arco e às flechas, sentado numa cadeira de plástico vermelha, sem compreender a língua em que seu destino é decidido e sua fome decretada, ali está o velho Araweté. Como ele chegou até o centro de convenções? Que caminhos o levaram até aquele momento, aquela cadeira, aquele cenário tão exposto pelas luminárias e ao mesmo tempo tão encoberto por negociações e subterfúgios e apagamentos?

 Os Araweté sabem de nós, os brancos, há muito tempo. Como conta o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro no Povos Indígenas no Brasil (PIB), uma espécie de enciclopédia viva organizada pelo Instituto Socioambiental sobre as mais de 240 etnias que povoam o território que chamamos de Brasil, mas que eles chamavam por outros nomes há muito mais tempo, os brancos estão presentes em sua mitologia. Mas o contato “oficial” ocorreu nos anos 70 do século 20, no processo de implantação da Transamazônica, o primeiro dos grandes empreendimentos promovidos pelo Estado e executado pelas grandes construtoras na região. Naquele momento, a ditadura civil-militar iniciou um trabalho de “atração e pacificação” dos povos indígenas. No entendimento dos Araweté, é importante sublinhar, o que se deu foi o contrário: eles é que amansaram os brancos.

Em 1976, os Araweté foram encontrados pela Funai acampados precariamente junto às roças de camponeses. Estavam famintos e já doentes pelo contato com os brancos. Em julho daquele ano, os sertanistas decidiram iniciar com eles uma caminhada de cerca de 100 quilômetros até um posto da Funai. Nos 17 dias que durou o percurso, adultos e crianças iam tombando pelo caminho. Com os olhos fechados por uma conjuntivite infecciosa, os Araweté não enxergavam sequer o caminho. Perdiam-se na mata e morriam de fome. Crianças pequenas, subitamente órfãs, eram sacrificadas por adultos desesperados. Muita gente, fraca demais para seguir andando, pedia para ser deixada para morrer em paz. Ao final da jornada, 73 pessoas já não existiam, vitimadas pelo contato e pela caminhada. O primeiro censo feito pela Funai registrou 120 sobreviventes. Eram, naquele momento, todos os Araweté do planeta.

O velho sentado na cadeira de plástico vermelha, agarrado a seu arco e suas flechas, é um dos sobreviventes do contato “oficial” com os brancos, 40 anos atrás. E ali está ele. O que ele vê? O que são os brancos que negociam sua vida no palco do centro de convenções? O que somos nós?

Um salto. Já não é a Transamazônica rasgada sobre a casa e a vida dos povos indígenas do Xingu. É Belo Monte. Em 2013, o antropólogo Guilherme Heurich, do Museu Nacional, apresentou um texto contundente na sexta câmara da Procuradoria Geral da República, em Brasília: “O que a Norte Energia fez, durante o Plano Emergencial, foi fornecer um fluxo constante de mercadorias em direção às aldeias. A Norte Energia se colocou como o grande doador, universal e infinito, de produtos não indígenas, tendo como intermediárias entre ela e os índios apenas as listas”.

No início, a Funai ainda barrava pedidos como, por exemplo, camas-box. Depois, os caciques passaram a negociar as listas diretamente. Era um balcão onde se reeditava a clássica alegoria de 1500, quando os europeus invasores trocaram a vida das populações originárias por espelhinhos. Quinhentos anos depois, eram voadeiras, combustível, TVs, bolachas, salgadinhos, refrigerantes. Indígenas que não consumiam açúcar passaram a consumi-lo diariamente. Como isso poderia proteger os povos indígenas do impacto de Belo Monte? A violação é explícita. Mas mais de um ano depois o judiciário ainda não decidiu sequer quem tem a competência para julgar a ação de etnocídio. Para o judiciário brasileiro, a morte cultural de povos indígenas não é um tema emergencial.

Numa conversa com um Araweté, o antropólogo Guilherme Heurich descobriu como aquele povo compreendia o fluxo de mercadorias para a aldeia. As mercadorias eram o “pepikã”, a contrapartida da futura morte de todos. E o que vai matar?, ele perguntou. “A água”. A água? “Sim, a água da barragem”. A análise dos Araweté sobre o porquê do fluxo de mercadorias para a aldeia, segundo o antropólogo, não poderia ser mais clara e precisa: “tudo aquilo que o plano emergencial despejou é o pagamento antecipado da morte que acontecerá quando a aldeia for inundada pelas águas de Belo Monte”. Outro Araweté construiu uma saída para o dia em que barragem acabaria com a vida na aldeia: “A gente vai construir uma canoa bem grande… para morar todo mundo no meio do rio”.

Assim, aquele Araweté que agora está ali, no centro de convenções de Altamira, agarrado ao seu arco e às suas flechas, viveu junto com todos a certeza que o fim do mundo havia chegado. Como dimensionar e responder a um impacto desta magnitude sobre a vida psíquica? E agora ele está ali. Sentado na cadeira de plástico vermelho. Imóvel. Quase 12 horas horas sem comer, sem vergar.

O rio Xingu e seus afluentes já não são os mesmos. Seu povo, às margens do Ipixuna, sente isso dia após dia. Outros povos, estes da Volta Grande do Xingu, pegam o microfone para contar que Belo Monte mudou radicalmente o rio, ameaçando seu presente e interditando seu futuro. E avisam que, se o projeto de mineração de Belo Sun for liberado, acabará com tudo. Belo Sun está longe dos Araweté, mas está bem perto das aldeias de outros povos, como os Juruna e os Arara. Longe e perto são categorias relativas num ambiente em que um acontecimento desencadeia inúmeros outros em cadeia. “Se for dada a licença pra Belo Sun, vai ser o caos. E quem sofrerá somos nós”, diz o cacique Gilliard Juruna, da aldeia Muratu, que no final do ano passado perdeu um irmão afogado no rio em que havia nascido, mas já não reconhecia.

Belo Monte
Para os mais jovens, a hidrelétrica barrou o futuro. Lilo Clareto

O projeto da canadense Belo Sun, chamado de “Volta Grande”, no município de Senador José Porfírio, foi liberado apenas alguns dias depois da reunião em que o presidente da Funai reiterou: “A Funai já se manifestou. Somos contra Belo Sun”. A notícia chegou primeiro em inglês. A reunião da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (Semas) que formalizaria a licença de instalação para Belo Sun nem havia terminado e oficialmente a licença ainda não havia sido concedida, mas a mineradora canadense já lançava um comunicado em inglês anunciando a liberação. Em 12 anos, a mineradora canadense prevê a extração de 600 toneladas de ouro da região da Volta Grande do Xingu. Serra Pelada, a maior corrida do ouro vivida no Brasil do século 20, arrancou oficialmente pouco mais de 40 toneladas da floresta amazônica.

Um dos engenheiros que assina o relatório encomendado pela Belo Sun, atestando que o projeto é viável e seguro, é o mesmo que assinou o laudo atestando a estabilidade da barragem do Fundão, em Mariana. Segundo reportagem do “Fantástico”, programa da TV Globo, ele foi indiciado por homicídio após o rompimento que causou um dos maiores desastres ambientais da história do Brasil. Segundo o Instituto Socioambiental, o projeto da Belo Sun prevê montanhas de rejeito com aproximadamente duas vezes o volume do Pão de Açúcar e a construção de um reservatório de rejeitos tóxicos. Tudo isso numa região já fortemente impactada por Belo Monte, em plena floresta amazônica, no momento em que a humanidade enfrenta a mudança climática.

Belo Monte
Os guerreiros indígenas foram à reunião com seus arcos e flechas. Lilo Clareto

A Defensoria Pública da União e a Defensoria Pública do Pará já entraram com ações contra a licença para Belo Sun. O Ministério Público Federal já moveu uma ação afirmando que o processo de licenciamento deve ser feito pelo Ibama – e não pelo órgão estadual –, já que há territórios indígenas na área de impacto. Outra ação do MPF já anulou em primeira instância a licença prévia do projeto e hoje trava uma batalha de recursos nos tribunais superiores. Mas mesmo com a licença prévia “sub judice“, ainda assim a licença posterior, a de instalação, foi concedida. E agora Belo Sun, que já está na Volta Grande há bastante tempo, tem permissão oficial para operar. Mais uma vez, os povos indígenas e as comunidades tradicionais não foram escutados, como determina a legislação. Mas a conivência do judiciário com os desmandos e omissões dos governos tornou a lei menos real do que o Curupira na região do Xingu. As violações são denunciadas e nada acontece. A violência é anunciada e não é impedida. A lei, assim como o rio, está barrada no Xingu.

Como o velho Araweté vai compreender esse mundo dos brancos que destrói o seu mundo e o mundo de outros povos indígenas? Como vai compreender uma lei que existe para não existir? Mas ele está lá, ereto, há quase 12 horas sem comer, sem vergar. Sentado na cadeira de plástico vermelho. A reunião, necessária para que não seja ainda pior, fundamental para que a Norte Energia seja pressionada a cumprir os acordos que já deveria ter cumprido há anos e a Funai a proteger os indígenas que nunca deveria ter desprotegido, é ela mesma uma violência. É outra língua, é outra organização social e política. O velho Araweté está ali, sentado entre representantes de outros povos indígenas que são seus inimigos históricos, ouvindo palavras que não decifra. Como é possível esse tanto de impossível, essa realidade absurda?

Nós os chamamos Araweté, mas até o nome não faz qualquer sentido na sua língua, que vem do tronco tupi-guarani. Foi dado por um sertanista da Funai, mas não há referência na língua dos Araweté, que não sabem por que são chamados de Araweté. Eles autodenominam-se “bïde”, que significa “nós”, “a gente”, “os seres humanos”. Brancos são “kamarã”. E são “awi” – “inimigos”, “estrangeiros”. E ali está o velho, sentado com seu arco e com suas flechas, e nem o nome pelo qual seu povo é chamado ao microfone faz qualquer sentido.

A tensão é permanente, e o tempo parece um tecido sempre na iminência de ser rasgado. Lideranças de outros povos, que falam bem o português, a dominam. Indígenas sacodem bordunas, as frases são fortes porque a vida vai virando morte. “O que vocês fazem é criar conflito, vocês botam nação contra nação pra brigar. Isso é crime”, diz uma liderança. “Se a Norte Energia é governo, se é dona de tudo, então diz logo que não vai fazer”, diz outra. “Para quem não nos conhece nós somos mortos de fome, ignorantes, corruptos, mas a ação de etnocídio está lá na mesa do judiciário”, grita um cacique. “Tem garimpeiros e madeireiros saqueando as nossas terras e vocês não fazem nada”, segue mais um. “Vocês têm que respeitar nós, respeitar nossos velhos, respeitar nossa língua. O rio tá seco, o rio tá sujo, nós estamos sofrendo. Vocês têm que ouvir!”

Belo Monte
Além dos arcos e flechas, os guerreiros levaram uma nova arma, o celular, que lhes permite capturar o som e as imagens de acordos e promessas. Lilo Clareto

O presidente da Funai pede um “voto de confiança”, lembra que acabou de assumir o posto, promete que tudo será diferente. Quando um indígena interrompe a sua fala, ele diz: “Eu ouvi vocês, agora peço que por favor me deixem falar. Esta é a democracia”. Se o velho Araweté pudesse compreender o português, o que pensaria sobre a “democracia”? Expressões como “geração de renda”, “atividades produtivas”, “logística de mobilização” são frequentes ao longo da reunião. Como compreender esse estupro dos ouvidos? Sentado ali, o que ele vê?

A língua desencarnada é muito pior do que um fantasma porque nem mesmo assombra. É o que sinto quando repito a palavra “etnocídio”. Como explicar que a morte cultural é a morte daquilo que um povo é, a morte de um ser e de um estar no mundo totalmente singular, é a morte que precede a extinção física, porque a cultura é o que dá sentido às batidas de um coração humano. Mas eu e tantos repetimos essa palavra para contar do que acontece com os povos indígenas desde que Belo Monte se materializou no Xingu, mas esse contar nada move. Nem mesmo uma ação do Ministério Público Federal denunciando o Estado e a Norte Energia por etnocídio fez o judiciário considerar o processo de morte cultural dos indígenas como algo a ser interrompido com urgência.

Mesmo para quem compreende o português, se a palavra desencarna, se o leitor não consegue enxergar ali o sangue e a alma do que ali morre, a letra é carta que não chega ao seu destinatário. E para o Araweté, este que morre lentamente aqui mesmo nesta reunião, vítima de etnocídio, sem sequer conhecer a palavra que nomeia a sua extinção?

Belo Monte
O presidente da Funai, Antônio Costa, assinou acordo em que se comprometia a fortalecer o escritório do órgão em Altamira. Lilo Clareto

Já é madrugada quando a reunião termina, e as lideranças se aglomeram para assinar mais um documento em que Norte Energia e Funai se comprometem a cumprir o que já descumpriram tantas vezes. O velho Araweté finalmente se move. Tem movimentos de felino e evoluciona pelo salão como se estivesse em território estrangeiro, que é onde de fato está. Bem lentamente, ele se aproxima de um teclado de computador e, cauteloso, estende um dedo coberto de urucum. Toca muito rapidamente a tecla e já retira o dedo. Nada acontece. Ele diz algumas palavras em sua língua para ninguém. Cola o corpo na parede branca, protegendo as costas em ambiente hostil, e fica curiosando a cena. Depois, volta a dar seus passos de felino. Vai até a mesa das autoridades, agora vazia. Pega o microfone e dá umas batidas nele, cuidadoso. Nada. Já está desligado. Nenhuma palavra sai dali. O presidente da Funai se despede com um adeus geral: “Fiquem com Deus”.

O que vê o velho Araweté? Gostaria de saber. Mas não sei. Ignorante, sei apenas o que eu vejo.

“Há uma coisa deles que morre pra sempre assim que a gente encosta”

Queria que a gente nunca tivesse tocado nele. Queria que nenhum povo indígena tivesse sabido de nós. Como disse Cláudio Villas Bôas, muitas décadas atrás, ao tentar “salvar” os indígenas: “Há uma coisa deles que morre pra sempre assim que a gente encosta”. Lembro também de uma outra frase, essa título de um livro precioso do antropólogo Jorge Pozzobon: “Vocês, brancos, não têm alma”.

Mas tocamos neles. E sempre que os tocamos provocamos extermínio. Como os piores alienígenas, desembarcamos e os matamos de tantas formas. E não aprendemos nada porque seguimos exterminando-os. E ontem jogamos neles Belo Monte. E hoje Belo Sun.

Somos ainda, em grande parte, os mesmos que provocaram o genocídio em 1500. E hoje a Constituição de 88, que assegurou a proteção dos povos indígenas, é atacada por todos os lados. E sofre cotidianamente o pior dos ataques, que é o de não ser cumprida. Os brancos não têm palavra. Escrevem a lei na letra e, mesmo assim, não têm palavra.

Não sei o que vê o velho Araweté. Sei o que eu vejo. Diante de mim há alguém que é ele mesmo um mundo. Alguém que não devia precisar estar ali. E tudo o que temos a oferecer são cadeiras de plástico vermelho e palavras desencarnadas.

Ele pega um charuto. Acende. Desce com dificuldade a escadaria do centro de convenções e desaparece na cidade com cheiro de esgoto. Eu saio dali como monstro.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum