Finalmente.

O homem de Neandertal era evoluído demais. Tinha o cérebro tão acabado que não precisava da linguagem, mas sem a linguagem foi um fracasso social

Luis Fernando Veríssimo. Publicado no Estado de São Paulo, em 30 de julho de 2017.

O homem de Neandertal tinha uma caixa craniana maior do que a nossa e, presumivelmente, um cérebro mais desenvolvido. Mas não falava. Usava instrumentos de pedra, dominava o fogo, enterrava seus mortos e vivia em comunidades como as nossas, talvez um pouco menos selvagens. Mas não tinha uma linguagem. Só se comunicava com os outros com grunhidos e tapas no ouvido. Pela aparência, estava mais bem preparado para dominar o planeta do que nós. Além do crânio enorme, tinham ombros maiores, mais músculos e ossos mais fortes. Mas, embora tivesse todo o equipamento necessário, não falava.

Hoje, especula-se que era o cérebro que atrapalhava. A gestação da mulher de Neandertal durava mais tempo, o que significava que o cérebro já nascia pronto. E, em vez de ter a infância prolongada e protegida que literalmente faz a nossa cabeça, o guri de Neandertal recebia um tacape na saída do útero e já ia caçar. Sabe-se que o embrião reproduz, no ventre, toda a evolução da espécie e que há um momento na gestação em que nosso cérebro fica tão completo quanto o feto de Neandertal. Mas aí começa um processo de depuração, de eliminação de células e modificação de circuitos, que continua no período pós-natal, e é essa adaptação que nos permite falar. Ou seja, a linguagem é o produto de uma carência programada do cérebro e o poder da fala uma compensação pelos neurônios perdidos. O homem de Neandertal era evoluído demais. Tinha o cérebro tão acabado que não precisava da linguagem, mas sem a linguagem foi um fracasso social. Não durou nem 80 mil anos, e com aqueles ombros.

Aceitando-se a tese evolucionista, nós descendemos dos débeis mentais de Neandertal, dos que nasceram com o cérebro incompleto, dos fraquinhos que ficavam só em casa aprendendo besteira. Foi a linguagem que permitiu ao modelo seguinte dos pré-humanos se organizar, conceitualizar, trocar informações e mentir. Isto é, civilizar-se. Se você prefere a tese antievolucionista, ela diz que a Natureza sabe o que quer e seu objetivo era dar nome às coisas e uma retórica aos elementos, que antes da linguagem rugiam de frustração com a incapacidade de falar. Tudo na Natureza – os vulcões, os vendavais, os terremotos e os bichos – seria uma dificuldade de expressão.

Tentando e errando (o homem de Neandertal, alguns políticos), tudo o que a Natureza quer é que falem por ela, que sejam o poeta que ela, por mais que se esforce, não consegue ser. Mas, segundo outra tese, malvada, a internet e seu vocabulário eletrônico teriam sido inventados para, finalmente, dar uma voz aos neandertais.

Temos que aprender a ser índios.

Na Flip, Eduardo Viveiros de Castro afirma que é preciso aprender a viver no mundo sem destruí-lo e compara a situação dos índios no Mato Grosso com a dos palestinos em Gaza.

viveiros
O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro durante a mesa/ Foto Walter Craveiro

 

Temos que aprender a ser índios, antes que seja tarde. Foi essa a principal mensagem dada pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro na mesa “Tristes Trópicos”, realizada no sábado, dia 2, na Festa Literária Internacional de Paraty. Segundo o pesquisador, neste momento em que o planeta passa por uma situação de “catástrofe climática” e está sendo transformado em um “lugar irrespirável”, devemos aprender com os povos indígenas “como viver em um país sem destruí-lo, como viver em um mundo sem arrasá-lo e como ser feliz sem precisar de cartão de crédito”. “O encontro com o mundo índio nos leva para o futuro, não para o passado”, disse ele.

Viveiros de Castro dividiu a mesa com o também antropólogo Beto Ricardo, fundador do Instituto Socioambiental (ISA), e com a mediadora Eliane Brum. Em discurso afinado, os dois denunciaram a dura realidade vivida pelos índios brasileiros atualmente e disseram haver uma “campanha” em voga no Congresso para retirar os direitos que estes povos conquistaram com a Constituição de 1988. “Hoje os índios estão mais visíveis do que nunca, mas mais vulneráveis do que nunca. O Congresso tem uma maioria de proprietários de terra em uma ofensiva final contra os índios”, disse Viveiros de Castro, que também criticou o governo federal pelo trabalho quase nulo na demarcação de terras.

O antropólogo, célebre mundialmente por sua teoria do perspectivismo ameríndio, comparou a situação dos índios no Mato Grosso do Sul com a dos palestinos na Faixa de Gaza. Segundo ele, os guaranis do Estado vivem ou nas beiras de estrada ou confinados em reservas mínimas, das quais são frequentemente expulsos pelas pressões do agronegócio: “O Mato Grosso foi transformado em um nada, a custa de que se possa plantar ali soja, cana e botar gado para exportação, para alimentar os países capitalistas centrais. Devia chamar Mato Morto, ou ex-Mato”. E continuou: “Os índios estão vendo o céu cair em suas cabeças. Mas dessa vez vai ser na cabeça de nós todos.”

beto-e1407101197407
O antropólogo Beto Ricardo/ Foto Walter Craveiro

Beto Ricardo criticou também a cobertura dada pela imprensa à questões como essa no País. “Quantos nomes de grupos indígenas você conseguiria pronunciar de memória? A imprensa brasileira consegue pronunciar pouquíssimos. Fala em um índio genérico”, disse ele. Ao apresentar a série de publicações intitulada Povos Indígenas no Brasil, o antropólogo aproveitou para cutucar inclusive o público: “Quem quiser não só decorar os nomes das capitais do Brasil, mas os nomes dos povos, pode ler esses livros”. “Os índios tem muito a colaborar para um país mais democrático e diverso”, concluiu.

A última intervenção de Viveiros de Castro, após as perguntas do público, foi talvez a que mais chamou atenção pela dureza e aparente pessimismo, mas foi muito aplaudida. O antropólogo disse sentir vergonha de ser brasileiro quando vê o que se fez com os povos originários dessa terra, ou ainda quando lembra que o Brasil foi o último país no mundo a abolir a escravidão (com exceção da Mauritânia). Para ele, no entanto, o sentimento de vergonha deve ser preservado, já que é também o que gera o sentimento de intimidade com o país: “Se eu fosse francês, teria vergonha do que a França fez na Argélia, na Indochina, na África. Ou seja, ser brasileiro não é especialmente vergonhoso. Ser de qualquer país é vergonhoso, porque todo país é construído em cima da destruição de povos”, explicou.

Livro de Cabeceira

No domingo, na tradicional mesa de encerramento da Flip intitulada “Livro de Cabeceira”, Viveiros de Castro esteve mais uma vez entre os participantes, e fechou com brilho sua passagem pela festa literária. Ao lado de alguns dos convidados de maior destaque do evento, como Andrew Solomon, Fernanda Torres e Juan Villoro, o antropólogo escolheu ler o trecho de um sermão de Padre Antonio Vieira em que o religioso ressaltava a dificuldade de conversão dos índios brasileiros: “Como diz o Vieira: ‘A gente dessa terra é a mais bruta, a mais ingrata, a mais inconstante, a mais avessa, a mais trabalhosa de ensinar de quantas há no mundo. Outros gentios, outros pagãos, são incrédulos até crer. Os Brasis, ainda depois de crer, continuam incrédulos.’” E Viveiros de Castro concluiu: “Ou seja, esse tema, a ideia de que os índios tem uma inconstância essencial, passou a ser uma espécie de traço definidor do caráter ameríndio, consolidando-se como um dos estereótipos do nosso imaginário nacional. A saber, o imaginário do índio mal convertido, que à primeira oportunidade manda deus, a enxada e as roupas ao diabo e retorna feliz à selva. E eu diria, para concluir, que é graças a isso que os índios continuam a salvo dos seus salvadores”.

Mundo vive sexta extinção em massa – e é pior do que parece.

Estudo alerta que planeta atravessa uma aniquilação biológica de espécies animais, o que lança perspectiva sombria sobre o futuro

O mundo está passando por uma “aniquilação biológica” de suas espécies animais, num fenômeno que já pode ser considerado uma sexta extinção em massa e que é mais grave do que parece, aponta um estudo divulgado nessa segunda-feira (10/07).

Seca no Paraguai: pesquisadores observaram que as populações de vertebrados sofreram grandes perdas

Seca no Paraguai: pesquisadores observaram que as populações de vertebrados sofreram grandes perdas

Foto: Deutsche Welle

Segundo o estudo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), há uma tendência de investidas cada vez maiores contra a biodiversidade do planeta, resultando numa perspectiva “sombria sobre o futuro da vida, inclusive humana”. O motivo, diz o estudo: “problemas ambientais globais causados pelo homem”.

“Nas últimas décadas, a perda de habitat, a superexploração de recursos, os organismos invasivos, a poluição, o uso de toxinas e, mais recentemente, as mudanças climáticas, bem como as interações entre esses fatores, levaram ao declínio catastrófico nos números e nos tamanhos das populações de espécies de vertebrados tanto comuns como raros”, afirmam, os pesquisadores.

Para a pesquisa, uma das mais completas já feitas sobre o tema, cientistas da Universidade de Stanford e da Universidade Nacional Autônoma do México utilizaram uma mostra de 27,6 mil vertebrados terrestres e uma análise detalhada de 177 espécies de mamíferos que sofreram declínio populacional entre 1900 e 2015.

Os pesquisadores observaram que as populações de vertebrados sofreram grandes perdas, inclusive entre as espécies que despertam pouca preocupação. Cerca de um terço (8.851) das espécies analisadas – o que representa quase metade das espécies de vertebrados conhecidas – apresentou declínio populacional e diminuição em termos de distribuição geográfica, mesmo aquelas que atualmente não são consideradas como sob risco de extinção.

 

PMDB só virou governo por causa da Lava Jato, diz filósofo Marcos Nobre.

por | 10 de julho de 2017

Link da postagem original: http://apublica.org/2017/07/pmdb-so-virou-governo-por-causa-da-lava-jato-diz-filosofo-marcos-nobre/

Para o filósofo, o PMDB não tem capacidade nem intenção de governar – seu objetivo é oferecer estabilidade para o governo em troca de poder; Dilma teria caído por não garantir nem recursos nem proteção judicial aos políticos do partido.

Nesta entrevista à Pública, o filósofo da Unicamp e pesquisador do Cebrap Marcos Nobre, autor do conceito de “pemedebismo” – que, para além do PMDB, explicaria o jeito de funcionar dos partidos que se ligam ao governo conferindo estabilidade em troca de poder –, afirma que o partido do presidente Michel Temer não tem capacidade para coordenar governos. “Ele tem capacidade para ser o líder do cartel de venda de apoio parlamentar. Então, por que diabos o PMDB virou governo se, obviamente, só tem consequências ruins para ele? Por causa da Lava Jato.”

Para Nobre, a operação é o fator que fez o sistema político perder o controle da política. “A Lava Jato, toda vez que a mesa se coloca sobre quatro pés, chuta um. É uma característica da operação desestabilizar permanentemente o sistema político. Para quê? Para ela poder continuar”, afirma. “Se a minha lógica estiver certa sobre a Lava Jato, no momento em que Maia virar presidente, vem o pedido para ele se tornar réu. O que não resolve o problema do ponto de vista do sistema político, que é o que importa”, avalia.

O pemedebismo vai muito além do PMDB, segundo sua tese. Mas o PMDB é a maior expressão desse modo “estabilidade em troca de poder” de funcionar do sistema político brasileiro. Qual é, dentro dessa lógica da crise política, o PMDB que está no poder?

O pemedebismo é essa maneira de estruturar a política dos políticos. A política institucional. Então, você constrói dois pequenos polos que são os que vão competir pela Presidência da República ou pelos governos do estado, prefeituras etc., e esses dois polos, no momento em que eles ganham, levam toda uma massa que está entre eles. É uma massa de partidos, grupos que estão sempre à venda. É por isso que se constrói uma lógica das supermaiorias. Então, uma pessoa pode apoiar um candidato a governador que é derrotado e, no dia seguinte, está na base de apoio do candidato que venceu.

Isso tem uma consequência importante: esses dois pequenos polos que durante 20 anos foram o PT e o PSDB têm função de coordenar toda essa massa informe, vamos dizer, de venda de apoio parlamentar.

Seriam os síndicos deste condomínio político nos últimos 20 anos? 

Isso. Qual a consequência desse modelo? É que o PMDB nunca pode tomar o poder. O PMDB não tem capacidade para coordenar governos. Ele tem capacidade para ser o líder do cartel de venda de apoio parlamentar, mas não para coordenar um governo. Então, por que diabos o PMDB virou governo se, obviamente, só tem consequências ruins para ele?

Uma das características do pemedebismo é que não importa qual é a decisão nacional do partido, estadual ou municipal, para apoiar quem for o candidato. Se você faz parte dessa massa peemedebista, você apoia quem você bem entender. Não tem nenhuma centralização partidária. Se é assim, quando você toma o governo, se cria um problema, porque obriga a tua base a te apoiar necessariamente. Então por que isso aconteceu? Por causa da Lava Jato.

O sistema político precisa de garantias. A massa peemedebista que apoia o governo, seja qual for o governo, precisa, primeiro, de acesso ao fundo público e, segundo, de defesa contra investidas da Justiça. O governo Dilma Rousseff não estava conseguindo garantir nenhuma das duas coisas. Quer dizer, tinha um acesso muito precário ao fundo público, os recursos eram cada vez mais escassos porque, diga-se o que se disser, o ajuste fiscal do primeiro ano do governo Dilma foi duríssimo. Não era um governo que demonstrava ser capaz de proteger a classe política da investida da Justiça.

Isso produziu o impeachment. Claro que para que isso acontecesse foi preciso mobilizar um sentimento de uma parte da população contra uma situação de crise, especialmente contra anos muitos seguidos de governos petistas. Mas do ponto de vista do sistema político foi um movimento de autodefesa. O problema é o seguinte: o governo Temer, de fato, entregou o que prometeu em termos de cargos. Ou seja, aquilo que existia no governo FHC, Lula e Dilma: você entrega os cargos, mas preserva algumas áreas; Saúde, não, Educação, não, Ministério do Desenvolvimento Social, não, reforma agrária, não. Isso acabou no governo Temer. Você entrega tudo. Tudo está à venda. É uma característica do PMDB, porque não consegue coordenar, então não consegue decidir quais são as áreas estratégicas que têm que ser preservadas desse troca-troca generalizado. É um governo que não tem coordenação nem é capaz de ter coordenação. A única coisa que esse governo tem de organizado é a equipe econômica, que é justamente aquela que não foi entregue para os partidos. Entregou isso, mas não entregou a proteção contra a Lava Jato. O que significa basicamente crise permanente.

Quando houve o impeachment da Dilma, você comentou em uma entrevista que isso não estancaria a crise. Ali você já tinha essa análise desse papel da Lava Jato?

É imparável. Agora, o sistema político achou que iria conseguir. Quer dizer, primeiro achou que ia conseguir fazer parar só no PT a Lava Jato. E, em segundo lugar, achou que iria conseguir parar a Lava Jato do ponto de vista do controle superior, da Polícia Federal, do Ministério Público, do sistema judiciário de maneira geral. E não conseguiu.

Se a gente for discutir Lava Jato, são muitas instâncias, muitas visões, dentro da própria operação.

Além de mais de 40 fases…

E instâncias diferentes, tanto da PF quanto do MP, do Judiciário. Então, Lava Jato é muito complicada. A visão que tem o Moro não é a mesma do Fachin, que não é a mesma do Janot, que não é a mesma do Deltan Dallagnol, que não é a mesma do Leandro Daiello, tá certo? São visões diferentes, e eles vão se acotovelando e vão vendo para que rumo pode ir.

Quando você tem uma situação como essa, você não pode falar de unidade. Na verdade, é cada um puxando para um lado, e o resultado é um pouco o resultado desses vetores. Mas tem uma coisa que a gente pode observar que é um padrão. A Lava Jato, toda vez que a mesa se coloca sobre quatro pés, chuta um. É uma característica dela desestabilizar permanentemente o sistema político. Pra quê? Para ela poder continuar.

A ideia é que, se o sistema político conseguir se estabilizar, ele mata a Lava Jato. Só que tem um problema: se o sistema político não se estabilizar, a economia não vai se estabilizar. Então nós temos um círculo, que eu não diria que é vicioso, porque não tem vício no fato de você revelar uma rede de corrupção desse tamanho e nem de combatê-la… Então, não é um círculo vicioso no sentido ruim, mas vamos dizer que uma coisa alimenta a outra. A tentativa do sistema político de retomar o controle da política…

Se a gente for resumir essa crise numa frase, é: a política perdeu o controle da política. O sistema político perdeu o controle da política. Ele não está na mão de ninguém. Ele não está na mão do Judiciário, ele não está na mão do Ministério Público, ele não está na mão do Congresso, ele não está na mão da Presidência. A política não está no controle de ninguém. Então, existe uma disputa que a cada momento vai mudando. A tática da Lava Jato é um pouco essa, de impedir que o sistema político se estabilize. O que significa retomar o controle da política? Significa retomar a capacidade de agenda, de impor uma agenda, de perseguir essa agenda com sucesso, quer dizer, o que o governo Temer tem até agora é discurso.

Segundo as pesquisas, ele não tem apoio popular. O PSDB não sabe se sai ou se fica. A esquerda brasileira não parece ter uma agenda muito clara de como atuar. O que os mantém no poder? O mercado ainda não visualizou um nome legítimo a substituí-lo? Se o mercado aceitasse o Rodrigo Maia, digamos, você acha que o Temer cairia?

Tem dois lados a pergunta. É claro que o Temer só fica porque não existe uma alternativa a ele que seja palatável para esse programa, para essa agenda política que ele não consegue implementar. Essa história tem um outro lado que é um pouco mais complicado, que não é só não ter alternativa.

O que acontece é que, quando o sistema político entrou em sistema de autodefesa, ele virou as costas para a economia. Isso daí é uma coisa muito grave. Porque o que o sistema político está dizendo é: a minha sobrevivência vem antes da sobrevivência da economia. Claro que eles não vão dizer isso, eles dizem: “Precisamos fazer reformas para a economia voltar a andar”. Mas, de fato, o que eles fizeram foi virar as costas para a economia.

Então, quando a gente fala “o mercado”, isso aí, na verdade, é um aplique do sistema político pra dizer que ele está conectado com a economia real, quando não está. E uma parte da elite econômica brasileira acreditou nisso. Claro, acreditou porque queria acreditar também. Disse: “Olha, as reformas que a gente quer não podem ser feitas por um governo democraticamente eleito. Nenhuma candidatura se elegerá com um programa desses. Então, vamos aproveitar que esse cara precisa da gente para se legitimar”. Só que, do mesmo jeito que o Temer precisa do mercado, o mercado precisa dele, mas quem tem o poder é Temer, e não o mercado.

A prioridade do Temer é sobreviver. As pessoas dizem: “Ah, o Temer agora vai passar até o final do seu mandato se defendendo…”. Mas isso foi desde o início. Não tem nenhuma diferença. Então, são as pessoas que antes diziam “não, a gente apoia o impeachment por causa do programa de reformas que virá” tentando se justificar. Quer dizer, comprou a conversa fiada quem quis.

Mas agora tem esse elemento probatório que é a denúncia do Janot. Então vai ter esse primeiro escrutínio no Congresso e, provavelmente, virão mais denúncias. A imprensa já noticiou que o Eduardo Cunha e o Lúcio Funaro vão fazer suas delações. A questão é: dentro dessa lógica dessa sustentação política, há como um presidente resistir a todo esse processo?

Veja, são várias teses que estamos discutindo aqui. O sistema político perdeu o controle da política. O sistema político entrou em modo de autodefesa. Isso significa o quê? Que ele virou as costas para a economia. Então, a gente não pode se deixar seduzir por essa história de que o governo tem apoio no mercado, entendeu? Vamos esquecer. Vamos pensar: o que um político quer? Um político quer se salvar. O que é melhor para isso? É melhor ele ter um presidente que está numa situação pior do que ele, ou ele quer uma pessoa que não tem nada a ver com isso? A resposta é óbvia.

Quando o PSDB não tomou a atitude que deveria ter tomado após a denúncia que era romper com o governo Temer e abrir pelo menos um processo interno a respeito do senador Aécio Neves; quando o PSDB, não fez isso ele acabou como partido.

Como assim acabou?

Ele cometeu suicídio político num nível assustador. E por que ele cometeu isso? Simplesmente por também estar no modo de autodefesa. A pergunta é: o que é melhor para o sistema político se autodefender? O Temer ou uma alternativa ao Temer? O Temer fica na mão do Congresso até o final do mandato. O Temer está numa situação crítica o tempo todo, ou seja, tudo que deputados e senadores querem é um presidente nesse estado porque é alguém que vai entender a situação deles melhor do que eles próprios.

Ah, tá bom, então vamos trocar pelo Rodrigo Maia. A escolha do Sérgio Zveiter como relator é decisiva para fortalecer a posição do Rodrigo Maia. São muito próximos, então uma vez mais o Rodrigo Maia está fazendo uma espécie de rédea. Dependendo de para onde for a situação ele fica com um pé em cada canoa. Apoiando o Temer ou abrindo a porta para ele ser o sucessor. Feita a troca pelo Rodrigo Maia, os deputados vão dizer: “Esse aqui é um autêntico representante nosso, esse aqui garante”. Primeiro: você cria um problema para o Senado. Primeiro racha. Segundo, Maia é investigado. Se a minha lógica estiver certa sobre a Lava Jato, no momento em que ele virar presidente, vem o pedido para ele se tornar réu. Não resolve o problema do ponto de vista do sistema político, que é o que importa.

Vamos pensar assim: Temer abre o processo no STF, ele é afastado. Assume o Rodrigo Maia, eleição indireta, e se elege alguém nessa eleição indireta que nada tem a ver com a Lava Jato. O que acontece? É o suicídio do sistema político. Por que eles não podem eleger alguém que não esteja na Lava Jato, porque não os vai defender. Não tem saída. Para o sistema político, a melhor coisa é que fique o Temer.

O que deputados e senadores estão olhando? Para uma coisa que ainda não aconteceu: o movimento de rua para derrubar o Temer. Se isso acontecer, a coisa muda. O instinto de sobrevivência tem dois lados, um lado que é “me defender da Lava Jato”; tem outro que é “para eu conseguir me defender, preciso me reeleger”.

Sobre as ruas. Quando a Dilma estava no poder, a massa que pedia sua saída era grande. Hoje você não vê as pessoas se mobilizarem da mesma maneira. Obviamente, você consegue identificar um sentimento antipetista muito grande lá naquele período, mas agora a população parece calada. Por que as pessoas não estão na rua?

Subiu a desconfiança em relação ao sistema político por causa do impeachment. Primeiro, ali foi produzida uma lógica PT-anti-PT, e tinha uma promessa que era: “tudo vai ficar bem”. E tudo piorou. Então por que a população vai aceitar uma outra lógica do a favor ou contra? Em nome do quê?

Quer dizer, ficou claro por essa experiência do impeachment – você demonizar uma parte do sistema político como sendo a responsável por tudo é só uma ilusão, foi uma farsa, foi um engodo, foi a enganação do século. Essa farsa fez com que ninguém mais fosse pra rua. Vai em nome do quê?

Uma parcela da população, sobretudo os apoiadores do impeachment, se sentiu enganada e hoje está envergonhada? 

Isso tem muito a ver. Você vai olhar, por exemplo, esses movimentos que lideraram, tipo MBL, Vem pra Rua. Eles não têm coragem de mostrar a cara na rua. Eles chamam manifestação e recuam. Eles vão dizer o quê? “Tira esse presidente agora que vai tudo melhorar.” Quer dizer, eles prometeram isso da vez passada e tudo piorou. Não tem nenhum movimento com legitimidade para chamar manifestação de rua a não ser os movimentos que foram derrotados no impeachment da Dilma.

Para você ter um movimento da amplitude que é necessária para afastar o Temer, você precisa ter alguma coisa que vá além da Lava Jato. As pessoas estão vendo a Lava Jato continuar, então elas não estão preocupadas, até agora, que a Lava Jato vai ser parada. Se acontecer isso, eu acho que a rua encheria…

Se a população identificasse, por exemplo, um acordo em andamento? 

Exato. Não só um acordão. Mas se alguém de dentro da Lava Jato chamasse. “Tão parando a Lava Jato, tão acabando com a Lava Jato.” Tipo Sergio Moro. Isso seria um movimento… No fundo, a sensação que eu tenho é que a Lava Jato virou uma espécie de substituta do movimento de rua. É como se as pessoas se sentissem representadas pela ação judicial. E como se isso fosse suficiente. Para você sair para rua de novo depois do vexame que foi o impeachment, precisa ter uma razão muito boa.

Do ponto de vista de uma manifestação comparável àquelas que nós tivemos pró e contra o impeachment, só mesmo se a Lava Jato estivesse em risco. Eu realmente acho que a Lava Jato está funcionando como uma válvula de escape para uma rejeição generalizada do sistema político.

Voltando um pouco à indicação do Sérgio Zveiter. Ele tem sido identificado como “independente” dentro do PMDB. Que ele seria do grupo do Maia, e não do Temer. E acho uma coisa complicada identificar quais são os grupos do PMDB. Quem são esses grupos?

Nesse processo todo, o Rodrigo Maia foi muito fortalecido. Ele foi fortalecido, em primeiro lugar, pela estupidez do PSDB de dizer que não faria nada sem o DEM, o que transformou o Rodrigo Maia numa figura-chave. E agora ele virou uma figura- chave porque tem todos os pedidos de impeachment na mão, e ele vai ter todas as denúncias. Ele é o cara que vai decidir esse processo. Então, o relator é dele e eles vão trabalhar juntos. O resultado desse relatório vai ser o resultado da avaliação desse grupo em torno do Maia.

Agora, os grupos dos PMDB. As coisas se desarticularam de uma maneira muito acelerada. Teve um processo de fragmentação dentro de um sistema já muito fragmentado. Então, no limite, cada deputado virou um grupo. Cada deputado tem direito a uma cota X de indicações. Claro, se você tiver uma posição dentro da mesa da Câmara, se for líder de partido, sobe a sua cota, mas todo mundo tem a sua cota. E isso é uma herança também da desarticulação do “centrão”, que era o antigo baixo clero, que recebeu upgrade quando o Cunha organizou todo mundo no “centrão”. A desarticulação do “centrão” foi também uma fragmentação que não se reorganizou dentro de partidos. Então, se vai olhar as votações, ou como se comportam os grupos, você não vê mais unidade partidária… Você vê grupos se movendo conforme a situação em torno de determinadas figuras.

Então se cristalizou um certo grupo em torno do Maia. Como se cristalizou um certo grupo do Renan Calheiros, que é um grupo diferente do anterior. Então você tem uma certa aglutinação de figuras políticas muito mais pelas posições estratégicas que elas têm do que por fronteira partidária. Então, falar em grupos dentro do PMDB, para mim, não faz o menor sentido hoje.

Na verdade, as figuras do PMDB mais importantes… Os grupos delas incluem deputados e senadores que não são do PMDB. É como se o “modelo Cunha” tivesse se espalhado por todo o sistema. O Cunha percebeu que dava para organizar o baixo clero em torno do “centrão” e que isso não tinha fronteira partidária. Das quase 600 figuras do Congresso, é como se você tivesse 20 Cunhas, que organizam cada um o seu pequeno “centrão”. São figuras que você tem que acompanhar para entender e que não têm mais a ver com partido. É um grau de fragmentação assustador, e é importante ver isso, porque em última instância o último bastião do Temer é o antigo “centrão”.

Talvez ele seja obrigado a reorganizar o “centrão” que ajudou a desmantelar para poder sobreviver. E nesse momento ele vai precisar muito do Cunha.

Trump foi eleito. Bolsonaro vai bem nas pesquisas de opinião. João Doria ganhou com o discurso do “não político”. Existe uma ascensão de candidatos de direita e extrema direita. Qual a dimensão desse fenômeno, sobretudo no Brasil?

A direita brasileira se colocou em uma enrascada muito séria ao entrar de corpo e alma no impeachment de Dilma Rousseff e, em seguida, ao dar apoio ao governo Temer. Aprofundou de maneira ainda mais dramática as crises, todas as crises: social, econômica, política, moral. E não será nada fácil que consiga se descolar disso tudo e se apresentar como algo novo, que é o que o eleitorado espera em 2018.

Todo o campo da direita se encontra muito desorganizado e desorientado. João Doria será especialmente afetado por essa manobra malsucedida que foi o impeachment e o apoio ao governo Temer.

Não é por outra razão que ele continua a se apresentar como o “anti-PT”, quando a lógica “PT-anti-PT” que presidiu o impeachment já não é mais a que organiza a grande maioria do eleitorado, mas ainda encontra ressonância importante em São Paulo.

Trata-se, acho, de uma estratégia defensiva, uma estratégia que, na verdade, mantém Doria preso a São Paulo. Provavelmente porque já deve estar decidido que ele será candidato ao governo do estado.

O caso de Bolsonaro é de outra ordem. No momento, entendo que sua intenção de voto nas pesquisas expressa uma insatisfação difusa, uma rejeição à política da política que procura uma figura que não esteja comprometida, que se saiba, com investigações da Lava Jato. Não acredito que essa intenção de voto se sustente, especialmente depois que o quadro sucessório ficar mais claro.

Não acredito que Bolsonaro venha a ser candidato a presidente. Como não tem um partido próprio, criado por ele, Bolsonaro depende de partidos existentes. E essa dependência tem se mostrado bastante problemática no caso dele, com episódios graves de desentendimentos e rupturas com os donos desses partidos. De qualquer maneira, o mais importante a reter aqui é: o fato de a insatisfação com a política de a política se expressar em uma candidatura de extrema direita é algo por si só gravíssimo para quem quer que se preocupe com a continuidade da democracia no país.

 

 

A morte de Konibu e o crime de genocídio de Romero Jucá

Konibu

Parte do sofrimento de Konibu deve-se a um ato de Jucá na presidência da Funai: a destinação da terra onde os indígenas viviam para fazendeiros

por Felipe Milanez publicado 02/06/2016 19h27
Enquanto era presidente da Funai, Jucá entregou as terras dos índios Akuntsu a seus algozes, diz sertanista

Na última quinta-feira, 26 de maio, faleceu em Rondônia o indígena Konibu, o velho líder e xamã do povo Akuntsu. Sobrevivente de um genocídio, ele já estava bastante debilitado por um câncer e problemas cardíacos, e tinha em torno de 85 anos., Morreu em paz, deitado na rede dentro da maloca onde viva, auxiliado por agentes de saúde e pelo sertanista da Funai, Altair Algayer.

Se a morte foi tranquila, no entanto, Konibu sofreu muito em vida. E parte desse sofrimento se deve a um ato político de Romero Jucá enquanto era presidente da Funai: a destinação da terra onde os indígenas vivam para fazendeiros.

Os Akuntsu, seus vizinhos Kanoê e o “Índio do Buraco” são remanescentes de três povos que sofreram um genocídio de 1985 até os últimos ataques documentados em 1995.

O ex-ministro do Planejamento teve participação direta nesse processo enquanto era presidente da Funai (1986-1988): foi ele quem desinterditou a área e a destinou a fazendeiros que cometeram os crimes.

Diário Oficial com resolução de Romero Jucá em 1986
Resolução de Romero Jucá em 1986, publicada no Diário Oficial

Por isso, a morte de Konibu e a tragédia de seu povo trouxeram à tona uma grave questão atual, com Jucá e as articulações políticas contra os direitos indígenas: o governo interino ameaça rever a demarcação das terras indígenas feitas no governo Dilma, exatamente o que Jucá fez em 1986 com os Akuntsu e que levou ao genocídio.

Em manifestação recente, a ONU denunciou que estes retrocessos podem implicar em “riscos de etnocídios”. A análise do caso dos Akuntsu revela exatamente o que aconteceu nos anos 1980, e pode novamente se repetir. Retirar o status de proteção de uma área ocupada por indígenas e destiná-la a ruralistas pode levar a um genocídio, como o caso dos Akuntsu, o qual Konibu e seu povo foram vítimas.

O caso a participação de Jucá no processo de genocídio dos Akuntsu não foi reportado no relatório da Comissão Nacional da Verdade, mas consta no livro Memórias Sertanistas: Cem Anos de Indigenismo no Brasil (Sesc, 2015). A questão da participação de Romero Jucá no genocídio, ao desinterditar a área, também foi omitida da notícia veiculada pela assessoria da Funai na semana passada, ao divulgar a morte de Konibu.

O genocídio Akuntsu

Em 1985, o sertanista da Funai Marcelo dos Santos trabalhava no sul de Rondônia com os Nambiquara, e foi a campo verificar a presença indígena em uma área demandada pela Fazenda Guaratira, que negociava créditos do Banco da Amazônia e pediam à Funai uma “certidão negativa da presença indígena”.

Ao visitar a fazenda, Santos foi informado por trabalhadores de que teria ocorrido um massacre em uma fazenda vizinha: “Olha, não pode falar, não, porque este lugar aqui é muito perigoso. Mas eu vou avisar para você. Aqui, nessa fazenda, vocês não vão encontrar índio, não. Mas se vocês forem lá na Fazenda Yvypytã, ‘aconteceu’ alguma coisa. Teve uma confusão lá, porque acuaram os índios e eles correram” (Memórias Sertanisas, página 332).

A Yvypytã era de propriedade de Antonio José Rossi Junqueira Vilela, acusado de comandar um massacre de garimpeiros dentro dessa mesma fazenda, em 1983 (Inquérito Policial 114/83, na delegacia de Vilhena)

Ao ser informado da denúncia, Santos foi junto de um grupo de índios Nambikwara e do documentarista Vincent Carelli procurar vestígios e encontrou uma pequena aldeia com quatro casas destruídas e cápsulas de revolver. Essas cenas aparecem no filme Corumbiara, de Vincent Carelli, que está disponível na internet.

Com as evidências da presença indígena, Santos negou a certidão e pediu a interdição da área. A Funai enviou o sertanista Sydney Possuelo para comprovar as alegações, e o então Presidente da Funai Apoena Meireles assinou a Portaria nº 2.030/E/1986, publicada em 11 de abril de 1986, interditando 63.900 hectares, com base no levantamento de Santos, com o nome de “Área Indígena Omere”.

“Eu desenhei o mapa da interdição com os poucos conhecimentos que eu tinha na época que eu estava lá dentro da área. Mas não tinha andado no mato para saber porque os pistoleiros não permitiam e nos ameaçavam”, relata Marcelo dos Santos em entrevista.

A interdição envolvia três fazendas na época, e os sertanistas podiam entrar na área para investigar os crimes, o que intimidava os fazendeiros a desmatarem e, possivelmente, praticarem novos ataques.

Ficavam também suspensos os financiamentos e por isso a Yvypytã entrou com uma ação judicial e conseguiu uma liminar para desinterditar a área. Em recurso da Funai ao Tribunal Regional Federal, o ministro Lauro Leitão cassou a liminar para manter a área sob interdição, ante “manifesta a possibilidade de grave lesão”, a “iminente possibilidade do aniquilamento físico da população tribal remanescente”, em decisão datada de 21 de maio de 1986.

Com isso, permanecia válida a portaria da Funai, protegida também por uma decisão judicial de segunda instância. Acontece que nesse mesmo mês de maio de 1986 Romero Jucá assumiu a presidência da Funai.

Não foram poucos os crimes cometidos por Jucá enquanto esteve na presidência da Funai, como escreveram recentemente Pádua Fernandes, em artigo no seu blog, e João Fellet, na BBC, e a participação no genocídio dos Akuntsu vem a se somar a uma série de violência contra os povos indígenas.

Em 12 dezembro de 1986, Romero Jucá revogou a portaria assinada por Apoena Meireles e assinou uma “nova” portaria com o número 1.813 para “desinterditar” a área e revogar a portaria 2030/E, assinada pelo seu antecessor, Apoena Meireles. Ou seja: fez um novo ato administrativo, já que judicialmente a terra estava garantida aos índios, para transferir a posse aos fazendeiros. Há um temor dos povos indígenas que uma estratégia parecida seja utilizada pelo governo interino de Temer.

A decorrência desse ato de Jucá resultou em novas invasões no território indígena, o desmatamento da área, novos ataques aos Akuntsu, aos Kanoe e, sobretudo, também ao “índio do Buraco”, um outro povo indígena que tem agora apenas um único sobrevivente. Sertanistas da Funai, e Marcelo dos Santos especificamente, passaram a ser proibidos de entrar na área. A participação de Jucá nesse processo de genocídio não foi incluída no relatório da Comissão Nacional da Verdade, que apresenta os envolvimentos de Jucá na invasão de garimpeiros na TI Yanomami.

O contato e o convívio com os sobreviventes

Apenas nos anos 1990, quando Sydney Possuelo assume a presidência da Funai em 1991, que Santos consegue autorização para voltar a investigar o genocídio do rio Omere, em Corumbiara. Nesse período, Altair Algayer, que migrou com sua família do sul para Rondônia, se junta à equipe da Funai.

Altair Algayer e Konibu
Altair Algayer, da Funai, cheira rapé na companhia de Konibu

Em 1995, um mês depois do massacre de camponeses em Corumbiara, Santos, Algayer e Carelli encontram dois irmãos Kanoe, Purá e Tiramantu, em uma pequena clareira que viram numa imagem de satélite e, em campo, descobriram ser a aldeia dos Kanoe. As imagens de Vincent Carelli foram parar no Fantástico e serviram para a Funai publicar uma nova interdição da área e reiniciar o processo de demarcação.

Um mês depois do contato com os Kanoe, os sertanistas foram guiados por eles até os Akuntsu. E, no ano seguinte, encontraram vestígios de um novo ataque ao povo do “índio do Buraco”, descobrindo em meio a um desmatamento feito durante o período de chuvas, o que não é comum, casas queimadas, capsulas de revolver, e diversos vestígios materiais de uma pequena aldeia. Isto prova que o ataque aos indígenas, ao menos desde o massacre relatado por trabalhadores da fazenda em 1985, foi constante até 1996.

Durante esse processo de contato com os indígenas, a Funai contou com apoio de uma rede de colaboradores e movimento social, como o cinegrafista Vincent Carelli e sua esposa, a antropóloga Virgínia Valadão, indigenistas da Opan, como Inês Hargreaves, e da Kanindé, como Pedro Rodrigues, Rogério Vargas, Ivaneide Cardoso, e indigenistas do CIMI. A Terra Indígena Rio Omerê foi homologada em 2006.

Morte de Konibu

Os Akuntsu eram sete indígenas em 1995. Konibu, o mais velho, com uma esposa e três filhas, e uma senhora mais velha, chamada Ururu e um filho adotivo, Pupak. Uma das filhas morreu em 2000 quando uma árvore caiu sobre a casa da família. Em 2009, faleceu Ururu.

Após uma epidemia de doenças respiratórias, idas e vindas em hospitais, e uma profunda depressão sobre os índios, Ururu deitou-se na rede e se deixou morrer, sem se alimentar por uma semana. Escrevi sobre esta triste morte na revista RollingStone, e pode ser lido aqui. Algayer acompanhou todos os momentos, e ajudou os indígenas a preparar o funeral.

Os Akatsu
Os Akatsu, com Konibu ao fundo

Novamente, com Konibu, Algayer também assistiu de perto os últimos momentos. Ele diz que as duas filhas e a viúva estão “desamparadas, desorientadas”, assim como Pupak, filho adotivo de Ururu, que continua bastante impactado. “Desde a morte da Ururu, ele ficou muito abatido, sozinho. Acompanhava o Konibu no dia a dia, ajudando na caça. Mas está bastante isolado e solitário”.

O mais sofrido, conta ele, é a parte espiritual. “O konibu era o último xamã, e elas não sabem fazer os trabalhos rituais. Isso cria uma angústia muito profunda, muita tristeza. Elas temem que o espírito dele não esteja bem. Elas não têm mais segurança espiritual, e nem física. É muito triste.”

No dia do funeral, o três remanescentes Kanoe, o indígena Purá, sua irmã Txinamanty, mãe de Bakwa, já estava na base. Txinamanty é xamã, assim como era Konibu, mas são de povos diferentes e possuem e cosmovisões distintas.

“No outro dia da morte, a gente percebeu que ela passou a noite inteira cheirando rapé. Ela fez um ritual sozinha na aldeia dela. E uns dias antes da morte ela vinha e fazia rituais de cura para ajudar o Konibu, que estava em uma situação difícil, na rede.”

Konibu estava na rede praticamente sem conseguir se mexer e convalescendo desde janeiro. Nos últimos dias, ele precisava de ajuda para se levantar e para sentar. “Não tinha mais força”, relata Algayer.

A tragédia de um fim do genocídio é um drama existencial profundo e perturbador, que Algayer enfrenta com um humanismo extraordinário.

Conforme depoimento de Marcelo dos Santos, às paginas 314 do livro Memórias Sertanistas: “Saiu o Apoena e entrou o Romero Jucá. A primeira providência do Romero Jucá: me proibir de entrar na área. Fui proibido de sair dos Nambikwara e entrar na área do igarapé Omerê. E, junto com a minha proibição, ele desinterditou a área.”

E relata: “Foi a primeira manifestação da Justiça sobre o caso. Assim mesmo, o senhor Romero Jucá entregou as terras dos índios isolados aos algozes.”

Em um artigo que assino junto do antropólogo Glenn Shepard, na revista Tipiti, discute essa trágica situação de povos remanescentes de genocídios recentes, as contradições da Funai com relação as demarcações, e a dedicação e o humanismos dos sertanistas, como de Altair Algayer. O texto pode ser acessado aqui.

 

 

Um minuto e meio sobre a “cracolândia”, por Carl Hart.

braz-unc-gm-07-72dpi_600_landscape

A face mais perversa e covarde de um governo: o abandono dos últimos índios isolados à sua própria sorte.

Daniel Luis Dalberto

A civilização que sacrifica povos e culturas antiquíssimas é uma farsa amoral.

Carlos Drummond de Andrade.

A colonização do Brasil se deu a ferro, fogo e pólvora. Literalmente. O avanço dos povos europeus a partir de 1500 significou tragédia e morte para centenas de povos indígenas que aqui estavam há milênios. Estima-se que havia uma população de 10 a 20 milhões de índios em 1500. Hoje, o censo do IBGE diz que são cerca de 800 mil índios, sendo que quase a metade vive em cidades. A intrusão estrangeira desfez o equilíbrio que os índios tinham com o meio físico, desorganizou suas sociedades, dissolveu valores e extinguiu sabedorias e culturas. Estima-se que em 1500 cerca de 1.300 diferentes línguas eram faladas no território em que hoje está o Brasil. Atualmente são apenas 150 ou 160 línguas, sendo que apenas 38% dos índios falam a línguas de seus ancestrais. Há em média apenas 250 falantes por línguas, sendo que várias delas contam com menos de 10 falantes. Ou seja, marcham a passos largos para o desaparecimento.

A maior parte dos indígenas vive hoje na Amazônia, última fronteira da expansão, cada vez mais pressionada pelos grandes projetos dos governos (Santo Antônio, Jirau, Belo Monte, Teles Pires, Belo Sun, etc), pelo agronegócio e pela cobiça de madeireiros e garimpeiros ilegais. Ao tempo que persistem as violações dos direitos dos índios – apenas recentemente reconhecidos – assistimos ao ocaso das últimas civilizações ameríndias, o que, além da tragédia em si mesma, nos empobrece pela eliminação de diversidade, pelo fechamento de portas que poderiam nos indicar caminhos possíveis ante evidentes colapsos morais, sociais e ambientais que acometem nossa civilização e ameaçam nosso futuro.

Os índios isolados.

Transcrevo a seguir interessante e elucidativa matéria sobre índios isolados de Rondônia, gentilmente escrita a meu pedido por Fabrício Amorim, Coordenador de Proteção e Localização de Índios Isolados e Recém Contatados da Funai, que também cedeu as quatro imagens abaixo postadas, sendo as duas primeiras tapiris do “Índio do Buraco” (link do wikipedia sobre esse índio colado abaixo) e as duas últimas imagens são de tapiris “rabos de jacu” dos índios isolados da terra indígena Massako.

POVOS INDÍGENAS ISOLADOS E DE RECENTE CONTATO EM RONDÔNIA

No estado de Rondônia há, atualmente, diversos registros de presença de grupos indígenas isolados. Desses, quatro grupos têm sua presença confirmada pela Funai, morando em Terras Indígenas localizadas na região sul e centro-oeste de Rondônia. Povos ou grupos indígenas isolados são aqueles índios que optaram por não estabelecer contatos com a sociedade nacional. De uma forma geral, os povos indígenas isolados já passaram por experiências traumáticas, tais como massacres violentos e transmissão de doenças, por isso optaram em algum momento de sua história por não estabelecer contato, são grupos indígenas acossados, que atacam, rechaçam e fogem a qualquer tentativa de invasão dos seus territórios.

Destas populações, a Funai conhece seus vestígios, seu território, sem, para isso, promover ações de contato. Atualmente, a política do Estado brasileiro para proteção desses povos é pautada pela “política do não-contato”, isto é, a Funai não realiza contato com esses grupos, fazendo a proteção de seus territórios, garantindo que possam viver em paz, segundo suas decisões, costumes e tradições.

Há uma série de referências de índios isolados em Rondônia, sendo que a Funai confirma, atualmente, a existência de 04 grupos: os Yrapararikwara, cuja etnia e língua são ainda desconhecidas; os Jurure’í, que pertencem ao mesmo coletivo Amondawa e Uru-Eu-Wau-Wau (de língua Tupi-Kawahiva), ambos na Terra Indígena Uru Eu Wau Wau; os índios isolados que moram na Terra Indígena Massaco; e um povo indígena que hoje só tem um representante, conhecido popularmente como “índio do buraco”, que habita a Terra Indígena Tanaru. A população dos Yrapararikwara e dos índios da Massaco é grande, e a Funai tem observado que vem aumentando cada vez mais, pois seus territórios estão demarcados e protegidos, com a posse plena garantida. O índio do buraco é proveniente de um povo que foi todo dizimado no passado, por meio de sucessivos massacres perpetrados por fazendeiros e madeireiros da região. Hoje, ele vive sozinho e recusa o contato. A Funai respeita sua decisão e protege a terra onde mora. O povo Jurure’í, hoje refugiado no extremo nordeste da TI Uru-Eu-Wau-Wau, região da Serra da Onça, não é diferente do “índio do buraco”, sobreviveu a diferentes e sucessivos esbulhos de seus espaços tradicionais e à morte da maioria de seus membros.

A política de proteção aos povos indígenas isolados do Brasil é reconhecida internacionalmente, sendo considerada a mais avançada no mundo. O estado de Rondônia é símbolo histórico desse reconhecimento internacional, pois foi lá que a Funai desenvolveu uma metodologia eficaz de proteção desses grupos, através de importantes sertanistas e indigenistas da Funai que desenvolveram seu trabalho na região. Essa metodologia contribui, atualmente, para que outros países desenvolvam suas políticas públicas, garantindo o respeito aos direitos dos povos indígenas isolados.

Além dos povos isolados, há em Rondônia também dois povos considerados de “recente contato”, contatados pela Funai em 1995. São os Akuntsú e os Kanoê, que moram na Terra Indígena Rio Omerê. Povos indígenas de recente contato são povos que conhecem pouco o mundo dos brancos, vulneráveis sob o ponto de vista epidemiológico e sócio-cultural, por isso precisam de um acompanhamento específico da Funai. Os Akuntsú falam uma língua da família Tupari e os Kanoê uma língua de um tronco linguístico isolado. Eles foram contatados pela Funai num momento difícil, de destruição do seu território, sobretudo pelo desmatamento ilegal para criação de pasto. Antes do contato, eles foram vítimas também de sucessivos massacres – tal como o índio do buraco e outros – um dos motivos de hoje serem uma população tão pequena. Atualmente, os Akuntsú totalizam 05 pessoas e os Kanoê são apenas 03 indivíduos. Apesar disso, para a política de proteção do Estado brasileiro, não importa seu contingente popuacional, são povos indígenas sujeitos dos mesmos direitos.

A proteção dos povos indígenas isolados e de recente contato é realizada pela Funai por meio de unidades decentralizadas denominadas de Frentes de Proteção Etnoambiental (FPE’s). Em Rondônia, há duas FPEs: a FPE Guaporé e a FPE Uru Eu Wau Wau. Ambas contam com apoio técnico e administrativo da Coordenação Regional de Jí-Paraná, também uma unidade descentralizada da Funai. Essas FPEs fazem expedições de localização e monitoramento para conhecer melhor os processos territoriais e sócio-culturais dos grupos isolados. Também fazem trabalhos de vigilância ambiental e de conscientização das vilas e cidades que existem perto dessas terras indígenas.

Hoje, lamentavelmente, restam poucos povos indígenas isolados no Brasil. Estima-se cerca de cem grupos de trinta etnias, em sua maioria pequenos, com poucos indivíduos. Pelo cenário acima delineado, estão extremamente ameaçados, principalmente pela perda de suas terras por invasores e por doenças. São comuns os registros de genocídios praticados contra esses povos isolados, inclusive em período recente, pós-constituição de 88, o que pode ser constatado, como exemplos, nos dois links abaixo:

https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%8Dndio_do_Buraco

https://pib.socioambiental.org/pt/povo/kanoe/342

Atualmente, a situação agravou-se ainda mais pelo descaso e mesmo violação do próprio governo aos povos indígenas, especialmente pelo desmonte e uso político da já combalida e desestruturada Funai. Para ilustrar tal situação, veja-se as matérias recentemente publicadas na imprensa:

http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/ministro-da-justica-demite-presidente-da-funai-por-nao-nomear-indicacoes-do-psc/

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/03/1865209-ministro-da-justica-critica-indios-e-diz-que-terra-nao-enche-barriga.shtml

http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,serraglio-extingue-347-cargos-da-funai,70001712837

A face mais perversa e covarde das políticas governamentais relativas aos índios veio à tona nos últimos dias. Os índios isolados são extremamente vulneráveis a violências dos que cobiçam suas terras, riquezas minerais e florestais. Vivem em áreas isoladas, sendo que eventuais genocídios contra eles praticados dificilmente podem ser descobertos. Tal situação impõe constante vigilância pelos servidores da Funai. No entanto o governo cortou até os já poucos cargos que a Funai mantém na importantíssima função das frentes de proteção etnoambientais:

http://m.folha.uol.com.br/poder/2017/04/1877379-crise-na-funai-fecha-5-bases-de-protecao-a-indios-isolados.shtml

Não faz o menor sentido o governo, a pretexto da crise financeira, cortar esses cargos essenciais, visto que são poucos servidores, o que não dá qualquer impacto financeiro relevante. Também, trata-se de servidores públicos que precisam ter muito preparo técnico, sensibilidade, experiência específica, conhecimento de área e coragem para atuar nesses locais, de modo que não se pode exonerá-los e amanhã facilmente contratar outros em seus lugares.

A situação preocupante pode ser constatada pelas matérias a seguir. O jornal Hoje da rede Globo apresentou reportagem sobre ameaças a índios isolados Kawahiva em Colniza MT:

https://youtu.be/sZggMhr-P5I

https://youtu.be/YWB0DRVgK24

Na semana passada, ocorreu uma tragédia na mesma região, com bárbaros assassinatos de pessoas pela disputa de terras, conforme se vê pela notícia abaixo:

http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,vitimas-de-massacre-no-mato-grosso-sao-assassinadas-com-golpes-de-facao,70001748090

Assim, denota-se claramente a extrema gravidade da situação da política indigenista no Brasil, que viola frontalmente o art. 231 da Constituição da República e diversos tratados internacionais assinados pelo Brasil, em especial a Convenção 169 da OIT. É assustador e vergonhoso vermos o descaso e as ameaças a que estão sujeitos os últimos grupos étnicos isolados e de recente contato do planeta, praticados por quem tem o dever jurídico de protegê-los.

Amazônia ou Parque dos Dinossauros?

Grileiros sentem “um ambiente bem mais positivo” em Brasília e avançam para novas conquistas.

Aqui não existe assalto. Todo mundo anda armado”, explica, orgulhoso, um taxista da cidade de Novo Progresso, no sudoeste do Pará. As armas podem não estar à vista, mas todos parecem porta-las. Em Novo Progresso, as aparências não enganam.

Sob uma fachada de prosperidade, alguns dos donos dos principais estabelecimentos comerciais do município estão em liberdade condicional. Foram presos por desmatamento, grilagem e formação de quadrilha na Operação Castanheira, em 2014, promovida pelo Ministério Público Federal, Polícia Federal e Ibama. A operação foi batizada “em homenagem” a Ezequiel Castanha, dono da ampla rede “Supermercados Castanha” e que, como se soube com as investigações, lucrava mesmo era com a grilagem e a venda de terras públicas.

Em novembro de 2016, a pauta do momento em Novo Progresso era a renovada confiança na redução da Floresta Nacional (Flona) Jamanxim.

Floresta Nacional (Flona) é uma modalidade de área protegida de uso sustentável prevista no Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (Snuc). O território coberto pela Flona Jamanxim alcança mais de 1,3 milhão de hectares, uma área maior que o Líbano. Localizada ao longo da rodovia BR-163, nos arredores de Novo Progresso, foi criada em 2006 no pacote que incluía outras sete unidades de conservação (UCs), somando 6,4 milhões de hectares de florestas protegidas. A criação da Flona aconteceu no eixo do Plano BR-163 Sustentável, anunciado em 2004 para mitigar os impactos do asfaltamento da rodovia.

DSC_0967-copy-1491240079

Um dos supermercados da rede de Ezequiel Castanha em Novo Progresso. O nome inspirou a Operação Castanheira, que prendeu Ezequiel e outros grileiros e desmatadores.

Foto: Mauricio Torres

Às vésperas do último Natal, as Medidas Provisórias 756 e 758 mutilaram 57% da dimensão original da Flona Jamanxim e tiraram um naco de 861 hectares do vizinho Parque Nacional do Jamanxim.

O retrocesso na proteção da região veio após anos de pressão de quem nunca aceitou ser privado da grilagem e da venda de terras (públicas) que se valorizaram muito e rapidamente com o asfaltamento da BR-163.

Desde o início, os protestos dos ruralistas iam do fechamento da rodovia a ameaças de derrubar a floresta toda caso não houvesse a redução da unidade de conservação: “Não quero, mas vamos derrubar essas árvores todinhas.”, disse, em 2006, Agamenon da Silva Menezes, presidente do Sindicato de Produtores Rurais de Novo Progresso. Repetia-se à exaustão o discurso de que a reserva ambiental “engessou a região e proibiu que os moradores continuassem a produzir”. Os dados mostram que as ameaças não se limitaram apenas a palavras.

Grilagem e Violência

Os pretensos “donos” de terras localizadas no interior da Flona Jamanxim têm perfil no mínimo questionável. Segundo dados do ICMBio, 67% das detenções de terras instalaram-se depois da criação da UC, e 60% desses ocupantes não residiam ali. Estudos do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) afirmam que a área média dessas pretensões é de 1.843 hectares, escala muito acima das ocupações médias dos colonos da região.

Cândido Neto da Cunha, perito federal agrário do Incra no oeste do Pará, mostra que, na média, essas ocupações são ilegais, pois, além de configurarem invasão de UC, “a legislação não permite a regularização de ocupações tão recentes e de dimensões tão grandes”. Segundo o perito, “mesmo com a área não destinada à Flona, continuam a configurar tentativas de apropriação ilegal de terras públicas, ou mesmo, grilagens”.

Como grilagem é uma atividade que não se conjuga sozinha, a Flona Jamanxim passou a disputar as primeiras colocações na lista de UCs mais desmatadas da Amazônia, além de ser palco de outros crimes violentos.

Em 2009, o ICMBio fez um estudo para reavaliar os limites da Flona. A conclusão da pesquisa refutou a possibilidade de redução da unidade e alertou que isso “levaria a um recuo de estratégia governamental de conservação que traria consequências ambientais imprevisíveis não só para a própria área da Flona, mas também para várias outras UCs da Amazônia” que também sofriam invasões e pressões decorrentes de interesses políticos.

A porção da Flona Jamanxim mais cobiçada pelos invasores era, precisamente, a mais próxima à BR-163– não por acaso, a área que se valorizava mais rapidamente e também a mais estratégica para conter o desmatamento.

“Mata Plantada”

Durante nossa passagem por Novo Progresso, em novembro passado, encontramos Agamenon da Silva Menezes, porta-voz dos latifundiários instalados nas terras públicas da região. Animado, ele acabara de retornar de Brasília e, apesar da longa viagem de ônibus, deu entrevista garantindo que a UC é uma ilegalidade. “Resolveram fazer, mandaram a caneta para cima e fizeram [a Flona], sem cumprir nenhuma norma”. Sorridente, assegurou que tudo seria resolvido em breve, já que, em Brasília, havia agora “um ambiente bem mais positivo”.

“O termo desmatar já é provocativo. Na verdade, é alteração da floresta.”

“O Brasil é pobre porque não desmata”, explica Agamenon ao defender a redução da UC. Quando indagado sobre a possibilidade da medida provocar aumento nos índices de desmatamento, ele foi rápido em apontar: “O termo desmatar já é provocativo. Na verdade, é alteração da floresta. Você não vai deixar a área no chão. Ela vai ser usada com lavoura, com pasto, com alguma coisa. Ela não é desmatada, apenas se altera de uma mata nativa para uma mata plantada”.

Agamenon-da-Silva-Menezes-in-front-of-the-trade-union-building-in-Novo-Progresso-Credit-Thais-Borges-copy-1491240090

Agamemnon da Silva Menezes, presidente do Sindicato de Produtores Rurais de Novo Progresso.

Foto: Thaís Borges

Porém, nem todos em Novo Progresso concordam com Agamenon. Lincoln Brasil Queiroz – um dos poucos fazendeiros que têm títulos da sua terra, decorrente da compra que seu pai fez junto ao Incra há décadas, tem outra visão. Para ele, a redução da Flona seria uma lição prática de que “o crime vale a pena, pois beneficia quem continua desmatando e ocupando ilicitamente”.

Com as mesmas preocupações, a procuradoria da República em Itaituba (PA) abriu, em novembro, uma ação civil pública, pedindo a interrupção do processo de redução da UC. A ação pretendia impedir “a anistia das grilagens de terras através da desafetação de áreas protegidas”. O MPF demandava ainda que a Justiça Federal ordenasse “o reforço imediato de políticas públicas para intensificação de fiscalizações e responsabilizações da cadeia produtiva da pecuária – especialmente porque as áreas invadidas são destinadas a criação extensiva de gado”.

O presidente Michel Temer assinou as medidas provisórias 756 e 758 que retiraram status de área protegida de partes da Flona e do Parque Nacional do Jamanxim.

O MPF estava certo. Entrevistas com intermediadores de negociações de gado na região de Novo Progresso revelaram que, anualmente, são produzidas ilegalmente cerca de 20 mil cabeças de gado dentro da Flona (onde a pecuária é proibida). Esse gado é comercializado sem qualquer embaraço usando esquemas de “lavagem de boi”, revelados na recente Operação Carne Fria, do Ibama, que embargou frigoríficos da empresa JBS por comprar carne produzida em áreas desmatadas ilegalmente.

Em 19 de dezembro, antes da ação do MPF ser avaliada, o presidente Michel Temer assinou as medidas provisórias 756 e 758 que retiraram status de área protegida de partes da Flona e do Parque Nacional do Jamanxim.

A medida garantiu a alegria nas comemorações de fim de ano do grupo de Agamenon, que anunciava, a partir da redução, “que o Oeste do Estado possa ter um maior desenvolvimento econômico com a implantação de grandes investimentos tanto do setor privado quanto do setor público”.

Operacao-Onda-Verde-29310847581-1491241222

Tronco derrubado por desmatadores na Floresta Nacional do Jamanxim em Novo Progresso, Pará.

Foto: Vinícius Mendonça/Ibama

Parques de Papel

Garantindo que a pavimentação da rodovia BR 163 não repetiria os desastres do passado, há 13 anos, o governo Lula anunciou que a licença da obra seria complementada pelo “Plano BR-163 Sustentável”. Entre providências em diversas áreas, o plano previa a criação de UCs como medida de preservação florestal.

Mapa-8-–-Porcao-desafetada-da-TI-Bau_Portugues1-1491240066

Unidades de conservação criadas ao longo da BR-163.

Elaboração: Mauricio Torres

“O Plano simplesmente não foi implementado”, explicou Brent Millikan, que, à época, era assessor técnico da (extinta) Secretaria de Coordenação da Amazônia, do Ministério do Meio Ambiente, “e foi substituído, em fevereiro de 2007, pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)”.

Os cenários mais pessimistas imaginados há uma década sobre a destruição florestal no eixo da BR 163 são hoje realidade.

Para Millikan, isso refletiu decisões que apostaram na manutenção no poder “a partir de alianças com grupos políticos e econômicos tradicionais, cujos interesses resultariam em práticas sistemáticas de saque do patrimônio público (dinheiro público, recursos naturais) que eram absolutamente incompatíveis com os objetivos do Plano BR-163 Sustentável”.

A amputação do Parque Nacional do Jamanxim corrobora a análise de Millikan: o Parque foi reduzido com o “objetivo é permitir a passagem da ferrovia Ferrogrão, que segue o eixo da BR 163 e encontra-se em processo de licenciamento”, segundo nota do próprio governo federal.

Os cenários mais pessimistas imaginados há uma década sobre a destruição florestal no eixo da BR 163 são hoje realidade.

Segundo Juan Doblas, que monitora o desmatamento na região pelo Laboratório de Geoprocessamento do Instituto Socioambiental, “dez anos depois do licenciamento das obras, o desmatamento acumulado atingiu as piores projeções. A perda de floresta às margens da rodovia está tão fora de controle que entre 2004 e 2013 (exceto 2005), enquanto o desmatamento caía em toda a Amazônia, aumentava na região”.

A situação, para Doblas, “seria muito pior sem a decretação das UCs, ainda que não tenham sido implementadas de fato”. Essa aparente contradição, segundo Doblas, novamente pode ser entendida pela conexão direta entre desmatamento e grilagem: “Mesmo que apenas no papel, as UCs fizeram com que o desmatamento como função de especulação imobiliária perdesse seu sentido e caísse bruscamente”. O ato de transformar terras públicas formalmente em UCs retirou-as do mercado da grilagem, pois “tornava inviável que tais áreas saíssem do patrimônio público para serem tituladas em nome de grileiros”, completa.

Como as terras indígenas, as unidades de conservação têm um relevante efeito de deter o desmatamento.

Fonte: ISA/Prodes

Desmontando o que sobrou

Foi Dilma Rousseff, na sua primeira gestão presidencial, que criou o precedente de alterar limites de áreas protegidas por meio de medidas provisórias. Em sua febre por construir barragens na Amazônia, reduziu UCs que seriam inundadas com a pretensa hidrelétrica de São Luiz do Tapajós, garantindo que as reservas não fossem obstáculo ao licenciamento da mega obra.

Paulo Carneiro, diretor de Criação e Manejo de Unidades de Conservação do ICMBio, admitiu que a redução da Flona Jamanxim é prejudicial, mas, segundo ele, ante a escalada de conflitos envolvendo a área, a saída encontrada pelo ministério foi flexibilizar a UC.

“A categoria APA abre brechas para a ocupação ilegal e não segura o desmatamento.”

Na prática, retirou-se pouco mais da metade – 743 mil hectares – da área da Flona Jamanxim. Desse total, 438 mil ha foram anexados ao vizinho Parque Nacional do Rio Novo, aumentando o rigor da categoria de proteção ambiental. Entretanto, outros 305 mil hectares (o equivalente a 117 ilhas de Fernando de Noronha) foram realocados na permissiva categoria de Área de Proteção Ambiental. A APA Jamanxim é uma modalidade de UC muito menos restritiva e que permite a quem invadiu e desmatou no interior da Flona manter a posse da terra. Ou seja.

Para Juan Doblas a mudança de Flona para APA é um eufemismo para a redução da área protegida: “Essa APA, na fronteira da expansão do agronegócio, reforça a corrida especulativa e a disputa da terra, agora, ‘grilável’, pois a categoria APA abre brechas para a ocupação ilegal e não segura o desmatamento.”

O Ministério do Meio Ambiente e o ICMBio não responderam às perguntas sobre a redução da Flona enviadas por The Intercept Brasil.

Um servidor do ICMBio que trabalha na região e pediu para não ser identificado defende o oposto. A partir da experiência de quem vivencia o problema presencialmente, ele diz: “A redução mostra que se uma UC for invadida e desmatada, deixará de ser uma área protegida e o criminoso ficará com a terra. Quero ver se alguém virá de Brasília para conter novas invasões agora”.

Jamaxim-Ponte-1491241243

Ponte Do Rio Jamanxim , em Novo Progresso, Pará.

Foto: Guto.1992

Mais baixas previstas no front

Apesar de toda concessão à grilagem e ao crime ambiental, a bancada ruralista considerou a alteração da Flona Jamanxim demasiado “modesta”, posição que abre um quadro de possibilidades assustador.

Vale lembrar que o atual ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, é acusado de grilagem de terras.

Como é de praxe com qualquer assunto, as Medidas Provisórias que alteraram as UCs serão analisadas e votadas por uma comissão mista de deputados e senadores, possivelmente ainda no mês de março. A comissão já indicou sete emendas ao texto original, todas abrandando ainda mais a proteção e ainda dilapidando outras UCs.

Vale lembrar que o atual ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, é acusado de grilagem de terras dentro do Parque Serra Ricardo Franco, unidade de conservação localizada no Mato Grosso. Assim, não é de se estranhar a solidária posição a demais grileiros da Flona Jamanxim e de outras partes do país.

Mais áreas protegidas estão na mira dos ruralistas. Em janeiro, o governo federal anunciou a intenção de efetivar brutal redução em UCs no estado do Amazonas. Planeja-se a dilapidação da Reserva Biológica do Manicoré, do Parque Nacional do Acari, das Florestas Nacionais do Aripuanã e de Urupadi e a extinção da Área de Proteção Ambiental dos Campos de Manicoré, resultando na retirada de status de proteção de cerca de 1 milhão de hectares. Em carta aberta, ONGs já pediram ao governo que aborte a proposta.

Para Adriana Ramos, coordenadora de Política e Direito do Instituto Socioambiental, “a estratégia do setor rural, representada pela Frente Parlamentar da Agropecuária, é fragilizar e neutralizar o alcance da legislação ambiental e dos direitos territoriais dos povos e comunidades tradicionais. Então, essas iniciativas estão no mesmo contexto de ataque aos direitos socioambientais por parte dos representantes do agronegócio”.

Já para o líder rural de Novo Progresso, Agamenon da Silva Menez, “a sociedade sempre progride e a mudança é inevitável e benéfica”. Ele pergunta “Vocês sentem falta de dinossauros?”

A resposta aparece nos artigos anteriores desta série e em seguidas pesquisas científicas sobre o papel da floresta amazônica para o equilíbrio climático do planeta. A cobiça ruralista, com seu discurso marketeiro e suas práticas socioambientais e trabalhistas jurássicas, antagoniza a ciência do clima, o respeito à legislação e aos povos tradicionais e consolida o agronegócio como o verdadeiro “parque dos dinossauros” do século XXI. Agamenon está em casa.

Esta matéria é da série exclusiva “Tapajós sob Ataque”, escrita pela jornalista Sue Branford e pelo cientista social Mauricio Torres, que percorrem a bacia Tapajós. A série é produzida em colaboração com Mongabay, portal independente de jornalismo ambiental. Leia a versão em inglês. Acompanhe outras reportagens no The Intercept Brasil ao longo das próximas semanas.

Foto no topo: Um dos supermercados da rede de Ezequiel Castanha em Novo Progresso. O nome inspirou a Operação Castanheira, que prendeu Ezequiel e outros grileiros e desmatadores.

Seu dedo apertou o gatilho: o sonho acabou

Alcidesio Júnior

Hoje [quinta-feira, dia 30] foi executada com três tiros, pela Polícia Militar, um na cabeça, um na nuca e outro nas costas, uma menina de 13 anos. Dentro da escola, em aula. Não é a primeira e não será a última. Morreu com black na cabeça, camisa e bermuda do uniforme da prefeitura do Rio de Janeiro, e um tênis rosa. Sem mochila ou celular, pois estava indo beber água. Jogava volei, ganhou por isso uma bolsa para ir para um colégio particular como aluna atleta, como diversos outros alunos do colégio conseguiram.

Fruto de um trabalho maravilhoso dos professores de Educação Física, a menina começou a ter sonhos. O colégio foi o melhor da CRE, venceu jogos e campeonatos contra colégios particulares, trouxe 9 medalhas das 10 modalidades que participou no ano passado. Foi o destaque. Ela era da equipe. Mas, morreu.

Com ela morreram seus sonhos e a esperança de diversas outras crianças, que experimentaram hoje o ódio e o desejo de vingança pela covardia sofrida. Todo trabalho de 6 anos do colégio na comunidade, todo o trabalho de 3 anos da equipe de Educação Física e Direção, toda credibilidade que tinham, morreram ali.

Eu sairia as 16:20, estava com a turma de 6 Ano. Ouvi três tiros de pistola. Coloquei todos sentados e em silêncio em local seguro. Ouvi mais rajadas de fuzil. Gritos. Controlando a turma, boatos vinham, diziam: menina baleada. Disse à turma que iria averiguar e eles esperassem. Concordaram.

Um funcionário, pai de aluna, que veio três vezes à turma pra ver a filha e pedir que não saísse dali, estava no corredor. Perguntei a ele o que realmente havia acontecido, ele pegou no meu braço e disse: quer ver o que aconteceu? Olhe ali embaixo. Vi o corpo e a poça de sangue. Morta.

Voltei à turma. Confirmei o boato. Vi ainda na quadra o professor de E.F. com os outros alunos abrigados e abaixados. Na primeira pausa do tiroteio, que não acabou durante toda a tarde e noite, os alunos foram liberados para casa. Mas a troca de tiros, não parou. Alunos, pais, familiares, curiosos, vizinhos e bandidos queriam ver o corpo, entrar na escola. Uma multidão que nunca vi ali, e sempre se renovava.

Uma multidão. Muita dor, revolta, desespero, ajuda… gás de pimenta, coquetel molotov, tiros, fogos, gritos…muitos gritos. Muita gente desesperada, muita gente desmaiando. O inferno. Fogo na rua, barricadas, ônibus e carros queimados. Tiros. Execução sumária. Revolta. Justa revolta. E nós, professores e funcionários, ali. Muito ódio. Justo ódio. E ela, morta.

Esta política de “combate às drogas” mata. Morre policial, morre traficante, morre inocente. Lucrando com ela, uma minoria de Políticos e “Empresários” da “boa sociedade”, que fornecem armas e drogas para os dois lados. Vendem a ideia de que vivemos em uma “guerra”, para atuarem livremente.

Encontram eco nos discursos conservadores que dizem que “bandido bom é bandido morto”, que “favelado é criminoso”, que “direitos humanos só servem pra proteger bandidos”, que a “polícia deve ser justiceira contra bandidos”. Se você defende isso, parabéns!, seu desejo foi realizado: seu dedo ajudou a puxar o gatilho do fuzil que matou Maria. Ela virará estatística: mais uma preta, pobre e favelada que morreu. Junto com ela o humano deste ser. Nesta lógica do olho por olho, ficamos todos cegos.

O ódio classista, o ódio contra a favela, o ódio contra o pobre, voltará. A favela dará o retorno. A indiferença, o descaso, o descompromisso com ela, terá volta. Não terá controle. Não há paz sem justiça social. Não há sossego possível, com esta omissão estrutural e esta política de extermínio. Ou mudamos tudo, ou nada mudará.

A família gritava: “a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro matou minha irmã “; “a favelada que estuda, tá aqui morta, enquanto isso, aquela criminosa foi solta pra cuidar do filho dela”; “queria ver se fosse na Zona Sul, se isso aconteceria, se as pessoas seriam tratadas assim”. O que dizer? Justo. Muito justo e lúcido.

Muitas coisas me doeram hoje: a menina que morreu; a dor de cada membro da família que chegava – cada grito de desespero era uma nova morte; o desespero e perplexidade dos alunos vendo o corpo, deitados no chão, e não sabendo o que fazer; a insensibilidade dos policiais militares que, nem ao lado do corpo da criança, pararam de rir, zombar e atiçar a dor da população; o despreparo e, ao mesmo tempo, o amor e empatia dos professores e funcionários para lidar e ajudar na situação; a impotência diante desta estrutura asfixiante e imobilizante.

Mas nada se comparou a dor sentida ao ler a mensagem que recebi do professor que mudou o colégio com sua nova forma de organizar a Educação Física, dando esperança a dezenas de alunos-atletas, que até então eram apenas “péssimos alunos” ou “projeto de marginais”:

“Obrigado, Júnior. Mas a minha pergunta é: do que adiantou eu ajudar ela a sonhar?”

Maria Eduarda Alves da Conceição (Foto: Reprodução)Maria Eduarda Alves da Conceição (Foto: Reprodução)

Alcidesio Júnior é professor da Escola Municipal Daniel Pizza, em Acari, Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro

Barriga de índio, barriga de ministro.

Por José de Souza Martins. Valor Econômico.

Como algumas vezes acontece, em casos assim, o novo ministro da Justiça inaugurou-se dizendo o que a prudência não recomendava e a política não propunha numa função como a sua. Fez, sobre os índios, afirmações de autoridade que não cabiam e que indicam deplorável sobreposição do senso comum ao bom senso que se espera de quem exerce funções de poder.

Link de acesso à matéria completa:

http://www.valor.com.br/cultura/4911912/barriga-de-indio-barriga-de-ministro