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Produção agrícola na Amazônia

Concentração de CO2 na atmosfera é a maior em 800 mil anos, diz IPCC

Relatório afirma que temperatura média da Terra sobe 1,5ºC até o final do século

Andrei Netto, enviado especial, O Estado de S. Paulo

27 Setembro 2013 | 05h01

ESTOCOLMO – A concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera da Terra é a maior em pelo menos 800 mil anos. A advertência sobre o grau de contaminação pelo principal gás causador do efeito estufa foi divulgada no começo da manhã desta sexta-feira pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), o grupo de experts das Nações Unidas reunido em Estocolmo, na Suécia. Após uma madrugada de trabalhos, os especialistas decidiram advertir mais uma vez, agora com 95% de certeza, para a responsabilidade do homem no aquecimento global, no derretimento de geleiras, no aumento do nível dos oceanos e nos eventos climáticos extremos.

Foram necessários cinco dias de diálogos para que os representantes da comunidade científica e de governos encerrassem, na manhã de hoje, a nova edição de seu relatório sobre o estado do planeta – o quinto desde 1990.

“O aquecimento do sistema climático é inequívoco, e desde os anos 1950, muitas das mudanças observadas não têm precedentes em décadas ao milênio. A atmosfera e o oceano aqueceram, a quantidade de neve e gelo diminuiu, o nível do mar subiu e as concentrações de gases de efeito estufa aumentaram”, sintetiza o relatório.

De acordo com o documento de 36 páginas voltado para formuladores de políticas apresentado hoje por experts e delegados governamentais, a concentração de CO2 na atmosfera aumentou 40% desde a era pré-industrial em razão das emissões oriundas da queima de combustíveis fósseis. Deste total, 30% foram absorvidos no período pelos oceanos, que por essa razão se tornaram mais ácidos e menos capazes de regular o clima.

Como efeito, a temperatura média da Terra vem se elevando – já subiu 0,85°C entre 1880 e 2012 – e vai atingir no mínimo mais 1,5ºC até o final do século em relação à média diagnosticada entre 1850 e 1900. E esse será o melhor dos cenários, advertiu Thomas Stocker, um dos coordenadores do relatório sobre as bases físicas das mudanças climáticas. “Ela provavelmente vai subir 2ºC nos dois piores cenários”, advertiu. “Ondas de calor muito provavelmente ocorrerão com mais frequência e durarão mais tempo. Com o aquecimento da Terra, nós esperamos que regiões úmidas recebam ainda mais chuva, e regiões secas ainda menos.”

O IPCC também decidiu manter o ponto mais polêmico do relatório, que fazia menção à suposta “desaceleração” do aquecimento entre os anos de 1998 e 2012. O tema foi alvo de cientistas, políticos e jornalistas negacionistas nas últimas duas semanas, que usaram a constatação do painel para atacar sua suposta incoerência.

Depois das negociações, o artigo que fazia referência ao assunto foi modificado, incluindo ponderações para a irrelevância científica de projeções de curto prazo e sobre a ocorrência de El Niño, o fenômeno que resulta no aquecimento das águas do Oceano Pacífico.

“Além do robusto aquecimento de várias décadas, a média global de temperatura na superfície exibe uma variação substancial interanual e a cada cinco décadas. Em razão da variação natural, tendências baseadas em apenas seis registros são muito sensíveis às datas de início e fim e em geral não refletem tendências de longo termo”, diz o texto final, que exemplifica: “A taxa de aquecimento dos últimos 15 anos (1998-2012, de 0,05ºC por década), que começa com um forte El Niño, é menor do que a taxa calculada desde 1995 (1951-2012, de 0,12ºC por década).

O texto explica ainda que, se a sequência de 15 anos for medida a partir de 1995, 1996 ou 1997, o aumento da temperatura média da Terra no período seria de 0,13ºC, 0,14ºC e 0,07ºC por década, respectivamente.

Um dos destaques do primeiro dos quatro relatórios do IPCC a serem divulgados entre 2013 e 2014, segundo experts do painel ouvidos pelo Estado ao longo da semana, é a precisão e o tecnicismo do texto – uma resposta às críticas por erros pontuais encontrados no relatório de 2009.

Com temperaturas mais elevadas, o derretimento de geleiras nunca foi tão intenso. Entre 1979 e 2012, o Ártico perdeu entre 3,5% e 4,1% de sua área a cada década. Os mantos de gelo da Groenlândia e da Antártida tiveram uma perda significativa de massa e encolheram entre 1992 e 2001. No mar da Antártida, por outro lado, houve um pequeno aumento do gelo, de 1,2% a 1,8% por década no mesmo período. As projeções indicam que em 2100, entre 15% e 85% das geleiras e extensões de neve da Terra terão desaparecido, considerados o melhor e o pior dos cenários.

Se o planeta aquece e parte das geleiras desaparece, maior se torna o nível dos oceanos. Entre 1901 e 2010 eles já subiram 19 centímetros e a previsão é de que aumentem entre 26 e 82 centímetros até 2100.

Conheça as palavras ‘intraduzíveis’ que revelam emoções que você possivelmente nem sabe que sente.

Daniel Luis Dalberto

A matéria da BBC postada abaixo releva nuances, peculiaridades nas palavras que existem em cada idioma e traduzem de modo único emoções muitas vezes difíceis de serem expressadas com fidedignidade noutras línguas. Mais que simples vocábulos ou expressões, a possibilidade de melhor descrever sentimentos facilita e melhora o modo de lidar com eles. Há os que dizem ser inútil querer salvar uma língua em via de extinção, que se ela tem poucos falantes e já não é usada no dia a dia, não há razão para mantê-la, que a extinção de línguas é um processo corriqueiro na história da humanidade. Divirjo absolutamente dessa visão. Primeiro porque, com os adventos da globalização, da revolução tecnológica e das comunicações, nunca se viu idêntico processo de extinção de línguas no planeta, nem no número e nem na velocidade que vem ocorrendo. Assim, estamos diante de situação ímpar, não se tratando do que “sempre ocorreu”. Depois, a extinção de uma língua encerra muito mais que o simples desaparecimento de um idioma. Engloba o desaparecimento de um modo diverso e enriquecedor de ver o mundo e lidar com a existência humana. Faz sumir conhecimentos, crenças, costumes e instituições, modos de viver e de sentir, empobrecendo o mundo no aspecto pluricultural, assim, retirando possibilidades de enfrentamento de crises e dilemas civilizatórios em sociedades com problemas cada vez mais complexos.

O Brasil é o país mais rico em diversidade linguística e cultural, mas também é o que mais as tem perdido. Estima-se em 150 ou 160 as línguas faladas no Brasil. Há 500 anos seriam mais de 1.500. Segundo o Censo de 2010, apenas 37,4% dos indígenas ainda falam sua língua e a média é de apenas de 250 falantes por língua. Internacionalmente considera-se em perigo línguas com menos de mil falantes. E temos várias com menos de 10 falantes, sendo que não há no Brasil nenhuma política linguística clara, o que ratifica a secular política assimilacionista e colonialista.

 

Projeto quer capturar os diferentes significados de palavras inusitadas que expressam sentimentos positivos, para que possamos começar a incorporá-los em nosso cotidiano.

Você já se sentiu um pouco mbuki-mvuki – aquela vontade irresistivel de tirar as roupas enquanto dança? Ou talvez tenha batido aquele kilig – uma tremedeira nervosa ao falar com alguém de quem gosta? E o que dizer do uitwaaien – que define os efeitos revitalizantes de uma caminhada ao vento?

Essas palavras – do bantu (África), tagalo (Filipinas) e holandês – não possuem correspondente direto em inglês, mas representam experiências emocionais precisas, negligenciadas na língua mais importante do mundo. E se o pesquisador Tim Lomas, da Universidade do Leste de Londres, estiver no caminho certo, talvez elas em breve se tornem mais familiares.

Um projeto de Lomas, batizado Lexicografia Positiva, quer capturar os diferentes “sabores” de sentimentos positivos (alguns são bem amargos) encontrados pelo mundo, para que possamos começar a incorporá-los em nosso cotidiano.

O inglês já incorporou “palavras de emoção” de outras línguas – como o “frisson” do francês ou o “schadenfreude” (prazer derivado do fracasso alheio) do alemão – , mas há muitas palavras que ainda não chegaram ao nosso vocabulário. Lomas identificou centenas dessas experiências “intraduzíveis” – e está apenas começando.

Aprender essas palavras, afirma ele, pode nos oferecer um entendimento mais rico de nós mesmos. “Elas oferecem uma maneira bem diferente de ver o mundo”, diz.

Criança

Direito de imagem Herman Lumanog / Alamy Stock Photo
Image caption Gigil é uma expressão em tagalo que descreve a vontade irresistível de apertar alguém

Lomas afirma que se inspirou após ouvir uma palestra sobre o conceito finlandês de sisu, que é um tipo de “determinação extraordinária diante da adversidade”.

Segundo finlandeses, as ideias de “perseverança” e “resiliência” não chegam nem perto de descrever a força interior contida nesse termo local. É algo “intraduzível” nesse sentido: não ha equivalente direto ou fácil no vocabulário do ingles que capture essa profundidade do termo.

Intrigado, Lomas começou a buscar mais exemplos, entre amigos estrangeiros e na literatura acadêmica. Os primeiros resultados do projeto foram publicados em 2016 no periódico Journal of Positive Psychology.

Muitos dos termos se referiam a sentimentos positivos bem específicos, que dependem de circunstâncias particulares:

Desbundar (português) – abandonar as inibições para se divertir

- Tarab (árabe) – um estado de êxtase ou encantamento induzido pela música

- Shinrin-yoku (japonês) – o relaxamento que vem de um banho na floresta, em sentido figurado ou literal

- Gigil (tagalo) – a vontade irresistível que beliscar ou apertar alguém muito querido ou amado

- Yuan bei (chinês) – um senso de realização completa e perfeita

- Iktsuarpok (inuíte) – a ansiedade sentida ao esperar por alguém, aquela de ficar sempre checando se a pessoa já chegou

Mas outras palavras representam experiências ainda mais complexas e amargas, que podem ser cruciais ao nosso amadurecimento.

- Natsukashii (japonês) – um sentimento nostálgico de falta do passado, com alegria pela lembrança, mas tristeza pelo tempo que não volta mais

- Wabi-sabi (japonês) – uma “sublimidade desolada e obscura”, centrada na transitoriedade e imperfeição na beleza

- Saudade (português) – uma nostalgia melancólica por uma pessoa, lugar ou coisa que está longe no tempo ou espacialmente – um desejo vago por algo que pode nem existir

- Sehnsucht (alemão) – um desejo intenso por estados alternativos de vivência e realizações da vida, mesmo que sejam inatingíveis

Além dessas emoções, a lexicografia (redação e produção de dicionários) de Lomas também enumerou características pessoais e comportamentos que podem determinar nosso bem-estar de longo prazo e modos como interagimos com outras pessoas.

- Dadirri (aborígene australiano) – um ato profundo e espiritual de escutar de forma reflexiva

- Pihentagyú (húngaro) – significa literalmente “com o cérebro relaxado” e descreve pessoas de pensamento ágil que trazem piadas ou soluções sofisticadas

- Desenrascanço (português) – livrar-se de uma situação embaraçosa de maneira criativa

- Sukha (sânscrito) – felicidade genuína e duradoura, independentemente das circunstâncias

- Orenda (huron) – poder humano de mudar o mundo diante de forças poderosas como o destino

Há muitos outros exemplos no site de Lomas, onde você também pode submeter suas próprias sugestões de palavras. O pesquisador reconhece que muitas das descrições que oferece até agora são apenas aproximações dos significados verdadeiros dos termos. “O projeto é um trabalho em aberto, e estou permanentemente tentando refinar as definições. Comentários e sugestões das pessoas são muito bem-vindos.”

Cantora de fado

Direito de imagem Getty Images
Image caption Cantoras de fado como a portuguesa Cristina Branco transmitem o significado da palavra saudade em suas interpretações

No futuro, Lomas espera que outros psicólogos possam investigar as causas e consequências dessas experiências – para ampliar nossa compreensão das emoções para além dos conceitos em inglês que dominaram as pesquisas até agora.

Mas estudar esses termos não reflete um interesse apenas científico; Lomas acredita que conhecer melhor essas palavras pode de fato mudar a maneira como sentimos, ao chamar nossa atenção para sensações que até então ignorávamos.

“Em nosso fluxo de consciência – aquela enxurrada de diferentes sensações e emoções – há tanta coisa para processar que muitas passam despercebidas”, afirma o psicólogo.

“Os sentimentos que aprendemos a reconhecer e rotular são aqueles que percebemos – mas há muitos outros que talvez nem saibamos. Acho que incorporar essas novas palavras pode nos ajudar a articular áreas da experiência que mal notamos.”

Classificando emoções

Para comprovar sua ideia, Lomas cita o trabalho de Lisa Feldman Barrett, da Universidade Northeastern, que mostra que nossas capacidades de identificar e classificar emoções podem ter efeitos mais abrangentes.

A pesquisa de Barrett se inspirou na observação de pessoas que usam diferentes palavras para descrever as mesmas emoções, enquanto outras são bem precisas nas descrições.

“Algumas pessoas usam palavras como ansiedade, medo, raiva e nojo para se referir a um estado geral de se sentir mal”, diz ela. “Para elas, as palavras são sinônimos, mas outras são sentimentos diferentes associados a ações distintas.”

Isso é algo chamado “granularidade das emoções” e ela normalmente mede esse indicador pedindo que entrevistados deem notas a seus sentimentos a cada dia por algumas semanas. Ela calcula a variação e as nuances nesses relatórios: se os mesmos termos sempre coincidem, por exemplo.

Mulher em meio a cerejeiras

Direito de imagem Christian Kober
Image caption Wabi-sabi é um termo japonês que descreve nossa apreciação da beleza transitória e imperfeita – como o esplendor das flores de cerejeira

Ela descobriu que isso determina como lidamos com a vida. Se você tem mais facilidade em descrever se se sente desesperado ou ansioso, por exemplo, você pode ter mais facilidade para lidar com esses sentimentos: se irá conversar com um amigo ou assistir a uma comédia.

Nesse sentido, o vocabulário de emoções é quase como um arquivo, que permite recorrer a um número maior de estratégias para lidar com a vida.

Pessoas com indices altos de granularidade de emoções são melhores em se recuperar do estresse e tem menor propensão a beber para se recuperar de situações difíceis. E podem até ter melhores performances acadêmicas.

Marc Brackett, da Universidade de Yale, apontou que ensinar crianças de 10 e 11 anos um vocabulário de emoções mais amplo elevou as notas e promoveu melhor comportamento em sala de aula. “Quanto mais granular é a nossa experiência das emoções, mais somos capazes de compreender nossa vida interior”, diz Brackett.

Brackett e Barrett concordam que a “lexicografia positiva” de Lomas pode ser um bom impulso para começar a identificar os contornos mais sutis de nosso horizonte emocional. “Acho que é nem útil – você pode pensar nas palavras e conceitos associados como ferramentas para a vida”, diz Barrett. Elas podem até nos inspirar para novas experiências, ou apreciar experiências antigas sob um novo olhar.

Esse é um caminho de pesquisa que Lomas gostaria de explorar no futuro. Enquanto isso, ele continua a ampliar seu dicionário – que já tem quase mil termos.

De todas as palavras que descobriu até agora, o pesquisador diz que costuma se pegar refletindo sobre conceitos japoneses como wabi-sabi (aquela sublimidade obscura envolvendo transitoriedade e imperfeição). “Ele dialoga com a ideia de encontrar beleza em fenômenos imperfeitos e velhos”, afirma ele. “Ver o mundo por meio desse prisma pode ser uma maneira diferente de se envolver na vida.”

 

Benjamin: “há um vácuo judicial na proteção da Amazônia”

Para ministro do STJ e do TSE, anistia a grileiros favorece o desmatamento na região

Há um vácuo de implementação judicial da legislação de proteção do meio ambiente na Amazônia. A interpretação é do ministro Antonio Herman Benjamin, do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Especialista em Direito Ambiental, Benjamin vê uma discrepância entre o número de processos que versam sobre o desmatamento em áreas da Mata Atlântica e os que dizem respeito à floresta amazônica.

“Se fizermos um levantamento da jurisprudência no STJ, veremos que a esmagadora maioria dos casos e dos precedentes não se refere à Amazônia”, afirmou o ministro ao JOTA, antes de uma palestra no seminário “O Direito Ambiental na Dimensão Constitucional”, realizado na Faculdade de Direito do Instituto Brasiliense de Direito Público de São Paulo.

A explicação para esta diferença, na visão do ministro, é que o pouco que sobra da Mata Atlântica está numa região muito mais desenvolvida, urbanizada, “com uma presença firme e vigilante da sociedade e da imprensa” e, por isso, acaba recebendo uma proteção muito maior do que a Amazônia.

O desmatamento na Amazônia cresceu 29% de 2015 a 2016. De agosto 2015 a julho de 2016, foram quase 8 mil quilômetros quadrados de floresta devastados –  a maior marca registrada desde 2010. Em 2017, no mesmo período, houve uma leve melhora, com queda de 16% em relação ao ano passado.

Para Benjamin, um dos pontos que enfraquece a efetividade da legislação ambiental são as anistias tanto para criminosos ambientais quanto para grileiros que invadem terras públicas. “Vira e mexe há anistia nacional para os grileiros. No Brasil, com destaque para a Amazônia, a grilagem é a maior inimiga”, afirma o ministro.

O impacto da grilagem é duplo, segundo Benjamin. “Primeiro por uma apropriação indevida do patrimônio público e, segundo, por vir acompanhada de grande degradação ambiental. Quem não respeita o patrimônio público material não vai respeitar o patrimônio público imaterial”, analisa.

O ministro do STJ também ressalta a necessidade de encontrar um equilíbrio nas leis sobre licenciamento ambiental, de modo que elas não se tornem um entrave ao desenvolvimento econômico.

Na Câmara dos Deputados, corre o projeto de lei 3.729/2004, que muda as regras para o licenciamento ambiental. “Não adianta querer enfraquecer o licenciamento porque a insegurança jurídica para o próprio empreendedor será sentida de imediato”, diz o ministro. O Ministério Público Federal apresentou uma nota técnica contrária a um substitutivo do projeto no último mês.

Benjamin pondera que um mau licenciamento pode ter repercussões na guerra comercial entre os vários países. Por outro lado, também  “não podemos ter um licenciamento que, sem razão alguma, engesse a própria atividade econômica. Um licenciamento burocratizado, quase que cartorial, é o oposto daquilo que o Brasil precisa.”

Prestes a deixar o TSE, o ministro não quis comentar o julgamento das ações das quais foi relator e que podiam levar à cassação da chapa da ex-presidente da República Dilma Rousseff (PT) e do atual presidente Michel Temer (PMDB).

Rio Paracatu, maior afluente do São Francisco, agoniza em Minas Gerais.

Onde deveria haver água, há muita pedra e poeira. A estiagem aumenta a aflição de criadores e agricultores que dependem do rio para tocar a vida.

O Rio Paracatu, principal afluente do São Francisco, agoniza no noroeste de Minas Gerais. Onde deveria haver água, hoje se vê muita pedra e poeira. A seca e o descaso aumentaram a aflição de criadores e agricultores que dependem do rio para tocar a vida.

O Rio Paracatu, no noroeste de Minas Gerais, o principal afluente do São Francisco está quase sem água. Há quatro meses não chove forte na região. O nível está tão baixo que há mais ou menos dois meses, em alguns trechos é impossível navegar, porque o motor dos barcos pega na areia do fundo. No leito do rio é possível caminhar tranquilamente com água na altura do joelho.

Gerente de um clube de pesca da região, Cristiano Erig, trabalha no local há 20 anos. No álbum de fotos dele, uma lembrança: o rio com fartura de água, cheio de pescadores e muitos surubins e dourados. “É muita tristeza, porque a gente conhece o rio há muitos anos, sempre com muita água. Agora, a gente vê só praia, praia”, declara.

 

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No Instituto Nacional de Meteorologia, em Brasília, o meteorologista Mamedes Luiz Mello, explica que a região das nascentes do Rio Paracatu recebeu pouca chuva nos últimos três anos. A média histórica é 1.300 milímetros, mas na última temporada foram só 848 milímetros. “Não chovendo na nascente, consequentemente na frente o rio vai sofrer com isso, se seus afluentes também já estão sofrendo com a falta de chuva”, explica.

O Rio Paracatu nasce no município de Lagamar, no oeste de Minas Gerais. Tem 485 quilômetros de extensão e desagua no Rio São Francisco, entre as cidades de Santa Fé de Minas e Buritizeiro.

O produtor Miguel Rodrigues Pereira vive em um sítio no município de Paracatu. Em 12 hectares, ele cria 68 vacas. No local, passava o córrego São Domingos que faz parte da bacia do Paracatu. Há dois meses o córrego secou.

A lagoa que ficava no meio do sítio também não resistiu. Água para o gado, só de uma poça lamacenta. A mulher de Miguel, dona Nívea, já pensa em deixar a terra onde nasceu e criou a família.

“Se um sítio não tem água, como que a gente vai residir aqui? Como a gente vai plantar? Como a gente vai criar os animais? Não tem como criar galinha, porco, uma vaca um cavalo, porque não tem água para beber”, lamenta Nívea Conceição Gonçalves Pereira, 68 anos.
No assentamento Buriti da Conquista, o produtor Luiz Alberto Rabelo de Sá cria 18 vacas em 40 hectares. Ele tirava ele 130 litros de leite por dia, mas a vereda secou e agora, enfrenta prejuízo. “Não tem retorno nenhum, o retorno vai tudo pro gado”, diz.

Luis conta que há dois anos não chove direito no sítio. O pasto acabou há muito tempo e que para enfrentar o período de estiagem ele gastou tudo que tinha e comprou uma silagem de milho. A quantidade não é para manter a produção de leite e sim para evitar que os animais morram de fome.

Duas vacas ficaram tão fracas por falta de alimento que atolaram no que restou das veredas e não conseguiram mais levantar.

Prejuízos para os pequenos e também para os grandes produtores. A estimativa é de que cerca de 30 mil hectares deixaram de ser plantados na região de Paracatu em junho e julho, a safra irrigada. Em uma propriedade aqui, por exemplo, de 90 hectares, por falta de água o pivô está parado e o solo nessa época que deveria ter feijão pronto para colher está seco, sem nada.

O produtor Adson Roberto Ribeiro faz parte de uma associação com outros 20 agricultores. Eles captam água para irrigação no rio São Pedro, que também abastece o rio Paracatu. Assim que perceberam que o volume de água baixou, desligaram os pivôs. “Nossa esperança é que chuvas se regularizem e que essa gestão de água se estenda não só nessa bacia, mas também em outras bacias, que o pessoal monitore as vazões dos rios, se programem para plantar, de modo que a gente tenha uma agricultura sustentável”, declara.

Mas nem todos os produtores da bacia do Paracatu deixaram de bombear a água dos rios. Várias propriedades continuam irrigando as lavouras.

A secretaria de Meio Ambiente do estado de Minas Gerais informou que nos últimos dois meses foram registradas 41 infrações e aplicados quase 300 mil reais em multas. A maior parte por captação de água acima do permitido. Nenhuma das multas foi paga, ainda cabe recurso.

O engenheiro florestal Nivaldo Monteiro, explica que os rios estão secando não só por por causa da seca dos últimos anos. “A infiltração de água no solo depende imensamente, ou da vegetação ou da utilização do solo com práticas de conservação de solo e água, que possam potencializar e compensar a recarga hídrica, mesmo com a retirada da vegetação”, esclarece o engenheiro florestal.

Para enfrentar a crise hídrica, a bacia do rio Paracatu conta com algumas ONGs, como a Movimento Verde Paracatu, do biólogo Antonio Vieira. Ele luta há trinta anos contra o desmatamento do cerrado nas nascentes da bacia. “O rio Paracatu é o maior afluente do São Francisco. Contribui com 26% da água do rio São Francisco. Então, a bacia do rio Paracatu estando nessa situação, reflete tranquilamente lá embaixo no São Francisco. A região vai penar muito, porque sem água do rio Paracatu, a região fica totalmente comprometida com seus empreendimentos, grandes, pequenos e médios. Com isso, a sociedade vai sentir o peso de você ter um rio morto, numa região que depende imensamente dele”, alerta Antônio Eustáquio Vieira, biólogo.

Em toda a bacia do rio Paracatu, vivem quase três milhões de pessoas, mas como ele é o principal afluente do São Francisco, suas águas ganham importância para as comunidades mineiras e nordestinas banhadas pelo Velho Chico.

https://globoplay.globo.com/v/6185016/

“O Cerrado está extinto e isso leva ao fim dos rios e dos reservatórios de água”

No Jornal Opção

Uma das maiores autoridades sobre o tema, professor da PUC Goiás diz que destruição do bioma é irreversível e que isso compromete o abastecimento potável em todo o País 

Por Elder Dias 

Uma ilha ambiental em meio à metrópole está no Campus 2 da Pon­tifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás). É lá o local onde Altair Sales Barbosa idealizou e realizou uma obra que se tornou ponto turístico da capital: o Memorial do Cerrado, eleito em 2008 o local mais bonito de Goiânia e um dos projetos do Instituto do Trópico Subúmido (ITS), dirigido pelo professor.

Foi lá que Altair, um dos mais profundos conhecedores do bioma Cerrado, recebeu a equipe do Jornal Opção. Como professor e pesquisador, tem graduação em Antropologia pela Universidade Católica do Chile e doutorado em Arqueologia Pré-Histórica pelo Museu Nacional de História Natural, em Washington (EUA). Mais do que isso, tem vivência do conhecimento que conduz.

É justamente pela força da ciência que ele dá a notícia que não queria: na prática o Cerrado já está extinto como bioma. E, como reza o dito popular, notícia ruim não vem sozinha, antes de recuperar o fôlego para absorver o impacto de habitar um ecossistema que já não existe, outra afirmação produz perplexidade: a devastação do Cer­rado vai produzir também o desaparecimento dos reservatórios de água, localizados no Cerrado, o que já vem ocorrendo — a crise de a­bastecimento em São Paulo foi só o início do problema. Os sinais dos tempos indicam já o começo do período sombrio: “Enquanto se es­tá na fartura, você é capaz de re­partir um copo d’água com o ir­mão; mas, no dia da penúria, ninguém repartirá”, sentencia o professor.

“Memorial do Cerrado” – o nome deste espaço de preservação criado pelo sr. aqui no Campus 2 da PUC Goiás, é uma expressão pomposa. Mas, tendo em vista o que vivemos hoje, é algo quase que tristemente profético. O Cerrado está mesmo em vias de extinção?
Para entender isso é preciso primeiramente entender o que é o Cerrado. Dos ambientes recentes do planeta Terra, o Cerrado é o mais antigo. A história recente da Terra começou há 70 milhões de anos, quando a vida foi extinta em mais de 99%. A partir de então, o planeta começou a se refazer novamente. Os primeiros sinais de vida, principalmente de vegetação, que ressurgem na Terra se deram no que hoje constitui o Cerrado. Por­tanto, vivemos aqui no local onde houve as formas de ambiente mais antigas da história recente do planeta, principalmente se levarmos em consideração as formações vegetais. No mínimo, o Cerrado começou há 65 milhões de anos e se concretizou há 40 milhões de anos.

O Cerrado é um tipo de am­biente em que vários elementos vi­vem intimamente interligados uns aos outros. A vegetação depende do solo, que é oligotrófico [com nível muito baixo de nutrientes]; o solo depende de um tipo de clima especial, que é o tropical subúmido com duas estações, uma seca e outra chuvosa. Vários outros fatores, incluindo o fogo, influenciaram na formação do bioma – o fogo é um elemento extremamente importante porque é ele que quebra a dormência da maioria das plantas com sementes que existem no Cerrado.

Assim, é um ambiente que de­pen­de de vários elementos. Isso significa que já chegou em seu clímax evolutivo. Ou seja, uma vez degradado não vai mais se recuperar na plenitude de sua biodiversidade. Por isso é que falamos que o Cerrado é uma matriz ambiental que já se encontra em vias de extinção.

Por que o sr. é tão taxativo?
Uma comunidade vegetal é medida não por um determinado tipo de planta ou outro, mas, sim, por comunidades e populações de plantas. E já não se encontram mais populações de plantas nativas do Cerrado. Podemos encontrar uma ou outra espécie isolada, mas encontrar essas populações é algo praticamente impossível.

Outra questão: o solo do Cerrado foi degradado por meio da ocupação intensiva. Retiraram a gramínea nativa para a implantação de espécies exóticas, vindas da África e da Austrália. A introdução dessas gramíneas, para o pastoreio, modificou radicalmente a estrutura do solo. Isso significa que naquele solo, já modificado, a maioria das plantas não conseguirá brotar mais.

Como se não bastasse tudo isso, o Cerrado foi incluído na política de ex­pansão econômica brasileira co­mo fronteira de expansão. É uma á­rea fácil de trabalhar, em um planalto, sem grandes modificações geomorfológicas e com estações bem definidas. Junte-se a isso toda a tecnologia que hoje há para correção do solo. É possível tirar a acidez do solo utilizando o calcário; aumentar a fertilidade, usando adubos. Com isso, altera-se a qualidade do solo, mas se afetam os lençóis subterrâneos e, sem a vegetação nativa, a água não pode mais infiltrar na terra.

Onde há pastagens e cultivo, então, o Cerrado está inviabilizado para sempre, é isso?
Onde houve modificação do solo a vegetação do Cerrado não brota mais. O solo do Cerrado é oligotrófico, carente de nutrientes básicos. Quando o agricultor e o pecuarista enriquecem esse solo, melhorando sua qualidade, isso é bom para outros tipos de planta, mas não para as do Cerrado. Por causa disso, não há mais como recuperar o ambiente original, em termos de vegetação e de solo.

Mas o mais importante de tudo isso é que as águas que brotam do Cerrado são as mesmas águas que alimentam as grandes bacias do continente sul-americano. É daqui que saem as nascentes da maioria dessas bacias. Esses rios todos nascem de aquíferos. Um aquífero tem sua área de recarga e sua área de descarga. Ao local onde ele brota, formando uma nascente, chamamos de área de descarga. Como ele se recarrega? Nas partes planas, com a água das chuvas, que é absorvida pela vegetação nativa do Cerrado. Essa vegetação tem plantas que ficam com um terço de sua estrutura exposta, acima do solo, e dois terços no subsolo. Isso evidencia um sistema radicular [de raízes] extremamente complexo. Assim, quando a chuva cai, esse sistema radicular absorve a água e alimenta o lençol freático, que vai alimentar o lençol artesiano, que são os aquíferos.

Quando se retira a vegetação na­tiva dos chapadões, trocando-a por outro tipo, alterou-se o ambiente. Ocorre que essa vegetação introduzida – por exemplo, a soja ou o al­go­dão ou qualquer outro tipo de cul­tura para a produção de grãos – tem uma raiz extremamente superficial. Então, quando as chuvas caem, a água não infiltra como deveria. Com o passar dos tempos, o nível dos lençóis vai diminuindo, afetando o nível dos aquíferos, que fica menor a cada ano.

Qual é a consequência imediata desse quadro?
Em média, dez pequenos rios do Cerrado desaparecem a cada ano. Esses riozinhos são alimentadores de rios maiores, que, por causa disso, também têm sua vazão diminuída e não alimentam reservatórios e outros rios, de que são afluentes. Assim, o rio que forma a bacia também vê seu volume diminuindo, já que não é abastecido de forma suficiente. Com o passar do tempo, as águas vão desaparecendo da área do Cerrado. A água, então, é outro elemento importante do bioma que vai se extinguindo.

Hoje, usa-se ainda a agricultura irrigada porque há uma pequena reserva nos aquíferos. Mas, daqui a cinco anos, não haverá mais essa pequena reserva. Estamos colhendo os frutos da ocupação desenfreada que o agronegócio impôs ao Cerrado a partir dos anos 1970: entraram nas áreas de recarga dos aquíferos e, quando vêm as chuvas, as águas não conseguem infiltrar como antes e, como consequência, o nível desses aquíferos vai caindo a cada ano. Vai chegar um tempo, não muito distante, em que não haverá mais água para alimentar os rios. Então, esses rios vão desaparecer.

Por isso, falamos que o Cerrado é um ambiente em extinção: não existem mais comunidades vegetais de formas intactas; não existem mais comunidades de animais – grande parte da fauna já foi extinta ou está em processo de extinção; os insetos e animais polinizadores já foram, na maioria, extintos também; por consequência, as plantas não dão mais frutos por não serem polinizadas, o que as leva à extinção também. Por fim, a água, fator primordial para o equilíbrio de todo esse ecossistema, está em menor quantidade a cada ano.

Como é a situação desses aquíferos atualmente?
Há três grandes aquíferos na região do Cerrado: o Bambuí, que se formou de 1 bilhão de anos a 800 milhões de anos antes do momento presente; os outros dois são divisões do Aquífero Guarani, que está associado ao Arenito Botucatu e ao Arenito Bauru que começou a se formar há 70 milhões de anos. O Guarani alimenta toda a Bacia do Rio Paraná: a maior parte dos rios de São Paulo, de Mato Grosso, de Mato Grosso do Sul – incluindo o Pantanal Mato-Grossense – e grande parte dos rios de Goiás que correm para o Paranaíba, como o Meia Ponte. Toda essa bacia depende do Aquífero Guarani, que já chegou em seu nível de base e está alimentando insuficientemente os rios que dependem dele. Por isso, os rios da Bacia do Paraná diminuem sua vazão a cada ano que passa.

Então, podemos ter nisso a explicação para a crise da água em São Paulo?
Exato. Como medida de urgência, já estão perfurando o Arenito Bauru – que é mais profundo que o Botucatu, já insuficiente –, tentando retirar pequenas reservas de água para alimentar o sistema Cantareira [o mais afetado pela escassez e que abastece a capital paulista]. Mesmo se chover em grande quantidade, isso não será suficiente para que os rios juntem água suficiente para esse reservatório.

Assim como ocorre no Can­tareira, outros reservatórios espalhados pela região do Cerrado – Sobradinho, Serra da Mesa e outros – vão passar pelo mesmo problema. Isso porque o processo de sedimentação no fundo do lago de um reservatório é um processo lento. Os sedimentos vão formando argila, que é uma rocha impermeável. Então, a água daquele lago não vai alimentar os aquíferos. Mesmo tendo muita quantidade de água superficial, ela não consegue penetrar no solo para alimentar os aquíferos. Se não for usada no consumo, ela vai simplesmente evaporar e vai cair em outro lugar, levada pelas correntes aéreas. Isso é outro motivo pelo qual os aquíferos não conseguem recuperar seu nível, porque não recebem água.

Geologicamente sendo o mais antigo, seria natural que o Cerrado fosse o primeiro bioma a desaparecer. Mas isso em escala geológica, de milhões de anos. Mas, pelo que o sr. diz, a antropização [ação humana no ambiente] multiplicou em muitíssimas vezes esse processo de extinção.

Sim. Até meados dos anos 1950, tínhamos o Cerrado praticamente intacto no Centro-Oeste brasileiro. Desde então, com a implantação de infraestrutura viária básica, com a construção de grandes cidades, como Brasília, criou-se um conjunto que modificou radicalmente o ambiente. A partir de 1970, quando as grandes multinacionais da agroindústria se apossaram dos ambientes do Cerrado para grandes monoculturas, aí começa o processo de finalização desse bioma. Ou seja, o homem sendo responsável pelo fim desse ambiente que é precioso para a história do planeta Terra.

Em que o Cerrado é tão precioso?
De todas as formas de vegetação que existem, o Cerrado é a que mais limpa a atmosfera. Isso ocorre porque ele se alimenta basicamente do gás carbônico que está no ar, porque seu solo é oligotrófico.

Diz-se que o Cerrado é o contrário da Amazônia: uma floresta invertida, em confirmação à definição que o sr. deu sobre o fato de dois terços de cada planta do Cerrado estarem debaixo da terra. Ou seja, a destruição do Cerrado é muito mais séria do que alcança a nossa visão com o avanço da fronteira agrícola. É uma devastação muito maior, porque também ocorre longe dos olhos, subterrânea.

Isso faz sentido, porque, na parte subterrânea, além do sequestro de carbono está armazenada a água, sem a qual não prospera nenhuma atividade econômica. A Amazônia terminou de ser formada há apenas 3 mil anos, um processo que começou há 11 mil anos, com o fim da glaciação no Hemisfério Norte. A configuração que tem hoje existe na plenitude só há 3 mil anos. A Mata Atlântica tem 7 mil anos. São ambientes que, se degradados, é possível recuperá-los, porque são novos, estão em formação ainda.

Já com o Cerrado isso é impossível, porque suas árvores já atingiram alto grau de especialização. Tanto que o processo de quebra da dormência de determinadas sementes são extremamente sofisticados. Uma semente de araticum, por exemplo, só pode ter sua dormência quebrada no intestino delgado de um canídeo nativo do Cerrado – um lobo guará, uma raposa. Como esses animais estão em extinção, fica cada vez mais difícil quebrar a dormência de um araticum, que é uma anonácea [família de plantas que inclui também a graviola e a ata (fruta-do-conde), entre outras].

As abelhas europeias e africanas são recentes, foram introduzidas no século passado. O professor Warwick Kerr, que introduziu a abelha africana no Brasil, na década de 1950, ainda é vivo e atua na Universidade Federal de Uber­lândia (UFU). São boas produtoras de mel, mas não estão adaptadas para fazer a polinização das plantas do Cerrado. As abelhas nativas do Cerrado, que não tem ferrão e são chamadas de meliponinas – jataí, mandaçaia, uruçu – eram os maiores agentes polinizadores naturais, juntamente com os insetos, em função de sua anatomia. Hoje estão praticamente extintas, como esses insetos, pelo uso de herbicidas e outros tipos de veneno, que combatiam pragas de vegetações exóticas em lavouras e pastagens. Quando se utiliza o pesticida para extinguir essas pragas também se mata o inseto nativo, que é polinizador das plantas do Cerrado. Por isso, se encontram muitas plantas nativas sem fruto, por não terem sido polinizadas.

A flora do Cerrado é geralmente desprezada. O que ela representa, de fato?
Nós vivemos em meio à mais diversificada flora do planeta. O Cerrado contém a maior biodiversidade florística. Isso não está na Amazônia, nem na Mata Atlântica, nem em uma savana africana ou em uma savana australiana. Nem qualquer outro ambiente da Terra. São 12.365 plantas catalogadas no Cerrado. Só as que conhecemos. A cada expedição que fazemos, cada vez que vamos a campo, pelo menos 50 novas espécies são descobertas. Dessas 12.365 plantas conhecidas, somos capazes de multiplicar em viveiro apenas 180. Isso é cerca de 1,5% do total, quase nada em relação a esse universo. E só conseguimos fazer mudas de plantas arbóreas.

Para as demais, que são extremamente importantes para o equilíbrio ecológico, para o sequestro de carbono e para a captação de água, não temos tecnologia para fazer mudas. Por exemplo, o capim-barba-de-bode, a canela-de-ema, a arnica, o tucum-rasteiro, esses dois últimos com raízes extremamente complexas. Se tirarmos um tucum-rasteiro, que está no máximo 40 centímetros acima do nível do solo, e olharmos seu tronco, vamos encontrar milhares ou até milhões de raízes grudados naquele tronco. Se tirarmos um pedaço pequeno dessas raízes e levarmos ao microscópio, veremos centenas de radículas que saem delas. Uma pequena plantinha com um sistema radicular extremamente complexo, que retém a água e alimenta os diversos ambientes do Cerrado. É algo que não se consegue reproduzir em viveiro, porque não há tecnologia. O que conseguimos é em relação a algumas plantas arbóreas.

Outro aspecto que indica que o Cerrado já entrou em vias de extinção é que as plantas do Cerrado são de crescimento muito lento. Uma canela-de-ema atinge a idade adulta com mil anos de idade. O capim-barba-de-bode fica adulto com 600 anos. Um buriti atinge 30 metros de altura com 500 anos. Nossas veredas – que existiam em abundância até pouco tempo – eram compostas de plantas “nenês” quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil, estavam nascendo naquela época e sua planta mais comum, o buriti, está hoje com 25 metros, 30 metros.

“Tragédia urbana começa com drama no campo”

Fernando Leite / Jornal Opção
Fernando Leite / Jornal Opção

Mas a tecnologia e a biotecnologia não fornecem nenhuma alternativa para mudar esse quadro?
Para se ter ideia da complexidade, vamos tomar o caso do buriti, que só pode ser plantado em uma lama turfosa, cheia de turfa, com muita umidade. Se o solo estiver seco, o buriti não vai vingar ali. Mas, mesmo se conseguíssemos plantar – o que é difícil, porque não existe mais o solo apropriado –, aquele buriti só atingiria a idade adulta e dar frutos depois de muitos séculos. Então, não tem como tentar dizer que se pode usar técnicas para revitalizar o Cerrado. Isso é praticamente impossível.

A interface do Cerrado, para falar em uma linguagem moderna, não é amigável para o uso da tecnologia conhecida. Não tem como acelerar o crescimento de um buriti como se faz com a soja.
Não dá para fazer isso, até porque as plantas do Cerrado convivem com uma porção de outros elementos que, para outras plantas, seriam nocivos. Por exemplo, certos fungos convivem em simbiose com espécies do Cerrado. Um simples fungo pode impedir a biotecnologia. Seria possível desenvolver, por meio de tecidos, tal planta em laboratório. Mas sem aquele fungo a planta não sobrevive. E com o fungo, mas em laboratório, ela também não se desenvolve. Ou seja, é algo extremamente complicado, mais do que podemos imaginar.

Mesmo que os mais pragmáticos menosprezem a importância de um determinado animal ou uma “plantinha” em relação a uma obra portentosa, como uma hidrelétrica, há algo que está sob ameaça com o fim do Cerrado, como a água. Isso é algo básico para todos. A contradição é que o Cerrado – assim como a caatinga e os pampas – não são ainda patrimônio nacional, ao contrário da Mata Atlântica, o Pantanal e a Amazônia. Há uma lei, a PEC 115/95 [proposta de emenda constitucional], de autoria do então deputado Pedro Wilson (PT-GO), que pede essa isonomia há quase 20 anos. Essa lei ajudaria alguma coisa?
Na prática, não poderia ajudar mais em nada, porque o que tinha de ser ocupado do Cerrado já foi. O bioma já chegou em seu limiar máximo de ocupação. Mas o governo brasileiro é tão maquiavélico e inteligente que, para evitar maiores discussões, no ano passado redesenhou todo o mapa ambiental brasileiro. Dessa forma, separou o Pantanal do Cerrado – embora o primeiro seja um subsistema do segundo –, transformou-o em patrimônio nacional e a área do Cerrado já ocupada foi ignorada e incluída no plano de desenvolvimento como área de expansão da fronteira agrícola. Ou seja, o Cerrado, em sua totalidade, já foi contemplado para não ser protegido.

O que os parques nacionais poderiam agregar em uma política de subsistência do Cerrado?
Existe um manejo inadequado dos parques existentes na região do Cerrado. Esse manejo começa com o fogo, quando se cria uma brigada para evitar incêndios no Parque Nacional das Emas, por exemplo. O fogo natural é importante para a preservação do Cerrado. Ora, se se trabalha com o intuito de preservar o Cerrado é preciso conviver com o fogo; agora, se se trabalha com a visão do agrônomo, o fogo é prejudicial, porque acentua o oligotrofismo do solo. O Cerrado precisa desse solo oligotrófico, mas, se o fogo é eliminado, as condições do solo serão alteradas e a planta nativa vai deixar de existir, porque o solo vai adquirir uma melhoria e aquela planta precisa de um solo pobre. Assim, quando se barra o uso do fogo em um parque de Cerrado, o trabalho se dá não com a noção de preservação do ambiente, mas dentro da visão da agricultura. Raciocina-se como agrônomo, não como biólogo.

Outra questão nos parques é que o entorno dos parques já foi tomado por vegetações exóticas. Entre essas vegetações existe o brachiaria, que é uma gramínea extremamente invasora que, à medida que espalha suas sementes, alcança até as áreas dos parques, tomando o lugar das gramíneas nativas. No Parque Nacional das Emas já temos gramínea que não é nativa, o que faz com que haja também vegetação arbórea, de porte maior, também não nativa. Os animais, em função do isolamento do parque, não têm mais contato com áreas naturais, como os barreiros, que forneceriam a eles cálcio e sais naturais. Quando encontramos um osso de animal morto em um parque vemos que está sem calcificação completa, porque falta esse elemento, que é obtido lambendo cinzas queimadas ou visitando os barreiros, que são salinas naturais em que existe esse o elemento. Geralmente há poucos barreiros nos parques, o que torna mais difícil a sobrevivência do animal, que acaba entrando em vias de extinção, o que está acontecendo.

Não há, em nenhum parque nacional criado, aumento da vegetação nativa ou da fauna nativa. O que há é a diminuição dos caracteres nativos daquela vegetação, bem como da fauna. Isso prova que esse isolamento não trouxe benefícios. O que poderia funcionar seria se essas áreas de preservação estivessem interligadas por meio de corredores de migração faunística. Isso evitaria uma série de erros cometidos quando se delimita uma área.

Mas, pelo que o sr. diz, hoje isso seria impossível.
Praticamente impossível, por­que as matas ciliares, que de­ve­riam servir como corredores ecológicos, de migração, foram totalmente degradadas. A maioria dos rios foi ocupada, em suas margens, por ambientes urbanos, com a presença do homem, que é um elemento extremamente predatório. Mais que isso: os sistemas agrícolas implantados chegam, em alguns locais, até a margem de córregos e rios, impedindo, também, a existência desses corredores de migração.

Fica, assim, um cenário praticamente inviável. É triste falar isso , mas, na realidade, falamos baseados em dados científicos, no que observamos. Sou o amante número um do Cerrado. Gostaria que ele existisse durante milhões e milhões de anos ainda, mas infelizmente não é isso que vemos acontecer. Se, por exemplo, você observar as nascentes dos grandes rios, verá que elas ou estão secando ou estão migrando cada vez mais para áreas mais baixas. Quando isso ocorre, é sinal de que o lençol que abastece essa nascente está rebaixando.

Observe, por exemplo, o caso das nascentes do Rio São Francis­co, na Serra da Canastra; o caso das nascentes do Rio Araguaia ou do Rio Tocantins, que tem o Rio Uru em sua cabeceira mais alta. A cada dia que passa as nascentes vão descendo mais. Vai ocorrer o dia em que chegarão ao nível de base do lençol que as abastece e desaparecerão.

Ao mesmo tempo em que o­cor­re esse fenômeno, temos um au­mento rápido do consumo de água.
Há o aumento da população. Mas, além do mais, o Cerrado entrou, nos últimos anos, por um processo extremamente complicado, que chamamos de desterritorialização. O grande capital chegou às áreas do Cerrado e expulsou os posseiros que lá moravam, por meio da falsificação de documentos, da negociata com cartórios e com políticos. Com a grilagem, adquiriu milhares de hectares e tirou os moradores antigos da região. Isso desestruturou comunidades inteiras.

Isso ainda ocorre em Goiás e em diversos lugares?
Ocorreu e está ocorrendo. E o que isso provoca? O aumento das cidades. Quase não há mais cidadezinhas na região do Cerrado, elas são de médio ou grande porte, porque a população do campo, desamparada e sem terra, veio para a zona urbana. Essas pessoas vêm buscar abrigo na cidade, que oferece a eles algum tipo de serviço. Na cidade, se transformam em outro tipo de categoria social: os sem-teto. Estes vivem aqui e ali, ocupando as áreas mais periféricas da cidade. Vão ocupar planícies de inundação, beiras de córregos, entre outros ambientes desorganizados.

Um homem que vive em um ambiente assim, que nasce, é criado e compartilha dessa desorganização, terá uma mente que tende a ser desorganizada. Ou seja, ao fazer a desterritorialização trabalhamos contra a formação de pessoas sadias. Formamos pessoas transtornadas, mutiladas mentalmente, ocupando as periferias. Não existe plano diretor que dê conta de acompanhar o desenvolvimento das áreas urbanas no Brasil, porque a cada dia chegam novas famílias nessas áreas.

Crescendo em um ambiente desorganizado, sem perspectivas para o futuro, essas pessoas acabam caindo em neuroses para a fuga. A neurose mais comum desse tipo é o uso de drogas. Acabam cometendo o que chamamos de atos ilícitos, mas provocados por uma situação socioeconômica de limitação, vivendo em ambientes precários. Essas pessoas constroem sua vida nesses locais, formam famílias e passam anos ou décadas nesses locais. Só que um dia vem um fenômeno natural qualquer – como El Niño ou La Niña – que, por exemplo, acomete aquele local com uma quantidade muito maior de chuva. Então, o córrego enche e encontra, em sua área de inundação, os barracos daquela população. Aí começa a tragédia urbana, com desabrigados e mortos. Aumenta, ainda mais, o processo de sofrimento no qual estão inseridas essas populações.

Hoje vejo muitos profissionais, principalmente arquitetos, falando em mobilidade urbana. Falam em construir monotrilhos, linhas específicas para ônibus, corredores para bicicletas, mas ninguém toca na ferida: o problema não está ali, mas na desestruturação do homem do campo. Quanto mais se desestrutura o campo, mais pessoas vêm para a cidade, que não consegue absorvê-las, por mais que se implantem linhas novas, estações e bicicletários. O problema está no drama do campo, não na cidade.

Antigamente, se usava a expressão “fixação do homem no campo”. Isso parece que ficou para trás na visão dos governos.
Desistiram porque o que manda é o grande capital. Os bancos estatais se alegram com as safras recordes, fazem propaganda disso. Eles patrocinam os grandes proprietários, só que estes não têm grande quantidade de funcionários, têm uma agricultura intensiva, mecanizada. Isso não ajuda de forma alguma a manter as pessoas na zona rural.

Uma notícia grave é a extinção do Cerrado. Outra, tão ou mais grave, que – pelo que o sr. diz – já pode ser dada, é que em pouco tempo não teremos mais água. A crise da água no Brasil é uma bomba-relógio?
A extinção do Cerrado envolve também a extinção dos grandes mananciais de água do Brasil, porque as grandes bacias hidrográficas “brotam” do Cerrado. O Rio São Francisco é uma consequência do Cerrado: ele nasce em área de Cerrado e é alimentado, em sua margem esquerda, por afluentes do Cerrado: Rio Preto, que nasce em Formosa (GO); Rio Paracatu (MG); Rio Carinhanha, no Oeste da Bahia; Rio Formoso, que nasce no Jalapão (TO) e corre para o São Francisco. Se há a degradação do Cerrado, não há rios para alimentar o São Francisco. Você po­de contar no mínimo dez afluentes por ano desses grandes rios que estão desaparecendo.

Professor Altair Sales fala ao jornalista Elder Dias: “A proteção das águas tinha de ser questão de segurança nacional” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção
Professor Altair Sales fala ao jornalista Elder Dias: “A proteção das águas tinha de ser questão de segurança nacional” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Como o sr. analisa a transposição do Rio São Francisco?
É um ato muito mais político do que científico. Ela atende muito mais a interesses políticos de grandes proprietários do Nordeste na área da Caatinga, no sertão nordestino. A transposição está sendo feita em dois canais, um norte, com 750 quilômetros e outro, leste, com pouco mais de 600 quilômetros. A água é sugada da barragem de Sobradinho (BA), através de uma bomba, para abastecer esses canais, com 10 metros de profundidade e largura de 25 metros. Ao fazer essa obra, se altera toda a mecânica do São Francisco: o rio, que corria lento, passa a correr mais rapidamente, porque está tendo sua água sugada. Seus afluentes, então, também passam a seguir mais velozes. Isso acelera o processo de assoreamento e de erosão.

Consequente­mente, aceleram a morte dos afluentes. Fazer a transposição do São Francisco simplesmente é estabelecer uma data para a morte do rio, para seu desaparecimento total. Podem até atender interesses econômicos e sociais de maneira efêmera, em curto prazo, mas em dez anos acabou tudo.

E será um processo rápido, assim?
Sim, é um processo de décadas. Basta ver o Rio Meia Ponte, na altura do Setor Jaó. Onde havia uma bonita cachoeira, na antiga barragem, há só um filete d’água. O nível da água do Meia Ponte é o mesmo do Córrego Botafogo há décadas atrás. Este praticamente não existe mais, a não ser por uma nascente muito rica no Jardim Botânico, que ainda o alimenta. Mas ele só parece mesmo exis­tir quando as chuvas o en­chem rapidamente. Mas, no outro dia, ele vira novamente um filete.

Goiânia foi planejada em função também dos cursos d’água. Tendo em vista o que ocorre hoje, podemos dizer que ela é, então, o cenário de uma tragédia hidrográfica?
Eu não diria que apenas Goiânia está realmente dessa forma. Mas foi toda uma política de ocupação do centro e do interior do Brasil que motivou essa ocupação desordenada, desde a época da Fundação Brasil Central, da Expedição Roncador–Xingu, depois a construção de Goiânia e de Brasília, a divisão de Mato Grosso e a criação do Tocan­tins. Isso é fruto do capital dinâmico que transforma a realidade. Vem uma urbanização rápida de áreas de campo, aumentando as ilhas de calor e, consequentemente, pela pavimentação, impedindo que as águas das chuvas se infiltrem para alimentar os mananciais que deram origem a essas mesmas cidades. Se continuar dessa forma, com esse tipo de desordenamento, podemos prever grandes colapsos sociais e econômicos no Centro-Oeste do Brasil. E não só aqui, mas nas áreas que aqui brotam.

O que significa quase toda a área do Brasil, não?
Sim, até mesmo a Amazônia. O Rio Amazonas é alimentado por três vetores: as águas da Cordilheira dos Andes, que é um sistema de abastecimento extremamente irregular; as águas de sua margem esquerda, principalmente do Solimões, que também é irregular, em que duas estiagens longas podem expor o assoreamento, ilhas de areias – ali foi um deserto até bem pouco tempo, chamado Deserto de Óbidos. Ou seja, o Amazonas é alimentado mesmo pelos rios que nascem no Cerrado, como Teles Pires (São Manuel), Xingu, Tapajós, Madeira, Araguaia, Tocantins. Estes caem quase na foz do Amazonas, mas contribuem com grande parte de seu volume. Ou seja, temos o São Francisco, já drasticamente afetado; o Amazonas, também afetado; e a Bacia do Paraná, afetada quase da mesma forma que o São Francisco, provavelmente com período de vida muito curto.

Será um processo tão rápido assim?
Uma vez que se inicia tal processo de degradação e de diminuição drástica do nível dos lençóis, isso é irreversível. Em alguns casos duram algumas décadas; em outros, até menos do que isso. Temos exemplos clássicos no mundo de transposições de rios que não deram certo e até secaram mares inteiros. No Mar de Aral, no Leste Europeu, há navios ancorados em sal. Sua drenagem é endorreica, fechada, sem saída para o oceano. A União Soviética, na ânsia de se tornar autossuficiente na produção de algodão, fez a transposição dos dois rios que abasteciam o mar. Resultado: no prazo de uma década, as plantações não vingaram, o mar secou e uma grande quantidade de tempestades de poeira e sal afetam 30 milhões de pessoas, causando doenças respiratórias graves, incluindo o câncer.

Com nossos rios, acontecerá o mesmo processo. A diferença é que o processo de ocupação aqui foi relativamente recente, a partir dos anos 1970. São 40 e poucos anos. Ou seja: em menos de meio século, se devastou um bioma inteiro. Não acabou totalmente porque ainda há um pouco de água. Mas, quando isso acabar, imagine as convulsões sociais que ocorrerão. Enquanto se está na fartura, você é capaz de repartir um copo d’água com o irmão; mas, no dia da penúria, ninguém repartirá. Isso faz parte da natureza do ser humano, que é essencialmente egoísta. Isso está no princípio da evolução da humanidade. A Igreja Católica chama isso de “pecado original”, mas nada mais é do que o egoísmo, apossar-se de determinados bens e impedir que outros usufruam deles. Isso já levou outros povos e raças à extinção. E pode nos levar também à extinção.

Até bem pouco tempo tínhamos duas humanidades: o homem-de-neanderthal, o Homo sapiens neanderthalensis; e o Homo sapiens sapiens. Hoje podemos falar também em duas humanidades: uma humanidade subdesenvolvida, tentando soerguer em meio a um lodo movediço; e outra humanidade, que nada na opulência. A questão é que, se essa situação persistir, brevemente teremos a pós e a sub-humanidade.

É um cenário doloroso.
É doloroso, mas são os dados que a ciência mostra. Tem jeito, tem perspectiva para um futuro melhor? Possivelmente, a saída esteja na pesquisa. Mas uma pesquisa precisa de um longo tempo para que apareçam resultados positivos. E nossas universidades não incentivam a pesquisa, o que é muito triste, porque essa é a essência de uma universidade.

O sr. vê, em algum lugar do mundo, trabalhos e pesquisas pensando em um mundo mais sustentável?
Não. O que existe é muito localizado e incipiente. Não tem grande repercussão. Mas, mesmo se fossem proveitosas, jamais poderiam ser aplicadas ao Cer­rado, que é um ambiente muito peculiar. Teria de haver pesquisa dirigida especialmente para nosso bioma. Como recuperar uma nascente de Cerrado? Eu não sei dizer. Um engenheiro ambiental também não lhe dará resposta. Nenhum cientista brasileiro sabe a resposta, porque não temos pesquisas sobre isso. Talvez poderíamos ter um futuro melhor se houvesse investimentos em pesquisa.

E a educação ocupa que papel nesse contexto sombrio?
Nós, como educadores, deveríamos pensar mais nisso – e eu penso: talvez ainda seja tempo de salvar o que ainda resta, mas se não dermos uma guinada muito violenta não terá como fazer mais nada. É preciso haver real mudança de hábitos e mudar a forma de observar os bens patrimoniais do planeta e da nossa região. A água tinha de ser uma questão de segurança nacional. A vegetação nativa, da mesma forma. Os bens naturais teriam de ser tratados assim também, porque deles depende o bem-estar das futuras gerações. Mas isso só se consegue com investimento muito alto em educação, mudando mentalidade de educadores. As escolas têm de trabalhar a consciência e não apenas o conhecimento. Uma coisa é conhecer o problema; outra, é ter consciência do problema. A consciência exige um passo a mais. Exige atitude revolucionária e radical. Ou mudamos radicalmente ou plantaremos um futuro cada vez pior para as gerações que virão.

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O país da pilhagem do patrimônio público, da devastação ambiental e dos agrotóxicos.

Daniel Luis Dalberto

Os últimos anos evidenciaram uma realidade política que até então não se mostrava tão clara, consistente na demonstração do enorme poder que tem os deputados e senadores, bem como mostrando os interesses privados e às vezes escusos que são por eles patrocinados.

O impeachment da presidente Dilma e a não autorização do Congresso Nacional para que o STF prosseguisse com o processo criminal contra o presidente Temer revelaram o real tamanho do poder dos parlamentares, bem como o modo como negociam seu apoio ao Executivo, muitas vezes apenas defendendo interesses pessoais e de grupos privados em face do Estado, com pouca preocupação com a sociedade. É natural que o Congresso tenha de fato muito poder e que grupos privados tenham seus interesses lá representados, como sói acontecer em democracias avançadas. No entanto, há de se ter transparência sobre os interesses defendidos e é preciso ter em mente que mesmo o poder do parlamento ou do governo tem limites e não pode tudo.

Dentre esses limites está principalmente e acima de tudo, o interesse do povo, da coletividade, visto que cargo público, seja qual for, não pode servir de veículo de interesses meramente privados. Outro limite aos governantes de ocasião é a própria Constituição, em especial, no caso que aqui será exposto, diante de atos que atentam ao meio ambiente, que é inerente à vida e à dignidade das pessoas.

À sociedade cabe, além de votar nos seus representantes, fiscalizar e cobrar seus atos. O mandato político não é um cheque em branco. Também, diretamente, por diversos modos de participação popular, a sociedade pode e deve participar, posicionar-se e pressionar a classe política para que seus direitos e interesses sejam respeitados. Para isso, no entanto, é preciso informação sobre o que ocorre e esse, mesmo na era da informação, parece ainda ser um entrave.

Temos visto nos últimos anos, pode-se dizer que de 2010 para cá, com acirramento nos últimos 2 anos, uma série de projetos de leis manifestamente inconstitucionais e mesmo emendas constitucionais inconstitucionais por ferirem direitos e garantias individuais, implicando em vedado retrocesso ambiental e social. É o caso do novo Código Florestal, Lei 12.651/12, cuja declaração de inconstitucionalidade de vários dispositivos foi provocada pela Procuradoria-Geral da República, com julgamento pautado para o dia 13 de setembro próximo. Outro exemplo é a PEC 215, que pretende passar ao Congresso a (não) demarcação de terras indígenas, atividade que é meramente declaratória, visto que o direito originário às terras em si, é reconhecido pelas sucessivas constituições desde 1934.

Está por trás e diretamente ligado à série de retrocessos o fato de no cenário político brasileiro vir ganhando força progressiva nos últimos anos um poderoso bloco de deputados e senadores denominado Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), que conta hoje com 231 deputados e 25 senadores. O poderio político e econômico dessa Frente, também denominada de bancada ruralista, é enorme e pode ser ilustrado, além da expressiva bancada, com o seguinte dado: 1% dos proprietários de terra do país possuem metade das terras do Brasil. Com essa força, tem pautado ações do governo e imposto suas exigências, que, muitas das vezes, tem ocasionado uma rápida derrocada nos direitos consagrados na Constituição, em especial quanto à proteção ao meio ambiente e à garantia dos direitos das comunidades indígenas, construídos com muita luta pela sociedade brasileira. Veja-se a respeito alguns exemplos nessas matérias, além dos casos já citados:

https://oglobo.globo.com/brasil/governo-dara-desconto-de-ate-60-em-multas-ambientais-1-21718713

http://www.conjur.com.br/2016-mai-09/pec-652012-retrocesso-30-anos-legislacao-ambiental

http://www.dw.com/pt-br/manter-a-floresta-em-p%C3%A9-%C3%A9-custo-diz-chefe-da-bancada-ruralista/a-40148688#nomobile

https://oglobo.globo.com/brasil/propostas-do-governo-estimulam-desmatador-diz-procurador-da-republica-21781556

Assim, na contramão dos compromissos assumidos pelo Brasil no cenário internacional para conter as mudanças climáticas e, como dito, mesmo contrariando nossa Constituição, de modo preocupante, em especial para as próximas gerações, temos visto uma série de iniciativas nefastas do Legislativo e do governo. Já são comuns projetos de lei que visam à redução de Unidades de Conservação, como a Floresta Nacional de Jamanxin, criada justamente para proteger a floresta no entorno da BR163. Tal projeto, além da devastação que ocasiona na floresta amazônica, consiste ainda numa perigosa sinalização permissiva, pois premia grileiros e desmatadores criminosos, dando-lhes patrimônio que pertence à sociedade brasileira, passando uma borracha em seus ilícitos e crimes. A respeito:

http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2017/07/ambientalistas-condenam-projeto-de-lei-que-reduz-area-de-jamanxim.html

Na mesma linha e situação ainda mais grave, foi editada uma medida provisória transformada na Lei 13.465/2017, que favorece a grilagem de terras e o desmatamento, visto que que permite àquele que realizou infrações ambientais ser regularizado sem sequer vistoria do cumprimento da função ambiental do imóvel, isso, em terras amazônicas, que até ontem eram de toda a sociedade. Áreas de até 2.500 hectares podem ser regularizadas. Desse modo, um programa fundiário que deveria estar voltado a erradicar a pobreza acaba por beneficiar latifundiários.

Pela lei recentemente aprovada, o governo entrega patrimônio púbico a infratores e permite a devastação da floresta. Ao invés de combater invasões ilegais e a transformação rápida de imensas áreas de florestas preservadas em latifúndios, faz o contrário. Esses locais, ermos e distantes, abrem bolsões de pobreza e propiciam riqueza a alguns poucos, fazendo com que a sociedade brasileira, além de perder seu patrimônio, tenha de arcar com impostos para levar estradas, escolas, saúde e educação em lugares onde simplesmente não deveria morar ninguém, salvo as comunidades tradicionais, que tem relação mais harmoniosa com o meio ambiente. São áreas economicamente inviáveis porque muito distantes dos centro de consumo e cujos custos de transporte e logística desaconselham atividades econômicas que precisarão competir com locais mais apropriados a tais fins. Estudos demonstram que é possível dobrar a produção de alimentos na Amazônia sem avançar sobre a floresta. A Procuradoria-Geral da República entrou com ação direta de inconstitucionalidade dessa lei perante o STF:

http://www.mpf.mp.br/pgr/noticias-pgr/pgr-pede-inconstitucionalidade-de-lei-que-favorece-grilagem-e-desmatamento-na-amazonia

Também, tramita no Congresso Nacional a PEC 65/2012 cujo objetivo declarado é simplificar o licenciamento ambiental. Na prática, quer acabar com o licenciamento, com os estudos prévios de impacto ambiental de obras e atividades potencialmente poluidoras, visto que bastaria ao empreendedor simplesmente apresentar um estudo, pago por ele, que nenhuma obra ou atividade poderá ser suspensa ou cancelada. Pelo visto, ao invés de aprendermos com a tragédia de Mariana, vamos direto ao sentido contrário, sem escalas, rumo ao precipício. Veja-se a respeito:

https://observatorio-eco.jusbrasil.com.br/noticias/314783201/especialistas-criticam-flexibilizacao-do-licenciamento-ambiental

Por fim, não bastasse o cenário já assustador e preocupante acima rapidamente delineado, o governo, uma vez mais mancomunado com a bancada ruralista, está flexibilizando a legislação de agrotóxicos, isso, no país que é o maior mercado mundial consumidor de agrotóxicos. Assim, para satisfazer interesses econômicos de alguns, seremos ainda mais inundados de venenos cancerígenos à nossa mesa. Essencial a leitura do texto que pode ser acessado abaixo, que além de tratar da inaceitável situação da política de agrotóxicos no Brasil, desmistifica o discurso da produção de alimentos por essas grandes grandes áreas de monoculturas, bem como demonstra o quão irrisória é a arrecadação de impostos por tal atividade:

https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2017/A-Rep%C3%BAblica-Agrot%C3%B3xica-do-Brasil

Diante desse quadro assustador, urge que tenhamos consciência do sobre o que está acontecendo e tenhamos atitudes a respeito, seja pelo voto, seja pela fiscalização dos atos do governo, seja pela participação direta e por pressão nas redes sociais. Poderemos ser cobrados pelas gerações futuras por omissão nesse momento crucial, quando ainda era possível evitar a tragédia.

Finalmente.

O homem de Neandertal era evoluído demais. Tinha o cérebro tão acabado que não precisava da linguagem, mas sem a linguagem foi um fracasso social

Luis Fernando Veríssimo. Publicado no Estado de São Paulo, em 30 de julho de 2017.

O homem de Neandertal tinha uma caixa craniana maior do que a nossa e, presumivelmente, um cérebro mais desenvolvido. Mas não falava. Usava instrumentos de pedra, dominava o fogo, enterrava seus mortos e vivia em comunidades como as nossas, talvez um pouco menos selvagens. Mas não tinha uma linguagem. Só se comunicava com os outros com grunhidos e tapas no ouvido. Pela aparência, estava mais bem preparado para dominar o planeta do que nós. Além do crânio enorme, tinham ombros maiores, mais músculos e ossos mais fortes. Mas, embora tivesse todo o equipamento necessário, não falava.

Hoje, especula-se que era o cérebro que atrapalhava. A gestação da mulher de Neandertal durava mais tempo, o que significava que o cérebro já nascia pronto. E, em vez de ter a infância prolongada e protegida que literalmente faz a nossa cabeça, o guri de Neandertal recebia um tacape na saída do útero e já ia caçar. Sabe-se que o embrião reproduz, no ventre, toda a evolução da espécie e que há um momento na gestação em que nosso cérebro fica tão completo quanto o feto de Neandertal. Mas aí começa um processo de depuração, de eliminação de células e modificação de circuitos, que continua no período pós-natal, e é essa adaptação que nos permite falar. Ou seja, a linguagem é o produto de uma carência programada do cérebro e o poder da fala uma compensação pelos neurônios perdidos. O homem de Neandertal era evoluído demais. Tinha o cérebro tão acabado que não precisava da linguagem, mas sem a linguagem foi um fracasso social. Não durou nem 80 mil anos, e com aqueles ombros.

Aceitando-se a tese evolucionista, nós descendemos dos débeis mentais de Neandertal, dos que nasceram com o cérebro incompleto, dos fraquinhos que ficavam só em casa aprendendo besteira. Foi a linguagem que permitiu ao modelo seguinte dos pré-humanos se organizar, conceitualizar, trocar informações e mentir. Isto é, civilizar-se. Se você prefere a tese antievolucionista, ela diz que a Natureza sabe o que quer e seu objetivo era dar nome às coisas e uma retórica aos elementos, que antes da linguagem rugiam de frustração com a incapacidade de falar. Tudo na Natureza – os vulcões, os vendavais, os terremotos e os bichos – seria uma dificuldade de expressão.

Tentando e errando (o homem de Neandertal, alguns políticos), tudo o que a Natureza quer é que falem por ela, que sejam o poeta que ela, por mais que se esforce, não consegue ser. Mas, segundo outra tese, malvada, a internet e seu vocabulário eletrônico teriam sido inventados para, finalmente, dar uma voz aos neandertais.

Temos que aprender a ser índios.

Na Flip, Eduardo Viveiros de Castro afirma que é preciso aprender a viver no mundo sem destruí-lo e compara a situação dos índios no Mato Grosso com a dos palestinos em Gaza.

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O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro durante a mesa/ Foto Walter Craveiro

 

Temos que aprender a ser índios, antes que seja tarde. Foi essa a principal mensagem dada pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro na mesa “Tristes Trópicos”, realizada no sábado, dia 2, na Festa Literária Internacional de Paraty. Segundo o pesquisador, neste momento em que o planeta passa por uma situação de “catástrofe climática” e está sendo transformado em um “lugar irrespirável”, devemos aprender com os povos indígenas “como viver em um país sem destruí-lo, como viver em um mundo sem arrasá-lo e como ser feliz sem precisar de cartão de crédito”. “O encontro com o mundo índio nos leva para o futuro, não para o passado”, disse ele.

Viveiros de Castro dividiu a mesa com o também antropólogo Beto Ricardo, fundador do Instituto Socioambiental (ISA), e com a mediadora Eliane Brum. Em discurso afinado, os dois denunciaram a dura realidade vivida pelos índios brasileiros atualmente e disseram haver uma “campanha” em voga no Congresso para retirar os direitos que estes povos conquistaram com a Constituição de 1988. “Hoje os índios estão mais visíveis do que nunca, mas mais vulneráveis do que nunca. O Congresso tem uma maioria de proprietários de terra em uma ofensiva final contra os índios”, disse Viveiros de Castro, que também criticou o governo federal pelo trabalho quase nulo na demarcação de terras.

O antropólogo, célebre mundialmente por sua teoria do perspectivismo ameríndio, comparou a situação dos índios no Mato Grosso do Sul com a dos palestinos na Faixa de Gaza. Segundo ele, os guaranis do Estado vivem ou nas beiras de estrada ou confinados em reservas mínimas, das quais são frequentemente expulsos pelas pressões do agronegócio: “O Mato Grosso foi transformado em um nada, a custa de que se possa plantar ali soja, cana e botar gado para exportação, para alimentar os países capitalistas centrais. Devia chamar Mato Morto, ou ex-Mato”. E continuou: “Os índios estão vendo o céu cair em suas cabeças. Mas dessa vez vai ser na cabeça de nós todos.”

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O antropólogo Beto Ricardo/ Foto Walter Craveiro

Beto Ricardo criticou também a cobertura dada pela imprensa à questões como essa no País. “Quantos nomes de grupos indígenas você conseguiria pronunciar de memória? A imprensa brasileira consegue pronunciar pouquíssimos. Fala em um índio genérico”, disse ele. Ao apresentar a série de publicações intitulada Povos Indígenas no Brasil, o antropólogo aproveitou para cutucar inclusive o público: “Quem quiser não só decorar os nomes das capitais do Brasil, mas os nomes dos povos, pode ler esses livros”. “Os índios tem muito a colaborar para um país mais democrático e diverso”, concluiu.

A última intervenção de Viveiros de Castro, após as perguntas do público, foi talvez a que mais chamou atenção pela dureza e aparente pessimismo, mas foi muito aplaudida. O antropólogo disse sentir vergonha de ser brasileiro quando vê o que se fez com os povos originários dessa terra, ou ainda quando lembra que o Brasil foi o último país no mundo a abolir a escravidão (com exceção da Mauritânia). Para ele, no entanto, o sentimento de vergonha deve ser preservado, já que é também o que gera o sentimento de intimidade com o país: “Se eu fosse francês, teria vergonha do que a França fez na Argélia, na Indochina, na África. Ou seja, ser brasileiro não é especialmente vergonhoso. Ser de qualquer país é vergonhoso, porque todo país é construído em cima da destruição de povos”, explicou.

Livro de Cabeceira

No domingo, na tradicional mesa de encerramento da Flip intitulada “Livro de Cabeceira”, Viveiros de Castro esteve mais uma vez entre os participantes, e fechou com brilho sua passagem pela festa literária. Ao lado de alguns dos convidados de maior destaque do evento, como Andrew Solomon, Fernanda Torres e Juan Villoro, o antropólogo escolheu ler o trecho de um sermão de Padre Antonio Vieira em que o religioso ressaltava a dificuldade de conversão dos índios brasileiros: “Como diz o Vieira: ‘A gente dessa terra é a mais bruta, a mais ingrata, a mais inconstante, a mais avessa, a mais trabalhosa de ensinar de quantas há no mundo. Outros gentios, outros pagãos, são incrédulos até crer. Os Brasis, ainda depois de crer, continuam incrédulos.’” E Viveiros de Castro concluiu: “Ou seja, esse tema, a ideia de que os índios tem uma inconstância essencial, passou a ser uma espécie de traço definidor do caráter ameríndio, consolidando-se como um dos estereótipos do nosso imaginário nacional. A saber, o imaginário do índio mal convertido, que à primeira oportunidade manda deus, a enxada e as roupas ao diabo e retorna feliz à selva. E eu diria, para concluir, que é graças a isso que os índios continuam a salvo dos seus salvadores”.