“Somos índios, resistimos há 500 anos. Fico preocupado é se os brancos vão resistir”

Há 30 anos, em plena Assembleia Constituinte, pintou o rosto de negro, declarou guerra aos políticos brasileiros e venceu. Ailton Krenak tem agora 65 anos, já viu muito e o que não viu, recorda-se, numa memória que lhe foi legada pelos antepassados. Líder indígena, assume-se e ao seu povo como sobreviventes de um genocídio. Mas teme pelo futuro dos brancos, aqueles que nunca aprenderam a pisar com leveza a “Mãe Terra” e que por isso poderão acabar “enterrados no próprio vómito”

Publicado em, onde há também vídeos interessantíssimos:

https://expresso.sapo.pt/internacional/2018-10-19-Somos-indios-resistimos-ha-500-anos.-Fico-preocupado-e-se-os-brancos-vao-resistir#gs.3_PZ5ME

Christiana Martins texto

Quando uma criança krenak nasce, não vai para a creche, fica com a mãe, as avós e as tias. Partilham um quotidiano e um modo de estar na vida. As crianças indígenas não são educadas, mas orientadas. Não aprendem a ser vencedores, porque, para uns vencerem, outros têm de perder. Aprendem a partilhar o lugar onde vivem e o que têm para comer. Têm o exemplo de uma vida onde o indivíduo conta menos do que o coletivo. Este é o mistério indígena, um legado que passa de geração para geração. Ailton carrega no apelido a pertença à sua gente, o povo krenak. E a sua memória mais antiga é muito simples: “Eu não sei viver sozinho.”

Esteve esta semana em Portugal para participar no Fórum Internacional de Festivais de Cinema de Ambiente, em Seia, onde realizadores de mais de 30 países estiveram reunidos e demonstraram preocupação com o rumo político do Brasil e as consequências das eleições presidenciais na preservação da floresta amazónica. Antes de regressar a casa, Ailton Krenak conversou com o Expresso.

Que povo é o seu?
Krenak.

O que quer dizer?
Numa das línguas nativas do Brasil que restaram, kren quer dizer cabeça, e nak é terra. Logo, nós somos a cabeça da terra. Escutando os velhos e perguntando sobre a nossa história, entendi que somos uma das últimas famílias de um povo que, quando D. João VI chegou ao Brasil, habitava uma região conhecida como a Floresta do Rio Doce. Os viajantes se referem a ela como uma floresta tão impressionante como a Mata Atlântica ou a Floresta Amazónica. Era uma muralha natural no caminho do ouro e dos diamantes que vinham do interior. Mas a Coroa precisava de dinheiro e os colonos não eram bobos e pressionaram D. João VI para que libertasse a entrada na floresta. Os nossos antepassados, chamados botocudos, resistiram bravamente a essa investida e a nossa aldeia foi o último lugar a ser colonizado, já tardiamente, por volta de 1910. Nessa altura ainda havia caçadores e recoletores andando nessa floresta. Para acabar com os botocudos, primeiro esses colonos que estavam expandindo as fronteiras internas do Brasil tiveram de devastar a floresta. Vejo um paralelo muito grande, passados quase 200 anos, com o que os brasileiros estão a fazer [agora], determinados a devastar a última grande floresta da bacia amazónica.

Segregados “num campinho de concentração”

A conversa começa assim e segue por muitos percursos, sempre sob a sombra das árvores, no meio da cidade. Rapidamente nos deparamos com as eleições presidenciais no Brasil e com a possibilidade de Jair Bolsonaro ser o escolhido pela maioria da população. O candidato já afirmou que “não vai ter nem um centímetro demarcado para reserva indígena”.

Preocupado, mas sereno, Ailton responde: “Em outras épocas, o meu povo já experimentou diferentes tipos de violência. Os botocudos foram aniquilados durante o século XIX e chegaram ao século XX quase extintos, ao ponto de sermos a única família. Os krenak têm memória da guerra descrita numa carta assinada por D. João VI, que se chamava mesmo ‘guerra de extermínio à nação dos botocudos do Vale do Rio Doce’. Uma declaração de guerra contra o nosso povo.”

Uma guerra que não se pode resumir ao número de mortos. “A população de indígenas daquela região no final do século XIX era estimada em cinco mil pessoas. Só chegaram 140 indivíduos ao século XX. Era como se caísse uma bomba na Europa e ficassem umas cem mil pessoas para contar a história. Fomos vítimas de um genocídio e não há contabilidade possível. Os krenak voltaram a reunir 120 famílias. Se considerarmos cinco pessoas por família, somos pouco mais de 500. Vivemos dentro de uma pequena reserva, segregados pelo governo brasileiro, num campinho de concentração que o Estado fez para os krenak sobreviverem. Durante o período da ditadura, se constituiu num campo de reeducação, que na verdade era um centro de tortura. Já passamos por tanta ofensa que mais essa agora não nos vai deixar fora do sério. Fico preocupado é se os brancos vão resistir. Nós estamos resistindo há 500 anos.”

Há 30 anos, perante a Assembleia Constituinte que redigiu a lei fundamental da então recém recuperada democracia brasileira, Ailton Krenak pintou o rosto de negro e declarou guerra aos congressistas. Lutava pelos direitos do povo indígena – e venceu. Mas diz que o tempo não se repete e que hoje não voltaria a tomar a mesma atitude. “Na década de oitenta abrimos trilhas para as novas gerações buscarem o reconhecimento dos direitos das populações originárias, os indígenas, e para conscientizar a população da importância de continuarmos tendo rios, montanhas, paisagens, florestas como recursos capazes de se refazerem ao longo do tempo e como uma riqueza a ser partilhada pelas gerações futuras. É um tipo de entendimento da terra como a nossa casa comum, mas o que tem prevalecido é a ideia de que diferentes lugares do planeta podem oferecer posicionamentos estratégicos para algumas potências ou ser simplesmente fonte de suprimento daquilo que estas potências querem controlar. E pequenas nações como o Brasil e a maior parte dos países da América Latina, ex-colónias, não tiveram sequer o tempo necessário para consolidar um pensamento acerca de si mesmos. Não tenho nenhuma ilusão acerca do futuro destas pequenas nações: ou vamos experimentar grandes transformações globais na relação entre os povos ou estas pequenas nações vão ser cada vez mais territórios de disputa e enclaves das potências que têm força para decidir o jogo, que não precisa nem de ser na ONU, é decidido no mercado.”

Nações pequenas? O Brasil? “O Brasil é pequeno no sonho. Sonha pequeno. Um território que não esboça uma visão soberana pode ser grande geograficamente mas vai continuar sendo pequeno na sua expressão no mundo. A Amazónia é a maior floresta tropical do planeta que ainda tem condição de ser reguladora do clima e o Brasil quer derrubar a Amazónia. Por que eu vou achar o Brasil grande? O Brasil é menor do que a Amazónia. Eu queria que ele fosse maior.”

E como aquele país se limitou desta forma? Para Ailton, “a colonização que a Europa fez do resto do mundo desde os séculos XV e XVI imprimiu uma maneira de dominação que é como um vírus, é capaz de se auto-reproduzir, inclusive nas colónias”. E “se o Brasil foi inseminado com esta ideologia colonialista, ele vai ser capaz de reproduzir isso infinitamente, enquanto não quebrar esse ciclo colonial. O projeto político de criar uma nação chamada Brasil é tão pequeno que chega a ser menor do que a Amazónia.”

Ailton Krenak não se esquece de um texto de 1865, atribuído a um chefe indígena da América do Norte quando abordado por um representante do governo de Washington, avisando que queriam comprar as terras dos índios. Não se esquece também de que a resposta do chefe Seatle foi de que os índios não podiam vender a terra porque a terra é maior do que os índios, é a mãe deles. “Disse aos brancos que, se algum dia eles herdassem aquela terra, que a pisassem suavemente, porque se não aprenderem a respeitar, vão acumular detritos sobre detritos até que vão acordar enterrados no próprio vómito.” Reconhece aquele texto como o primeiro manifesto ambiental do século XX, “uma ideia partilhada pelos povos que vivem nas ilhas do Pacífico, nos Andes, nas montanhas dos Himalaias, porque estes povos originários têm isso no coração, antes de ter na cabeça”. Para completar: “Talvez o que as nossas crianças aprendem desde cedo é a pôr o coração no ritmo da terra.”

Como um círculo, a conversa volta ao início, à génese: à memória e à sua partilha. Das muitas formas de as novas gerações terem acesso ao passado. Homem de longos silêncios, Ailton Krenak emudece por alguns momentos, quando questionado sobre como o legado de um povo é transmitido às gerações seguintes. “Quem dera que eu pudesse responder a uma pergunta dessas. Ao longo da minha vida inteira vou experimentar [as formas] como transmitimos aos nossos filhos e filhas os valores que nos distinguem de uma sociedade predatória, individualista e que incentiva desde cedo as crianças para a competição, a dominarem-se uns aos outros”. Para concluir com outro questionamento, ainda mais denso do que a primeiro: “Parece que o mandamento principal dessa civilização é ‘dominai-vos uns aos outros’, contrariando aquele outro que seria ‘amai-vos uns aos outros’. Estamos nesta dualidade e podemos escolher qual o mandamento mais interessante para ensinarmos aos nossos filhos.” E Ailton despede-se de nós e do Sol, que também começa a partir. “Te mum tepó itxá, kren nabã tepó erehé”*

* “Oh Sol, você já tá indo? Eu abaixo a minha cabeça para você.”

 

 

 

PT deveria realizar ‘comissão da verdade’ para examinar seus erros, diz Noam Chomsky

Moira Weigel: “O discurso contra o politicamente correto é uma retórica que inviabiliza o debate democrático”

Autora de ‘Um álibi para o autoritarismo’ afirma que expressão foi apropriada pela direita nos Estados Unidos e mostra como retórica de Jair Bolsonaro segue os passos de Donald Trump

ENTREVISTA | MOIRA WEIGEL, PESQUISADORA DE HARVARD – El País

Há expressões que aparecem de forma tão frequente no nosso dia a dia que as tratamos como se fossem verdades autoevidentes, sem nunca nos perguntarmos por que elas assumiram determinados significados nem desde quando são utilizadas. Moira Weigel (Nova York, 1984), pesquisadora associada da Universidade de Harvard, debruçou-se sobre duas palavras que, embora recorrentes há anos no léxico norte-americano, ganharam especial relevância desde a meteórica ascensão de Donald Trump à Casa Branca: politicamente correto. Afinal, como é possível que uma figura pública se refira a mexicanos como “estupradores” e, diante da indignação coletiva, se esquive argumentando que os seus adversários são politicamente corretos demais? Ou, num contexto mais próximo ao brasileiro, um parlamentar que, depois de afirmar que não estupraria uma deputada “porque ela não merece”, se defenda da reação acusando seus opositores de o perseguirem numa cruzada em nome do politicamente correto?

Em Um álibi para o autoritarismo, artigo publicado na última edição da Serrote, a revista de ensaios do Instituto Moreira Salles (IMS), a pesquisadora de Harvard detalha como a linguagem é parte fundamental da conexão que Trump estabeleceu com seus seguidores. O mandatário americano, diz Weigel, recebe apoios justamente por dizer coisas “ultrajantes”, consideradas inapropriadas pelas convenções que estabelecem os limites do debate público. Cria empatia com parte expressiva da população porque “diz o que pensa” e por denunciar uma suposta conspiração de liberais com a imprensa, que teria o escuso objetivo de controlar inclusive as palavras que as pessoas comuns usam.

Moira Weigel, pesquisadora associada de Harvard.
Moira Weigel, pesquisadora associada de Harvard. Joni Sternbach

Não escapa a um brasileiro que leia o texto de Weigel a memória das explosivas declarações de Jair Bolsonaro, candidato à presidência da República, que, mesmo após sofrer um ataque a faca, não se furta de seguir beligerante e sair em fotos simulando ter uma arma nas mãos. Na verdade, mesmo sem encontrar uma única citação ao capitão reformado do Exército no ensaio, cuja versão original foi publicada em 2016 no jornal britânico The Guardian, a associação é quase automática.

— “Sou preconceituoso, com muito orgulho.”  (Bolsonaro em entrevista à revista Época, em 2011)

— “O filho começa a ficar assim, meio gayzinho, leva um couro e muda o comportamento dele.” (Bolsonaro em debate na TV Câmara, em 2010)

— “Não te estupro porque você não merece.” (Bolsonaro para a deputada Maria do Rosário, em 2014)

A partir da gênese do termo, e de como ele foi apropriado por movimentos da extrema direita norte americana nas últimas décadas, Weigel revela que o politicamente correto (ou, para ser mais exato, a crítica aos que são politicamente corretos demais) pode ser usado por uma liderança para se justificar por declarações tão ofensivas como as listadas acima. O poder vai mais além, alega a pesquisadora: ser antipoliticamente correto transformou-se numa arma eficaz para um político conectar-se com o seu eleitorado. De repente, ele passa a ser alguém que “não tem medo de dizer a verdade”, mesmo que essa “verdade” seja um ataque aos direitos de mulheres ou homossexuais, para citar dois exemplos. “O discurso antipoliticamente correto ecoa nos Estados Unidos entre um público que havia sido informado durante décadas de que era inaceitável ser abertamente racista ou misógino. Então, os ataques ao politicamente correto tornaram-se uma forma de expressar antigas formas de sexismo e de racismo, sem que as pessoas sintam vergonha por dizer essas coisas”, diz a pesquisadora em entrevista ao EL PAÍS.

Pergunta. Você argumenta que o termo politicamente correto é relativamente recente. Até quando é possível traças as suas origens?

Resposta. O que eu percebi rapidamente é que, essencialmente, a história do politicamente correto é a história do antipoliticamente correto. O termo aparece somente por pessoas atacando quem elas consideram politicamente correto. Nos Estados Unidos a história da expressão é um pouco misteriosa. Ela aparece em jornais socialistas de tempos em tempos na década de 1930 e só entra com maior força no léxico norte-americano nas décadas de 1960 e 1970. Era usado como uma espécie de brincadeira pelos membros do New Left [movimento de esquerda daquele período nos EUA], quase como uma piada interna, para tirar sarro daqueles que eram tidos como virtuosos ou dogmáticos demais. No início dos anos 90, nós vemos de repente um número grande de artigos de jornais e revistas sobre universidades, afirmando que havia restrições no que os estudantes podiam dizer, algo mais próximo ao sentido que damos ao politicamente correto atualmente. Em 1990, um repórter chamado Richard Bernstein, do The New York Times, escreve um artigo vai na linha: “os estudantes das universidades estão sendo politicamente corretos demais”.

O ponto é que ninguém falava muito no termo até os movimentos de direita começarem a atacar o politicamente correto. Então, eu acho que é uma forma de dar um nome a uma série de mudanças culturais, demográficas e históricas com as quais a direita não está contente

P. Você diz no seu artigo que houve um momento em que os movimentos de direita se apropriaram da expressão. Quando e como isso aconteceu?

R. O termo politicamente correto aparece apenas ocasionalmente na esquerda. É a direta que o eleva a uma coisa massiva. Nos anos 60 e 70, começa um movimento dentro do que era a extrema direita americana para deslegitimar determinadas instituições públicas que produziam conhecimento e para financiar e criar toda uma gama de instituições e think tanks alternativos. E isso começa a se tornar mais mainstream no partido Republicano nas décadas de 1980 e 1990. Eu acho que a narrativa contra o politicamente correto tem um papel muito importante na deslegitimação de universidades e da imprensa tradicional nos Estados Unidos.

P. E, por tabela, deslegitimar as mudanças sociais e demográficas que estavam ocorrendo nas universidades naquela época?

R. Sim, certamente. Havia mudanças sociais ocorrendo nas universidades. As mulheres estavam entrando; havia mais negros nas universidades. Em 1965 há uma reforma migratória que traz mais pessoas do leste asiático para os Estados Unidos e, no início dos anos 1990, chegam cada vez mais imigrantes latino-americanos. Em certo modo, a narrativa contra o politicamente correto é uma reação a uma série de mudanças sociais e demográficas que estão acontecendo. Mas essa narrativa passa uma ideia de que existe um pequeno grupo, formado por professores e pela própria imprensa, que está forçando essas mudanças de cima para baixo, às custas das “pessoas comuns”. Num momento em que muitos norte-americanos brancos estão perdendo seus empregos em razão da desindustrialização, a história do politicamente correto  sobre um bando de intelectuais judeus ou não brancos tomando controle das universidades e da imprensa e fazendo com que as “pessoas comuns” se sintam desempoderadas ou mesmo envergonhadas ressoa. É uma narrativa que a direita usa para manter o poder, para a classe trabalhadora embarcar numa aliança com a agenda corporativa do big business em meio às mudanças demográficas e culturais.

P. Existe a impressão de que criticar o politicamente correto é um ato apolítico. Por que você discorda disso?

R. O perigoso nesses ataques ao politicamente correto, o que me parece francamente protoautoritário, é que trata-se de uma manobra retórica que estabelece uma comunidade política baseada na exclusão, o que torna o debate democrático impossível. O termo se confunde com “senso comum”. Quando alguém diz: “todos nós sabemos que é verdade que as mulheres são loucas, que os mexicanos são violadores ou que os muçulmanos são terroristas”, estabelece-se um corpo homogêneo esse “nós” e os demais grupos são excluídos. E isso não está aberto à contestação ou ao debate, porque se transforma em algo que “todos sabemos”. Há outra questão que é muito presente na extrema direta norte-americana. Quando alguém fala: “vamos fazer uma piada sobre estupro ou sobre linchamento” e enfrenta reações de mulheres ou de negros, a resposta é: “era só uma brincadeira, por que tanta confusão apenas por uma brincadeira?”. Então, o que a extrema direita norte-americana que o Trump uniu faz é estabelecer-se a si mesma como a autoridade sobre o discurso, sobre o que é uma brincadeira e sobre o que é sério.

P. Você considera que essa confusão entre a oposição ao politicamente correto e o senso comum é o que permite o uso da expressão por líderes autoritários?

R. Certamente. O mais interessante é que, diante de uma crise global do capitalismo, nós estamos vendo isso por toda a parte. Nós vemos isso com o [Rodrigo] Duterte nas Filipinas, com o [Recep] Erdoğan na Turquia; e com a extrema-direita na França e na Alemanha. Nós estamos vendo versões desses impulsos por toda a parte. E é interessante que eles são quase como “ditadores do Twitter”. São pessoas que vão às redes sociais para contornar as universidades e a mídia tradicional, que antes eram as instituições com o poder de decidir o que era permitido dizer e o que não era permitido. Eu acho que é um gesto proto-autoritário porque é desenhado para criar comunidades homogêneas que podem concordar com base no senso comum, o que impossibilita o debate.

Essa retórica é um gesto autoritário porque ela estabelece quem tem o poder de decidir o que é permitido dizer e o que não é. De certa forma, o que uma universidade deveria fazer ou mesmo o que uma comunidade deveria ser deixa de estar aberto ao debate.

P. No Brasil, Jair Bolsonaro, um capitão do Exército reformado, critica muito o politicamente correto para justificar sua linguagem ofensiva. Você considera que é uma retórica similar ao discurso do Trump que você estudou?

R. Sim, soa realmente similar.

P. Por que você argumenta que a dinâmica do politicamente correto tem a ver com o sentimento de vergonha?

R. Em termos de política econômica e de política internacional, nos Estados Unidos, os dois partidos [Democrata e Republicano] estiveram muito próximos um do outro, sem muitas diferenças nas suas políticas. E em meio à crise global do capitalismo que estamos vivendo, nós estamos vendo o ressurgimento desses movimentos de extrema direita e o aumento da sua popularidade porque eles falam para um público que sente ter sido excluído da história do progresso que deveria ter começado depois do fim da Guerra Fria. É verdade que os partidos políticos tradicionais não ofereceram muita coisa para as pessoas. Então, muito da dinâmica social ao redor do politicamente correto tem a ver com vergonha. Se você olha para os Estados Unidos, um país extremamente segregado racialmente, há muitas pessoas brancas, e que estão com sérias dificuldades financeiras, que ligam a tevê e veem uma pessoa rica dizendo que o jeito que elas falam é racista. E que elas deveriam aprender a falar como alguém que foi à universidade. Isso cria um sentido real de exclusão política e econômica, que se identifica com a narrativa do antipoliticamente correto. Então eu acho que a linguagem do Trump faz com que essas pessoas sintam menos vergonha do que elas dizem, porque ele próprio não tem nenhum pudor quando fala.

P. Você acredita que o antipoliticamente correto é uma forma que o Trump encontrou para estabelecer uma identificação entre ele e os eleitores?

R. Cria-se uma identificação. Veja o Trump, ele é um showman, sequer é um empresário de sucesso. Ele é um homem da área de entretenimento que consegue fazer com que as pessoas se identifiquem com ele. Nos Estados Unidos, eu acho que muitas pessoas percebem que foram prejudicadas financeiramente pelos dois partidos, que o processo político é muito antidemocrático e não responde muito bem ao que eles querem. Diante disso, a história do politicamente correto permite que alguém diga: “você sabe de quem é a culpa? É do politicamente correto, dos afro-americanos, dos judeus, das outras pessoas que vieram de fora e fizeram isso com você”.

P. No seu artigo, você argumenta que, nos Estados Unidos, a crítica ao politicamente correto se tornou uma forma de mascarar o racismo e o sexismo nas pessoas.

R. Nos Estados Unidos, desde os anos 60, é politicamente inaceitável ser abertamente racista. Existe um estrategista do partido Republicano que disse numa entrevista que desde 1968 se tornou inaceitável para um político usar a palavra nigger [forma ofensiva de se referir à população afro-americana]. O discurso antipoliticamente correto ecoa nos Estados Unidos entre um público que havia sido informado durante décadas de que era inaceitável ser abertamente racista ou misógino. Então, os ataques ao politicamente correto tornaram-se uma forma de expressar antigas formas de sexismo e de racismo sem que as pessoas sintam vergonha por dizer essas coisas. E eu acho que é uma estratégia muito eficiente. Por exemplo, se uma pessoa afirma: “eu não sou politicamente correto, então vou dizer que todas as mulheres são menos inteligentes do que os homens”, qualquer pessoa que venha a corrigi-lo parece alguém que está tentando patrulhá-lo, ou que simplesmente está mentindo. Então, eu acho que é uma estratégia muito eficiente porque permite que as pessoas expressem esses preconceitos sem precisarem sentir vergonha de fazê-lo, além de ser uma forma de se proteger, de contra-atacar rapidamente qualquer um que venha a contestá-las.

P. Você considera que existe um sentimento antielitista na campanha contra o politicamente correto?

R. É interessante. Pense no Trump, que consegue se colocar na posição de “homem do povo”. É algo que ele só consegue fazer com a ajuda do discurso do politicamente correto. Esse discurso ajuda a formar uma aliança entre as pessoas comuns e super-ricos como o Trump. É incrível imaginar que um trabalhador normal em Nova York, por exemplo, sinta que tem mais em comum com o Trump do que com um  professor universitário que ganha mais ou menos o que ele próprio. Esse é o grande truque que o discurso antipoliticamente correto torna possível: fazer com que as pessoas pobres e brancas nos Estados Unidos acreditem que elas têm mais em comum com os brancos super-ricos do que com as demais pessoas, de outras origens, que vivem em situações econômicas similares às delas.

P. Você considera que a retórica contra o politicamente correto é usado apenas por Trump ou se tornou um fenômeno global, do qual outros líderes também se aproveitam?

R. Eu acho que é um fenômeno interconectado. A dinâmica da Internet, a forma como essa mensagem pode ser reapropriada e adaptada a diferentes contextos locais, torna isso muito global. Eu acho que há conexões literais entre entre as pessoas ao redor do mundo que são as estrelas desse movimento da extrema direita, como o Steve Bannon [ex-extrategista de Trump]. A crise do capitalismo à qual elas estão respondendo é global, então nós veremos versões desse discurso em todos os lugares. As mídias sociais que elas usam têm alcance global, basta ver como elas são usadas nas Filipinas ou em Myanmar. Então, como o politicamente correto é um termo muito vago, ele se adapta a situações nacionais muito específicas. Ele pode ser utilizado para falar dos direitos das mulheres; nos Estados Unidos sobre imigrantes mexicanos ou sobre a pobreza da comunidade afro-americana; e na Alemanha tem sido usado para falar sobre a imigração da Síria. O termo politicamente correto é muito vago e os líderes políticos de diferentes países podem usá-lo para atacar o seu inimigo da vez.

Eduardo Viveiros de Castro: “Gostaria que o Museu Nacional permanecesse como ruína, memória das coisas mortas”

A tragédia do incêndio do Museu Nacional não deverá ser suficiente para abrir um debate sério no Brasil sobre o “descaso” a que tem sido votada a cultura, diz o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. Este é “um país onde governar é criar desertos”.

Eduardo Viveiros de Castro, 67 anos, é um dos mais conhecidos antropólogos brasileiros, autor de vários livros e do conceito de perspectivismo ameríndio [teoria a partir da visão ameríndia do mundo], e professor do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a instituição que na noite de domingo para segunda-feira foi destruída pelo fogo, que arrasou quase totalmente uma colecção de mais de 20 milhões de peças, com um valor incalculável. Falou ao PÚBLICO por telefone a partir do Rio.

Qual é a dimensão da perda do Museu Nacional do Rio de Janeiro para o Brasil e para o mundo?
O Museu Nacional talvez fosse o lugar mais importante do Brasil em termos do seu valor como património cultural e histórico, não só brasileiro como mundial. Trata-se da destruição do ground zero, o lugar central que era o símbolo da génese do país como nação independente e continha um acervo inestimável, não só do ponto de vista da história da cultura e da natureza brasileiras mas com peças de significado mundial. Foi destruída toda a colecção de etnologia indígena, inclusive de vários povos desaparecidos, foi destruída toda a biblioteca do sector de Antropologia, e foi destruído o Luzia, o fóssil humano mais importante e antigo das Américas. É uma perda que não tem como reverter, não há nada que se possa fazer que mitigue, que amenize essa situação. Só se pode chorar em cima do leite derramado, que não adianta nada.

As causas últimas desse incêndio, todo o mundo sabe quais são. É o descaso absoluto desse Governo, e dos anteriores, para com a cultura. O Brasil é um país onde governar é criar desertos. Desertos naturais, no espaço, com a devastação do cerrado, da Amazónia. Destrói-se a natureza e agora está-se destruindo a cultura, criando-se desertos no tempo. Estamos perdendo com isso parte da história do Brasil e do mundo, porque se trata de testemunhos com significado para toda a civilização.

É portanto uma perda com impacto a nível mundial.
Com certeza, tem impacto brasileiro, português, porque boa parte da história de Portugal estava nesse museu também, visto que foi a residência de D. João VI, e também da história mundial – a colecção de etnologia não tinha significado apenas para o Brasil pelo facto de os povos aqui representados habitarem essa parte do planeta, esses povos têm significado para a história da humanidade. Além disso, havia peças muito valiosas que não eram apenas de povos indígenas no território brasileiro, peças africanas, egípcias, etruscas.

É uma perda incalculável que se explica – não se justifica, mas explica-se – pelo descaso absoluto que todos os Governos, e esse Governo ilegítimo em particular, votam à cultura, com cortes dramáticos nos orçamentos da cultura e da educação, ameaças grave de desmontagem das universidades públicas [o Museu Nacional está ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro]. É um projecto de devastação, de criação de desertos, desertos no espaço e no tempo. A destruição do museu é um deserto no tempo, é destruir a memória, destruir a História.

E para si, em particular, o que é representa?
O Museu Nacional abrigava vários departamentos da Universidade. Era um museu de exposição, mas também de pesquisa, eu fazia parte do sector de pesquisa, de um programa de doutoramento em Antropologia. A minha relação com a parte física do museu, com os objectos, era bem menor do que a de vários colegas meus. A perda pessoal, imediata, para mim é a da Biblioteca de Antropologia, que devia ter uns 200 mil títulos e que era um instrumento de trabalho fundamental para a minha actividade como docente.

Essa perda atingiu-me de maneira directa, perdemos toda uma biblioteca construída ao longo de 50 anos. Como etnólogo, relativamente à colecção do Museu Nacional, significou para mim a perda de toda a memória material desses povos que foram destroçados pelo colonialismo europeu e que estavam ali como testemunhas mudas da história sinistra que foi a invasão da América pelas potências europeias.

A biblioteca de Antropologia tinha manuscritos, volumes insubstituíveis
Manuscritos, menos, porque a biblioteca central do Museu Nacional já não estava no edifício que foi destruído, estava num anexo, e é essa que contém as obras raras. A do programa de doutoramento era muito moderna, tinha toda a produção antropológica, sociológica, histórica, dos últimos 50 anos. Embora teoricamente possa ser refeita, não há dinheiro para o fazer. De resto, os fósseis, as borboletas, os insectos, as colecções de estudo, isso é insubstituível.

O que é que se deve fazer agora, perante este edifício queimado?
A minha vontade, com a raiva que todos estamos sentindo, é deixar aquela ruína como memento mori, como memória dos mortos, das coisas mortas, dos povos mortos, dos arquivos mortos, destruídos nesse incêndio.

Eu não construiria nada naquele lugar. E, sobretudo, não tentaria esconder, apagar esse evento, fingindo que nada aconteceu e tentando colocar ali um prédio moderno, um museu digital, um museu da Internet – não duvido nada que surjam com essa ideia. Gostaria que aquilo permanecesse em cinzas, em ruínas, apenas com a fachada de pé, para que todos vissem e se lembrassem. Um memorial.

Esta tragédia pode abrir um debate sério no Brasil sobre esse desinvestimento na cultura?
Não, não vai abrir. Já houve incêndios gravíssimos no Brasil em museus, no de Arte Moderna em 1978, no Museu da Língua Portuguesa em São Paulo, ontem mesmo houve um incêndio numa mansão histórica no centro de Salvador. Acho que não vai haver reflexão nenhuma, até porque o país está mergulhado numa crise política, moral, cultural e económica gigantesca. Vai haver gritaria durante algum tempo, choro, ranger de dentes, e em seguida vai-se voltar ao que sempre foi, planos para o futuro que não se concretizam, verbas que se prometem e não se entregam. Tenho muito medo que se tente vender o canto de sereia da privatização dos museus, retirá-lo da universidade, transformá-lo numa fundação privada. Enfim, essa panaceia de estilo americano que nunca dá certo no Brasil.

Há quem diga que para além do descaso do poder político há um desinteresse geral das pessoas, que acham que a cultura não é a prioridade e que se deve gastar dinheiro em coisas mais urgentes. Vê isso assim?
O Museu Nacional era altamente frequentado, em parte porque a entrada era muito barata, situava-se numa zona popular da cidade, no centro de um parque muito conhecido. Curiosamente, este ano no Carnaval uma das escolas de samba do Rio teve como tema os 200 anos do Museu, com alegorias e fantasias que evocavam as múmias, os dinossauros. Ele fazia parte da cultura popular brasileira, da cultura popular carioca, pelo menos.

Mesmo com essa ligação afectiva, o impacto do que aconteceu não será suficiente para mudar alguma coisa?
Não sei dizer. Na segunda-feira à noite, houve uma manifestação no centro do Rio, na Cinelândia, bastante grande, umas 20 mil pessoas, essencialmente estudantes universitários jovens, protestando, a partir do incêndio do museu, mas generalizando para todo o descaso desse Governo com a educação e a cultura.

Certamente as pessoas que estão passando fome e estão desempregadas não diriam que a cultura é a coisa mais importante mas a ideia de que o povo despreza a cultura não é verdadeira. Quem despreza a cultura é a burguesia, o agro-negócio, os deputados ruralistas, os que estão interessados em devastar o país para produzir soja para vender para a China.

Desvalorizando certamente ainda mais os símbolos da cultura indígena.
Os índios são a pedra no sapato da classe dominante, porque as terras indígenas são públicas, não podem ser privatizadas, e o projecto da classe dominante é privatizar 100% das terras brasileiras. Para eles, os índios são um tropeço, um obstáculo, um escândalo inclusive, um símbolo do atraso do país, quando na verdade deviam ser vistos como símbolo de um futuro possível de um país que está num planeta que está sendo destruído pelo chamado progresso.

Os índios são aqueles que conseguiram sobreviver mantendo um modo de vida menos suicida e são vistos como um povo do passado. Uma maneira de refazer esse museu talvez fosse pedir aos povos indígenas brasileiros que contribuíssem com a sua cultura material para refazer pelo menos o acervo de etnologia.

Falou-se muito na forma como o incêndio afectou a imagem do Brasil no mundo. Isso terá influência nas próximas eleições de Outubro?
O facto de ter havido uma repercussão mundial muito grande talvez tenha sacudido um pouco a consciência dos políticos brasileiros e sobretudo dos candidatos à eleição. Certamente, agora que começou a fase de debates entre os candidatos à Presidência, o tema vai entrar na agenda. Não tenho dúvida de que todos vão falar do Museu Nacional, agora como vão falar e o que vão falar, é algo que é muito difícil de estimar.

Com as sondagens a dar vantagem a Jair Bolsonaro caso Lula, que se encontra na prisão, não participe, estamos perante a possibilidade de vitória de um candidato ainda mais preocupante para uma política cultural.
Aí é a catástrofe absoluta. Eu sou uma pessoa muito pessimista em geral, mas não sou ao ponto de achar que Bolsonaro vai ser eleito. Acho que ele não consegue se eleger Presidente do Brasil. Mas representa uma parte grande da população e o problema é que há pessoas que votam nele e que vão continuar aí e isso é muito triste.

O Brasil está passando por um processo de polarização política muito grande, existe uma camada subterrânea fascista que era melhor ter deixado quieta e que está se movimentando. Não é só no Brasil, há no mundo inteiro um renascer de sentimentos fascistas, autocráticos, e isso aqui é representado por esse candidato repugnante que é o Jair Bolsonaro, que defende a tortura, elogia a ditadura, quer armar a população, e que se inspira naquele louco patético que é o Donald Trump nos Estados Unidos. Se ele for eleito, é o fim. Pego o avião e vou embora – não sei para onde, mas para algum lugar.

Razão não depende de geografia

 

No imaginário nacional, o Nordeste segue como a terra que vota com o estômago

Fabiana Moraes

19ago2018_07h00 Publicado na revista Piauí. Link: https://piaui.folha.uol.com.br/razao-nao-depende-de-geografia/

Somos um país de pobres que detesta a pobreza. Aprendemos que ela é abjeta e que em seu interior há pouca chance de dignidade. “Cara de pobre”, “coisa de pobre”, “pobreza pega”. O que é dito como brincadeira guarda seus enunciados de verdade. Logo, é comum soltar um “os pobres precisam parar de ter filhos”. Logo, “um país rico é um país sem pobreza”, como disse um dia uma propaganda governamental. Logo, os pobres deviam mesmo parar de votar. E onde mora a pobreza do Brasil? Naquele torrão distante e seco denominado Nordeste, a região cristalizada pelo tempo (e por novelas e comerciais e livros e quadros e filmes) como a responsável tanto por guardar as coloridas tradições de um Brasil profundo quanto a vergonha da fome e da incapacidade de reflexão.

Essa seara com 57,36 milhões de habitantes de todas as classes sociais está prestes a surgir novamente nas mídias carregando todas essas marcas: nas eleições das duas últimas décadas, o Nordeste foi o protagonista nas falas daqueles que vieram a público explicitar como votamos mal, como conduzimos o país ao abismo, como nossa baixa escolaridade e nossa barriga vazia nos têm feito prezar por nomes que levam todo o país ao caos. O tio do pastel, a estudante de direito (“nordestino nem é gente”, lembra?), o estilista branco cool e seu marido mais cool ainda, a senhora que lamenta não ir a uma passeata porque sua empregada faltou ao serviço: são várias as gerações e classes que olham para a região com desprezo – ou alguma condescendência.

Um primeiro tapa ao pé do ouvido: nossa ideia do que significa “esclarecimento” está morrendo por inanição. Um bom exemplo somos nós mesmos, país no qual as famílias mais abastadas (renda acima de 9,5 mil reais) e com curso superior completo (só 15% dos brasileiros possuem) preferem um candidato à Presidência que anuncia não compreender a economia brasileira, diz que conheceu um quilombola que pesa “sete arroubas” e celebra publicamente o estupro e a tortura. Nossa civilidade partida também pode ser aferida pelo fato de termos atualmente um grande número de pessoas acessando um mar de informação por meios virtuais (são 116 milhões de usuários de internet, segundo o IBGE) ao mesmo tempo que elegemos em 2014 o Congresso Nacional mais conservador desde o golpe militar de 1964. Mas, ainda assim, entendemos que são as pessoas “desinformadas”, pauperizadas e menos escolarizadas – no imaginário nacional, nordestinas – que possuem pouca capacidade para decisões objetivas, já que as suas escolhas são orientadas somente por necessidade.

Desconsideramos veementemente nossa incoerência porque estamos acostumados a não questionar aquilo que parece natural, mas é fundamentalmente construído: o mito do eleitor desinformado, que se vende por qualquer trocado e que mora, quase sempre, no Nordeste. Ele está em oposição ao voto consciente, racional. O voto de quem estudou, pensa globalmente e no país. Os outros, coitados, votam com, no máximo, a próxima feira da semana no horizonte.

Estudando a pobreza brasileira há mais de duas décadas, a socióloga Maria Eduarda da Mota Rocha percebe que, em nossa sociedade profundamente classista, há duas formas de vivência da política: uma é a real, a que importa, enquanto as outras são entendidas como alienadas e inconsequentes. “A desqualificação do voto dos pobres e de tudo o que lhes diz respeito é sintoma de uma incapacidade crônica de empatia de uma parte de nossas elites, que também vota segundo seus interesses, mas que aprendeu a traduzi-los em princípios abstratos muito bonitos, como liberdade, empreendedorismo, empregabilidade.”

Esse fenômeno é igualmente analisado pela cientista política Priscila Lapa, autora da tese Como Votou a Classe C nas Eleições Presidenciais Brasileiras de 2014?. Trazendo como exemplo um clássico que provavelmente surgirá nas redes sociais nas eleições de outubro, os programas de transferência de renda, ela pergunta: “Se o pobre vota para manter o Bolsa Família e o rico vota em determinado candidato para não ter sua riqueza taxada, qual a razão de acharmos que o último é mais racional que o primeiro?” É uma questão precisa e que aponta para o que ela chama de régua ideológica usada pela elite escolarizada para carimbar seu próprio voto, que seria desprovido de intenções particulares e dirigido a um bem comum nacional.

O que a pesquisadora sublinha é que todas as pessoas, com baixa, média ou alta escolaridade, levam nomes específicos até as urnas de acordo com a percepção do que está acontecendo tanto no miúdo do seu dia a dia quanto no cenário nacional. “Se entendo que minha vida mudou para melhor por conta de algum candidato, me oriento naturalmente por ele. Nesse sentido, o Nordeste foi a região brasileira que teve sem dúvidas a maior mudança socioeconômica no país nas últimas décadas. É natural, assim, que o voto aqui seja voltado a gestões da esquerda. É uma escolha racional, econômica e pragmática. A presença de Bolsonaro entre os mais ricos é também um desdobramento desse tipo de voto.” Sintetizando: para ambos, abastados ou enrascados, votar também é razão.

m segundo tapa ao pé do ouvido: nos posicionamos contra a pobreza e suas mazelas, nos emocionamos com crianças à beira de esgotos, mas entendemos – mais uma vez – como natural a desigualdade social brasileira, que faz com que 50% dos 88,9 milhões de trabalhadores e trabalhadoras recebam por mês, em média, 15% menos que o salário mínimo. Não nos posicionamos igualmente sobre o fato de os que recebem mais ganharem 360 vezes acima do trabalhador com renda mais baixa. Em 2016, os quase 90 milhões de trabalhadores brasileiros geraram 255 bilhões de reais por mês. Desse montante, 43,4% acabaram concentrados nas mãos de apenas 10% da população.

Os números deixam claro: somos mais pobres do que nossas usuais classificações de renda nos permitem realmente ver, uma vez que carimbamos como classe média (57,1% da população) pessoas que deixaram o ensino fundamental no caminho, se alimentam com gordura hidrogenada e acessam as redes virtuais em celulares cujas prestações estão atrasadas. Gente que circula nos ônibus metropolitanos já lotados às seis da manhã para dar conta de longos deslocamentos até empresas que oferecem contratos temporários. Gente que vive nas zonas rurais e vê televisão a cabo por meio de ligações clandestinas. Gente que mora nas áreas ribeirinhas e convive com lixo no quintal.

Nossa pobreza tem muitas camadas, mas costumamos tratá-la de maneira homogênea. Essa operação não se dá à toa: ao pensar os pobres como massa, retiramos deles os seus rostos, suas questões, suas falas, suas existências – que são múltiplas e se distribuem nas periferias, centros, sertão. “Ao falarmos dos pobres, generalizando, nós os diluímos. O mesmo vale para a classe C e o nordestino. Não nos referimos, por exemplo, ao voto do trabalhador, que é um voto mais realista, de gente que está tentando se manter no Brasil de agora”, diz Priscila Lapa.

Assim, situar o “mau” voto nos nordestinos, nos “esfomeados do Bolsa Família” ou, enfim, na pobreza é uma estratégia também voltada para a desmobilização: se nos referimos aos pobres como universitários ou trabalhadores – ambulantes, manicures, lavradores, empregadas domésticas – damos uma cara a esse voto. Damos voz, corpo e, perceba, racionalidade. Esta última é, no final, a palavra em disputa: quem a detém consegue, em um jogo que é seu, mas é vendido como de todos, o poder de determinar quem são os outros – ou o pessoal da geral, aqueles que precisam continuar na plateia.

Fabiana Moraes (siga @fabi2moraes no Twitter)

Jornalista e professora da Universidade Federal de Pernambuco. Autora de cinco livros, entre eles O Nascimento de Joicy (Arquipélago Editorial)

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As freiras que, em vez de catequizar, defenderam cultura indígena e viram povo ‘renascer’

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Morte acelerada

Estudo internacional com participação brasileira, mostra que os riscos corridos pelas florestas tropicais do mundo estão se intensificando em ritmo crescenteN° Edição: 539 Texto: Pelo Ipam, via Observatório do Clima

(Foto: iStockphotos)

Como se o desmatamento já não fosse suficientemente ruim, uma série de outras ameaças mata, num ritmo cada vez mais intenso, as árvores da Amazônia e de outras florestas tropicais úmidas da Terra. Uma revisão de artigos científicos feita por especialistas no tema, incluindo o pesquisador brasileiro Paulo Brando, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), e publicada na revista “New Phytologist” em fevereiro, indica que a taxa de mortalidade dessas árvores mostra sinais de aceleração nos últimos anos.

Os motivos são o aumento da temperatura, secas longas e piores, ventos mais fortes, incêndios mais extensos, mais cipós e até a abundância de gás carbônico na atmosfera – uma das causas do efeito estufa e elemento fundamental da fotossíntese. As mudanças climáticas estão ligadas a todos os problemas apontados. “O trabalho mostra que há indícios fortes que relacionam a mortalidade das árvores de florestas tropicais úmidas às alterações esperadas para essas regiões, em escalas global e regional”, afirma Brando.

O foco do estudo foram as florestas intactas, primárias ou antigas, na América do Sul, África e no Sudeste Asiático. A Amazônia brasileira aparece em destaque porque é o local mais estudado de todos. “Na Amazônia, todas essas causas de mortalidade de árvores estão presentes”, diz Brando. “Mas é difícil dizer que uma é mais relevante do que outra, porque todas têm um papel. Secas causam picos de mortalidade, enquanto o aumento de CO2 provoca mudanças de fundo. Já eventos de tempestades de vento impactam mais áreas fragmentadas, e o fogo causa muitos danos no sudeste da Amazônia.”

Equação letal

É impossível estabelecer qual desses ataques é pior. As secas têm se tornado cada vez mais longas e severas – na Amazônia, episódios anômalos ocorreram em 1997, 2005, 2010 e 2015. Como defesa imediata, as árvores tomam atitudes extremas, como fechar os estômatos (células por onde ocorre a respiração das plantas) e perder mais folhas. Essas folhas, por sua vez, se acumulam em abundância no solo e servem de combustível para incêndios florestais, que se alastram facilmente e por mais tempo.

Secas e temperaturas mais altas podem ainda levar as árvores a definhar de fome, também num mecanismo de defesa que acaba se tornando um algoz. Ao fecharem os estômatos para salvar água em seu interior, elas deixam de capturar o CO2 do ar, sua fonte de alimentação, enquanto consomem o que têm dentro. O regime forçado as deixa mais suscetíveis a ataques de pestes, como insetos, ou à competição por comida com os cipós – que, por sua vez, têm proliferado nesses ambientes. E, mesmo que a dieta não aconteça, o excesso de CO2 no ar também não significa que as florestas crescerão abundantemente.

“Quando há muito gás carbônico, algumas árvores podem dominar o pedaço e roubar os recursos dos vizinhos. Assim, há um aumento esperado na mortalidade de árvores, mas não necessariamente mudanças drásticas nos estoques de carbono”, afirma Brando. “Outra explicação é que a floresta se torna mais dinâmica com mais CO2; cresce e morre mais rapidamente, tanto pelo metabolismo quanto por mudanças na sua estrutura.” Tampouco o fato de estarem próximas à linha do equador traz vantagem para as florestas tropicais úmidas num planeta mais quente: um novo regime de temperatura, esperado para os próximos anos devido às mudanças climáticas, pode mudar o metabolismo das árvores.

Segundo Brando, reduzir a taxa de mudança no clima e estabilizar o processo o quanto antes, o que envolve tanto derrubar os níveis de emissão de CO2 quanto os do desmatamento, são fatores essenciais para manter as florestas tropicais. “Quanto menor a área de borda de floresta, comum em paisagens fragmentadas, menor o impacto de seca, fogo e ventos.” Ele ainda destaca a importância de aprofundar as análises: “Precisamos saber o que realmente está ocorrendo, para fechar buracos nas observações que ainda existem e nos preparar para os efeitos das mudanças climáticas”.

Humanos representam 0,01% dos seres vivos e mataram 83% dos mamíferos

Estudo revela que plantas são principal forma de vida da Terra e que humanos foram responsáveis pelo fim de diversas espécies

Publicado na Revista Galileu.

Apesar de representarem apenas 0,01% dos seres vivos do planeta, os humanos são responsáveis pela destruição de muitas espécies. Um estudo realizado por pesquisadores do Instituto de Ciência Weizmann, em Israel, e do Instituto de Tecnologia da Califórnia, nos Estados Unidos, revela, inclusive, que a espécie humana acabou com 83% dos mamíferos selvagens da Terra.

Publicada no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences, a pesquisa compila os tipos de biomassa — matéria orgânica — dos reinos animais. “A análise revela uma visão holística da composição da biosfera e nos permite observar padrões de categorias taxonômicas e locais geográficos”, escrevem os cientistas.

Esse é o primeiro relatório a estimar a quantidade de todos os tipos de criaturas vivas. “Eu fiquei surpreso em descobrir que não ainda não existia uma estimativa compreensiva e holística de todos os componentes da biomassa”, disse o pesquisador Ron Milo, do Instituto de Ciência Wrizmann, em entrevista ao jornal The Guardian.

Milo e sua equipe compilaram dados de diversas fontes, como da Organização Internacional de Comida e Agricultura, por exemplo, para estimar a biomassa de cada país e como a industrialização, o êxodo rural e o uso de novas tecnologias pelos humanos colaborou para o fim de outras espécies animais.

Os cientistas concluiram que os 7,6 bilhões de pessoas representam somente 0,01% dos seres vivos, as bactérias, 13% e o restante das criaturas, como insetos, fungos e outros animais equivalem a 5% da biomassa do planeta. O que sobra é das plantas: segundo o estudo, elas representam 82% da matéria viva.

Atualmente, 70% das aves e 60% dos mamíferos do planeta foram criados em cativeiro, enquanto 30% dos pássaros são selvagens, 36% dos mamíferos são humanos e os 4% restantes são selvagens. Ainda de acordo com o relatório, 86% das espécies se encontram em terra, 13% abaixo de superfícies (como bactérias, por exemplo) e somente 1% nos oceanos.

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Índios mostram que saúde vai além de curar doenças

Sentar no fim da tarde em um banco numa aldeia dos índios Panará é ver um grupo animado de meninos de 7 ou 8 anos anos afiando uma lança ou pegando pedrinha para o estilingue. É se divertir com as meninas que param o futebol com bola de tênis e vêm conversar e rir com as jornalistas mesmo sem saber português. É se impressionar com os menores, de 5 ou 6 anos, que pulam corda até com bebês no colo e não perdem nem o fôlego nem a destreza. As crianças de Nãsepotiti parecem nunca ficar entediadas.

Difícil imaginar como seria o cotidiano e, especialmente, o humor e o ânimo delas se vivessem fora da Terra Indígena Panará, que fica em um trecho da Amazônia entre o Mato Grosso e o Pará. Para os avós dessas crianças, a resposta vem de imediato: elas não seriam tão alegres, fortes e saudáveis.

A afirmação vem da história de vida desses anciãos, especialmente dos cerca de 20 anos que viveram no Parque Indígena do Xingu (MT). “Lá não era como aqui. A terra era fraca, tinha pouca fruta. Não nascia bebê como aqui”, conta a parteira Kreenpy (lê-se Kreempã), que não sabe sua idade, assim como boa parte dos Panará idosos. “No Xingu, nossas crianças eram magras”, diz outro ancião, Seiakã, enquanto trança um cesto. “Era triste. Aqui, é bem alegre.”

Após quase serem dizimados (passando de 400 para 70 integrantes) por doenças e males como gripe e diarreia (leia mais aqui), eles foram levados ao Xingu, parque indígena idealizado pelos irmãos Villas Bôas. À primeira vista, os Panará estavam bem e saudáveis no Xingu. Mas um olhar mais apurado mostrou que saúde vai além da ausência de doenças, afirma o médico sanitarista Douglas Rodrigues, coordenador do Projeto Xingu e que acompanha as condições de saúde dos Panará e de outras etnias há mais de quatro décadas.

“Desde que chegaram ao Xingu, eu conversava com eles e ouvia a mesma coisa: ‘Aqui é ruim, aqui não tem castanha…’ Eu não entendia muito bem e temia que voltassem a pegar malária e tuberculose”, conta o médico, na sede do projeto, na zona sul de São Paulo, em uma sala com arte indígena e memórias registradas em aldeias Brasil afora. “No minuto em que eu pisei em Nãsepotiti, compreendi tudo. Para eles, não tem saúde sem território. Não é só curar doença – é viver bem. Envolve a família, as relações, os rituais, a terra.” Para provar que estavam certos em voltar, os Panará não paravam de levar comida a Douglas. “Um chegava e falava: ‘Já tinha comido batata-doce no Xingu? Lá não tinha!’. Logo vinha outro me dando açaí.”

O VIVER BEM DOS PANARÁ
Na terra original, os Panará habitavam uma área vasta. No Xingu, eles não podiam sair do limite do parque nem conseguiam colher os frutos e as castanhas com os quais estavam habituados. Também não dava para caçar e pescar como haviam aprendido. “Os Panará não sabiam pescar com anzóis e linha e desconheciam a construção e o manejo de canoas”, explica Douglas em sua tese de doutorado “Saúde e doença entre os Panará, Povo Indígena Amazônico de contato recente, 1975-2007”.

Longe da mata em que seus ancestrais cresceram, eles também perderam os remédios da floresta. E passaram anos sem pajés, já que os anciãos haviam sido mortos ou eram desvalorizados na tribo, por alguns os culparem pelos “feitiços” que quase os dizimou. “Ficar sem pajé é ruim porque isso os deixa à mercê da medicina dos brancos, que muitas vezes não é o ideal para eles”, diz Douglas. “No Xingu, os Panará tinham de recorrer a pajés de uma etnia diferente – outro cenário longe de ser adequado.”

Maria Fernanda Ribeiro/Believe.EarthImagem de uma jovem mulher indígena, com cabelos longos e negros, com franja, segurando um bebê indígena no colo. Ela olha para a câmera, sem sorrir. O bebê é gordinho, tem as bochechas pintadas de preto, e usa pulseiras com miçangas amarelas.

SABEDORIA ANCESTRAL
O retorno à terra resgatou a autonomia do povo e os levou de volta às suas tradições. Os anciãos fazem coro para reafirmar que é da terra boa para plantar, dos rios ricos em peixes e da mata abundante para a caça que vem a saúde dos Panará. E a fertilidade. A comunidade que retornou com 178 indígenas tem, duas décadas depois, mais de 600 pessoas. O número impressiona, já que o índice de mortalidade infantil indígena, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é mais que o dobro do que entre os não-indígenas. De acordo com o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), a mortalidade infantil indígena cresceu mais de 20% no país de 2015 para 2016.

Maria Fernanda Ribeiro/Believe.EarthUma menina indígena, usando vestido estampado colorido, segura uma espiga de milho com a mão direita, e a mostra para a câmera enquanto sorri. A outra mão segura uma espiga de milho perto de uma pequena fogueira. Ela está dentro de uma casa com paredes de palha, móveis simples de madeira (mesa, banco) e algumas pedras

Nãsepotiti tem um posto de saúde com remédios e médico e enfermeira ou técnico de enfermagem, que podem chamar resgate aéreo em casos graves. Mas a fórmula de saúde e bem-estar dos Panará engloba outros fatores. Enquanto amamenta a filha de poucos meses e chama atenção do filho que faz graça para a câmera, a jovem Tutiti revela um dos segredos do crescimento de seu povo: a alimentação das grávidas. “Nas duas vezes em que fiquei grávida, comia muito peixe pequeno, que são os que o cheiro é mais fraco e por isso não dão enjoo”, afirma. Para a parteira Kreenpy, as grávidas têm de comer muito mel e frutas nativas. “Lá no Xingu tinha pouca. Mas aqui, como a terra é boa, a roça dá muita coisa.”

Mariana Della Barba/Believe.EarthFoto tirada de cima onde aparecem várias espigas de milho em cima de um pano verde; ao lado, uma bacia com um ralador apoiado, onde aparece um pouco do milho já moído.

O médico Douglas Rodrigues diz ser importante respeitar e preservar os conhecimentos indígenas. “Quando eu vou até eles, ouço muito sobre se a caça rendeu, como foi a pesca, as condições do roçado”, diz. “Tenho atenção para não atropelar os cuidados tradicionais. Depressão, por exemplo, costuma ser muito bem equacionada pela medicina indígena, ao passo que a nossa usa psicotrópicos e nem sempre funciona adequadamente.”

André Villas Bôas/ISAImagem aérea de uma floresta muito fechada, onde há alguns espaços abertos onde aparecem plantações circulares

Para ele, é fundamental que os profissionais que trabalham com os Panará – ou outros povos – mantenham uma intervenção mínima. “Um passo além e você cria dependência, e isso tira a autonomia”, afirma. E, para os Panarás, autonomia vale mais que remédio.

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Último rinoceronte-branco do norte macho morre no Quênia.

Ver neste site:

http://www.pensarprimata.com.br/pensar-primata/rinoceronte-a-agonia-de-um-magnifico-fossil-vivo-na-extincao-em-massa-das-especies/

Do G1

O último rinoceronte-branco do norte macho morreu no Quênia aos 45 anos, anunciou a equipe responsável por sua segurança, o que deixa duas fêmeas como únicas sobreviventes da subespécie.

O rinoceronte, chamado Sudan, sofria havia muito tempo de complicações de saúde por sua idade avançada e, após um agravamento considerável de seu estado, “a equipe veterinária tomou a decisão de praticar a eutanásia”, informou em um comunicado a direção da reserva natural Ol Peteja, do Quênia, onde o animal vivia.

Quando Sudan nasceu em 1973, em Shambe, no Sudão do Sul, havia quase 700 exemplares vivos. Em tese, a morte de Sudan significa a extinção dessa subespécie de rinoceronte.

Os cientistas coletaram, porém, seu material genético e estão tentando desenvolver técnicas de fertilização in vitro para preservar a subespécie.

Uma espécie caçada

Sudan viveu os últimos anos de sua vida em uma reserva de 36.400 hectares no centro do Quênia, ao lado das duas rinocerontes fêmeas desta subespécie, protegido dos caçadores por guardas armados.

“Em Ol Pejeta estamos tristes com a morte do Sudan. Era um grande embaixador de sua espécie e será recordado porque serviu para alertar em nível global sobre a situação que os rinocerontes enfrentam, mas também as muitas milhares de outras espécies ameaçadas de extinção como resultado da insustentável atividade humana”, afirmou o diretor do Ol Pejeta, Richard Vigne.

Os rinocerontes têm poucos predadores na natureza por seu tamanho.

Mas a população de rinocerontes brancos do norte foi dizimada em Uganda, na República Centro-Africana, no Sudão e no Chade em consequência da caça dos anos 1970 e 1980, estimulada pela demanda de chifres de rinoceronte para a medicina tradicional chinesa na Ásia e para alças de punhal no Iêmen.

Uma última manada selvagem (20 a 30 rinocerontes) na República Democrática do Congo morreu nos combates registrados neste país no fim dos anos 1990.

Em 2008, o rinoceronte branco do norte foi considerado extinto em estado selvagem.

Os rinocerontes estão no planeta há 26 milhões de anos. Em meados do século 19, sua população era de quase um milhão na África. Em 2011, o rinoceronte negro ocidental foi considerado extinto.

Sudan evitou a morte em estado selvagem quando foi capturado no Sudão do Sul, ao lado de outros seis exemplares, e enviado na década de 1970 para o zoológico de Dvur Kralove na então Tchecoslováquia.

Este zoológico na região central da atual República Tcheca é o único lugar do mundo onde aconteceu uma reprodução em cativeiro.

Popular no Tinder

As últimas duas fêmeas desta subespécie ainda vivas em Ol Pejeta, Navin e Fatu, nasceram em Dvur Kralove.

O último nascimento, o de Fatu, aconteceu em 29 de junho de 2000.

Em 2009, quatro rinocerontes férteis, dois machos e duas fêmeas, foram transportados do zoológico de Dvur Kralove, na República Tcheca, para a reserva de Ol Pejeta no Quênia com a esperança de que as condições similares a seu hábitat natural permitissem a procriação.

Os especialistas tchecos e quenianos esperavam que o nível de hormônios das fêmeas retornasse ao normal em um hábitat natural.

As tentativas de procriação não deram resultado.

“Sudan teve uma vida excepcionalmente memorável”, afirmou o zoológico tcheco nesta terça-feira em um comunicado.

Sudan teve duas filhas quando estava no zoológico tcheco: Najin, 28 anos, e Fatu, 17.

“Foi um animal excepcional, incrivelmente gentil. Nunca manifestou nenhum sinal de agressividade, era muito obediente”, recordou o tratador em Dvur Kralove, Jan Zdarek.

Sudan ficou famoso em 2017 quando teve um perfil registrado no aplicativo de encontros Tinder, como parte de uma campanha para arrecadar recursos para desenvolver técnicas de fecundação in vitro para preservar espécies.

O zoológico tcheco informou que amostras foram retiradas na segunda-feira do material genético de Sudan.

O outro rinoceronte macho, Suni, morreu por causas naturais em outubro de 2014.