Rio Paracatu, maior afluente do São Francisco, agoniza em Minas Gerais.

Onde deveria haver água, há muita pedra e poeira. A estiagem aumenta a aflição de criadores e agricultores que dependem do rio para tocar a vida.

O Rio Paracatu, principal afluente do São Francisco, agoniza no noroeste de Minas Gerais. Onde deveria haver água, hoje se vê muita pedra e poeira. A seca e o descaso aumentaram a aflição de criadores e agricultores que dependem do rio para tocar a vida.

O Rio Paracatu, no noroeste de Minas Gerais, o principal afluente do São Francisco está quase sem água. Há quatro meses não chove forte na região. O nível está tão baixo que há mais ou menos dois meses, em alguns trechos é impossível navegar, porque o motor dos barcos pega na areia do fundo. No leito do rio é possível caminhar tranquilamente com água na altura do joelho.

Gerente de um clube de pesca da região, Cristiano Erig, trabalha no local há 20 anos. No álbum de fotos dele, uma lembrança: o rio com fartura de água, cheio de pescadores e muitos surubins e dourados. “É muita tristeza, porque a gente conhece o rio há muitos anos, sempre com muita água. Agora, a gente vê só praia, praia”, declara.

 

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No Instituto Nacional de Meteorologia, em Brasília, o meteorologista Mamedes Luiz Mello, explica que a região das nascentes do Rio Paracatu recebeu pouca chuva nos últimos três anos. A média histórica é 1.300 milímetros, mas na última temporada foram só 848 milímetros. “Não chovendo na nascente, consequentemente na frente o rio vai sofrer com isso, se seus afluentes também já estão sofrendo com a falta de chuva”, explica.

O Rio Paracatu nasce no município de Lagamar, no oeste de Minas Gerais. Tem 485 quilômetros de extensão e desagua no Rio São Francisco, entre as cidades de Santa Fé de Minas e Buritizeiro.

O produtor Miguel Rodrigues Pereira vive em um sítio no município de Paracatu. Em 12 hectares, ele cria 68 vacas. No local, passava o córrego São Domingos que faz parte da bacia do Paracatu. Há dois meses o córrego secou.

A lagoa que ficava no meio do sítio também não resistiu. Água para o gado, só de uma poça lamacenta. A mulher de Miguel, dona Nívea, já pensa em deixar a terra onde nasceu e criou a família.

“Se um sítio não tem água, como que a gente vai residir aqui? Como a gente vai plantar? Como a gente vai criar os animais? Não tem como criar galinha, porco, uma vaca um cavalo, porque não tem água para beber”, lamenta Nívea Conceição Gonçalves Pereira, 68 anos.
No assentamento Buriti da Conquista, o produtor Luiz Alberto Rabelo de Sá cria 18 vacas em 40 hectares. Ele tirava ele 130 litros de leite por dia, mas a vereda secou e agora, enfrenta prejuízo. “Não tem retorno nenhum, o retorno vai tudo pro gado”, diz.

Luis conta que há dois anos não chove direito no sítio. O pasto acabou há muito tempo e que para enfrentar o período de estiagem ele gastou tudo que tinha e comprou uma silagem de milho. A quantidade não é para manter a produção de leite e sim para evitar que os animais morram de fome.

Duas vacas ficaram tão fracas por falta de alimento que atolaram no que restou das veredas e não conseguiram mais levantar.

Prejuízos para os pequenos e também para os grandes produtores. A estimativa é de que cerca de 30 mil hectares deixaram de ser plantados na região de Paracatu em junho e julho, a safra irrigada. Em uma propriedade aqui, por exemplo, de 90 hectares, por falta de água o pivô está parado e o solo nessa época que deveria ter feijão pronto para colher está seco, sem nada.

O produtor Adson Roberto Ribeiro faz parte de uma associação com outros 20 agricultores. Eles captam água para irrigação no rio São Pedro, que também abastece o rio Paracatu. Assim que perceberam que o volume de água baixou, desligaram os pivôs. “Nossa esperança é que chuvas se regularizem e que essa gestão de água se estenda não só nessa bacia, mas também em outras bacias, que o pessoal monitore as vazões dos rios, se programem para plantar, de modo que a gente tenha uma agricultura sustentável”, declara.

Mas nem todos os produtores da bacia do Paracatu deixaram de bombear a água dos rios. Várias propriedades continuam irrigando as lavouras.

A secretaria de Meio Ambiente do estado de Minas Gerais informou que nos últimos dois meses foram registradas 41 infrações e aplicados quase 300 mil reais em multas. A maior parte por captação de água acima do permitido. Nenhuma das multas foi paga, ainda cabe recurso.

O engenheiro florestal Nivaldo Monteiro, explica que os rios estão secando não só por por causa da seca dos últimos anos. “A infiltração de água no solo depende imensamente, ou da vegetação ou da utilização do solo com práticas de conservação de solo e água, que possam potencializar e compensar a recarga hídrica, mesmo com a retirada da vegetação”, esclarece o engenheiro florestal.

Para enfrentar a crise hídrica, a bacia do rio Paracatu conta com algumas ONGs, como a Movimento Verde Paracatu, do biólogo Antonio Vieira. Ele luta há trinta anos contra o desmatamento do cerrado nas nascentes da bacia. “O rio Paracatu é o maior afluente do São Francisco. Contribui com 26% da água do rio São Francisco. Então, a bacia do rio Paracatu estando nessa situação, reflete tranquilamente lá embaixo no São Francisco. A região vai penar muito, porque sem água do rio Paracatu, a região fica totalmente comprometida com seus empreendimentos, grandes, pequenos e médios. Com isso, a sociedade vai sentir o peso de você ter um rio morto, numa região que depende imensamente dele”, alerta Antônio Eustáquio Vieira, biólogo.

Em toda a bacia do rio Paracatu, vivem quase três milhões de pessoas, mas como ele é o principal afluente do São Francisco, suas águas ganham importância para as comunidades mineiras e nordestinas banhadas pelo Velho Chico.

https://globoplay.globo.com/v/6185016/

“O Cerrado está extinto e isso leva ao fim dos rios e dos reservatórios de água”

No Jornal Opção

Uma das maiores autoridades sobre o tema, professor da PUC Goiás diz que destruição do bioma é irreversível e que isso compromete o abastecimento potável em todo o País 

Por Elder Dias 

Uma ilha ambiental em meio à metrópole está no Campus 2 da Pon­tifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás). É lá o local onde Altair Sales Barbosa idealizou e realizou uma obra que se tornou ponto turístico da capital: o Memorial do Cerrado, eleito em 2008 o local mais bonito de Goiânia e um dos projetos do Instituto do Trópico Subúmido (ITS), dirigido pelo professor.

Foi lá que Altair, um dos mais profundos conhecedores do bioma Cerrado, recebeu a equipe do Jornal Opção. Como professor e pesquisador, tem graduação em Antropologia pela Universidade Católica do Chile e doutorado em Arqueologia Pré-Histórica pelo Museu Nacional de História Natural, em Washington (EUA). Mais do que isso, tem vivência do conhecimento que conduz.

É justamente pela força da ciência que ele dá a notícia que não queria: na prática o Cerrado já está extinto como bioma. E, como reza o dito popular, notícia ruim não vem sozinha, antes de recuperar o fôlego para absorver o impacto de habitar um ecossistema que já não existe, outra afirmação produz perplexidade: a devastação do Cer­rado vai produzir também o desaparecimento dos reservatórios de água, localizados no Cerrado, o que já vem ocorrendo — a crise de a­bastecimento em São Paulo foi só o início do problema. Os sinais dos tempos indicam já o começo do período sombrio: “Enquanto se es­tá na fartura, você é capaz de re­partir um copo d’água com o ir­mão; mas, no dia da penúria, ninguém repartirá”, sentencia o professor.

“Memorial do Cerrado” – o nome deste espaço de preservação criado pelo sr. aqui no Campus 2 da PUC Goiás, é uma expressão pomposa. Mas, tendo em vista o que vivemos hoje, é algo quase que tristemente profético. O Cerrado está mesmo em vias de extinção?
Para entender isso é preciso primeiramente entender o que é o Cerrado. Dos ambientes recentes do planeta Terra, o Cerrado é o mais antigo. A história recente da Terra começou há 70 milhões de anos, quando a vida foi extinta em mais de 99%. A partir de então, o planeta começou a se refazer novamente. Os primeiros sinais de vida, principalmente de vegetação, que ressurgem na Terra se deram no que hoje constitui o Cerrado. Por­tanto, vivemos aqui no local onde houve as formas de ambiente mais antigas da história recente do planeta, principalmente se levarmos em consideração as formações vegetais. No mínimo, o Cerrado começou há 65 milhões de anos e se concretizou há 40 milhões de anos.

O Cerrado é um tipo de am­biente em que vários elementos vi­vem intimamente interligados uns aos outros. A vegetação depende do solo, que é oligotrófico [com nível muito baixo de nutrientes]; o solo depende de um tipo de clima especial, que é o tropical subúmido com duas estações, uma seca e outra chuvosa. Vários outros fatores, incluindo o fogo, influenciaram na formação do bioma – o fogo é um elemento extremamente importante porque é ele que quebra a dormência da maioria das plantas com sementes que existem no Cerrado.

Assim, é um ambiente que de­pen­de de vários elementos. Isso significa que já chegou em seu clímax evolutivo. Ou seja, uma vez degradado não vai mais se recuperar na plenitude de sua biodiversidade. Por isso é que falamos que o Cerrado é uma matriz ambiental que já se encontra em vias de extinção.

Por que o sr. é tão taxativo?
Uma comunidade vegetal é medida não por um determinado tipo de planta ou outro, mas, sim, por comunidades e populações de plantas. E já não se encontram mais populações de plantas nativas do Cerrado. Podemos encontrar uma ou outra espécie isolada, mas encontrar essas populações é algo praticamente impossível.

Outra questão: o solo do Cerrado foi degradado por meio da ocupação intensiva. Retiraram a gramínea nativa para a implantação de espécies exóticas, vindas da África e da Austrália. A introdução dessas gramíneas, para o pastoreio, modificou radicalmente a estrutura do solo. Isso significa que naquele solo, já modificado, a maioria das plantas não conseguirá brotar mais.

Como se não bastasse tudo isso, o Cerrado foi incluído na política de ex­pansão econômica brasileira co­mo fronteira de expansão. É uma á­rea fácil de trabalhar, em um planalto, sem grandes modificações geomorfológicas e com estações bem definidas. Junte-se a isso toda a tecnologia que hoje há para correção do solo. É possível tirar a acidez do solo utilizando o calcário; aumentar a fertilidade, usando adubos. Com isso, altera-se a qualidade do solo, mas se afetam os lençóis subterrâneos e, sem a vegetação nativa, a água não pode mais infiltrar na terra.

Onde há pastagens e cultivo, então, o Cerrado está inviabilizado para sempre, é isso?
Onde houve modificação do solo a vegetação do Cerrado não brota mais. O solo do Cerrado é oligotrófico, carente de nutrientes básicos. Quando o agricultor e o pecuarista enriquecem esse solo, melhorando sua qualidade, isso é bom para outros tipos de planta, mas não para as do Cerrado. Por causa disso, não há mais como recuperar o ambiente original, em termos de vegetação e de solo.

Mas o mais importante de tudo isso é que as águas que brotam do Cerrado são as mesmas águas que alimentam as grandes bacias do continente sul-americano. É daqui que saem as nascentes da maioria dessas bacias. Esses rios todos nascem de aquíferos. Um aquífero tem sua área de recarga e sua área de descarga. Ao local onde ele brota, formando uma nascente, chamamos de área de descarga. Como ele se recarrega? Nas partes planas, com a água das chuvas, que é absorvida pela vegetação nativa do Cerrado. Essa vegetação tem plantas que ficam com um terço de sua estrutura exposta, acima do solo, e dois terços no subsolo. Isso evidencia um sistema radicular [de raízes] extremamente complexo. Assim, quando a chuva cai, esse sistema radicular absorve a água e alimenta o lençol freático, que vai alimentar o lençol artesiano, que são os aquíferos.

Quando se retira a vegetação na­tiva dos chapadões, trocando-a por outro tipo, alterou-se o ambiente. Ocorre que essa vegetação introduzida – por exemplo, a soja ou o al­go­dão ou qualquer outro tipo de cul­tura para a produção de grãos – tem uma raiz extremamente superficial. Então, quando as chuvas caem, a água não infiltra como deveria. Com o passar dos tempos, o nível dos lençóis vai diminuindo, afetando o nível dos aquíferos, que fica menor a cada ano.

Qual é a consequência imediata desse quadro?
Em média, dez pequenos rios do Cerrado desaparecem a cada ano. Esses riozinhos são alimentadores de rios maiores, que, por causa disso, também têm sua vazão diminuída e não alimentam reservatórios e outros rios, de que são afluentes. Assim, o rio que forma a bacia também vê seu volume diminuindo, já que não é abastecido de forma suficiente. Com o passar do tempo, as águas vão desaparecendo da área do Cerrado. A água, então, é outro elemento importante do bioma que vai se extinguindo.

Hoje, usa-se ainda a agricultura irrigada porque há uma pequena reserva nos aquíferos. Mas, daqui a cinco anos, não haverá mais essa pequena reserva. Estamos colhendo os frutos da ocupação desenfreada que o agronegócio impôs ao Cerrado a partir dos anos 1970: entraram nas áreas de recarga dos aquíferos e, quando vêm as chuvas, as águas não conseguem infiltrar como antes e, como consequência, o nível desses aquíferos vai caindo a cada ano. Vai chegar um tempo, não muito distante, em que não haverá mais água para alimentar os rios. Então, esses rios vão desaparecer.

Por isso, falamos que o Cerrado é um ambiente em extinção: não existem mais comunidades vegetais de formas intactas; não existem mais comunidades de animais – grande parte da fauna já foi extinta ou está em processo de extinção; os insetos e animais polinizadores já foram, na maioria, extintos também; por consequência, as plantas não dão mais frutos por não serem polinizadas, o que as leva à extinção também. Por fim, a água, fator primordial para o equilíbrio de todo esse ecossistema, está em menor quantidade a cada ano.

Como é a situação desses aquíferos atualmente?
Há três grandes aquíferos na região do Cerrado: o Bambuí, que se formou de 1 bilhão de anos a 800 milhões de anos antes do momento presente; os outros dois são divisões do Aquífero Guarani, que está associado ao Arenito Botucatu e ao Arenito Bauru que começou a se formar há 70 milhões de anos. O Guarani alimenta toda a Bacia do Rio Paraná: a maior parte dos rios de São Paulo, de Mato Grosso, de Mato Grosso do Sul – incluindo o Pantanal Mato-Grossense – e grande parte dos rios de Goiás que correm para o Paranaíba, como o Meia Ponte. Toda essa bacia depende do Aquífero Guarani, que já chegou em seu nível de base e está alimentando insuficientemente os rios que dependem dele. Por isso, os rios da Bacia do Paraná diminuem sua vazão a cada ano que passa.

Então, podemos ter nisso a explicação para a crise da água em São Paulo?
Exato. Como medida de urgência, já estão perfurando o Arenito Bauru – que é mais profundo que o Botucatu, já insuficiente –, tentando retirar pequenas reservas de água para alimentar o sistema Cantareira [o mais afetado pela escassez e que abastece a capital paulista]. Mesmo se chover em grande quantidade, isso não será suficiente para que os rios juntem água suficiente para esse reservatório.

Assim como ocorre no Can­tareira, outros reservatórios espalhados pela região do Cerrado – Sobradinho, Serra da Mesa e outros – vão passar pelo mesmo problema. Isso porque o processo de sedimentação no fundo do lago de um reservatório é um processo lento. Os sedimentos vão formando argila, que é uma rocha impermeável. Então, a água daquele lago não vai alimentar os aquíferos. Mesmo tendo muita quantidade de água superficial, ela não consegue penetrar no solo para alimentar os aquíferos. Se não for usada no consumo, ela vai simplesmente evaporar e vai cair em outro lugar, levada pelas correntes aéreas. Isso é outro motivo pelo qual os aquíferos não conseguem recuperar seu nível, porque não recebem água.

Geologicamente sendo o mais antigo, seria natural que o Cerrado fosse o primeiro bioma a desaparecer. Mas isso em escala geológica, de milhões de anos. Mas, pelo que o sr. diz, a antropização [ação humana no ambiente] multiplicou em muitíssimas vezes esse processo de extinção.

Sim. Até meados dos anos 1950, tínhamos o Cerrado praticamente intacto no Centro-Oeste brasileiro. Desde então, com a implantação de infraestrutura viária básica, com a construção de grandes cidades, como Brasília, criou-se um conjunto que modificou radicalmente o ambiente. A partir de 1970, quando as grandes multinacionais da agroindústria se apossaram dos ambientes do Cerrado para grandes monoculturas, aí começa o processo de finalização desse bioma. Ou seja, o homem sendo responsável pelo fim desse ambiente que é precioso para a história do planeta Terra.

Em que o Cerrado é tão precioso?
De todas as formas de vegetação que existem, o Cerrado é a que mais limpa a atmosfera. Isso ocorre porque ele se alimenta basicamente do gás carbônico que está no ar, porque seu solo é oligotrófico.

Diz-se que o Cerrado é o contrário da Amazônia: uma floresta invertida, em confirmação à definição que o sr. deu sobre o fato de dois terços de cada planta do Cerrado estarem debaixo da terra. Ou seja, a destruição do Cerrado é muito mais séria do que alcança a nossa visão com o avanço da fronteira agrícola. É uma devastação muito maior, porque também ocorre longe dos olhos, subterrânea.

Isso faz sentido, porque, na parte subterrânea, além do sequestro de carbono está armazenada a água, sem a qual não prospera nenhuma atividade econômica. A Amazônia terminou de ser formada há apenas 3 mil anos, um processo que começou há 11 mil anos, com o fim da glaciação no Hemisfério Norte. A configuração que tem hoje existe na plenitude só há 3 mil anos. A Mata Atlântica tem 7 mil anos. São ambientes que, se degradados, é possível recuperá-los, porque são novos, estão em formação ainda.

Já com o Cerrado isso é impossível, porque suas árvores já atingiram alto grau de especialização. Tanto que o processo de quebra da dormência de determinadas sementes são extremamente sofisticados. Uma semente de araticum, por exemplo, só pode ter sua dormência quebrada no intestino delgado de um canídeo nativo do Cerrado – um lobo guará, uma raposa. Como esses animais estão em extinção, fica cada vez mais difícil quebrar a dormência de um araticum, que é uma anonácea [família de plantas que inclui também a graviola e a ata (fruta-do-conde), entre outras].

As abelhas europeias e africanas são recentes, foram introduzidas no século passado. O professor Warwick Kerr, que introduziu a abelha africana no Brasil, na década de 1950, ainda é vivo e atua na Universidade Federal de Uber­lândia (UFU). São boas produtoras de mel, mas não estão adaptadas para fazer a polinização das plantas do Cerrado. As abelhas nativas do Cerrado, que não tem ferrão e são chamadas de meliponinas – jataí, mandaçaia, uruçu – eram os maiores agentes polinizadores naturais, juntamente com os insetos, em função de sua anatomia. Hoje estão praticamente extintas, como esses insetos, pelo uso de herbicidas e outros tipos de veneno, que combatiam pragas de vegetações exóticas em lavouras e pastagens. Quando se utiliza o pesticida para extinguir essas pragas também se mata o inseto nativo, que é polinizador das plantas do Cerrado. Por isso, se encontram muitas plantas nativas sem fruto, por não terem sido polinizadas.

A flora do Cerrado é geralmente desprezada. O que ela representa, de fato?
Nós vivemos em meio à mais diversificada flora do planeta. O Cerrado contém a maior biodiversidade florística. Isso não está na Amazônia, nem na Mata Atlântica, nem em uma savana africana ou em uma savana australiana. Nem qualquer outro ambiente da Terra. São 12.365 plantas catalogadas no Cerrado. Só as que conhecemos. A cada expedição que fazemos, cada vez que vamos a campo, pelo menos 50 novas espécies são descobertas. Dessas 12.365 plantas conhecidas, somos capazes de multiplicar em viveiro apenas 180. Isso é cerca de 1,5% do total, quase nada em relação a esse universo. E só conseguimos fazer mudas de plantas arbóreas.

Para as demais, que são extremamente importantes para o equilíbrio ecológico, para o sequestro de carbono e para a captação de água, não temos tecnologia para fazer mudas. Por exemplo, o capim-barba-de-bode, a canela-de-ema, a arnica, o tucum-rasteiro, esses dois últimos com raízes extremamente complexas. Se tirarmos um tucum-rasteiro, que está no máximo 40 centímetros acima do nível do solo, e olharmos seu tronco, vamos encontrar milhares ou até milhões de raízes grudados naquele tronco. Se tirarmos um pedaço pequeno dessas raízes e levarmos ao microscópio, veremos centenas de radículas que saem delas. Uma pequena plantinha com um sistema radicular extremamente complexo, que retém a água e alimenta os diversos ambientes do Cerrado. É algo que não se consegue reproduzir em viveiro, porque não há tecnologia. O que conseguimos é em relação a algumas plantas arbóreas.

Outro aspecto que indica que o Cerrado já entrou em vias de extinção é que as plantas do Cerrado são de crescimento muito lento. Uma canela-de-ema atinge a idade adulta com mil anos de idade. O capim-barba-de-bode fica adulto com 600 anos. Um buriti atinge 30 metros de altura com 500 anos. Nossas veredas – que existiam em abundância até pouco tempo – eram compostas de plantas “nenês” quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil, estavam nascendo naquela época e sua planta mais comum, o buriti, está hoje com 25 metros, 30 metros.

“Tragédia urbana começa com drama no campo”

Fernando Leite / Jornal Opção
Fernando Leite / Jornal Opção

Mas a tecnologia e a biotecnologia não fornecem nenhuma alternativa para mudar esse quadro?
Para se ter ideia da complexidade, vamos tomar o caso do buriti, que só pode ser plantado em uma lama turfosa, cheia de turfa, com muita umidade. Se o solo estiver seco, o buriti não vai vingar ali. Mas, mesmo se conseguíssemos plantar – o que é difícil, porque não existe mais o solo apropriado –, aquele buriti só atingiria a idade adulta e dar frutos depois de muitos séculos. Então, não tem como tentar dizer que se pode usar técnicas para revitalizar o Cerrado. Isso é praticamente impossível.

A interface do Cerrado, para falar em uma linguagem moderna, não é amigável para o uso da tecnologia conhecida. Não tem como acelerar o crescimento de um buriti como se faz com a soja.
Não dá para fazer isso, até porque as plantas do Cerrado convivem com uma porção de outros elementos que, para outras plantas, seriam nocivos. Por exemplo, certos fungos convivem em simbiose com espécies do Cerrado. Um simples fungo pode impedir a biotecnologia. Seria possível desenvolver, por meio de tecidos, tal planta em laboratório. Mas sem aquele fungo a planta não sobrevive. E com o fungo, mas em laboratório, ela também não se desenvolve. Ou seja, é algo extremamente complicado, mais do que podemos imaginar.

Mesmo que os mais pragmáticos menosprezem a importância de um determinado animal ou uma “plantinha” em relação a uma obra portentosa, como uma hidrelétrica, há algo que está sob ameaça com o fim do Cerrado, como a água. Isso é algo básico para todos. A contradição é que o Cerrado – assim como a caatinga e os pampas – não são ainda patrimônio nacional, ao contrário da Mata Atlântica, o Pantanal e a Amazônia. Há uma lei, a PEC 115/95 [proposta de emenda constitucional], de autoria do então deputado Pedro Wilson (PT-GO), que pede essa isonomia há quase 20 anos. Essa lei ajudaria alguma coisa?
Na prática, não poderia ajudar mais em nada, porque o que tinha de ser ocupado do Cerrado já foi. O bioma já chegou em seu limiar máximo de ocupação. Mas o governo brasileiro é tão maquiavélico e inteligente que, para evitar maiores discussões, no ano passado redesenhou todo o mapa ambiental brasileiro. Dessa forma, separou o Pantanal do Cerrado – embora o primeiro seja um subsistema do segundo –, transformou-o em patrimônio nacional e a área do Cerrado já ocupada foi ignorada e incluída no plano de desenvolvimento como área de expansão da fronteira agrícola. Ou seja, o Cerrado, em sua totalidade, já foi contemplado para não ser protegido.

O que os parques nacionais poderiam agregar em uma política de subsistência do Cerrado?
Existe um manejo inadequado dos parques existentes na região do Cerrado. Esse manejo começa com o fogo, quando se cria uma brigada para evitar incêndios no Parque Nacional das Emas, por exemplo. O fogo natural é importante para a preservação do Cerrado. Ora, se se trabalha com o intuito de preservar o Cerrado é preciso conviver com o fogo; agora, se se trabalha com a visão do agrônomo, o fogo é prejudicial, porque acentua o oligotrofismo do solo. O Cerrado precisa desse solo oligotrófico, mas, se o fogo é eliminado, as condições do solo serão alteradas e a planta nativa vai deixar de existir, porque o solo vai adquirir uma melhoria e aquela planta precisa de um solo pobre. Assim, quando se barra o uso do fogo em um parque de Cerrado, o trabalho se dá não com a noção de preservação do ambiente, mas dentro da visão da agricultura. Raciocina-se como agrônomo, não como biólogo.

Outra questão nos parques é que o entorno dos parques já foi tomado por vegetações exóticas. Entre essas vegetações existe o brachiaria, que é uma gramínea extremamente invasora que, à medida que espalha suas sementes, alcança até as áreas dos parques, tomando o lugar das gramíneas nativas. No Parque Nacional das Emas já temos gramínea que não é nativa, o que faz com que haja também vegetação arbórea, de porte maior, também não nativa. Os animais, em função do isolamento do parque, não têm mais contato com áreas naturais, como os barreiros, que forneceriam a eles cálcio e sais naturais. Quando encontramos um osso de animal morto em um parque vemos que está sem calcificação completa, porque falta esse elemento, que é obtido lambendo cinzas queimadas ou visitando os barreiros, que são salinas naturais em que existe esse o elemento. Geralmente há poucos barreiros nos parques, o que torna mais difícil a sobrevivência do animal, que acaba entrando em vias de extinção, o que está acontecendo.

Não há, em nenhum parque nacional criado, aumento da vegetação nativa ou da fauna nativa. O que há é a diminuição dos caracteres nativos daquela vegetação, bem como da fauna. Isso prova que esse isolamento não trouxe benefícios. O que poderia funcionar seria se essas áreas de preservação estivessem interligadas por meio de corredores de migração faunística. Isso evitaria uma série de erros cometidos quando se delimita uma área.

Mas, pelo que o sr. diz, hoje isso seria impossível.
Praticamente impossível, por­que as matas ciliares, que de­ve­riam servir como corredores ecológicos, de migração, foram totalmente degradadas. A maioria dos rios foi ocupada, em suas margens, por ambientes urbanos, com a presença do homem, que é um elemento extremamente predatório. Mais que isso: os sistemas agrícolas implantados chegam, em alguns locais, até a margem de córregos e rios, impedindo, também, a existência desses corredores de migração.

Fica, assim, um cenário praticamente inviável. É triste falar isso , mas, na realidade, falamos baseados em dados científicos, no que observamos. Sou o amante número um do Cerrado. Gostaria que ele existisse durante milhões e milhões de anos ainda, mas infelizmente não é isso que vemos acontecer. Se, por exemplo, você observar as nascentes dos grandes rios, verá que elas ou estão secando ou estão migrando cada vez mais para áreas mais baixas. Quando isso ocorre, é sinal de que o lençol que abastece essa nascente está rebaixando.

Observe, por exemplo, o caso das nascentes do Rio São Francis­co, na Serra da Canastra; o caso das nascentes do Rio Araguaia ou do Rio Tocantins, que tem o Rio Uru em sua cabeceira mais alta. A cada dia que passa as nascentes vão descendo mais. Vai ocorrer o dia em que chegarão ao nível de base do lençol que as abastece e desaparecerão.

Ao mesmo tempo em que o­cor­re esse fenômeno, temos um au­mento rápido do consumo de água.
Há o aumento da população. Mas, além do mais, o Cerrado entrou, nos últimos anos, por um processo extremamente complicado, que chamamos de desterritorialização. O grande capital chegou às áreas do Cerrado e expulsou os posseiros que lá moravam, por meio da falsificação de documentos, da negociata com cartórios e com políticos. Com a grilagem, adquiriu milhares de hectares e tirou os moradores antigos da região. Isso desestruturou comunidades inteiras.

Isso ainda ocorre em Goiás e em diversos lugares?
Ocorreu e está ocorrendo. E o que isso provoca? O aumento das cidades. Quase não há mais cidadezinhas na região do Cerrado, elas são de médio ou grande porte, porque a população do campo, desamparada e sem terra, veio para a zona urbana. Essas pessoas vêm buscar abrigo na cidade, que oferece a eles algum tipo de serviço. Na cidade, se transformam em outro tipo de categoria social: os sem-teto. Estes vivem aqui e ali, ocupando as áreas mais periféricas da cidade. Vão ocupar planícies de inundação, beiras de córregos, entre outros ambientes desorganizados.

Um homem que vive em um ambiente assim, que nasce, é criado e compartilha dessa desorganização, terá uma mente que tende a ser desorganizada. Ou seja, ao fazer a desterritorialização trabalhamos contra a formação de pessoas sadias. Formamos pessoas transtornadas, mutiladas mentalmente, ocupando as periferias. Não existe plano diretor que dê conta de acompanhar o desenvolvimento das áreas urbanas no Brasil, porque a cada dia chegam novas famílias nessas áreas.

Crescendo em um ambiente desorganizado, sem perspectivas para o futuro, essas pessoas acabam caindo em neuroses para a fuga. A neurose mais comum desse tipo é o uso de drogas. Acabam cometendo o que chamamos de atos ilícitos, mas provocados por uma situação socioeconômica de limitação, vivendo em ambientes precários. Essas pessoas constroem sua vida nesses locais, formam famílias e passam anos ou décadas nesses locais. Só que um dia vem um fenômeno natural qualquer – como El Niño ou La Niña – que, por exemplo, acomete aquele local com uma quantidade muito maior de chuva. Então, o córrego enche e encontra, em sua área de inundação, os barracos daquela população. Aí começa a tragédia urbana, com desabrigados e mortos. Aumenta, ainda mais, o processo de sofrimento no qual estão inseridas essas populações.

Hoje vejo muitos profissionais, principalmente arquitetos, falando em mobilidade urbana. Falam em construir monotrilhos, linhas específicas para ônibus, corredores para bicicletas, mas ninguém toca na ferida: o problema não está ali, mas na desestruturação do homem do campo. Quanto mais se desestrutura o campo, mais pessoas vêm para a cidade, que não consegue absorvê-las, por mais que se implantem linhas novas, estações e bicicletários. O problema está no drama do campo, não na cidade.

Antigamente, se usava a expressão “fixação do homem no campo”. Isso parece que ficou para trás na visão dos governos.
Desistiram porque o que manda é o grande capital. Os bancos estatais se alegram com as safras recordes, fazem propaganda disso. Eles patrocinam os grandes proprietários, só que estes não têm grande quantidade de funcionários, têm uma agricultura intensiva, mecanizada. Isso não ajuda de forma alguma a manter as pessoas na zona rural.

Uma notícia grave é a extinção do Cerrado. Outra, tão ou mais grave, que – pelo que o sr. diz – já pode ser dada, é que em pouco tempo não teremos mais água. A crise da água no Brasil é uma bomba-relógio?
A extinção do Cerrado envolve também a extinção dos grandes mananciais de água do Brasil, porque as grandes bacias hidrográficas “brotam” do Cerrado. O Rio São Francisco é uma consequência do Cerrado: ele nasce em área de Cerrado e é alimentado, em sua margem esquerda, por afluentes do Cerrado: Rio Preto, que nasce em Formosa (GO); Rio Paracatu (MG); Rio Carinhanha, no Oeste da Bahia; Rio Formoso, que nasce no Jalapão (TO) e corre para o São Francisco. Se há a degradação do Cerrado, não há rios para alimentar o São Francisco. Você po­de contar no mínimo dez afluentes por ano desses grandes rios que estão desaparecendo.

Professor Altair Sales fala ao jornalista Elder Dias: “A proteção das águas tinha de ser questão de segurança nacional” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção
Professor Altair Sales fala ao jornalista Elder Dias: “A proteção das águas tinha de ser questão de segurança nacional” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Como o sr. analisa a transposição do Rio São Francisco?
É um ato muito mais político do que científico. Ela atende muito mais a interesses políticos de grandes proprietários do Nordeste na área da Caatinga, no sertão nordestino. A transposição está sendo feita em dois canais, um norte, com 750 quilômetros e outro, leste, com pouco mais de 600 quilômetros. A água é sugada da barragem de Sobradinho (BA), através de uma bomba, para abastecer esses canais, com 10 metros de profundidade e largura de 25 metros. Ao fazer essa obra, se altera toda a mecânica do São Francisco: o rio, que corria lento, passa a correr mais rapidamente, porque está tendo sua água sugada. Seus afluentes, então, também passam a seguir mais velozes. Isso acelera o processo de assoreamento e de erosão.

Consequente­mente, aceleram a morte dos afluentes. Fazer a transposição do São Francisco simplesmente é estabelecer uma data para a morte do rio, para seu desaparecimento total. Podem até atender interesses econômicos e sociais de maneira efêmera, em curto prazo, mas em dez anos acabou tudo.

E será um processo rápido, assim?
Sim, é um processo de décadas. Basta ver o Rio Meia Ponte, na altura do Setor Jaó. Onde havia uma bonita cachoeira, na antiga barragem, há só um filete d’água. O nível da água do Meia Ponte é o mesmo do Córrego Botafogo há décadas atrás. Este praticamente não existe mais, a não ser por uma nascente muito rica no Jardim Botânico, que ainda o alimenta. Mas ele só parece mesmo exis­tir quando as chuvas o en­chem rapidamente. Mas, no outro dia, ele vira novamente um filete.

Goiânia foi planejada em função também dos cursos d’água. Tendo em vista o que ocorre hoje, podemos dizer que ela é, então, o cenário de uma tragédia hidrográfica?
Eu não diria que apenas Goiânia está realmente dessa forma. Mas foi toda uma política de ocupação do centro e do interior do Brasil que motivou essa ocupação desordenada, desde a época da Fundação Brasil Central, da Expedição Roncador–Xingu, depois a construção de Goiânia e de Brasília, a divisão de Mato Grosso e a criação do Tocan­tins. Isso é fruto do capital dinâmico que transforma a realidade. Vem uma urbanização rápida de áreas de campo, aumentando as ilhas de calor e, consequentemente, pela pavimentação, impedindo que as águas das chuvas se infiltrem para alimentar os mananciais que deram origem a essas mesmas cidades. Se continuar dessa forma, com esse tipo de desordenamento, podemos prever grandes colapsos sociais e econômicos no Centro-Oeste do Brasil. E não só aqui, mas nas áreas que aqui brotam.

O que significa quase toda a área do Brasil, não?
Sim, até mesmo a Amazônia. O Rio Amazonas é alimentado por três vetores: as águas da Cordilheira dos Andes, que é um sistema de abastecimento extremamente irregular; as águas de sua margem esquerda, principalmente do Solimões, que também é irregular, em que duas estiagens longas podem expor o assoreamento, ilhas de areias – ali foi um deserto até bem pouco tempo, chamado Deserto de Óbidos. Ou seja, o Amazonas é alimentado mesmo pelos rios que nascem no Cerrado, como Teles Pires (São Manuel), Xingu, Tapajós, Madeira, Araguaia, Tocantins. Estes caem quase na foz do Amazonas, mas contribuem com grande parte de seu volume. Ou seja, temos o São Francisco, já drasticamente afetado; o Amazonas, também afetado; e a Bacia do Paraná, afetada quase da mesma forma que o São Francisco, provavelmente com período de vida muito curto.

Será um processo tão rápido assim?
Uma vez que se inicia tal processo de degradação e de diminuição drástica do nível dos lençóis, isso é irreversível. Em alguns casos duram algumas décadas; em outros, até menos do que isso. Temos exemplos clássicos no mundo de transposições de rios que não deram certo e até secaram mares inteiros. No Mar de Aral, no Leste Europeu, há navios ancorados em sal. Sua drenagem é endorreica, fechada, sem saída para o oceano. A União Soviética, na ânsia de se tornar autossuficiente na produção de algodão, fez a transposição dos dois rios que abasteciam o mar. Resultado: no prazo de uma década, as plantações não vingaram, o mar secou e uma grande quantidade de tempestades de poeira e sal afetam 30 milhões de pessoas, causando doenças respiratórias graves, incluindo o câncer.

Com nossos rios, acontecerá o mesmo processo. A diferença é que o processo de ocupação aqui foi relativamente recente, a partir dos anos 1970. São 40 e poucos anos. Ou seja: em menos de meio século, se devastou um bioma inteiro. Não acabou totalmente porque ainda há um pouco de água. Mas, quando isso acabar, imagine as convulsões sociais que ocorrerão. Enquanto se está na fartura, você é capaz de repartir um copo d’água com o irmão; mas, no dia da penúria, ninguém repartirá. Isso faz parte da natureza do ser humano, que é essencialmente egoísta. Isso está no princípio da evolução da humanidade. A Igreja Católica chama isso de “pecado original”, mas nada mais é do que o egoísmo, apossar-se de determinados bens e impedir que outros usufruam deles. Isso já levou outros povos e raças à extinção. E pode nos levar também à extinção.

Até bem pouco tempo tínhamos duas humanidades: o homem-de-neanderthal, o Homo sapiens neanderthalensis; e o Homo sapiens sapiens. Hoje podemos falar também em duas humanidades: uma humanidade subdesenvolvida, tentando soerguer em meio a um lodo movediço; e outra humanidade, que nada na opulência. A questão é que, se essa situação persistir, brevemente teremos a pós e a sub-humanidade.

É um cenário doloroso.
É doloroso, mas são os dados que a ciência mostra. Tem jeito, tem perspectiva para um futuro melhor? Possivelmente, a saída esteja na pesquisa. Mas uma pesquisa precisa de um longo tempo para que apareçam resultados positivos. E nossas universidades não incentivam a pesquisa, o que é muito triste, porque essa é a essência de uma universidade.

O sr. vê, em algum lugar do mundo, trabalhos e pesquisas pensando em um mundo mais sustentável?
Não. O que existe é muito localizado e incipiente. Não tem grande repercussão. Mas, mesmo se fossem proveitosas, jamais poderiam ser aplicadas ao Cer­rado, que é um ambiente muito peculiar. Teria de haver pesquisa dirigida especialmente para nosso bioma. Como recuperar uma nascente de Cerrado? Eu não sei dizer. Um engenheiro ambiental também não lhe dará resposta. Nenhum cientista brasileiro sabe a resposta, porque não temos pesquisas sobre isso. Talvez poderíamos ter um futuro melhor se houvesse investimentos em pesquisa.

E a educação ocupa que papel nesse contexto sombrio?
Nós, como educadores, deveríamos pensar mais nisso – e eu penso: talvez ainda seja tempo de salvar o que ainda resta, mas se não dermos uma guinada muito violenta não terá como fazer mais nada. É preciso haver real mudança de hábitos e mudar a forma de observar os bens patrimoniais do planeta e da nossa região. A água tinha de ser uma questão de segurança nacional. A vegetação nativa, da mesma forma. Os bens naturais teriam de ser tratados assim também, porque deles depende o bem-estar das futuras gerações. Mas isso só se consegue com investimento muito alto em educação, mudando mentalidade de educadores. As escolas têm de trabalhar a consciência e não apenas o conhecimento. Uma coisa é conhecer o problema; outra, é ter consciência do problema. A consciência exige um passo a mais. Exige atitude revolucionária e radical. Ou mudamos radicalmente ou plantaremos um futuro cada vez pior para as gerações que virão.

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O país da pilhagem do patrimônio público, da devastação ambiental e dos agrotóxicos.

Daniel Luis Dalberto

Os últimos anos evidenciaram uma realidade política que até então não se mostrava tão clara, consistente na demonstração do enorme poder que tem os deputados e senadores, bem como mostrando os interesses privados e às vezes escusos que são por eles patrocinados.

O impeachment da presidente Dilma e a não autorização do Congresso Nacional para que o STF prosseguisse com o processo criminal contra o presidente Temer revelaram o real tamanho do poder dos parlamentares, bem como o modo como negociam seu apoio ao Executivo, muitas vezes apenas defendendo interesses pessoais e de grupos privados em face do Estado, com pouca preocupação com a sociedade. É natural que o Congresso tenha de fato muito poder e que grupos privados tenham seus interesses lá representados, como sói acontecer em democracias avançadas. No entanto, há de se ter transparência sobre os interesses defendidos e é preciso ter em mente que mesmo o poder do parlamento ou do governo tem limites e não pode tudo.

Dentre esses limites está principalmente e acima de tudo, o interesse do povo, da coletividade, visto que cargo público, seja qual for, não pode servir de veículo de interesses meramente privados. Outro limite aos governantes de ocasião é a própria Constituição, em especial, no caso que aqui será exposto, diante de atos que atentam ao meio ambiente, que é inerente à vida e à dignidade das pessoas.

À sociedade cabe, além de votar nos seus representantes, fiscalizar e cobrar seus atos. O mandato político não é um cheque em branco. Também, diretamente, por diversos modos de participação popular, a sociedade pode e deve participar, posicionar-se e pressionar a classe política para que seus direitos e interesses sejam respeitados. Para isso, no entanto, é preciso informação sobre o que ocorre e esse, mesmo na era da informação, parece ainda ser um entrave.

Temos visto nos últimos anos, pode-se dizer que de 2010 para cá, com acirramento nos últimos 2 anos, uma série de projetos de leis manifestamente inconstitucionais e mesmo emendas constitucionais inconstitucionais por ferirem direitos e garantias individuais, implicando em vedado retrocesso ambiental e social. É o caso do novo Código Florestal, Lei 12.651/12, cuja declaração de inconstitucionalidade de vários dispositivos foi provocada pela Procuradoria-Geral da República, com julgamento pautado para o dia 13 de setembro próximo. Outro exemplo é a PEC 215, que pretende passar ao Congresso a (não) demarcação de terras indígenas, atividade que é meramente declaratória, visto que o direito originário às terras em si, é reconhecido pelas sucessivas constituições desde 1934.

Está por trás e diretamente ligado à série de retrocessos o fato de no cenário político brasileiro vir ganhando força progressiva nos últimos anos um poderoso bloco de deputados e senadores denominado Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), que conta hoje com 231 deputados e 25 senadores. O poderio político e econômico dessa Frente, também denominada de bancada ruralista, é enorme e pode ser ilustrado, além da expressiva bancada, com o seguinte dado: 1% dos proprietários de terra do país possuem metade das terras do Brasil. Com essa força, tem pautado ações do governo e imposto suas exigências, que, muitas das vezes, tem ocasionado uma rápida derrocada nos direitos consagrados na Constituição, em especial quanto à proteção ao meio ambiente e à garantia dos direitos das comunidades indígenas, construídos com muita luta pela sociedade brasileira. Veja-se a respeito alguns exemplos nessas matérias, além dos casos já citados:

https://oglobo.globo.com/brasil/governo-dara-desconto-de-ate-60-em-multas-ambientais-1-21718713

http://www.conjur.com.br/2016-mai-09/pec-652012-retrocesso-30-anos-legislacao-ambiental

http://www.dw.com/pt-br/manter-a-floresta-em-p%C3%A9-%C3%A9-custo-diz-chefe-da-bancada-ruralista/a-40148688#nomobile

https://oglobo.globo.com/brasil/propostas-do-governo-estimulam-desmatador-diz-procurador-da-republica-21781556

Assim, na contramão dos compromissos assumidos pelo Brasil no cenário internacional para conter as mudanças climáticas e, como dito, mesmo contrariando nossa Constituição, de modo preocupante, em especial para as próximas gerações, temos visto uma série de iniciativas nefastas do Legislativo e do governo. Já são comuns projetos de lei que visam à redução de Unidades de Conservação, como a Floresta Nacional de Jamanxin, criada justamente para proteger a floresta no entorno da BR163. Tal projeto, além da devastação que ocasiona na floresta amazônica, consiste ainda numa perigosa sinalização permissiva, pois premia grileiros e desmatadores criminosos, dando-lhes patrimônio que pertence à sociedade brasileira, passando uma borracha em seus ilícitos e crimes. A respeito:

http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2017/07/ambientalistas-condenam-projeto-de-lei-que-reduz-area-de-jamanxim.html

Na mesma linha e situação ainda mais grave, foi editada uma medida provisória transformada na Lei 13.465/2017, que favorece a grilagem de terras e o desmatamento, visto que que permite àquele que realizou infrações ambientais ser regularizado sem sequer vistoria do cumprimento da função ambiental do imóvel, isso, em terras amazônicas, que até ontem eram de toda a sociedade. Áreas de até 2.500 hectares podem ser regularizadas. Desse modo, um programa fundiário que deveria estar voltado a erradicar a pobreza acaba por beneficiar latifundiários.

Pela lei recentemente aprovada, o governo entrega patrimônio púbico a infratores e permite a devastação da floresta. Ao invés de combater invasões ilegais e a transformação rápida de imensas áreas de florestas preservadas em latifúndios, faz o contrário. Esses locais, ermos e distantes, abrem bolsões de pobreza e propiciam riqueza a alguns poucos, fazendo com que a sociedade brasileira, além de perder seu patrimônio, tenha de arcar com impostos para levar estradas, escolas, saúde e educação em lugares onde simplesmente não deveria morar ninguém, salvo as comunidades tradicionais, que tem relação mais harmoniosa com o meio ambiente. São áreas economicamente inviáveis porque muito distantes dos centro de consumo e cujos custos de transporte e logística desaconselham atividades econômicas que precisarão competir com locais mais apropriados a tais fins. Estudos demonstram que é possível dobrar a produção de alimentos na Amazônia sem avançar sobre a floresta. A Procuradoria-Geral da República entrou com ação direta de inconstitucionalidade dessa lei perante o STF:

http://www.mpf.mp.br/pgr/noticias-pgr/pgr-pede-inconstitucionalidade-de-lei-que-favorece-grilagem-e-desmatamento-na-amazonia

Também, tramita no Congresso Nacional a PEC 65/2012 cujo objetivo declarado é simplificar o licenciamento ambiental. Na prática, quer acabar com o licenciamento, com os estudos prévios de impacto ambiental de obras e atividades potencialmente poluidoras, visto que bastaria ao empreendedor simplesmente apresentar um estudo, pago por ele, que nenhuma obra ou atividade poderá ser suspensa ou cancelada. Pelo visto, ao invés de aprendermos com a tragédia de Mariana, vamos direto ao sentido contrário, sem escalas, rumo ao precipício. Veja-se a respeito:

https://observatorio-eco.jusbrasil.com.br/noticias/314783201/especialistas-criticam-flexibilizacao-do-licenciamento-ambiental

Por fim, não bastasse o cenário já assustador e preocupante acima rapidamente delineado, o governo, uma vez mais mancomunado com a bancada ruralista, está flexibilizando a legislação de agrotóxicos, isso, no país que é o maior mercado mundial consumidor de agrotóxicos. Assim, para satisfazer interesses econômicos de alguns, seremos ainda mais inundados de venenos cancerígenos à nossa mesa. Essencial a leitura do texto que pode ser acessado abaixo, que além de tratar da inaceitável situação da política de agrotóxicos no Brasil, desmistifica o discurso da produção de alimentos por essas grandes grandes áreas de monoculturas, bem como demonstra o quão irrisória é a arrecadação de impostos por tal atividade:

https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2017/A-Rep%C3%BAblica-Agrot%C3%B3xica-do-Brasil

Diante desse quadro assustador, urge que tenhamos consciência do sobre o que está acontecendo e tenhamos atitudes a respeito, seja pelo voto, seja pela fiscalização dos atos do governo, seja pela participação direta e por pressão nas redes sociais. Poderemos ser cobrados pelas gerações futuras por omissão nesse momento crucial, quando ainda era possível evitar a tragédia.

Finalmente.

O homem de Neandertal era evoluído demais. Tinha o cérebro tão acabado que não precisava da linguagem, mas sem a linguagem foi um fracasso social

Luis Fernando Veríssimo. Publicado no Estado de São Paulo, em 30 de julho de 2017.

O homem de Neandertal tinha uma caixa craniana maior do que a nossa e, presumivelmente, um cérebro mais desenvolvido. Mas não falava. Usava instrumentos de pedra, dominava o fogo, enterrava seus mortos e vivia em comunidades como as nossas, talvez um pouco menos selvagens. Mas não tinha uma linguagem. Só se comunicava com os outros com grunhidos e tapas no ouvido. Pela aparência, estava mais bem preparado para dominar o planeta do que nós. Além do crânio enorme, tinham ombros maiores, mais músculos e ossos mais fortes. Mas, embora tivesse todo o equipamento necessário, não falava.

Hoje, especula-se que era o cérebro que atrapalhava. A gestação da mulher de Neandertal durava mais tempo, o que significava que o cérebro já nascia pronto. E, em vez de ter a infância prolongada e protegida que literalmente faz a nossa cabeça, o guri de Neandertal recebia um tacape na saída do útero e já ia caçar. Sabe-se que o embrião reproduz, no ventre, toda a evolução da espécie e que há um momento na gestação em que nosso cérebro fica tão completo quanto o feto de Neandertal. Mas aí começa um processo de depuração, de eliminação de células e modificação de circuitos, que continua no período pós-natal, e é essa adaptação que nos permite falar. Ou seja, a linguagem é o produto de uma carência programada do cérebro e o poder da fala uma compensação pelos neurônios perdidos. O homem de Neandertal era evoluído demais. Tinha o cérebro tão acabado que não precisava da linguagem, mas sem a linguagem foi um fracasso social. Não durou nem 80 mil anos, e com aqueles ombros.

Aceitando-se a tese evolucionista, nós descendemos dos débeis mentais de Neandertal, dos que nasceram com o cérebro incompleto, dos fraquinhos que ficavam só em casa aprendendo besteira. Foi a linguagem que permitiu ao modelo seguinte dos pré-humanos se organizar, conceitualizar, trocar informações e mentir. Isto é, civilizar-se. Se você prefere a tese antievolucionista, ela diz que a Natureza sabe o que quer e seu objetivo era dar nome às coisas e uma retórica aos elementos, que antes da linguagem rugiam de frustração com a incapacidade de falar. Tudo na Natureza – os vulcões, os vendavais, os terremotos e os bichos – seria uma dificuldade de expressão.

Tentando e errando (o homem de Neandertal, alguns políticos), tudo o que a Natureza quer é que falem por ela, que sejam o poeta que ela, por mais que se esforce, não consegue ser. Mas, segundo outra tese, malvada, a internet e seu vocabulário eletrônico teriam sido inventados para, finalmente, dar uma voz aos neandertais.

Temos que aprender a ser índios.

Na Flip, Eduardo Viveiros de Castro afirma que é preciso aprender a viver no mundo sem destruí-lo e compara a situação dos índios no Mato Grosso com a dos palestinos em Gaza.

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O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro durante a mesa/ Foto Walter Craveiro

 

Temos que aprender a ser índios, antes que seja tarde. Foi essa a principal mensagem dada pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro na mesa “Tristes Trópicos”, realizada no sábado, dia 2, na Festa Literária Internacional de Paraty. Segundo o pesquisador, neste momento em que o planeta passa por uma situação de “catástrofe climática” e está sendo transformado em um “lugar irrespirável”, devemos aprender com os povos indígenas “como viver em um país sem destruí-lo, como viver em um mundo sem arrasá-lo e como ser feliz sem precisar de cartão de crédito”. “O encontro com o mundo índio nos leva para o futuro, não para o passado”, disse ele.

Viveiros de Castro dividiu a mesa com o também antropólogo Beto Ricardo, fundador do Instituto Socioambiental (ISA), e com a mediadora Eliane Brum. Em discurso afinado, os dois denunciaram a dura realidade vivida pelos índios brasileiros atualmente e disseram haver uma “campanha” em voga no Congresso para retirar os direitos que estes povos conquistaram com a Constituição de 1988. “Hoje os índios estão mais visíveis do que nunca, mas mais vulneráveis do que nunca. O Congresso tem uma maioria de proprietários de terra em uma ofensiva final contra os índios”, disse Viveiros de Castro, que também criticou o governo federal pelo trabalho quase nulo na demarcação de terras.

O antropólogo, célebre mundialmente por sua teoria do perspectivismo ameríndio, comparou a situação dos índios no Mato Grosso do Sul com a dos palestinos na Faixa de Gaza. Segundo ele, os guaranis do Estado vivem ou nas beiras de estrada ou confinados em reservas mínimas, das quais são frequentemente expulsos pelas pressões do agronegócio: “O Mato Grosso foi transformado em um nada, a custa de que se possa plantar ali soja, cana e botar gado para exportação, para alimentar os países capitalistas centrais. Devia chamar Mato Morto, ou ex-Mato”. E continuou: “Os índios estão vendo o céu cair em suas cabeças. Mas dessa vez vai ser na cabeça de nós todos.”

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O antropólogo Beto Ricardo/ Foto Walter Craveiro

Beto Ricardo criticou também a cobertura dada pela imprensa à questões como essa no País. “Quantos nomes de grupos indígenas você conseguiria pronunciar de memória? A imprensa brasileira consegue pronunciar pouquíssimos. Fala em um índio genérico”, disse ele. Ao apresentar a série de publicações intitulada Povos Indígenas no Brasil, o antropólogo aproveitou para cutucar inclusive o público: “Quem quiser não só decorar os nomes das capitais do Brasil, mas os nomes dos povos, pode ler esses livros”. “Os índios tem muito a colaborar para um país mais democrático e diverso”, concluiu.

A última intervenção de Viveiros de Castro, após as perguntas do público, foi talvez a que mais chamou atenção pela dureza e aparente pessimismo, mas foi muito aplaudida. O antropólogo disse sentir vergonha de ser brasileiro quando vê o que se fez com os povos originários dessa terra, ou ainda quando lembra que o Brasil foi o último país no mundo a abolir a escravidão (com exceção da Mauritânia). Para ele, no entanto, o sentimento de vergonha deve ser preservado, já que é também o que gera o sentimento de intimidade com o país: “Se eu fosse francês, teria vergonha do que a França fez na Argélia, na Indochina, na África. Ou seja, ser brasileiro não é especialmente vergonhoso. Ser de qualquer país é vergonhoso, porque todo país é construído em cima da destruição de povos”, explicou.

Livro de Cabeceira

No domingo, na tradicional mesa de encerramento da Flip intitulada “Livro de Cabeceira”, Viveiros de Castro esteve mais uma vez entre os participantes, e fechou com brilho sua passagem pela festa literária. Ao lado de alguns dos convidados de maior destaque do evento, como Andrew Solomon, Fernanda Torres e Juan Villoro, o antropólogo escolheu ler o trecho de um sermão de Padre Antonio Vieira em que o religioso ressaltava a dificuldade de conversão dos índios brasileiros: “Como diz o Vieira: ‘A gente dessa terra é a mais bruta, a mais ingrata, a mais inconstante, a mais avessa, a mais trabalhosa de ensinar de quantas há no mundo. Outros gentios, outros pagãos, são incrédulos até crer. Os Brasis, ainda depois de crer, continuam incrédulos.’” E Viveiros de Castro concluiu: “Ou seja, esse tema, a ideia de que os índios tem uma inconstância essencial, passou a ser uma espécie de traço definidor do caráter ameríndio, consolidando-se como um dos estereótipos do nosso imaginário nacional. A saber, o imaginário do índio mal convertido, que à primeira oportunidade manda deus, a enxada e as roupas ao diabo e retorna feliz à selva. E eu diria, para concluir, que é graças a isso que os índios continuam a salvo dos seus salvadores”.

Mundo vive sexta extinção em massa – e é pior do que parece.

Estudo alerta que planeta atravessa uma aniquilação biológica de espécies animais, o que lança perspectiva sombria sobre o futuro

O mundo está passando por uma “aniquilação biológica” de suas espécies animais, num fenômeno que já pode ser considerado uma sexta extinção em massa e que é mais grave do que parece, aponta um estudo divulgado nessa segunda-feira (10/07).

Seca no Paraguai: pesquisadores observaram que as populações de vertebrados sofreram grandes perdas

Seca no Paraguai: pesquisadores observaram que as populações de vertebrados sofreram grandes perdas

Foto: Deutsche Welle

Segundo o estudo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), há uma tendência de investidas cada vez maiores contra a biodiversidade do planeta, resultando numa perspectiva “sombria sobre o futuro da vida, inclusive humana”. O motivo, diz o estudo: “problemas ambientais globais causados pelo homem”.

“Nas últimas décadas, a perda de habitat, a superexploração de recursos, os organismos invasivos, a poluição, o uso de toxinas e, mais recentemente, as mudanças climáticas, bem como as interações entre esses fatores, levaram ao declínio catastrófico nos números e nos tamanhos das populações de espécies de vertebrados tanto comuns como raros”, afirmam, os pesquisadores.

Para a pesquisa, uma das mais completas já feitas sobre o tema, cientistas da Universidade de Stanford e da Universidade Nacional Autônoma do México utilizaram uma mostra de 27,6 mil vertebrados terrestres e uma análise detalhada de 177 espécies de mamíferos que sofreram declínio populacional entre 1900 e 2015.

Os pesquisadores observaram que as populações de vertebrados sofreram grandes perdas, inclusive entre as espécies que despertam pouca preocupação. Cerca de um terço (8.851) das espécies analisadas – o que representa quase metade das espécies de vertebrados conhecidas – apresentou declínio populacional e diminuição em termos de distribuição geográfica, mesmo aquelas que atualmente não são consideradas como sob risco de extinção.

 

PMDB só virou governo por causa da Lava Jato, diz filósofo Marcos Nobre.

por | 10 de julho de 2017

Link da postagem original: http://apublica.org/2017/07/pmdb-so-virou-governo-por-causa-da-lava-jato-diz-filosofo-marcos-nobre/

Para o filósofo, o PMDB não tem capacidade nem intenção de governar – seu objetivo é oferecer estabilidade para o governo em troca de poder; Dilma teria caído por não garantir nem recursos nem proteção judicial aos políticos do partido.

Nesta entrevista à Pública, o filósofo da Unicamp e pesquisador do Cebrap Marcos Nobre, autor do conceito de “pemedebismo” – que, para além do PMDB, explicaria o jeito de funcionar dos partidos que se ligam ao governo conferindo estabilidade em troca de poder –, afirma que o partido do presidente Michel Temer não tem capacidade para coordenar governos. “Ele tem capacidade para ser o líder do cartel de venda de apoio parlamentar. Então, por que diabos o PMDB virou governo se, obviamente, só tem consequências ruins para ele? Por causa da Lava Jato.”

Para Nobre, a operação é o fator que fez o sistema político perder o controle da política. “A Lava Jato, toda vez que a mesa se coloca sobre quatro pés, chuta um. É uma característica da operação desestabilizar permanentemente o sistema político. Para quê? Para ela poder continuar”, afirma. “Se a minha lógica estiver certa sobre a Lava Jato, no momento em que Maia virar presidente, vem o pedido para ele se tornar réu. O que não resolve o problema do ponto de vista do sistema político, que é o que importa”, avalia.

O pemedebismo vai muito além do PMDB, segundo sua tese. Mas o PMDB é a maior expressão desse modo “estabilidade em troca de poder” de funcionar do sistema político brasileiro. Qual é, dentro dessa lógica da crise política, o PMDB que está no poder?

O pemedebismo é essa maneira de estruturar a política dos políticos. A política institucional. Então, você constrói dois pequenos polos que são os que vão competir pela Presidência da República ou pelos governos do estado, prefeituras etc., e esses dois polos, no momento em que eles ganham, levam toda uma massa que está entre eles. É uma massa de partidos, grupos que estão sempre à venda. É por isso que se constrói uma lógica das supermaiorias. Então, uma pessoa pode apoiar um candidato a governador que é derrotado e, no dia seguinte, está na base de apoio do candidato que venceu.

Isso tem uma consequência importante: esses dois pequenos polos que durante 20 anos foram o PT e o PSDB têm função de coordenar toda essa massa informe, vamos dizer, de venda de apoio parlamentar.

Seriam os síndicos deste condomínio político nos últimos 20 anos? 

Isso. Qual a consequência desse modelo? É que o PMDB nunca pode tomar o poder. O PMDB não tem capacidade para coordenar governos. Ele tem capacidade para ser o líder do cartel de venda de apoio parlamentar, mas não para coordenar um governo. Então, por que diabos o PMDB virou governo se, obviamente, só tem consequências ruins para ele?

Uma das características do pemedebismo é que não importa qual é a decisão nacional do partido, estadual ou municipal, para apoiar quem for o candidato. Se você faz parte dessa massa peemedebista, você apoia quem você bem entender. Não tem nenhuma centralização partidária. Se é assim, quando você toma o governo, se cria um problema, porque obriga a tua base a te apoiar necessariamente. Então por que isso aconteceu? Por causa da Lava Jato.

O sistema político precisa de garantias. A massa peemedebista que apoia o governo, seja qual for o governo, precisa, primeiro, de acesso ao fundo público e, segundo, de defesa contra investidas da Justiça. O governo Dilma Rousseff não estava conseguindo garantir nenhuma das duas coisas. Quer dizer, tinha um acesso muito precário ao fundo público, os recursos eram cada vez mais escassos porque, diga-se o que se disser, o ajuste fiscal do primeiro ano do governo Dilma foi duríssimo. Não era um governo que demonstrava ser capaz de proteger a classe política da investida da Justiça.

Isso produziu o impeachment. Claro que para que isso acontecesse foi preciso mobilizar um sentimento de uma parte da população contra uma situação de crise, especialmente contra anos muitos seguidos de governos petistas. Mas do ponto de vista do sistema político foi um movimento de autodefesa. O problema é o seguinte: o governo Temer, de fato, entregou o que prometeu em termos de cargos. Ou seja, aquilo que existia no governo FHC, Lula e Dilma: você entrega os cargos, mas preserva algumas áreas; Saúde, não, Educação, não, Ministério do Desenvolvimento Social, não, reforma agrária, não. Isso acabou no governo Temer. Você entrega tudo. Tudo está à venda. É uma característica do PMDB, porque não consegue coordenar, então não consegue decidir quais são as áreas estratégicas que têm que ser preservadas desse troca-troca generalizado. É um governo que não tem coordenação nem é capaz de ter coordenação. A única coisa que esse governo tem de organizado é a equipe econômica, que é justamente aquela que não foi entregue para os partidos. Entregou isso, mas não entregou a proteção contra a Lava Jato. O que significa basicamente crise permanente.

Quando houve o impeachment da Dilma, você comentou em uma entrevista que isso não estancaria a crise. Ali você já tinha essa análise desse papel da Lava Jato?

É imparável. Agora, o sistema político achou que iria conseguir. Quer dizer, primeiro achou que ia conseguir fazer parar só no PT a Lava Jato. E, em segundo lugar, achou que iria conseguir parar a Lava Jato do ponto de vista do controle superior, da Polícia Federal, do Ministério Público, do sistema judiciário de maneira geral. E não conseguiu.

Se a gente for discutir Lava Jato, são muitas instâncias, muitas visões, dentro da própria operação.

Além de mais de 40 fases…

E instâncias diferentes, tanto da PF quanto do MP, do Judiciário. Então, Lava Jato é muito complicada. A visão que tem o Moro não é a mesma do Fachin, que não é a mesma do Janot, que não é a mesma do Deltan Dallagnol, que não é a mesma do Leandro Daiello, tá certo? São visões diferentes, e eles vão se acotovelando e vão vendo para que rumo pode ir.

Quando você tem uma situação como essa, você não pode falar de unidade. Na verdade, é cada um puxando para um lado, e o resultado é um pouco o resultado desses vetores. Mas tem uma coisa que a gente pode observar que é um padrão. A Lava Jato, toda vez que a mesa se coloca sobre quatro pés, chuta um. É uma característica dela desestabilizar permanentemente o sistema político. Pra quê? Para ela poder continuar.

A ideia é que, se o sistema político conseguir se estabilizar, ele mata a Lava Jato. Só que tem um problema: se o sistema político não se estabilizar, a economia não vai se estabilizar. Então nós temos um círculo, que eu não diria que é vicioso, porque não tem vício no fato de você revelar uma rede de corrupção desse tamanho e nem de combatê-la… Então, não é um círculo vicioso no sentido ruim, mas vamos dizer que uma coisa alimenta a outra. A tentativa do sistema político de retomar o controle da política…

Se a gente for resumir essa crise numa frase, é: a política perdeu o controle da política. O sistema político perdeu o controle da política. Ele não está na mão de ninguém. Ele não está na mão do Judiciário, ele não está na mão do Ministério Público, ele não está na mão do Congresso, ele não está na mão da Presidência. A política não está no controle de ninguém. Então, existe uma disputa que a cada momento vai mudando. A tática da Lava Jato é um pouco essa, de impedir que o sistema político se estabilize. O que significa retomar o controle da política? Significa retomar a capacidade de agenda, de impor uma agenda, de perseguir essa agenda com sucesso, quer dizer, o que o governo Temer tem até agora é discurso.

Segundo as pesquisas, ele não tem apoio popular. O PSDB não sabe se sai ou se fica. A esquerda brasileira não parece ter uma agenda muito clara de como atuar. O que os mantém no poder? O mercado ainda não visualizou um nome legítimo a substituí-lo? Se o mercado aceitasse o Rodrigo Maia, digamos, você acha que o Temer cairia?

Tem dois lados a pergunta. É claro que o Temer só fica porque não existe uma alternativa a ele que seja palatável para esse programa, para essa agenda política que ele não consegue implementar. Essa história tem um outro lado que é um pouco mais complicado, que não é só não ter alternativa.

O que acontece é que, quando o sistema político entrou em sistema de autodefesa, ele virou as costas para a economia. Isso daí é uma coisa muito grave. Porque o que o sistema político está dizendo é: a minha sobrevivência vem antes da sobrevivência da economia. Claro que eles não vão dizer isso, eles dizem: “Precisamos fazer reformas para a economia voltar a andar”. Mas, de fato, o que eles fizeram foi virar as costas para a economia.

Então, quando a gente fala “o mercado”, isso aí, na verdade, é um aplique do sistema político pra dizer que ele está conectado com a economia real, quando não está. E uma parte da elite econômica brasileira acreditou nisso. Claro, acreditou porque queria acreditar também. Disse: “Olha, as reformas que a gente quer não podem ser feitas por um governo democraticamente eleito. Nenhuma candidatura se elegerá com um programa desses. Então, vamos aproveitar que esse cara precisa da gente para se legitimar”. Só que, do mesmo jeito que o Temer precisa do mercado, o mercado precisa dele, mas quem tem o poder é Temer, e não o mercado.

A prioridade do Temer é sobreviver. As pessoas dizem: “Ah, o Temer agora vai passar até o final do seu mandato se defendendo…”. Mas isso foi desde o início. Não tem nenhuma diferença. Então, são as pessoas que antes diziam “não, a gente apoia o impeachment por causa do programa de reformas que virá” tentando se justificar. Quer dizer, comprou a conversa fiada quem quis.

Mas agora tem esse elemento probatório que é a denúncia do Janot. Então vai ter esse primeiro escrutínio no Congresso e, provavelmente, virão mais denúncias. A imprensa já noticiou que o Eduardo Cunha e o Lúcio Funaro vão fazer suas delações. A questão é: dentro dessa lógica dessa sustentação política, há como um presidente resistir a todo esse processo?

Veja, são várias teses que estamos discutindo aqui. O sistema político perdeu o controle da política. O sistema político entrou em modo de autodefesa. Isso significa o quê? Que ele virou as costas para a economia. Então, a gente não pode se deixar seduzir por essa história de que o governo tem apoio no mercado, entendeu? Vamos esquecer. Vamos pensar: o que um político quer? Um político quer se salvar. O que é melhor para isso? É melhor ele ter um presidente que está numa situação pior do que ele, ou ele quer uma pessoa que não tem nada a ver com isso? A resposta é óbvia.

Quando o PSDB não tomou a atitude que deveria ter tomado após a denúncia que era romper com o governo Temer e abrir pelo menos um processo interno a respeito do senador Aécio Neves; quando o PSDB, não fez isso ele acabou como partido.

Como assim acabou?

Ele cometeu suicídio político num nível assustador. E por que ele cometeu isso? Simplesmente por também estar no modo de autodefesa. A pergunta é: o que é melhor para o sistema político se autodefender? O Temer ou uma alternativa ao Temer? O Temer fica na mão do Congresso até o final do mandato. O Temer está numa situação crítica o tempo todo, ou seja, tudo que deputados e senadores querem é um presidente nesse estado porque é alguém que vai entender a situação deles melhor do que eles próprios.

Ah, tá bom, então vamos trocar pelo Rodrigo Maia. A escolha do Sérgio Zveiter como relator é decisiva para fortalecer a posição do Rodrigo Maia. São muito próximos, então uma vez mais o Rodrigo Maia está fazendo uma espécie de rédea. Dependendo de para onde for a situação ele fica com um pé em cada canoa. Apoiando o Temer ou abrindo a porta para ele ser o sucessor. Feita a troca pelo Rodrigo Maia, os deputados vão dizer: “Esse aqui é um autêntico representante nosso, esse aqui garante”. Primeiro: você cria um problema para o Senado. Primeiro racha. Segundo, Maia é investigado. Se a minha lógica estiver certa sobre a Lava Jato, no momento em que ele virar presidente, vem o pedido para ele se tornar réu. Não resolve o problema do ponto de vista do sistema político, que é o que importa.

Vamos pensar assim: Temer abre o processo no STF, ele é afastado. Assume o Rodrigo Maia, eleição indireta, e se elege alguém nessa eleição indireta que nada tem a ver com a Lava Jato. O que acontece? É o suicídio do sistema político. Por que eles não podem eleger alguém que não esteja na Lava Jato, porque não os vai defender. Não tem saída. Para o sistema político, a melhor coisa é que fique o Temer.

O que deputados e senadores estão olhando? Para uma coisa que ainda não aconteceu: o movimento de rua para derrubar o Temer. Se isso acontecer, a coisa muda. O instinto de sobrevivência tem dois lados, um lado que é “me defender da Lava Jato”; tem outro que é “para eu conseguir me defender, preciso me reeleger”.

Sobre as ruas. Quando a Dilma estava no poder, a massa que pedia sua saída era grande. Hoje você não vê as pessoas se mobilizarem da mesma maneira. Obviamente, você consegue identificar um sentimento antipetista muito grande lá naquele período, mas agora a população parece calada. Por que as pessoas não estão na rua?

Subiu a desconfiança em relação ao sistema político por causa do impeachment. Primeiro, ali foi produzida uma lógica PT-anti-PT, e tinha uma promessa que era: “tudo vai ficar bem”. E tudo piorou. Então por que a população vai aceitar uma outra lógica do a favor ou contra? Em nome do quê?

Quer dizer, ficou claro por essa experiência do impeachment – você demonizar uma parte do sistema político como sendo a responsável por tudo é só uma ilusão, foi uma farsa, foi um engodo, foi a enganação do século. Essa farsa fez com que ninguém mais fosse pra rua. Vai em nome do quê?

Uma parcela da população, sobretudo os apoiadores do impeachment, se sentiu enganada e hoje está envergonhada? 

Isso tem muito a ver. Você vai olhar, por exemplo, esses movimentos que lideraram, tipo MBL, Vem pra Rua. Eles não têm coragem de mostrar a cara na rua. Eles chamam manifestação e recuam. Eles vão dizer o quê? “Tira esse presidente agora que vai tudo melhorar.” Quer dizer, eles prometeram isso da vez passada e tudo piorou. Não tem nenhum movimento com legitimidade para chamar manifestação de rua a não ser os movimentos que foram derrotados no impeachment da Dilma.

Para você ter um movimento da amplitude que é necessária para afastar o Temer, você precisa ter alguma coisa que vá além da Lava Jato. As pessoas estão vendo a Lava Jato continuar, então elas não estão preocupadas, até agora, que a Lava Jato vai ser parada. Se acontecer isso, eu acho que a rua encheria…

Se a população identificasse, por exemplo, um acordo em andamento? 

Exato. Não só um acordão. Mas se alguém de dentro da Lava Jato chamasse. “Tão parando a Lava Jato, tão acabando com a Lava Jato.” Tipo Sergio Moro. Isso seria um movimento… No fundo, a sensação que eu tenho é que a Lava Jato virou uma espécie de substituta do movimento de rua. É como se as pessoas se sentissem representadas pela ação judicial. E como se isso fosse suficiente. Para você sair para rua de novo depois do vexame que foi o impeachment, precisa ter uma razão muito boa.

Do ponto de vista de uma manifestação comparável àquelas que nós tivemos pró e contra o impeachment, só mesmo se a Lava Jato estivesse em risco. Eu realmente acho que a Lava Jato está funcionando como uma válvula de escape para uma rejeição generalizada do sistema político.

Voltando um pouco à indicação do Sérgio Zveiter. Ele tem sido identificado como “independente” dentro do PMDB. Que ele seria do grupo do Maia, e não do Temer. E acho uma coisa complicada identificar quais são os grupos do PMDB. Quem são esses grupos?

Nesse processo todo, o Rodrigo Maia foi muito fortalecido. Ele foi fortalecido, em primeiro lugar, pela estupidez do PSDB de dizer que não faria nada sem o DEM, o que transformou o Rodrigo Maia numa figura-chave. E agora ele virou uma figura- chave porque tem todos os pedidos de impeachment na mão, e ele vai ter todas as denúncias. Ele é o cara que vai decidir esse processo. Então, o relator é dele e eles vão trabalhar juntos. O resultado desse relatório vai ser o resultado da avaliação desse grupo em torno do Maia.

Agora, os grupos dos PMDB. As coisas se desarticularam de uma maneira muito acelerada. Teve um processo de fragmentação dentro de um sistema já muito fragmentado. Então, no limite, cada deputado virou um grupo. Cada deputado tem direito a uma cota X de indicações. Claro, se você tiver uma posição dentro da mesa da Câmara, se for líder de partido, sobe a sua cota, mas todo mundo tem a sua cota. E isso é uma herança também da desarticulação do “centrão”, que era o antigo baixo clero, que recebeu upgrade quando o Cunha organizou todo mundo no “centrão”. A desarticulação do “centrão” foi também uma fragmentação que não se reorganizou dentro de partidos. Então, se vai olhar as votações, ou como se comportam os grupos, você não vê mais unidade partidária… Você vê grupos se movendo conforme a situação em torno de determinadas figuras.

Então se cristalizou um certo grupo em torno do Maia. Como se cristalizou um certo grupo do Renan Calheiros, que é um grupo diferente do anterior. Então você tem uma certa aglutinação de figuras políticas muito mais pelas posições estratégicas que elas têm do que por fronteira partidária. Então, falar em grupos dentro do PMDB, para mim, não faz o menor sentido hoje.

Na verdade, as figuras do PMDB mais importantes… Os grupos delas incluem deputados e senadores que não são do PMDB. É como se o “modelo Cunha” tivesse se espalhado por todo o sistema. O Cunha percebeu que dava para organizar o baixo clero em torno do “centrão” e que isso não tinha fronteira partidária. Das quase 600 figuras do Congresso, é como se você tivesse 20 Cunhas, que organizam cada um o seu pequeno “centrão”. São figuras que você tem que acompanhar para entender e que não têm mais a ver com partido. É um grau de fragmentação assustador, e é importante ver isso, porque em última instância o último bastião do Temer é o antigo “centrão”.

Talvez ele seja obrigado a reorganizar o “centrão” que ajudou a desmantelar para poder sobreviver. E nesse momento ele vai precisar muito do Cunha.

Trump foi eleito. Bolsonaro vai bem nas pesquisas de opinião. João Doria ganhou com o discurso do “não político”. Existe uma ascensão de candidatos de direita e extrema direita. Qual a dimensão desse fenômeno, sobretudo no Brasil?

A direita brasileira se colocou em uma enrascada muito séria ao entrar de corpo e alma no impeachment de Dilma Rousseff e, em seguida, ao dar apoio ao governo Temer. Aprofundou de maneira ainda mais dramática as crises, todas as crises: social, econômica, política, moral. E não será nada fácil que consiga se descolar disso tudo e se apresentar como algo novo, que é o que o eleitorado espera em 2018.

Todo o campo da direita se encontra muito desorganizado e desorientado. João Doria será especialmente afetado por essa manobra malsucedida que foi o impeachment e o apoio ao governo Temer.

Não é por outra razão que ele continua a se apresentar como o “anti-PT”, quando a lógica “PT-anti-PT” que presidiu o impeachment já não é mais a que organiza a grande maioria do eleitorado, mas ainda encontra ressonância importante em São Paulo.

Trata-se, acho, de uma estratégia defensiva, uma estratégia que, na verdade, mantém Doria preso a São Paulo. Provavelmente porque já deve estar decidido que ele será candidato ao governo do estado.

O caso de Bolsonaro é de outra ordem. No momento, entendo que sua intenção de voto nas pesquisas expressa uma insatisfação difusa, uma rejeição à política da política que procura uma figura que não esteja comprometida, que se saiba, com investigações da Lava Jato. Não acredito que essa intenção de voto se sustente, especialmente depois que o quadro sucessório ficar mais claro.

Não acredito que Bolsonaro venha a ser candidato a presidente. Como não tem um partido próprio, criado por ele, Bolsonaro depende de partidos existentes. E essa dependência tem se mostrado bastante problemática no caso dele, com episódios graves de desentendimentos e rupturas com os donos desses partidos. De qualquer maneira, o mais importante a reter aqui é: o fato de a insatisfação com a política de a política se expressar em uma candidatura de extrema direita é algo por si só gravíssimo para quem quer que se preocupe com a continuidade da democracia no país.

 

 

A morte de Konibu e o crime de genocídio de Romero Jucá

Konibu

Parte do sofrimento de Konibu deve-se a um ato de Jucá na presidência da Funai: a destinação da terra onde os indígenas viviam para fazendeiros

por Felipe Milanez publicado 02/06/2016 19h27
Enquanto era presidente da Funai, Jucá entregou as terras dos índios Akuntsu a seus algozes, diz sertanista

Na última quinta-feira, 26 de maio, faleceu em Rondônia o indígena Konibu, o velho líder e xamã do povo Akuntsu. Sobrevivente de um genocídio, ele já estava bastante debilitado por um câncer e problemas cardíacos, e tinha em torno de 85 anos., Morreu em paz, deitado na rede dentro da maloca onde viva, auxiliado por agentes de saúde e pelo sertanista da Funai, Altair Algayer.

Se a morte foi tranquila, no entanto, Konibu sofreu muito em vida. E parte desse sofrimento se deve a um ato político de Romero Jucá enquanto era presidente da Funai: a destinação da terra onde os indígenas vivam para fazendeiros.

Os Akuntsu, seus vizinhos Kanoê e o “Índio do Buraco” são remanescentes de três povos que sofreram um genocídio de 1985 até os últimos ataques documentados em 1995.

O ex-ministro do Planejamento teve participação direta nesse processo enquanto era presidente da Funai (1986-1988): foi ele quem desinterditou a área e a destinou a fazendeiros que cometeram os crimes.

Diário Oficial com resolução de Romero Jucá em 1986
Resolução de Romero Jucá em 1986, publicada no Diário Oficial

Por isso, a morte de Konibu e a tragédia de seu povo trouxeram à tona uma grave questão atual, com Jucá e as articulações políticas contra os direitos indígenas: o governo interino ameaça rever a demarcação das terras indígenas feitas no governo Dilma, exatamente o que Jucá fez em 1986 com os Akuntsu e que levou ao genocídio.

Em manifestação recente, a ONU denunciou que estes retrocessos podem implicar em “riscos de etnocídios”. A análise do caso dos Akuntsu revela exatamente o que aconteceu nos anos 1980, e pode novamente se repetir. Retirar o status de proteção de uma área ocupada por indígenas e destiná-la a ruralistas pode levar a um genocídio, como o caso dos Akuntsu, o qual Konibu e seu povo foram vítimas.

O caso a participação de Jucá no processo de genocídio dos Akuntsu não foi reportado no relatório da Comissão Nacional da Verdade, mas consta no livro Memórias Sertanistas: Cem Anos de Indigenismo no Brasil (Sesc, 2015). A questão da participação de Romero Jucá no genocídio, ao desinterditar a área, também foi omitida da notícia veiculada pela assessoria da Funai na semana passada, ao divulgar a morte de Konibu.

O genocídio Akuntsu

Em 1985, o sertanista da Funai Marcelo dos Santos trabalhava no sul de Rondônia com os Nambiquara, e foi a campo verificar a presença indígena em uma área demandada pela Fazenda Guaratira, que negociava créditos do Banco da Amazônia e pediam à Funai uma “certidão negativa da presença indígena”.

Ao visitar a fazenda, Santos foi informado por trabalhadores de que teria ocorrido um massacre em uma fazenda vizinha: “Olha, não pode falar, não, porque este lugar aqui é muito perigoso. Mas eu vou avisar para você. Aqui, nessa fazenda, vocês não vão encontrar índio, não. Mas se vocês forem lá na Fazenda Yvypytã, ‘aconteceu’ alguma coisa. Teve uma confusão lá, porque acuaram os índios e eles correram” (Memórias Sertanisas, página 332).

A Yvypytã era de propriedade de Antonio José Rossi Junqueira Vilela, acusado de comandar um massacre de garimpeiros dentro dessa mesma fazenda, em 1983 (Inquérito Policial 114/83, na delegacia de Vilhena)

Ao ser informado da denúncia, Santos foi junto de um grupo de índios Nambikwara e do documentarista Vincent Carelli procurar vestígios e encontrou uma pequena aldeia com quatro casas destruídas e cápsulas de revolver. Essas cenas aparecem no filme Corumbiara, de Vincent Carelli, que está disponível na internet.

Com as evidências da presença indígena, Santos negou a certidão e pediu a interdição da área. A Funai enviou o sertanista Sydney Possuelo para comprovar as alegações, e o então Presidente da Funai Apoena Meireles assinou a Portaria nº 2.030/E/1986, publicada em 11 de abril de 1986, interditando 63.900 hectares, com base no levantamento de Santos, com o nome de “Área Indígena Omere”.

“Eu desenhei o mapa da interdição com os poucos conhecimentos que eu tinha na época que eu estava lá dentro da área. Mas não tinha andado no mato para saber porque os pistoleiros não permitiam e nos ameaçavam”, relata Marcelo dos Santos em entrevista.

A interdição envolvia três fazendas na época, e os sertanistas podiam entrar na área para investigar os crimes, o que intimidava os fazendeiros a desmatarem e, possivelmente, praticarem novos ataques.

Ficavam também suspensos os financiamentos e por isso a Yvypytã entrou com uma ação judicial e conseguiu uma liminar para desinterditar a área. Em recurso da Funai ao Tribunal Regional Federal, o ministro Lauro Leitão cassou a liminar para manter a área sob interdição, ante “manifesta a possibilidade de grave lesão”, a “iminente possibilidade do aniquilamento físico da população tribal remanescente”, em decisão datada de 21 de maio de 1986.

Com isso, permanecia válida a portaria da Funai, protegida também por uma decisão judicial de segunda instância. Acontece que nesse mesmo mês de maio de 1986 Romero Jucá assumiu a presidência da Funai.

Não foram poucos os crimes cometidos por Jucá enquanto esteve na presidência da Funai, como escreveram recentemente Pádua Fernandes, em artigo no seu blog, e João Fellet, na BBC, e a participação no genocídio dos Akuntsu vem a se somar a uma série de violência contra os povos indígenas.

Em 12 dezembro de 1986, Romero Jucá revogou a portaria assinada por Apoena Meireles e assinou uma “nova” portaria com o número 1.813 para “desinterditar” a área e revogar a portaria 2030/E, assinada pelo seu antecessor, Apoena Meireles. Ou seja: fez um novo ato administrativo, já que judicialmente a terra estava garantida aos índios, para transferir a posse aos fazendeiros. Há um temor dos povos indígenas que uma estratégia parecida seja utilizada pelo governo interino de Temer.

A decorrência desse ato de Jucá resultou em novas invasões no território indígena, o desmatamento da área, novos ataques aos Akuntsu, aos Kanoe e, sobretudo, também ao “índio do Buraco”, um outro povo indígena que tem agora apenas um único sobrevivente. Sertanistas da Funai, e Marcelo dos Santos especificamente, passaram a ser proibidos de entrar na área. A participação de Jucá nesse processo de genocídio não foi incluída no relatório da Comissão Nacional da Verdade, que apresenta os envolvimentos de Jucá na invasão de garimpeiros na TI Yanomami.

O contato e o convívio com os sobreviventes

Apenas nos anos 1990, quando Sydney Possuelo assume a presidência da Funai em 1991, que Santos consegue autorização para voltar a investigar o genocídio do rio Omere, em Corumbiara. Nesse período, Altair Algayer, que migrou com sua família do sul para Rondônia, se junta à equipe da Funai.

Altair Algayer e Konibu
Altair Algayer, da Funai, cheira rapé na companhia de Konibu

Em 1995, um mês depois do massacre de camponeses em Corumbiara, Santos, Algayer e Carelli encontram dois irmãos Kanoe, Purá e Tiramantu, em uma pequena clareira que viram numa imagem de satélite e, em campo, descobriram ser a aldeia dos Kanoe. As imagens de Vincent Carelli foram parar no Fantástico e serviram para a Funai publicar uma nova interdição da área e reiniciar o processo de demarcação.

Um mês depois do contato com os Kanoe, os sertanistas foram guiados por eles até os Akuntsu. E, no ano seguinte, encontraram vestígios de um novo ataque ao povo do “índio do Buraco”, descobrindo em meio a um desmatamento feito durante o período de chuvas, o que não é comum, casas queimadas, capsulas de revolver, e diversos vestígios materiais de uma pequena aldeia. Isto prova que o ataque aos indígenas, ao menos desde o massacre relatado por trabalhadores da fazenda em 1985, foi constante até 1996.

Durante esse processo de contato com os indígenas, a Funai contou com apoio de uma rede de colaboradores e movimento social, como o cinegrafista Vincent Carelli e sua esposa, a antropóloga Virgínia Valadão, indigenistas da Opan, como Inês Hargreaves, e da Kanindé, como Pedro Rodrigues, Rogério Vargas, Ivaneide Cardoso, e indigenistas do CIMI. A Terra Indígena Rio Omerê foi homologada em 2006.

Morte de Konibu

Os Akuntsu eram sete indígenas em 1995. Konibu, o mais velho, com uma esposa e três filhas, e uma senhora mais velha, chamada Ururu e um filho adotivo, Pupak. Uma das filhas morreu em 2000 quando uma árvore caiu sobre a casa da família. Em 2009, faleceu Ururu.

Após uma epidemia de doenças respiratórias, idas e vindas em hospitais, e uma profunda depressão sobre os índios, Ururu deitou-se na rede e se deixou morrer, sem se alimentar por uma semana. Escrevi sobre esta triste morte na revista RollingStone, e pode ser lido aqui. Algayer acompanhou todos os momentos, e ajudou os indígenas a preparar o funeral.

Os Akatsu
Os Akatsu, com Konibu ao fundo

Novamente, com Konibu, Algayer também assistiu de perto os últimos momentos. Ele diz que as duas filhas e a viúva estão “desamparadas, desorientadas”, assim como Pupak, filho adotivo de Ururu, que continua bastante impactado. “Desde a morte da Ururu, ele ficou muito abatido, sozinho. Acompanhava o Konibu no dia a dia, ajudando na caça. Mas está bastante isolado e solitário”.

O mais sofrido, conta ele, é a parte espiritual. “O konibu era o último xamã, e elas não sabem fazer os trabalhos rituais. Isso cria uma angústia muito profunda, muita tristeza. Elas temem que o espírito dele não esteja bem. Elas não têm mais segurança espiritual, e nem física. É muito triste.”

No dia do funeral, o três remanescentes Kanoe, o indígena Purá, sua irmã Txinamanty, mãe de Bakwa, já estava na base. Txinamanty é xamã, assim como era Konibu, mas são de povos diferentes e possuem e cosmovisões distintas.

“No outro dia da morte, a gente percebeu que ela passou a noite inteira cheirando rapé. Ela fez um ritual sozinha na aldeia dela. E uns dias antes da morte ela vinha e fazia rituais de cura para ajudar o Konibu, que estava em uma situação difícil, na rede.”

Konibu estava na rede praticamente sem conseguir se mexer e convalescendo desde janeiro. Nos últimos dias, ele precisava de ajuda para se levantar e para sentar. “Não tinha mais força”, relata Algayer.

A tragédia de um fim do genocídio é um drama existencial profundo e perturbador, que Algayer enfrenta com um humanismo extraordinário.

Conforme depoimento de Marcelo dos Santos, às paginas 314 do livro Memórias Sertanistas: “Saiu o Apoena e entrou o Romero Jucá. A primeira providência do Romero Jucá: me proibir de entrar na área. Fui proibido de sair dos Nambikwara e entrar na área do igarapé Omerê. E, junto com a minha proibição, ele desinterditou a área.”

E relata: “Foi a primeira manifestação da Justiça sobre o caso. Assim mesmo, o senhor Romero Jucá entregou as terras dos índios isolados aos algozes.”

Em um artigo que assino junto do antropólogo Glenn Shepard, na revista Tipiti, discute essa trágica situação de povos remanescentes de genocídios recentes, as contradições da Funai com relação as demarcações, e a dedicação e o humanismos dos sertanistas, como de Altair Algayer. O texto pode ser acessado aqui.

 

 

Um minuto e meio sobre a “cracolândia”, por Carl Hart.

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A face mais perversa e covarde de um governo: o abandono dos últimos índios isolados à sua própria sorte.

Daniel Luis Dalberto

A civilização que sacrifica povos e culturas antiquíssimas é uma farsa amoral.

Carlos Drummond de Andrade.

A colonização do Brasil se deu a ferro, fogo e pólvora. Literalmente. O avanço dos povos europeus a partir de 1500 significou tragédia e morte para centenas de povos indígenas que aqui estavam há milênios. Estima-se que havia uma população de 10 a 20 milhões de índios em 1500. Hoje, o censo do IBGE diz que são cerca de 800 mil índios, sendo que quase a metade vive em cidades. A intrusão estrangeira desfez o equilíbrio que os índios tinham com o meio físico, desorganizou suas sociedades, dissolveu valores e extinguiu sabedorias e culturas. Estima-se que em 1500 cerca de 1.300 diferentes línguas eram faladas no território em que hoje está o Brasil. Atualmente são apenas 150 ou 160 línguas, sendo que apenas 38% dos índios falam a línguas de seus ancestrais. Há em média apenas 250 falantes por línguas, sendo que várias delas contam com menos de 10 falantes. Ou seja, marcham a passos largos para o desaparecimento.

A maior parte dos indígenas vive hoje na Amazônia, última fronteira da expansão, cada vez mais pressionada pelos grandes projetos dos governos (Santo Antônio, Jirau, Belo Monte, Teles Pires, Belo Sun, etc), pelo agronegócio e pela cobiça de madeireiros e garimpeiros ilegais. Ao tempo que persistem as violações dos direitos dos índios – apenas recentemente reconhecidos – assistimos ao ocaso das últimas civilizações ameríndias, o que, além da tragédia em si mesma, nos empobrece pela eliminação de diversidade, pelo fechamento de portas que poderiam nos indicar caminhos possíveis ante evidentes colapsos morais, sociais e ambientais que acometem nossa civilização e ameaçam nosso futuro.

Os índios isolados.

Transcrevo a seguir interessante e elucidativa matéria sobre índios isolados de Rondônia, gentilmente escrita a meu pedido por Fabrício Amorim, Coordenador de Proteção e Localização de Índios Isolados e Recém Contatados da Funai, que também cedeu as quatro imagens abaixo postadas, sendo as duas primeiras tapiris do “Índio do Buraco” (link do wikipedia sobre esse índio colado abaixo) e as duas últimas imagens são de tapiris “rabos de jacu” dos índios isolados da terra indígena Massako.

POVOS INDÍGENAS ISOLADOS E DE RECENTE CONTATO EM RONDÔNIA

No estado de Rondônia há, atualmente, diversos registros de presença de grupos indígenas isolados. Desses, quatro grupos têm sua presença confirmada pela Funai, morando em Terras Indígenas localizadas na região sul e centro-oeste de Rondônia. Povos ou grupos indígenas isolados são aqueles índios que optaram por não estabelecer contatos com a sociedade nacional. De uma forma geral, os povos indígenas isolados já passaram por experiências traumáticas, tais como massacres violentos e transmissão de doenças, por isso optaram em algum momento de sua história por não estabelecer contato, são grupos indígenas acossados, que atacam, rechaçam e fogem a qualquer tentativa de invasão dos seus territórios.

Destas populações, a Funai conhece seus vestígios, seu território, sem, para isso, promover ações de contato. Atualmente, a política do Estado brasileiro para proteção desses povos é pautada pela “política do não-contato”, isto é, a Funai não realiza contato com esses grupos, fazendo a proteção de seus territórios, garantindo que possam viver em paz, segundo suas decisões, costumes e tradições.

Há uma série de referências de índios isolados em Rondônia, sendo que a Funai confirma, atualmente, a existência de 04 grupos: os Yrapararikwara, cuja etnia e língua são ainda desconhecidas; os Jurure’í, que pertencem ao mesmo coletivo Amondawa e Uru-Eu-Wau-Wau (de língua Tupi-Kawahiva), ambos na Terra Indígena Uru Eu Wau Wau; os índios isolados que moram na Terra Indígena Massaco; e um povo indígena que hoje só tem um representante, conhecido popularmente como “índio do buraco”, que habita a Terra Indígena Tanaru. A população dos Yrapararikwara e dos índios da Massaco é grande, e a Funai tem observado que vem aumentando cada vez mais, pois seus territórios estão demarcados e protegidos, com a posse plena garantida. O índio do buraco é proveniente de um povo que foi todo dizimado no passado, por meio de sucessivos massacres perpetrados por fazendeiros e madeireiros da região. Hoje, ele vive sozinho e recusa o contato. A Funai respeita sua decisão e protege a terra onde mora. O povo Jurure’í, hoje refugiado no extremo nordeste da TI Uru-Eu-Wau-Wau, região da Serra da Onça, não é diferente do “índio do buraco”, sobreviveu a diferentes e sucessivos esbulhos de seus espaços tradicionais e à morte da maioria de seus membros.

A política de proteção aos povos indígenas isolados do Brasil é reconhecida internacionalmente, sendo considerada a mais avançada no mundo. O estado de Rondônia é símbolo histórico desse reconhecimento internacional, pois foi lá que a Funai desenvolveu uma metodologia eficaz de proteção desses grupos, através de importantes sertanistas e indigenistas da Funai que desenvolveram seu trabalho na região. Essa metodologia contribui, atualmente, para que outros países desenvolvam suas políticas públicas, garantindo o respeito aos direitos dos povos indígenas isolados.

Além dos povos isolados, há em Rondônia também dois povos considerados de “recente contato”, contatados pela Funai em 1995. São os Akuntsú e os Kanoê, que moram na Terra Indígena Rio Omerê. Povos indígenas de recente contato são povos que conhecem pouco o mundo dos brancos, vulneráveis sob o ponto de vista epidemiológico e sócio-cultural, por isso precisam de um acompanhamento específico da Funai. Os Akuntsú falam uma língua da família Tupari e os Kanoê uma língua de um tronco linguístico isolado. Eles foram contatados pela Funai num momento difícil, de destruição do seu território, sobretudo pelo desmatamento ilegal para criação de pasto. Antes do contato, eles foram vítimas também de sucessivos massacres – tal como o índio do buraco e outros – um dos motivos de hoje serem uma população tão pequena. Atualmente, os Akuntsú totalizam 05 pessoas e os Kanoê são apenas 03 indivíduos. Apesar disso, para a política de proteção do Estado brasileiro, não importa seu contingente popuacional, são povos indígenas sujeitos dos mesmos direitos.

A proteção dos povos indígenas isolados e de recente contato é realizada pela Funai por meio de unidades decentralizadas denominadas de Frentes de Proteção Etnoambiental (FPE’s). Em Rondônia, há duas FPEs: a FPE Guaporé e a FPE Uru Eu Wau Wau. Ambas contam com apoio técnico e administrativo da Coordenação Regional de Jí-Paraná, também uma unidade descentralizada da Funai. Essas FPEs fazem expedições de localização e monitoramento para conhecer melhor os processos territoriais e sócio-culturais dos grupos isolados. Também fazem trabalhos de vigilância ambiental e de conscientização das vilas e cidades que existem perto dessas terras indígenas.

Hoje, lamentavelmente, restam poucos povos indígenas isolados no Brasil. Estima-se cerca de cem grupos de trinta etnias, em sua maioria pequenos, com poucos indivíduos. Pelo cenário acima delineado, estão extremamente ameaçados, principalmente pela perda de suas terras por invasores e por doenças. São comuns os registros de genocídios praticados contra esses povos isolados, inclusive em período recente, pós-constituição de 88, o que pode ser constatado, como exemplos, nos dois links abaixo:

https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%8Dndio_do_Buraco

https://pib.socioambiental.org/pt/povo/kanoe/342

Atualmente, a situação agravou-se ainda mais pelo descaso e mesmo violação do próprio governo aos povos indígenas, especialmente pelo desmonte e uso político da já combalida e desestruturada Funai. Para ilustrar tal situação, veja-se as matérias recentemente publicadas na imprensa:

http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/ministro-da-justica-demite-presidente-da-funai-por-nao-nomear-indicacoes-do-psc/

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/03/1865209-ministro-da-justica-critica-indios-e-diz-que-terra-nao-enche-barriga.shtml

http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,serraglio-extingue-347-cargos-da-funai,70001712837

A face mais perversa e covarde das políticas governamentais relativas aos índios veio à tona nos últimos dias. Os índios isolados são extremamente vulneráveis a violências dos que cobiçam suas terras, riquezas minerais e florestais. Vivem em áreas isoladas, sendo que eventuais genocídios contra eles praticados dificilmente podem ser descobertos. Tal situação impõe constante vigilância pelos servidores da Funai. No entanto o governo cortou até os já poucos cargos que a Funai mantém na importantíssima função das frentes de proteção etnoambientais:

http://m.folha.uol.com.br/poder/2017/04/1877379-crise-na-funai-fecha-5-bases-de-protecao-a-indios-isolados.shtml

Não faz o menor sentido o governo, a pretexto da crise financeira, cortar esses cargos essenciais, visto que são poucos servidores, o que não dá qualquer impacto financeiro relevante. Também, trata-se de servidores públicos que precisam ter muito preparo técnico, sensibilidade, experiência específica, conhecimento de área e coragem para atuar nesses locais, de modo que não se pode exonerá-los e amanhã facilmente contratar outros em seus lugares.

A situação preocupante pode ser constatada pelas matérias a seguir. O jornal Hoje da rede Globo apresentou reportagem sobre ameaças a índios isolados Kawahiva em Colniza MT:

https://youtu.be/sZggMhr-P5I

https://youtu.be/YWB0DRVgK24

Na semana passada, ocorreu uma tragédia na mesma região, com bárbaros assassinatos de pessoas pela disputa de terras, conforme se vê pela notícia abaixo:

http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,vitimas-de-massacre-no-mato-grosso-sao-assassinadas-com-golpes-de-facao,70001748090

Assim, denota-se claramente a extrema gravidade da situação da política indigenista no Brasil, que viola frontalmente o art. 231 da Constituição da República e diversos tratados internacionais assinados pelo Brasil, em especial a Convenção 169 da OIT. É assustador e vergonhoso vermos o descaso e as ameaças a que estão sujeitos os últimos grupos étnicos isolados e de recente contato do planeta, praticados por quem tem o dever jurídico de protegê-los.