Razão não depende de geografia

 

No imaginário nacional, o Nordeste segue como a terra que vota com o estômago

Fabiana Moraes

19ago2018_07h00 Publicado na revista Piauí. Link: https://piaui.folha.uol.com.br/razao-nao-depende-de-geografia/

Somos um país de pobres que detesta a pobreza. Aprendemos que ela é abjeta e que em seu interior há pouca chance de dignidade. “Cara de pobre”, “coisa de pobre”, “pobreza pega”. O que é dito como brincadeira guarda seus enunciados de verdade. Logo, é comum soltar um “os pobres precisam parar de ter filhos”. Logo, “um país rico é um país sem pobreza”, como disse um dia uma propaganda governamental. Logo, os pobres deviam mesmo parar de votar. E onde mora a pobreza do Brasil? Naquele torrão distante e seco denominado Nordeste, a região cristalizada pelo tempo (e por novelas e comerciais e livros e quadros e filmes) como a responsável tanto por guardar as coloridas tradições de um Brasil profundo quanto a vergonha da fome e da incapacidade de reflexão.

Essa seara com 57,36 milhões de habitantes de todas as classes sociais está prestes a surgir novamente nas mídias carregando todas essas marcas: nas eleições das duas últimas décadas, o Nordeste foi o protagonista nas falas daqueles que vieram a público explicitar como votamos mal, como conduzimos o país ao abismo, como nossa baixa escolaridade e nossa barriga vazia nos têm feito prezar por nomes que levam todo o país ao caos. O tio do pastel, a estudante de direito (“nordestino nem é gente”, lembra?), o estilista branco cool e seu marido mais cool ainda, a senhora que lamenta não ir a uma passeata porque sua empregada faltou ao serviço: são várias as gerações e classes que olham para a região com desprezo – ou alguma condescendência.

Um primeiro tapa ao pé do ouvido: nossa ideia do que significa “esclarecimento” está morrendo por inanição. Um bom exemplo somos nós mesmos, país no qual as famílias mais abastadas (renda acima de 9,5 mil reais) e com curso superior completo (só 15% dos brasileiros possuem) preferem um candidato à Presidência que anuncia não compreender a economia brasileira, diz que conheceu um quilombola que pesa “sete arroubas” e celebra publicamente o estupro e a tortura. Nossa civilidade partida também pode ser aferida pelo fato de termos atualmente um grande número de pessoas acessando um mar de informação por meios virtuais (são 116 milhões de usuários de internet, segundo o IBGE) ao mesmo tempo que elegemos em 2014 o Congresso Nacional mais conservador desde o golpe militar de 1964. Mas, ainda assim, entendemos que são as pessoas “desinformadas”, pauperizadas e menos escolarizadas – no imaginário nacional, nordestinas – que possuem pouca capacidade para decisões objetivas, já que as suas escolhas são orientadas somente por necessidade.

Desconsideramos veementemente nossa incoerência porque estamos acostumados a não questionar aquilo que parece natural, mas é fundamentalmente construído: o mito do eleitor desinformado, que se vende por qualquer trocado e que mora, quase sempre, no Nordeste. Ele está em oposição ao voto consciente, racional. O voto de quem estudou, pensa globalmente e no país. Os outros, coitados, votam com, no máximo, a próxima feira da semana no horizonte.

Estudando a pobreza brasileira há mais de duas décadas, a socióloga Maria Eduarda da Mota Rocha percebe que, em nossa sociedade profundamente classista, há duas formas de vivência da política: uma é a real, a que importa, enquanto as outras são entendidas como alienadas e inconsequentes. “A desqualificação do voto dos pobres e de tudo o que lhes diz respeito é sintoma de uma incapacidade crônica de empatia de uma parte de nossas elites, que também vota segundo seus interesses, mas que aprendeu a traduzi-los em princípios abstratos muito bonitos, como liberdade, empreendedorismo, empregabilidade.”

Esse fenômeno é igualmente analisado pela cientista política Priscila Lapa, autora da tese Como Votou a Classe C nas Eleições Presidenciais Brasileiras de 2014?. Trazendo como exemplo um clássico que provavelmente surgirá nas redes sociais nas eleições de outubro, os programas de transferência de renda, ela pergunta: “Se o pobre vota para manter o Bolsa Família e o rico vota em determinado candidato para não ter sua riqueza taxada, qual a razão de acharmos que o último é mais racional que o primeiro?” É uma questão precisa e que aponta para o que ela chama de régua ideológica usada pela elite escolarizada para carimbar seu próprio voto, que seria desprovido de intenções particulares e dirigido a um bem comum nacional.

O que a pesquisadora sublinha é que todas as pessoas, com baixa, média ou alta escolaridade, levam nomes específicos até as urnas de acordo com a percepção do que está acontecendo tanto no miúdo do seu dia a dia quanto no cenário nacional. “Se entendo que minha vida mudou para melhor por conta de algum candidato, me oriento naturalmente por ele. Nesse sentido, o Nordeste foi a região brasileira que teve sem dúvidas a maior mudança socioeconômica no país nas últimas décadas. É natural, assim, que o voto aqui seja voltado a gestões da esquerda. É uma escolha racional, econômica e pragmática. A presença de Bolsonaro entre os mais ricos é também um desdobramento desse tipo de voto.” Sintetizando: para ambos, abastados ou enrascados, votar também é razão.

m segundo tapa ao pé do ouvido: nos posicionamos contra a pobreza e suas mazelas, nos emocionamos com crianças à beira de esgotos, mas entendemos – mais uma vez – como natural a desigualdade social brasileira, que faz com que 50% dos 88,9 milhões de trabalhadores e trabalhadoras recebam por mês, em média, 15% menos que o salário mínimo. Não nos posicionamos igualmente sobre o fato de os que recebem mais ganharem 360 vezes acima do trabalhador com renda mais baixa. Em 2016, os quase 90 milhões de trabalhadores brasileiros geraram 255 bilhões de reais por mês. Desse montante, 43,4% acabaram concentrados nas mãos de apenas 10% da população.

Os números deixam claro: somos mais pobres do que nossas usuais classificações de renda nos permitem realmente ver, uma vez que carimbamos como classe média (57,1% da população) pessoas que deixaram o ensino fundamental no caminho, se alimentam com gordura hidrogenada e acessam as redes virtuais em celulares cujas prestações estão atrasadas. Gente que circula nos ônibus metropolitanos já lotados às seis da manhã para dar conta de longos deslocamentos até empresas que oferecem contratos temporários. Gente que vive nas zonas rurais e vê televisão a cabo por meio de ligações clandestinas. Gente que mora nas áreas ribeirinhas e convive com lixo no quintal.

Nossa pobreza tem muitas camadas, mas costumamos tratá-la de maneira homogênea. Essa operação não se dá à toa: ao pensar os pobres como massa, retiramos deles os seus rostos, suas questões, suas falas, suas existências – que são múltiplas e se distribuem nas periferias, centros, sertão. “Ao falarmos dos pobres, generalizando, nós os diluímos. O mesmo vale para a classe C e o nordestino. Não nos referimos, por exemplo, ao voto do trabalhador, que é um voto mais realista, de gente que está tentando se manter no Brasil de agora”, diz Priscila Lapa.

Assim, situar o “mau” voto nos nordestinos, nos “esfomeados do Bolsa Família” ou, enfim, na pobreza é uma estratégia também voltada para a desmobilização: se nos referimos aos pobres como universitários ou trabalhadores – ambulantes, manicures, lavradores, empregadas domésticas – damos uma cara a esse voto. Damos voz, corpo e, perceba, racionalidade. Esta última é, no final, a palavra em disputa: quem a detém consegue, em um jogo que é seu, mas é vendido como de todos, o poder de determinar quem são os outros – ou o pessoal da geral, aqueles que precisam continuar na plateia.

Fabiana Moraes (siga @fabi2moraes no Twitter)

Jornalista e professora da Universidade Federal de Pernambuco. Autora de cinco livros, entre eles O Nascimento de Joicy (Arquipélago Editorial)

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As freiras que, em vez de catequizar, defenderam cultura indígena e viram povo ‘renascer’

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Morte acelerada

Estudo internacional com participação brasileira, mostra que os riscos corridos pelas florestas tropicais do mundo estão se intensificando em ritmo crescenteN° Edição: 539 Texto: Pelo Ipam, via Observatório do Clima

(Foto: iStockphotos)

Como se o desmatamento já não fosse suficientemente ruim, uma série de outras ameaças mata, num ritmo cada vez mais intenso, as árvores da Amazônia e de outras florestas tropicais úmidas da Terra. Uma revisão de artigos científicos feita por especialistas no tema, incluindo o pesquisador brasileiro Paulo Brando, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), e publicada na revista “New Phytologist” em fevereiro, indica que a taxa de mortalidade dessas árvores mostra sinais de aceleração nos últimos anos.

Os motivos são o aumento da temperatura, secas longas e piores, ventos mais fortes, incêndios mais extensos, mais cipós e até a abundância de gás carbônico na atmosfera – uma das causas do efeito estufa e elemento fundamental da fotossíntese. As mudanças climáticas estão ligadas a todos os problemas apontados. “O trabalho mostra que há indícios fortes que relacionam a mortalidade das árvores de florestas tropicais úmidas às alterações esperadas para essas regiões, em escalas global e regional”, afirma Brando.

O foco do estudo foram as florestas intactas, primárias ou antigas, na América do Sul, África e no Sudeste Asiático. A Amazônia brasileira aparece em destaque porque é o local mais estudado de todos. “Na Amazônia, todas essas causas de mortalidade de árvores estão presentes”, diz Brando. “Mas é difícil dizer que uma é mais relevante do que outra, porque todas têm um papel. Secas causam picos de mortalidade, enquanto o aumento de CO2 provoca mudanças de fundo. Já eventos de tempestades de vento impactam mais áreas fragmentadas, e o fogo causa muitos danos no sudeste da Amazônia.”

Equação letal

É impossível estabelecer qual desses ataques é pior. As secas têm se tornado cada vez mais longas e severas – na Amazônia, episódios anômalos ocorreram em 1997, 2005, 2010 e 2015. Como defesa imediata, as árvores tomam atitudes extremas, como fechar os estômatos (células por onde ocorre a respiração das plantas) e perder mais folhas. Essas folhas, por sua vez, se acumulam em abundância no solo e servem de combustível para incêndios florestais, que se alastram facilmente e por mais tempo.

Secas e temperaturas mais altas podem ainda levar as árvores a definhar de fome, também num mecanismo de defesa que acaba se tornando um algoz. Ao fecharem os estômatos para salvar água em seu interior, elas deixam de capturar o CO2 do ar, sua fonte de alimentação, enquanto consomem o que têm dentro. O regime forçado as deixa mais suscetíveis a ataques de pestes, como insetos, ou à competição por comida com os cipós – que, por sua vez, têm proliferado nesses ambientes. E, mesmo que a dieta não aconteça, o excesso de CO2 no ar também não significa que as florestas crescerão abundantemente.

“Quando há muito gás carbônico, algumas árvores podem dominar o pedaço e roubar os recursos dos vizinhos. Assim, há um aumento esperado na mortalidade de árvores, mas não necessariamente mudanças drásticas nos estoques de carbono”, afirma Brando. “Outra explicação é que a floresta se torna mais dinâmica com mais CO2; cresce e morre mais rapidamente, tanto pelo metabolismo quanto por mudanças na sua estrutura.” Tampouco o fato de estarem próximas à linha do equador traz vantagem para as florestas tropicais úmidas num planeta mais quente: um novo regime de temperatura, esperado para os próximos anos devido às mudanças climáticas, pode mudar o metabolismo das árvores.

Segundo Brando, reduzir a taxa de mudança no clima e estabilizar o processo o quanto antes, o que envolve tanto derrubar os níveis de emissão de CO2 quanto os do desmatamento, são fatores essenciais para manter as florestas tropicais. “Quanto menor a área de borda de floresta, comum em paisagens fragmentadas, menor o impacto de seca, fogo e ventos.” Ele ainda destaca a importância de aprofundar as análises: “Precisamos saber o que realmente está ocorrendo, para fechar buracos nas observações que ainda existem e nos preparar para os efeitos das mudanças climáticas”.

Humanos representam 0,01% dos seres vivos e mataram 83% dos mamíferos

Estudo revela que plantas são principal forma de vida da Terra e que humanos foram responsáveis pelo fim de diversas espécies

Publicado na Revista Galileu.

Apesar de representarem apenas 0,01% dos seres vivos do planeta, os humanos são responsáveis pela destruição de muitas espécies. Um estudo realizado por pesquisadores do Instituto de Ciência Weizmann, em Israel, e do Instituto de Tecnologia da Califórnia, nos Estados Unidos, revela, inclusive, que a espécie humana acabou com 83% dos mamíferos selvagens da Terra.

Publicada no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences, a pesquisa compila os tipos de biomassa — matéria orgânica — dos reinos animais. “A análise revela uma visão holística da composição da biosfera e nos permite observar padrões de categorias taxonômicas e locais geográficos”, escrevem os cientistas.

Esse é o primeiro relatório a estimar a quantidade de todos os tipos de criaturas vivas. “Eu fiquei surpreso em descobrir que não ainda não existia uma estimativa compreensiva e holística de todos os componentes da biomassa”, disse o pesquisador Ron Milo, do Instituto de Ciência Wrizmann, em entrevista ao jornal The Guardian.

Milo e sua equipe compilaram dados de diversas fontes, como da Organização Internacional de Comida e Agricultura, por exemplo, para estimar a biomassa de cada país e como a industrialização, o êxodo rural e o uso de novas tecnologias pelos humanos colaborou para o fim de outras espécies animais.

Os cientistas concluiram que os 7,6 bilhões de pessoas representam somente 0,01% dos seres vivos, as bactérias, 13% e o restante das criaturas, como insetos, fungos e outros animais equivalem a 5% da biomassa do planeta. O que sobra é das plantas: segundo o estudo, elas representam 82% da matéria viva.

Atualmente, 70% das aves e 60% dos mamíferos do planeta foram criados em cativeiro, enquanto 30% dos pássaros são selvagens, 36% dos mamíferos são humanos e os 4% restantes são selvagens. Ainda de acordo com o relatório, 86% das espécies se encontram em terra, 13% abaixo de superfícies (como bactérias, por exemplo) e somente 1% nos oceanos.

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Índios mostram que saúde vai além de curar doenças

Sentar no fim da tarde em um banco numa aldeia dos índios Panará é ver um grupo animado de meninos de 7 ou 8 anos anos afiando uma lança ou pegando pedrinha para o estilingue. É se divertir com as meninas que param o futebol com bola de tênis e vêm conversar e rir com as jornalistas mesmo sem saber português. É se impressionar com os menores, de 5 ou 6 anos, que pulam corda até com bebês no colo e não perdem nem o fôlego nem a destreza. As crianças de Nãsepotiti parecem nunca ficar entediadas.

Difícil imaginar como seria o cotidiano e, especialmente, o humor e o ânimo delas se vivessem fora da Terra Indígena Panará, que fica em um trecho da Amazônia entre o Mato Grosso e o Pará. Para os avós dessas crianças, a resposta vem de imediato: elas não seriam tão alegres, fortes e saudáveis.

A afirmação vem da história de vida desses anciãos, especialmente dos cerca de 20 anos que viveram no Parque Indígena do Xingu (MT). “Lá não era como aqui. A terra era fraca, tinha pouca fruta. Não nascia bebê como aqui”, conta a parteira Kreenpy (lê-se Kreempã), que não sabe sua idade, assim como boa parte dos Panará idosos. “No Xingu, nossas crianças eram magras”, diz outro ancião, Seiakã, enquanto trança um cesto. “Era triste. Aqui, é bem alegre.”

Após quase serem dizimados (passando de 400 para 70 integrantes) por doenças e males como gripe e diarreia (leia mais aqui), eles foram levados ao Xingu, parque indígena idealizado pelos irmãos Villas Bôas. À primeira vista, os Panará estavam bem e saudáveis no Xingu. Mas um olhar mais apurado mostrou que saúde vai além da ausência de doenças, afirma o médico sanitarista Douglas Rodrigues, coordenador do Projeto Xingu e que acompanha as condições de saúde dos Panará e de outras etnias há mais de quatro décadas.

“Desde que chegaram ao Xingu, eu conversava com eles e ouvia a mesma coisa: ‘Aqui é ruim, aqui não tem castanha…’ Eu não entendia muito bem e temia que voltassem a pegar malária e tuberculose”, conta o médico, na sede do projeto, na zona sul de São Paulo, em uma sala com arte indígena e memórias registradas em aldeias Brasil afora. “No minuto em que eu pisei em Nãsepotiti, compreendi tudo. Para eles, não tem saúde sem território. Não é só curar doença – é viver bem. Envolve a família, as relações, os rituais, a terra.” Para provar que estavam certos em voltar, os Panará não paravam de levar comida a Douglas. “Um chegava e falava: ‘Já tinha comido batata-doce no Xingu? Lá não tinha!’. Logo vinha outro me dando açaí.”

O VIVER BEM DOS PANARÁ
Na terra original, os Panará habitavam uma área vasta. No Xingu, eles não podiam sair do limite do parque nem conseguiam colher os frutos e as castanhas com os quais estavam habituados. Também não dava para caçar e pescar como haviam aprendido. “Os Panará não sabiam pescar com anzóis e linha e desconheciam a construção e o manejo de canoas”, explica Douglas em sua tese de doutorado “Saúde e doença entre os Panará, Povo Indígena Amazônico de contato recente, 1975-2007”.

Longe da mata em que seus ancestrais cresceram, eles também perderam os remédios da floresta. E passaram anos sem pajés, já que os anciãos haviam sido mortos ou eram desvalorizados na tribo, por alguns os culparem pelos “feitiços” que quase os dizimou. “Ficar sem pajé é ruim porque isso os deixa à mercê da medicina dos brancos, que muitas vezes não é o ideal para eles”, diz Douglas. “No Xingu, os Panará tinham de recorrer a pajés de uma etnia diferente – outro cenário longe de ser adequado.”

Maria Fernanda Ribeiro/Believe.EarthImagem de uma jovem mulher indígena, com cabelos longos e negros, com franja, segurando um bebê indígena no colo. Ela olha para a câmera, sem sorrir. O bebê é gordinho, tem as bochechas pintadas de preto, e usa pulseiras com miçangas amarelas.

SABEDORIA ANCESTRAL
O retorno à terra resgatou a autonomia do povo e os levou de volta às suas tradições. Os anciãos fazem coro para reafirmar que é da terra boa para plantar, dos rios ricos em peixes e da mata abundante para a caça que vem a saúde dos Panará. E a fertilidade. A comunidade que retornou com 178 indígenas tem, duas décadas depois, mais de 600 pessoas. O número impressiona, já que o índice de mortalidade infantil indígena, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é mais que o dobro do que entre os não-indígenas. De acordo com o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), a mortalidade infantil indígena cresceu mais de 20% no país de 2015 para 2016.

Maria Fernanda Ribeiro/Believe.EarthUma menina indígena, usando vestido estampado colorido, segura uma espiga de milho com a mão direita, e a mostra para a câmera enquanto sorri. A outra mão segura uma espiga de milho perto de uma pequena fogueira. Ela está dentro de uma casa com paredes de palha, móveis simples de madeira (mesa, banco) e algumas pedras

Nãsepotiti tem um posto de saúde com remédios e médico e enfermeira ou técnico de enfermagem, que podem chamar resgate aéreo em casos graves. Mas a fórmula de saúde e bem-estar dos Panará engloba outros fatores. Enquanto amamenta a filha de poucos meses e chama atenção do filho que faz graça para a câmera, a jovem Tutiti revela um dos segredos do crescimento de seu povo: a alimentação das grávidas. “Nas duas vezes em que fiquei grávida, comia muito peixe pequeno, que são os que o cheiro é mais fraco e por isso não dão enjoo”, afirma. Para a parteira Kreenpy, as grávidas têm de comer muito mel e frutas nativas. “Lá no Xingu tinha pouca. Mas aqui, como a terra é boa, a roça dá muita coisa.”

Mariana Della Barba/Believe.EarthFoto tirada de cima onde aparecem várias espigas de milho em cima de um pano verde; ao lado, uma bacia com um ralador apoiado, onde aparece um pouco do milho já moído.

O médico Douglas Rodrigues diz ser importante respeitar e preservar os conhecimentos indígenas. “Quando eu vou até eles, ouço muito sobre se a caça rendeu, como foi a pesca, as condições do roçado”, diz. “Tenho atenção para não atropelar os cuidados tradicionais. Depressão, por exemplo, costuma ser muito bem equacionada pela medicina indígena, ao passo que a nossa usa psicotrópicos e nem sempre funciona adequadamente.”

André Villas Bôas/ISAImagem aérea de uma floresta muito fechada, onde há alguns espaços abertos onde aparecem plantações circulares

Para ele, é fundamental que os profissionais que trabalham com os Panará – ou outros povos – mantenham uma intervenção mínima. “Um passo além e você cria dependência, e isso tira a autonomia”, afirma. E, para os Panarás, autonomia vale mais que remédio.

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Último rinoceronte-branco do norte macho morre no Quênia.

Ver neste site:

http://www.pensarprimata.com.br/pensar-primata/rinoceronte-a-agonia-de-um-magnifico-fossil-vivo-na-extincao-em-massa-das-especies/

Do G1

O último rinoceronte-branco do norte macho morreu no Quênia aos 45 anos, anunciou a equipe responsável por sua segurança, o que deixa duas fêmeas como únicas sobreviventes da subespécie.

O rinoceronte, chamado Sudan, sofria havia muito tempo de complicações de saúde por sua idade avançada e, após um agravamento considerável de seu estado, “a equipe veterinária tomou a decisão de praticar a eutanásia”, informou em um comunicado a direção da reserva natural Ol Peteja, do Quênia, onde o animal vivia.

Quando Sudan nasceu em 1973, em Shambe, no Sudão do Sul, havia quase 700 exemplares vivos. Em tese, a morte de Sudan significa a extinção dessa subespécie de rinoceronte.

Os cientistas coletaram, porém, seu material genético e estão tentando desenvolver técnicas de fertilização in vitro para preservar a subespécie.

Uma espécie caçada

Sudan viveu os últimos anos de sua vida em uma reserva de 36.400 hectares no centro do Quênia, ao lado das duas rinocerontes fêmeas desta subespécie, protegido dos caçadores por guardas armados.

“Em Ol Pejeta estamos tristes com a morte do Sudan. Era um grande embaixador de sua espécie e será recordado porque serviu para alertar em nível global sobre a situação que os rinocerontes enfrentam, mas também as muitas milhares de outras espécies ameaçadas de extinção como resultado da insustentável atividade humana”, afirmou o diretor do Ol Pejeta, Richard Vigne.

Os rinocerontes têm poucos predadores na natureza por seu tamanho.

Mas a população de rinocerontes brancos do norte foi dizimada em Uganda, na República Centro-Africana, no Sudão e no Chade em consequência da caça dos anos 1970 e 1980, estimulada pela demanda de chifres de rinoceronte para a medicina tradicional chinesa na Ásia e para alças de punhal no Iêmen.

Uma última manada selvagem (20 a 30 rinocerontes) na República Democrática do Congo morreu nos combates registrados neste país no fim dos anos 1990.

Em 2008, o rinoceronte branco do norte foi considerado extinto em estado selvagem.

Os rinocerontes estão no planeta há 26 milhões de anos. Em meados do século 19, sua população era de quase um milhão na África. Em 2011, o rinoceronte negro ocidental foi considerado extinto.

Sudan evitou a morte em estado selvagem quando foi capturado no Sudão do Sul, ao lado de outros seis exemplares, e enviado na década de 1970 para o zoológico de Dvur Kralove na então Tchecoslováquia.

Este zoológico na região central da atual República Tcheca é o único lugar do mundo onde aconteceu uma reprodução em cativeiro.

Popular no Tinder

As últimas duas fêmeas desta subespécie ainda vivas em Ol Pejeta, Navin e Fatu, nasceram em Dvur Kralove.

O último nascimento, o de Fatu, aconteceu em 29 de junho de 2000.

Em 2009, quatro rinocerontes férteis, dois machos e duas fêmeas, foram transportados do zoológico de Dvur Kralove, na República Tcheca, para a reserva de Ol Pejeta no Quênia com a esperança de que as condições similares a seu hábitat natural permitissem a procriação.

Os especialistas tchecos e quenianos esperavam que o nível de hormônios das fêmeas retornasse ao normal em um hábitat natural.

As tentativas de procriação não deram resultado.

“Sudan teve uma vida excepcionalmente memorável”, afirmou o zoológico tcheco nesta terça-feira em um comunicado.

Sudan teve duas filhas quando estava no zoológico tcheco: Najin, 28 anos, e Fatu, 17.

“Foi um animal excepcional, incrivelmente gentil. Nunca manifestou nenhum sinal de agressividade, era muito obediente”, recordou o tratador em Dvur Kralove, Jan Zdarek.

Sudan ficou famoso em 2017 quando teve um perfil registrado no aplicativo de encontros Tinder, como parte de uma campanha para arrecadar recursos para desenvolver técnicas de fecundação in vitro para preservar espécies.

O zoológico tcheco informou que amostras foram retiradas na segunda-feira do material genético de Sudan.

O outro rinoceronte macho, Suni, morreu por causas naturais em outubro de 2014.

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Punir políticos, sem mudar cultura, não transforma, diz czar anticorrupção da Itália.

Conhecido na Itália como uma espécie de czar anticorrupção, o ex-procurador Raffaele Cantone diz que a punição a políticos envolvidos em corrupção não reduz a ocorrência do crime se não vier acompanhada de uma mudança na “mentalidade” da população.

Cantone atuou na investigação da violenta máfia Camorra que resultou na prisão perpétua dos maiores líderes desse clã: Francesco Schiavone e Francesco Bidognetti. O caso foi contado no famoso best-seller Gomorra, de Robero Saviano, que também virou filme.

Em entrevista à BBC Brasil, o ex-procurador afirmou que, enquanto eleitores considerarem que corrupção “não é problema deles”, investigações não terão efeito transformador na sociedade.

“Cito uma piada de Piercamillo Davigo (juiz italiano que atuou na Operação Mãos Limpas): ‘as investigações sobre a corrupção na Itália eliminaram os corruptos e os corruptores de menor alcance e deixaram em campo aqueles que eram realmente relevantes'”, explicou.

“Se o (ambiente) cultural é o mesmo de antes, não é suficiente. É necessário alterar as regras do jogo.”

Desde abril de 2014, Cantone é presidente da Autoridade Nacional Anticorrupção da Itália, órgão administrativo que supervisiona as medidas de prevenção à corrupção. Forçado a viver sob proteção policial desde 2003 por causa das ameaças de morte dos mafiosos, ele mora entre Roma e Nápoles.

Cantone defende que medidas efetivas de repressão e instrumentos “invasivos” de investigação sejam acompanhados de políticas educacionais voltadas a demonstrar para a população os efeitos nocivos da corrupção.

“O cidadão comum não está tão interessado na corrupção porque, no final das contas, não a considera um problema seu. (…) Se o cidadão não percebe o efeito negativo da corrupção, ele quase nunca considera a corrupção como uma real emergência”, avalia.

BBC Brasil – Qual é a sua leitura da politica brasileira e do Brasil, um país sujeito a frequentes casos de corrupção? Existe um sentimento comum de que os países latino-americanos sejam mais facilmente levados à corrupção?

Raffaele Cantone – A América Latina tem uma grande riqueza ainda para desenvolver, mas com uma significativa falta de know-how para desenvolvê-la, provocando, assim, um enorme apetite para quem quer obter essas riquezas sem respeitar as regras. (…) Na América Latina, vejo jovens democracias, grandes recursos e um forte desenvolvimento econômico que, juntos, criaram uma mistura explosiva.

Os países latinos da Europa, apesar de ter níveis mais elevados de corrupção do que a América do Norte, têm democracias mais maduras que permitem gerenciar um pouco melhor o problema.

BBC Brasil – O que funciona melhor nos países com baixos índices de corrupção?

Cantone – A sociedade civil. O único sistema que funciona realmente é aquele (que envolve) a sociedade civil. Por isso, reforço muito a ideia da transparência. Não se pode afirmar que as receitas utilizadas nos países do norte da Europa e América do Norte valem para todos os países. No entanto, são os exemplos de receitas que funcionaram.

BBC Brasil – Você identifica três níveis de ação contra a corrupção: repressão, prevenção e educação. Poderia explicá-los brevemente?

Cantone – A repressão deve ser capaz de funcionar com a trâmitação rápida dos processos até a sentença. A legislação deve estabelecer atenuantes a favor de colaboradores ou ferramentas de investigação invasivas, como o uso de escutas.

O condenado deve ser excluído do setor público e, acima de tudo, não poderá mais ser empresário. Isso já teria um efeito de prevenção. A condenação de uma corrupção que não elimina o condenado do meio em que estava inserido é inútil.

A prevenção, por outro lado, é exercida por mecanismos que dificultam a corrupção. Não há sistemas que impeçam a corrupção, mas sim que a tornam mais complicada. O terceiro ponto é o cultural. O cidadão não percebe o efeito negativo da corrupção. Ele quase nunca considera a corrupção como uma emergência real, porque a considera distante de seus interesses. A educação tem como função fazer emergir (essa preocupação) com a corrupção.

BBC Brasil – Para muitos analistas, o Brasil, com a Lava Jato, vive uma situação semelhante à da época da Operação Mãos Limpas, na Itália. Supondo que a eliminação da classe dominante política aconteça no Brasil, seria uma solução para o fenômeno da corrupção?

Cantone – Não, a experiência italiana nos diz o contrário. Cito uma piada de Piercamillo Davigo (juiz italiano que atuou na Operação Mãos Limpas): “As investigações sobre a corrupção na Itália tiveram um efeito darwiniano – simplesmente eliminaram os corruptos e os corruptores de menor alcance e deixaram em campo aqueles que eram realmente relevantes”.

As investigações a respeito de casos de corrupção podem facilitar a substituição de uma classe dirigente dominante, mas não mudam a mentalidade. Se o (ambiente) cultural é o mesmo de antes, não é suficiente. É necessário alterar as regras do jogo. A experiência italiana, nesse sentido, mostrou que, embora a Mãos Limpas tenha sido uma das maiores operações do mundo contra a corrupção, depois de um tempo as pessoas perceberam que nada tinha mudado.

BBC Brasil – A Lava Jato aproveitou-se de muitas delações premiadas, com descontos substanciais de penas. Quais são os limites das colaborações com a Justiça?

Cantone – Acredito que este seja um resultado inevitável. A redução do tempo de cadeia é o mal menor. A descoberta da corrupção só surge por meio desses mecanismos (de colaboração), porque, por sua natureza, não há conflito de interesses que possa tornar esse crime público. Isso não deve ser visto com um escândalo, e acho que é uma coisa boa. A atenuação da condenação não diminui todos os seus efeitos. O condenado pode ter uma redução e não ir para a prisão, mas certamente não permanecerá na administração pública.

A corrupção é baseada na omertà (o silencio cúmplice típico da máfia). Se não criarmos uma vantagem para quem optar por colaborar, enviamos a mensagem ao corrupto de que vale a pena tentar. Como ganhamos da máfia na Italia? Pelo sistema de colaborações, porque, na máfia, também havia um importante efeito psicológico. Os criminosos passaram a não se sentir mais invencíveis. É uma escolha utilitária, mas fundamental.

BBC Brasil – Um dos grandes escândalos no Brasil começou com a estatal Petrobras. Como lidar com as interferências dos partidos nas empresas estatais?

Cantone – Em primeiro lugar, reduzindo as empresas estatais. Não deram certo em nenhum aspecto e têm sido fonte de problemas em todos os lugares. A única alternativa é trabalhar com transparência orçamentária. O dinheiro sempre deixa vestígios. Faz sentido que o sistema de petróleo seja gerenciado pelo público? Eu penso que não. O Estado deve manter o monopólio da extração, mas a comercialização do petróleo tem o que de público? É uma atividade privada por excelência.

BBC Brasil - Como o senhor vê o fato de Lula, investigado e condenado em uma das ações, estar à frente nas pesquisas para as próximas eleições presidenciais?

Cantone – Externamente, a impressão que tenho é de que Lula se tornou um mito em todos os lugares. Lula também é um mito para a esquerda italiana. Certamente, ele conseguiu criar algumas novidades na sociedade brasileira. Ele deu a impressão de que o Brasil poderia sentar-se à mesa com as maiores potências do mundo e lançou mecanismos de justiça social em um país onde a justiça social não era muito presente.

E tudo isso, no entanto, depende do que eu disse antes: o cidadão comum não está tão interessado na corrupção porque, no final das contas, não a considera um problema seu. Quanto a Lula, se interessam mais pelos dados relativos a sua política e menos por aqueles relativos a sua ética. Não sei se a explicação pode ser o fato de que os políticos, uma vez que atingem o topo, perdem a noção do que pode ser feito e do que não pode ser feito.

BBC Brasil – O poder corrompe?

Cantone – Tenho receio de que um poder com regras não muito claras seja um poder que corre o risco de ser corrompido, mas não quero dar a impressão de que as regras tenham efeitos taumatúrgicos (de cura). Mas insisto no fato de que são elas, as regras, que determinam os mecanismos.

Na parábola de Lula, quando sua história for escrita, haverá o paradigma do poder que consegue corromper a pessoa que parecia menos corrompível. Isso, é claro, é um fato que nos faz refletir sociologicamente: quando você está em contato com negócios incomensuráveis, em que as suas escolhas são capazes de enriquecer alguém com somas estratosféricas, talvez você pense que reformar a casa seja uma coisa irrelevante, ou a compra de um imóvel seja algo pequeno. O risco é perder contato com a realidade.

BBC Brasil – O que mais favorece a corrupção: a continuidade de um governo ou a instabilidade política?

Cantone – O excesso de continuidade no poder tende a favorecer a corrupção. Na Suécia, porém, os social-democratas estão no poder há muitos anos, mas não há corrupção. Então, eu diria que essas regras não são válidas em todos os lugares. O verdadeiro ponto da questão é o controle dos cidadãos, que devem ser exigentes quanto a isso.

Deixe os índios isolados viverem!

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Produção agrícola na Amazônia

Concentração de CO2 na atmosfera é a maior em 800 mil anos, diz IPCC

Relatório afirma que temperatura média da Terra sobe 1,5ºC até o final do século

Andrei Netto, enviado especial, O Estado de S. Paulo

27 Setembro 2013 | 05h01

ESTOCOLMO – A concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera da Terra é a maior em pelo menos 800 mil anos. A advertência sobre o grau de contaminação pelo principal gás causador do efeito estufa foi divulgada no começo da manhã desta sexta-feira pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), o grupo de experts das Nações Unidas reunido em Estocolmo, na Suécia. Após uma madrugada de trabalhos, os especialistas decidiram advertir mais uma vez, agora com 95% de certeza, para a responsabilidade do homem no aquecimento global, no derretimento de geleiras, no aumento do nível dos oceanos e nos eventos climáticos extremos.

Foram necessários cinco dias de diálogos para que os representantes da comunidade científica e de governos encerrassem, na manhã de hoje, a nova edição de seu relatório sobre o estado do planeta – o quinto desde 1990.

“O aquecimento do sistema climático é inequívoco, e desde os anos 1950, muitas das mudanças observadas não têm precedentes em décadas ao milênio. A atmosfera e o oceano aqueceram, a quantidade de neve e gelo diminuiu, o nível do mar subiu e as concentrações de gases de efeito estufa aumentaram”, sintetiza o relatório.

De acordo com o documento de 36 páginas voltado para formuladores de políticas apresentado hoje por experts e delegados governamentais, a concentração de CO2 na atmosfera aumentou 40% desde a era pré-industrial em razão das emissões oriundas da queima de combustíveis fósseis. Deste total, 30% foram absorvidos no período pelos oceanos, que por essa razão se tornaram mais ácidos e menos capazes de regular o clima.

Como efeito, a temperatura média da Terra vem se elevando – já subiu 0,85°C entre 1880 e 2012 – e vai atingir no mínimo mais 1,5ºC até o final do século em relação à média diagnosticada entre 1850 e 1900. E esse será o melhor dos cenários, advertiu Thomas Stocker, um dos coordenadores do relatório sobre as bases físicas das mudanças climáticas. “Ela provavelmente vai subir 2ºC nos dois piores cenários”, advertiu. “Ondas de calor muito provavelmente ocorrerão com mais frequência e durarão mais tempo. Com o aquecimento da Terra, nós esperamos que regiões úmidas recebam ainda mais chuva, e regiões secas ainda menos.”

O IPCC também decidiu manter o ponto mais polêmico do relatório, que fazia menção à suposta “desaceleração” do aquecimento entre os anos de 1998 e 2012. O tema foi alvo de cientistas, políticos e jornalistas negacionistas nas últimas duas semanas, que usaram a constatação do painel para atacar sua suposta incoerência.

Depois das negociações, o artigo que fazia referência ao assunto foi modificado, incluindo ponderações para a irrelevância científica de projeções de curto prazo e sobre a ocorrência de El Niño, o fenômeno que resulta no aquecimento das águas do Oceano Pacífico.

“Além do robusto aquecimento de várias décadas, a média global de temperatura na superfície exibe uma variação substancial interanual e a cada cinco décadas. Em razão da variação natural, tendências baseadas em apenas seis registros são muito sensíveis às datas de início e fim e em geral não refletem tendências de longo termo”, diz o texto final, que exemplifica: “A taxa de aquecimento dos últimos 15 anos (1998-2012, de 0,05ºC por década), que começa com um forte El Niño, é menor do que a taxa calculada desde 1995 (1951-2012, de 0,12ºC por década).

O texto explica ainda que, se a sequência de 15 anos for medida a partir de 1995, 1996 ou 1997, o aumento da temperatura média da Terra no período seria de 0,13ºC, 0,14ºC e 0,07ºC por década, respectivamente.

Um dos destaques do primeiro dos quatro relatórios do IPCC a serem divulgados entre 2013 e 2014, segundo experts do painel ouvidos pelo Estado ao longo da semana, é a precisão e o tecnicismo do texto – uma resposta às críticas por erros pontuais encontrados no relatório de 2009.

Com temperaturas mais elevadas, o derretimento de geleiras nunca foi tão intenso. Entre 1979 e 2012, o Ártico perdeu entre 3,5% e 4,1% de sua área a cada década. Os mantos de gelo da Groenlândia e da Antártida tiveram uma perda significativa de massa e encolheram entre 1992 e 2001. No mar da Antártida, por outro lado, houve um pequeno aumento do gelo, de 1,2% a 1,8% por década no mesmo período. As projeções indicam que em 2100, entre 15% e 85% das geleiras e extensões de neve da Terra terão desaparecido, considerados o melhor e o pior dos cenários.

Se o planeta aquece e parte das geleiras desaparece, maior se torna o nível dos oceanos. Entre 1901 e 2010 eles já subiram 19 centímetros e a previsão é de que aumentem entre 26 e 82 centímetros até 2100.